sábado, 24 de setembro de 2016

O quis assim o Destino



Quis o destino -
quem será o destino?
- que assim o fosse.

O destino o quis assim.

Destino, quem sois?

Quem dera o soubéssemos. Quem dera o entendêssemos.
Para o bem ou para o
mal,
assim o era.

Pois o destino possui razões que o próprio destino
desconhece. Desrazões ainda piores.

Ou maiores.

Eu cri, aprendi, soube, ri.
Chorei, perdi, cresci, arrependi.
Mudei, fiz, li, enterneci.
Briguei, pacifiquei,
o futuro vislumbrei:
lutei pelo que vi.

Dispus-me a.

Dizei-me, agora, vós
o quê
em
troca
recebi.

Dizei-me, ó
destino,
indecifrável enigma profundo,
a recompensa
da perseverança.

Dizei!

Pois o futuro
não nos lê,
e nos crê ainda
menos.

Dizei, ó sacripantas -
tu mesmo, destino ausente -
que sofrimento insistente
me deste por suportar

Que glórias divinas -
mentiras! -
prometeste-me

Destino, cruel
tu és,
como a gigantesca onda
destroçando o convés
do barco de minh'alma,
que se afoga sob meus
pés

Dizei,
sob a cruz emoldurada,
tudo o que sabeis!

Dizei,
sob juramento bíblico,
o que não sei!

Dizei,
entre a luz dos holofotes,
o que pensei!

Admiti,
se porventura
nosso acordo quebrei.

Mas dizei
o que precisas. É o que,
pois,
necessito para
viver.

Se o vinho o sangue representa,
se o trigo, o corpo transfigura,
dá-me o que minha sede alenta,
embriaga-me do mal de vossa usura.

Dizei, contudo, o que preciso,
pois desta forma viver não aguento.
Sejais, porém, breve e conciso,
para do mal livrar-me bem com teu uguento.




terça-feira, 26 de julho de 2016

Melancolia



Estou de férias

Estar é um verbo muito amplo.

Gosto de estar.

O horizonte se abre quando se está.

Estou. E ponto.

E tudo o mais vive na formatação dos parágrafos.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

COMO PERDER A SI MESMO EM 7 ATOS*


I - A Felicidade Inebriante ou A Vontade de Não-Ser

Nas horas escuras de dúvida e temor e desejo de viver
Insurge-se contra mim e me atropela
A vontade de não-ser
Das profundezas mais sombrias e execradas do meu pensamento surge ela,
fingindo não-ser para ficar
Forçando-me contra meu abismo e sucumbindo-me às suas vontades
A vontade de não-ser toma conta de mim e me governa
Abusa do meu corpo e do meu cérebro obtém o que quer e quando quer
Os fins justificam seus meios sem meio-termo,
nem devaneios e sem ao menos ligar para as conseqüências
O ápice da vontade de não-ser inebria de uma forma o meu ser que,
por estar vivo no outro dia posso considerar-me um vitorioso
Triste, porém, é saber por vozes do além o que a vontade de não-ser provocou em mais alguém



II - Um Sentido Escondido

Assim como sucumbo à vontade de não-ser sucumbo também à dúvida que me dilacera atrás de respostas e de defesas para meu corpo a memória castigada em sua via-crúcis semanal é pouco mais que nada: é uma pegada na lama enquanto chove é uma gota de água na imensidão do mar as escoriações, os odores, as sujeiras e as dores são parcos indícios de coisa alguma as falas confusas, flashes de cenas que bem poderiam ser de um filme, ou de um sonho, mais me atormentam que me acalmam e a angústia de não ser ninguém me abraça e me acolhe com seu calor, seu aconchego e suas canções de ninar

III - Um Motivo Qualquer

Tudo começa na hora do sonho que me excita pensamentos e imagens
Pessoas e lugares desfilam em meu córtex e,
violento e semi-adormecido, aceito dos delírios as provocações sem pestanejar
Ou então não é num sonho, é num convite, numa pergunta e perdido e sem opção me atiro de cabeça na ignomínia desenfreada e sem volta sem pensar
Ou então é só, enquanto eu, pusilânime, me deleito na minha necessidade e no meu vício de solidão que me impelem a ser quem não sou sem questionar
Pode ser um sonho acordado enquanto olho o horizonte fundo,
do outro lado e aceito distanciar-me de mim sem piscar
Ou são apenas desculpas para eu não precisar admitir minha covardia perante a vida.

IV - Um Estímulo Podre e Desleal

Uma vez fora de mim qualquer bobagem torna-se grandiosa e qualquer olhar transfigura-se em amor qualquer mulher em amante qualquer sussurro, um convite
E quanto mais me suicido, mais me maldigo por dentro e, concomitantemente, mais ódio e raiva transbordam de mim e me estimulam a mudar-me, ainda mais, a personalidade
No final todos são procazes (inclusive o mais santo) e todos suscetíveis a opróbrios tão voláteis quanto meu humor e tão vazios quanto eu

V - O Desespero Pós-Felicidade

O ato de acordar talvez seja o mais amargo e acre depois da felicidade inócua
Perdido e sem ação, lamento e retorço as memórias e o corpo numa vã tentativa de retroagir e, sem sucesso, resigno-me e sofro, enfim, o castigo que mereço
Meus fantasmas, sarcásticos, não perdoam nem mesmo meu estado de inação e fraqueza
Meus fantasmas e minhas sombras me subjugam e me desequilibram impiedosos
Meu ódio é inversamente proporcional ao meu conhecimento e às minhas conclusões
Mesmo nosso julgamento das coisas não tem valor quando não se tem noção do que se perde e do que se é

VI - A Angústia Premeditada

Na montanha e na caverna de meu desespero os corvos,
os abutres e os urubus devoram a carne pútrida da minha felicidade
Morreu em êxtase: ébria e dormitante
Morreu desgostosa: só e iludida
Morreu.
Em seu lugar nasceu uma angústia melancólica e sufocante cujo sabor eu já sentira outrora
Senti-me repetindo uma mesma vida
Revivendo meu início, rebobinando e reiniciando a mesma fita
Senti-me pedante como todas as redundâncias
Senti-me enjoado como todas as repetições
Senti-me tonto como tudo o que gira e não consegue parar
E preso à essa angústia renasci igual e tão fútil quanto antes
Todas as vidas que vivi e que vivo têm o mesmo gosto insosso e a mesma cor amarelada
Todos os dias em que me vejo no espelho enxergo uma caveira que acena e ri-se de mim
Corro para longe e, à medida que me afasto,
aproximo-me mais do que tanto fujo e do que tanto temo: A minha verdade
O único modo de não encontrá-la é esconder-me e, abraçado à angústia, fingir não ser para ficar Viver outras vidas, mas ficar.

VII - O Fim do Ser Enquanto Dono de Si Mesmo

O que hei de chamar minha vida?
Eu?
O que vivo?
Minhas lembranças?
O que penso?
O que hei de chamar minha vida?
E o que hei de chamar eu mesmo?
Quem há de saber minha verdade, a não ser a própria verdade?
Estou desenganado.
Já desisti de ser eu mesmo.
Não me reconheço em meus atos nem em minhas palavras.
Muito menos no espelho
O espelho da caveira claudicante deve representar os meus não-seres,
os meus refúgios da verdade, mas não pode representar a mim!
Nego-me a aceitá-la como meu reflexo, ainda que verdadeiro!
Antes renegar o verdadeiro eu e tornar-me outro,
ou sublimar-me no ar, a aceitar minha decadência e viver sem vida
como um inseto ou poeira e perecer destruído mas com o orgulho de ser eu mesmo!
Antes não ter de aceitar minha alma - ou o que dela resta - de volta,
e perder meu espírito,
e sentir-me nu por dentro,
a regozijar-me por morrer em pedaços mas com a alma intacta!
Antes uma não-vida em um não-lugar a uma vida que não se percebe,
num lugar que não se sente!
Agora que a vontade de não-ser se apodera dos meus últimos pensamentos
deveras aproveitáveis e das minhas últimas verdades e suspiros,
digo adeus à vida e a Deus.
Agora não sou mais eu,
nem o intermédio: sou o outro.
Um outro que não sabe quem é,
nem porque é.
Mas vive.
Desalentado e indiferente a tudo,
mas vive.

* Texto escrito por mim mesmo, no já distante 22/01/2003, com 21 anos: estudante, desempregado e sem perspectivas num breve futuro. Mal sabia eu o que aconteceria em poucos meses... É interessante ver como eu pensava àquela época. Minha evolução (ou involução, dependendo do ponto de vista). Fica o registro da péssima escrita do início do século, que deu origem à péssima escrita atual.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O retorno dos que não foram

Fui.
Mas cá estive
Todo este tempo.
Fugi.
Pra longe,
Muito longe
Deste meu vento.
Escapei.
Das garras
Funestas
Do eu.
E aqui,
Nas amarras
Indigestas
Estou
A questionar,
Na marra,
Os limites
Do tempo

Le poesie - Amelia Rosselli


Faccia nell'erba odori quel poco
che c'è da odorare. Sei stanco
vuoi dormire, ma non puoi. Le
rocce frastagliate prendono pose
sardoniche.

La morte è nell'aria, ti sfugge
solo per un poco. Quando torni
in pensione ti metti in ginocchio.

O vorresti. Ma non puoi.

Amelia Rosselli, p 421: Le Poesie


Face na grama cheiras o pouco
a ser cheirado. Estás cansado
queres dormir, mas não podes. As
rochas irregulares fazem poses
sardônicas.

A morte está no ar, te escapas
por um triz. Quando te
aposentas te colocas de joelhos.

Ou querias. Mas não podes.

domingo, 30 de agosto de 2015

Documentário Charles Bukowski - Born into this


Pra quem gosta dos textos do velho Buk, documentário essencial. Vários vídeos com entrevistas com o próprio Bukowski e relatos de amigos e colegas. Dá pra ver melhor quem foi o velho safado.

Eis algumas frases tiradas dali:


You have my soul and I have your money
(Vocês têm a minha alma e eu tenho o seu dinheiro - dito para uma plateia durante leitura de poemas)

When I write I am the hero of my shit
(Quando escrevo sou o herói das minhas merdas)

Sex is something you do when you cant sleep
(Sexo é algo que você faz quando não consegue dormir)

Love is a fog that (dissipates) first daylight of reality
(O amor é uma neblina que se dissipa aos primeiros raios de realidade)

Love is a dog from hell
(O amor é um cão do inferno)


domingo, 23 de agosto de 2015

COME ON IN!


welcome to my wormy hell.
the music grinds off-key.
fish eyes watch from the wall.
this is where the last happy shot was
fired.
the mind snaps closed
like a mind snapping
closed.
we need to discover a new will and a new
way.
we're stuck here now
listening to the laughter of the
gods.
my temples ache with the fact of
the facts.
I get up, move about, scratch
myself.
I'm a pawn.
I am a hungry prayer.
my wormy hell welcomes you.
hello. hello there. come in, come on in!
plenty of room here for us all,
sucker.
we can only blame ourselves so
come sit with me in the dark.
it's half past
nowhere
everywhere.


CHARLES BUKOWSKI

terça-feira, 21 de outubro de 2014

ESTAR


As mãos tremem,
o cansaço é mais
que físico.

Aliás, o cansaço
físico é o melhor
dos cansaços,
pois sabe-se a causa
direta,
suas consequências,
e como tratá-lo.

O cansaço psíquico,
mental,
é o verdadeiro
cansaço,
é a ruína de uma
pessoa,
são os nervos
à flor da pele,
e o estresse,
o caos do mundo,
na mente
de um vagabundo.

Perde-se a noção,
perde-se o norte,
e todos mais
dos pontos cardeais.

Não quero a vida
como um peso
a se carregar.

Não quero a vida
como uma
eterna luta.

Não quero uma
luta eterna
em meus parcos
dias.

Quero somente a paz,
a tranquilidade,
a magia de nada querer,
o ócio alegre de estar,
apenas estar,
sem precisar
exigir
nem ser
exigido.

Estar.

Não importa
onde
nem importa
quando.

Quero estar
sem metas,
estar sem
ter que
matar
clientes
diários.

O sol, sob o
aspecto do
estar,
é não mais
que um brilho
eterno
em um retrato
de Van Gogh.

O brilho eterno
é aquilo
que nos dá
motivação,
que nos atrai,
que nos quer
sem contudo
nos atrapalhar
com suas mãos
cheias de dedos
e seus dedos
cheios de dados,
calendários cheios
de datas,
verdades
cheias de mim.

Estou cheio das
verdades
alheias
e perenes
e fatais,
quero só
a mente,
somente.

No ar
No ar
No vento
ser o
que
não se
sabe
como
é.

Sou.
Somente sou
no
estar
aqui.

Se aqui
é a
verdade,
que seja
a obviedade
do não
o
remédio
para o caos
do mundo
em mim.

Que o não
seja o
meio,
para o
fim
glorioso
do
talvez.

Estar é
o que se
quer.

Entre,
abra a porta, pois
entre
as portas
há um vazio, um
vão,
por onde
vão
nossas dúvidas.

estar ou não
estar:
eis a questão.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Olha como sorriem na foto...

Não tenho muito a dizer sobre esta eleição. Não conheço a fundo Marina Silva: li seu programa de governo e tenho simpatia em algumas ideias, esperança em outras, resumindo, porém, não concordo 100% com o que diz.

Mas, por outro lado, conheço o PT e o PSDB. E o que se sabe é que a alternância no poder torna a democracia mais saudável, ou pelo menos é o que acreditamos e desejamos.

Certezas: nesses 24 anos de democracia mais recente tivemos o falecido PRN (Collor); Itamar (vice do Collor, que segundo minha modesta opinião não deveria ter assumido. Se o presidente sofre impeachment, da mesma forma deveria o vice); PSDB (FHC, por 8 anos); PT (Lula, mais 8 anos) e mais PT (Dilma). Isso sem falar do Sarney, que está por aí desde antes do golpe militar, e sempre nas cabeças. É muito pouco para um país que se quer democrático, e muita concentração de poder. 


Dúvidas: Não sei o quanto Marina vai conseguir mudar, isso se ela realmente o quiser. Não sei até onde a aliança com o partido de Campos vai, e se isso pode minar seu hipotético governo a partir do momento em que se começar a fatiar o governo em cargos para aliado. Não sei também, como ficará o congresso e se essa aliança de partidos nanicos terá algum poder de fogo ao legislar. Se não tiver, ou Marina terá que se abrir (leia-se cargos) aos inimigos da eleição (PT, PSDB e agregados) ou...

A Pior das hipóteses: Marina, durante 4 anos (ou 5, como ela quer, se conseguir aprovar a nova lei eleitoral), isolada, sem maioria na Câmara ou no Senado, recebendo seu salarinho sem conseguir aprovar nada.

A pergunta é: queremos tudo isso de novo? Mudar é sempre arriscado, mas repetir o erro não é algo motivador. Sei que, caso eu decida mesmo votar em Marina Silva, ou qualquer que seja o candidato, votarei também em seus confrades para o legislativo, para que não pereçam no limbo do imobilismo 
político. Amém
 

Chega-se ao ponto fatídico da questão: o presidencialismo, principalmente no Brasil, não funciona. Sempre fui adepto à República Parlamentarista, com um presidente como chefe de estado e um primeiro-ministro como chefe de governo, este último com a condição sine qua non de deter a maioria no congresso, sob pena de perder o cargo e gerar, automaticamente, novas eleições (para não penalizar, desta forma, o povo, os eleitores, que ficariam com um líder inerte por 4 anos, como ocorre aqui no país tropical).

Mas talvez ainda não estejamos preparados para tudo isso. Melhor nos acomodarmos e deixar tudo como está, não é mesmo?

Reflitamos sobre isso, pois pois...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Da chuva e da morte

A chuva é sempre uma imagem poética que dá audiência. Batida e rebatida, todos a usam e sempre funciona. Assim como entes etéreos e eternos como o tempo, o vento, a vida, a morte, o nada, e etc etc e etc e talz.

Chuva é sinônimo de Joinville. Há mais de dois anos descobri esta definição que não se encontra nos melhores dicionários. A morte porém ronda. E muito embora as metáforas sejam boas e quase sempre definitivas, quando a morte deixa de sê-la (uma metáfora), torna-se um peso.

Uma das metáforas da chuva é o choro. Chover é o mundo que chora. Alguém que chove por dentro, chora, copiosamente. A união de elementos eternos, a morte e a chuva. São tristes. Literariamente eficazes. Humanamente insuportáveis. Céu e inferno, dois lados da mesma moeda.

Desde 2008, vejo a morte de perto. E a cada morte, um pouco de mim também morre. A intolerância, embora ainda de tamanhos incomensuráveis, diminui. É a vida a preparar-nos ao nosso fim. Ashes to ashes. Até lá estaremos acostumados.

Sempre relutei em admitir, mas a morte me fez escrever a coisa mais linda que realizei na minha vida, mas que se perdeu nesta labirinto chamado internet. Era um texto sobre a morte de meu avô e do nascimento de meu sobrinho, quase concomitantes. Espero um dia reencontrá-lo.

Foi triste demais escrever este texto. Lembro de ter chorado um monte após terminá-lo, e parece que a tristeza ali descrita e escancarada abarca todas as mortes posteriores que vivi. Presenciei mortes que em mim tiveram impacto semelhante a esta primeira, mas que por descaminhos incompreensíveis, não originaram nenhum texto.

A morte é uma merda. Um ser (um ser?) desprezível. Sou sempre um dos primeiros a questionar a morte, ou qualquer outra verdade eterna. Mas sem provas irrefuáveis, temos que admitir: ela existe. E fede pra caralho.

Minha esperança não é, como pensam, a imortalidade. Deixo isso para os tolos. Não penso, nem mesmo, na ubiquidade. A onisciência, para mim, é uma ostentação supérflua.

Quero somente, antes de minha morte, reecontrar o texto que escrevi. É a minha essência. Aquilo sou eu.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Jogatina


Olhando de frente, vê-se dois prédios, um muito próximo ao outro. Vê-se que o da direita é mais antigo que o da esquerda e este, por sua vez, um pouco mais baixo que o primeiro.

A proximidade entre os dois prédios causa fenômenos no mínimo intrigantes. graças a isto, os apartamentos de baixo do prédio da direita não recebem nem um pingo de sol durante o dia (talvez algumas gotas com o sol a pino). E, por coincidência do destino ou por mera sacanagem do pedreiro, os apartamentos de ambos os prédios encaram-se frente a frente, sacada a sacada, janela a janela, na mesma altura. Se existir um voyeur entre os vizinhos, é o local indicado para bisbilhotagem anônima. A rotina escancarada elevada à última potência.

É ali onde eu, Zaratustra, habito. A minha caverna atual.

Recentemente mudou-se uma velhinha para o apartamento que fica em frente ao meu. Muito me fazem falta os antigos inquilinos, pois descobri que era dali que vinha o sinal wi-fi que eu emprestei por muitos meses. Infelizmente descobri somente quando sumiram.

Após alguns meses desocupado, mudou-se uma velha para o referido apê. Provavelmente não pode ou não gosta de pegar sol. Assiste pouca TV, e fuma bastante na sacada. Mas não vi nada disso. Quem me contou foi o voyeur do apê de cima.

Dias desses, distraído acabei por observar o apê da velhinha: ao redor de uma mesa redonda forrada com veludo verde, 4 ou 5 outras idosas, cada uma com muitas cartas em cada mão, sérias, numa jogatina ferrenha que deveria valer o ingresso para o baile da feliz idade. Não identifiquei o jogo, mas a coisa era séria, pois vi à tarde, saí de casa e voltei à noite e ainda estavam ali.

Não parece ser pôquer, ao menos não vejo fichas. Se fosse eu ia entrar na roda pra rapar a mesa das anciãs. Deve ser canastra ou pif. Sabe lá.

Seguidamente se reúnem, mas creio que ultimamente a coisa tem sido mais frequente. Anteontem ali estava, hoje também. Não me surpreenderia se estivessem há três dias seguidos ali, estáticas, uma tentando arrancar das outras a casa, o carro perdido na rodada anterior. Ou o ingresso pro camarote no baile de sexta à tarde.

Enquanto o mundo gira, a vida segue e outra rodada recomeça. O eterno retorno dos ases. Nesse momento porém uma percebeu que estou olhando... melhor disfarçar. Sob meus óculos escuros, às 23h, ninguém deve perceber que as observo.

Ela avisou as outras. Todas me encaram agora, com olhares ameaçadores. Mas velhinhas com olhares ameaçadores são sempre engraçadas, e me escapa uma risada. Agora mexem na bolsa. Devem procurar um guarda-chuva pra jogar em mim. Eu rio enquanto faço gestos imitando um jogo de cartas e abro mais uma cerveja.

Quando olho novamente, três armas na sacada apontando pra mim, a raiva pulsa em seus olhos. Meu último desejo?

Que a cerveja estivesse gelada.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A invenção da ubiquidade



Em fevereiro de 1999 tive a satisfação de poder assistir a uma semana literária ocorrida em Buenos Aires e dedicada ao centenário do nascimento do escritor argentino Jorge Luis Borges. De todos os eventos, o que mais me agradou foi a fala do parceiro e amigo de Borges, o escritor Adolfo Bioy Casares.

Durante uma de suas intervenções, em um debate sobre o livro O Aleph (que por coincidência calculada pelo próprio autor – ou por uma sutil ironia do destino – completava cinquenta anos de lançamento naquele mesmo ano), o escritor pôs-se a relatar um fato ocorrido em sua juventude na década de 30, poucos anos após ter sido apresentado a Borges . 
 
Ainda que com uma inevitável infidelidade vocabulária e linguística (graças à língua de origem, o espanhol, e aos anos que já se passaram desde então), reproduzo, na mais sincera e imparcial fidedignidade, possível o relato de Bioy Casares. Ei-lo:

“É a primeira vez que conto este episódio a alguém. Nem mesmo minha falecida esposa, Silvina, jamais soube do acontecido.

Após uma noite de divertimento entre vinhos e algumas garotas, no meio da madrugada encontramo-nos a sós em um bosque. Estávamos eu, Borges e alguns amigos jornalistas e escritores, caminhando, conversando e rindo de nossas histórias patéticas, certamente já ébrios, quando sentimos uma garoa fina e breve. Em nosso estado não nos foi possível perceber, num primeiro momento, nada de estranho ao redor.

Seguimos até sentirmos novamente a mesma garoa, vinda após o ruído de algo sendo atirado em um lago, como um peixe ou uma pedra. Apesar de estarmos longe da cidade, nas redondezas não existia curso d'água algum. Demos, por fim, de ombros e caminhamos por mais uns dez minutos, talvez, até sentirmos de novo a garoa, subitamente após o estalo d'água. Paramos, olhando-nos intrigados. Mais um estampido e eu e Borges notamos uma gota que caía e, em frente aos nossos olhos, diminuía de velocidade, retomando em seguida seu movimento elíptico para cima.

'Estou vendo coisas', pensei. Poderia ser a ressaca, o delírio. Mas não. Era a realidade. E as gotas, também reais, respingavam em nós vindas de cima, ignorando o que chamava-se até então de força gravitacional. Eu estava perplexo, assim como todos os outros colegas ali presentes, mas Borges sorria. Parecia saber do que se tratava.

Ao olharmos para cima, vimos o inacreditável: havia um lago sobre nós, de onde os peixes pulavam e, após suas aterrissagens – de ponta cabeça – as gotas saltitavam em nossas faces descrentes. Foi quando nos demos por conta: estávamos em um ponto onde podíamos interagir com inúmeros locais concomitantes, complementares, simultâneos e, ao mesmo tempo, absurdos e inverossímeis. 
 
Devo adverti-los que o absurdo e a inverossimilhança destas paisagens se resumiam no fato da impossibilidade delas coexistirem daquele modo, dentro do que conhecemos como mundo, e do que supomos seja a realidade (seguindo as 'leis' que aceitamos, durante a existência humana, como regentes do universo). Naquele exato instante, contudo, aquelas paisagens eram tão naturais e críveis como qualquer estímulo visual cotidiano.

Podiámos vê-las e tocá-las, mas não nos era possível crer em nossos sentidos. Tudo se completava e se desmentia diante de nossos olhos incrédulos. Borges conhecia aquele lugar, e ali nos trouxera, sorrateiramente. Ele sorriu, sugerindo uma condescendência amistosa e cúmplice com nossa ignorância.

Após este dia, nunca nenhum dos presentes retomou este assunto. Era como um segredo compartilhado apenas com olhares que, caso revelado, seria certamente tomado por uma alucinação coletiva. Embora repleto de testemunhas, jamais poderia ser levado a sério. Tentei algumas vezes voltar ao local, mas nunca reencontrei o caminho. Eu era apenas um jovem, nos meu vinte e poucos anos, e minha memória relembra o episódio como uma invenção fantástica, um sonho, uma paisagem surreal criada pela minha cabeça, inalcançável, ininteligível. Mas, apesar de tudo, ainda palpável.
Em 1949, uma década depois e no mesmo ano em que completou cinquenta anos de idade, Borges lançou seu famoso livro de contos O Aleph. Algumas coisas então começaram a se explicar.”

Findo o relato, os presentes estavam estupefatos. Não acreditavam no que acabavam de ouvir, mas o modo como foi contado fora tão eficiente que chegou a convencê-los do contrário.

A amizade entre os dois grandes escritores é sabida, mas a origem do Aleph continua um mistério.
No prólogo para a edição inglesa de 1970, Borges define este “objeto” assim: “o que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço”. No conto, o narrador o descreve como uma esfera de mais ou menos três centímetros. Por outro lado, a fala de Bioy Casares menciona paisagens concomitantes e, ainda por cima, palpáveis. Qual das versões torna-se mais convincente? 
 
Tomando como premissa que o local descrito exista mesmo e tenha inspirado Borges, é nítida sua intervenção literária ao transformá-lo em uma esfera: um objeto sem início e sem fim que simboliza, de modo esteticamente perfeito, assuntos caros à sua obra, como o infinito, o absurdo, o fantástico.
E Bioy Casares, teria querido brincar com o misticismo em torno do célebre conto? Nunca saberemos o que realmente se passou: se a verdade, uma invenção, uma brincadeira ou se foi apenas mais um jogo literário de dois mestres, que viam a realidade como apenas mais um dentre vários gêneros literários.

Bioy Casares relatou esta história, pela primeira e única vez, em fevereiro de 1999. Em oito de março do mesmo ano, veio a falecer. Eu, contudo, nunca estive em Buenos Aires. Mas pude presenciar seu belo discurso. Apesar do tempo que passou desde então, lembro-me como suas palavras soaram verdadeiras, e provavelmente o eram. Não me recordo, contudo, se eu estava diante de uma esfera ou de infinitas paisagens. A emoção do momento abarcou minhas lembranças. Mas posso dizer, sem a menor sombra de dúvida, que eu tinha o universo diante de mim.


(Imagem: Jacek Yerka - "Krysia's Garden")

domingo, 29 de setembro de 2013

Delírio


Eram seres
de sons estranhos
de vidas tortas
lugar algum

Parecia
mas não era um sonho
era um delírio
do cão bebum

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

The rush of the red dust - An ode to the toxic smoke

When I take off my glasses
the world seem to rest
my head
oh yeah
my heavy head
becomes lighter
and starts to fly

Long and long and long
live
life
leave
me
leaf
leaves
liver
long
live
Liv...

And I'll be there
to catch you,
baby

The world and the dust
that burns and burns and burns

The dust
must be some kind of
hidden metaphore
of an imaginary life

It flies and blows and goes
pushed by the wind
as the old singer sang once

Yeah
I must be getting old, man
Incredible and
melancholic.
Unavoidably
old.

I wish I could
- as (or with) the red
dust -
fly

I wish
I could be
that noble.

But I ain't.

High temperatures,
Farenheits,
Celsius,
Kelvins,

High temperatures,
Highs and lows,
High hopes.

But
at the very end
it
all becomes
dust.

Again.




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Acabou a luz



Acabou a luz.

Quando a luz
acaba
o mundo parece
descansar.

Acabou a luz.

E a luz da chama
da vela
me chama.
Mas nem sempre se vê.

Acabou a luz.

E pelas janelas
vê-se o mundo apagado.
Vê-se o mundo.
Só.
Quando acaba a luz.

Acabou a luz.

E quando ela volta
a um nada me reduz.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Apotegma

"O problema do Brasil é que as leis são compridas, mas não são cumpridas"


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Antipasto



Não mais verão,
inverno,
inferno!

E o verão se foi
com os dias que se foram.
Que se fodam!

Veremos, então,
se eles verão
o verão
que virá
com os dias que virão.

Veramente...

~ Z ~

Anos atrás fiz um poema parecido com o acima. De 23 de janeiro de 2005. Ei-lo:

É verão e o sol quente é como os dias que virão.
Como eles verão o verão dos dias (e das noites) que viramos?
Não se sabe ao certo.
O amanhecer do sol, nascer no verão...
veremos dias na manhã do amanhã?
Virei a página, varei a noite, verei o luar do verão que se foi.
Verão a página do verão à noite.
Como verão os dias da primavera? Como o frio do inverno?
Comoverão?
Serão os dias? Como os verão?
Serão os dias como o verão?
Virão os dias?
Deverão?


Veremos.
 


Sete anos atrás. Eu, ébrio já, procurava um destino, que ainda procuro, embora, muito embora agora eu esteja deveras mais próximo. Àquela altura nem formado eu era. Eu era um qualquer em busca de algo desconhecido. Melhorei um pouco, vivi um pouco. Porém vocês, meus fantasmas, hão de concordar que o mundo, assim como tudo, é cíclico e eternamente retorna, como vê-se pelos versos tortos acima transcritos.

Fiz inúmeras coisas deixadas pela metade, outrossim, várias e inúmeras coisas me deixaram pela metade. Porém o tempo passa e ao mesmo tempo é eterno e é cíclico. Pois envelhecemos, e ele passa. Pois o tempo não envelhece, e é, desta forma, eterno. Pois os anos e as estações se repetem e, vós vedes, é cíclico.

A unicidade e a incongruência trina e una do tempo. A afirmação, a negação e a transposição da verdade, no tempo. O tempo ceifa o vento. O tempo, o tempo, a incógnita suprema. Demasiado simples, demasiado complexo.

Demasiado.

E nós, aqui, a indagar-nos. Ao invés de beber, em um bar.

~ Z ~

Vamos, como o tempo que só vai. E o tempo foi indo, indo, indo... e iu!

Sei das minhas limitações. Reconheço meus defeitos e tento ao poucos torná-los mais suportáveis aos outros e a mim.

Acusando-me assim obtenho subitamente vossa compreensão e comiseração com minha vil  situação atual. O compadecimento alheio é facilmente conquistado. A compaixão encontramo-la nas esquinas mas lúgubres. E assim conseguimos a força que nos faz sobrepor pequenos e intangíveis obstáculos.

Toda essa enrolação é pra dizer, em palavras bonitas, que como prometido neste post, DEVO terminar os relatos de minha viagem pela Europa antes de seu aniversário de 2 anos. E o farei, visto que os dois anos completar-se-ão em agosto e férias me aguardam no próximo mês, onde poderei visitar amigos paranaenses e parentes gaúchos, deixando, contudo, o coração em Santa Catarina.

É, porém, o destino escrito e deve ser seguido, sob pena de intempéries e impropérios das mais variadas formas.

Despeço-me com um gole do meu uísque que, como eu, treme de frio nesta madrugada insólita de chuva eterna. Esta chuva, que passa, como o tempo, que retorna, como o tempo, e que, como o tempo, infinita é.

Saluti!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mochilão na Europa parte X - Alles gut, mein frau!

Tiergarten

Meus fantasmas já não são mais meus: assombrarão outras pessoas agora. Desistir é uma fraqueza, característica comumente inexistente nos fantasmas, mas a espera angustiante e indefinida da continuação deste maluco e despedaçado relato transforma até a mais feroz das assombrações em pusilânime vítima do tédio. E o tédio, até os Deuses o sabem, é cruel e não perdoa.


Deixando, contudo, os Deuses de lado, que já se ocupam bastante de outros assuntos verdadeiramente importantes, voltemos ao relato, inacabado (como se uma novidade fosse), cujo último capítulo, publicado em outubro do ano passado, ninguém mais lembra. Da minha viagem, minha memória, que era de vidro, se quebrou. Só sei os lugares que visitei em Berlim porque relatei-os no último post. Mas talvez mesmo naquele texto eu os tenha inventado, portanto o que se lerá a seguir trata-se somente, e nada mais, que ficção. 


A ordem dos dias e dos acontecimentos não refletem a realidade. Passou-se mais de um ano e espero terminar em breve este relato maldito, pois minha consciência pesa a cada vez que tento lembrar-me do que, na memória, já não encontro mais. Por isso crio tudo, com os mapas em minha frente, a única coisa palpável desta viagem que a Gulliver causa invejas.


Mas, como eu ia dizendo no último post:

Schloss Charlottenburg, Tiergarten, Brandenburger Tor, Friedrichstrasse, Alexanderplatz, o Muro de Berlim. Todos esses lugares existem, eu sei. O meu mapa diz isso. E, como eu mesmo afirmei que os visitei no último post, se eu não acreditar em mim mesmo, em quem poderia?

Sei que fui em todos, mas não me lembro a ordem. Finjamos, então, que eu tenha ido nesta ordem mesmo. Vejamos: enquanto minha anfitriã ia ao seu trabalho, peguei o metrô e dirigi-me ao metrô, peguei a linha U2 que leva até ao Schloss Charlottenburg. Burro fui, porque se seguisse mais um pouco na mesma linha, desceria no grande Olympia Stadion, o famosíssimo Estádio Olímpico de Berlim, onde poderia ter tirado belas e inúmeras fotos, que de nada adiantariam graças à prematura morte de minha máquina fotográfica antes do fim da viagem.

Desci na estação Richard Wagner Platz, se não me engano (a partir de agora abster-me-ei de usar o termo "se não me engano", visto a grande possibilidade de enganar-me. Pressupõe-se, doravante, que estou sempre enganado). Dali, caminhei alguns metros pela Otto-Suhr Allee, admirando a arquitetura alemoa e as alemãs arquitetônicas, até chegar na Spandauer Damm, que me levou diretamente ao Schloss (Castelo) Charlottenburg.
Schloss Charlottenburg

Dei uma volta ao redor, mas decidi não entrar. De qualquer forma, era um belo castelo, embora eu tenha visitado alguns mais bonitos em Viena, em uma viagem de 4 dias que fiz para visitar Bratislava, a capital da Eslováquia, e Viena, capoluogo da Áustria (viagem esta que talvez, um dia, eu conte. Por sorte, tenho fotos, que servem de muletas à minha memória).

Decidi então, por um golpe de azar, ir até a estação do metrô Zoologischer Garten e ir a pé até a famosa Brandenburger Tor, passando pelo meio do Tiergarten, um gigantesco parque no coração de uma das maiores cidades europeias. Posso ter perdido minha máquina e minha memória, mas minhas pernas dóem ao lembrar desta decisão. Custou-me, certamente, alguns músculos de meu joelho. Fui-me, porém, inconsciente dos perigos que me esperavam pelo caminho. Primeiramente, até chegar à Strasse des 17 Juni, a avenida que corta o Tiergarten de leste a oeste, devo ter demorado quase meia hora. Em seguida, até atingir o Siegessaeule Victory Column, mais meia hora. Ali comecei a ver onde tinha me metido. Muito embora em meu mapa tudo coubesse em dois dedos, vi que a fatiga seria enorme. A Victory Column ficava, em meu mapa, a um terço do caminho até o Brandenburger Tor. E, se até ali eu levara uma hora quase, imagine até o final. Decidi, pois, pegar o primeiro ônibus que passasse. Caminhei com calma, olhando volta e meia para trás, esperando o momento de acenar ao motorista para parar. Porém, para tristeza minha, nenhum ônibus passava.

No desespero que a sobrevivência impõe aos desvalidos, aceitei mentalmente até mesmo a hipótese de pegar um táxi, alternativa extremamente cara e fora do planejado nesta viagem, mas que meu corpo exigia, visto o desgaste não programado e, considerando ainda, que eu estava pouco além da metade de minha viagem e energias eram necessárias para chegar ao final e poder relatar tudo, como ora estou relatando aos fantasmas de meus fantasmas. Entretanto, táxis eram como discos voadores, existiam somente na minha imaginação. Em todo este tempo, não passou nenhum em um ponto turístico dos mais visitados na Alemanha. (Em minha próxima vida vou ter um táxi nesta avenida. Ficarei rico com os turistas desavisados que por ali passarem).
Pequeno trecho da Strasse des 17 Juni por mim percorrido a pé. (Beeem) ao fundo, Brandenburger Tor.

Mas, como diria o grande e já falecido José Saramago, o que não tem remédio, remediado está. Fui-me a pé até o dito Brandenburger Tor. Ali sim, em meio a uma multidão de turistas malditos, fatigado, com as pernas doloridas, avistei ônibus para turistas, aqueles clássicos de dois andares, e com ele visitei os pontos famosos de Berlim, dentre eles, todos aqueles listados no início deste relato.

Já no início da viagem, por uma das ruas que cortavam o fatídico Tiergarten, o guia turístico relatava, tranquilamente os pontos turísticos pelos quais passávamos, citando nomes, história e etc desses locais, até que disse, como se estivesse lendo um texto, em um tom tranquilo, não olhem para a esquerda. Obviamente, todos os turistas olharam, e viram um bando de alemão pelado. Tratava-se de um setor do parque para os praticantes de nudismo, no centro da cidade. Os americanos ali no busão presentes sussurravam "oh my god!", os eventuais sul-americanos riam, e os europeus nem bola. Os japoneses tiravam fotos, obviamente.

Alemoada pelada, nem aí pra paçoca

A alemoada gosta de ficar pelada. Vi isso também em Colônia, quando andei num teleférico que, coincidência ou não, passava por cima dum parque de nudismo. Aliás, quem gosta de cerveja e de ficar pelado tem que ir pra Alemanha. Mein gott!

Sinceramente, não lembro muito mais além disso de Berlim. Fui no Muro, ou nos restos dele chamado de East Side Gallery, e não passa de partes que permanecem em pé, devidamente pintados e grafitados por artistas de todas as partes do mundo. Fui ao checkpoint-charlie, fui à Alexanderplatz, mas não lembro de nada. Recordo-me, porém, que em meu último dia na Alemanha minha anfitriã roubou a bike da sua colega de casa e fizemos um tour pela cidade, coisa que relatei no post anterior, o que demonstra a falta de lógica e de ordenação dos acontecimentos. Saindo de sua casa ainda vaguei por algumas horas em Berlim, decidindo se ficava um dia a mais na cidade para curtir uma verdadeira balada ou se me mandava pra Praga, capital da República Tcheca. A chuva interminável que desabou sobre a capital teutônica decidiu por mim. Seis (ou foram quatro?) horas depois, chegava eu em Praga: depois de passar pela Bélgica, a terra das loiras (as melhores e mais variadas), pela Suécia, a terra das loiras (as mais encorpadas), pela Dinamarca, a terra das loiras (as mais simpáticas), pela Alemanha, a terra das loiras (as tradicionais), acabara de chegar na República Tcheca, a terra das loiras (as mais bonitas e mais baratas, não necessariamente nesta ordem). Mas tudo isto será devidamente explicado nos próximos relatos, da mais bela cidade europeia que visitei, a mais surpreendente, a mais exuberante e, por incrível que pareça, a mais barata também, onde pude saborear quitutes nunca antes vistos, adentrar castelos gigantescos, embebedar-me em bares subterrâneos, provar cervejas mais baratas que água e ainda assim saborosas e, acima de tudo, conhecer a cidade onde Kafka nasceu e viveu e onde Einstein, na mesma época, lecionava e frequentava os mesmo saraus literários do escritor tcheco, nos longínquos primórdios do século XX.

Praga

Continua no próximo post.




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

PROBLEMAS

Problemas no layout. Se um dia eu tiver tempo, conserto a meleca toda.

sábado, 12 de novembro de 2011

A vertigem



Ray Charles canta uns blues antigos no meu herdado Polyvox, tão velho quanto eu. "Very special people", diz ele. Grande Ray. Figuraça.

Ray Charles canta enquanto eu tomo uma cervejinha e penso em seres mitólogicos, como um centauro, um pégasus, uma esfinge. Penso nesses seres e na sua inquietude sobre a própria condição como uma metáfora. Uma metáfora metalinguístisca metastática. Algo do gênero. Roba da matto, diria o falecido Berlusconi.

Berlusconi está para sair do poder na Itália. É estranho acompanhar as notícias de lá estando longe. Berlusconi esteve à frente do país por quase vinte anos. Uma geração inteira nasceu, cresceu e tornou-se adulta tendo o mesmo lunático como chefe. E, o pior, de forma democrática. A piada interna italiana do momento é a esquerda se perguntando: então ele caiu...agora o que fazemos? Alguém aí sabe governar?

A esquerda  italiana esteve 20 anos como oposição. Os políticos que hoje tem 40, 50 anos eram recém-formados quando Berlusconi chegou ao poder. Berlusconi é imortal, todos sabem. Hoje tem quase 80 anos. Embora tenha a mesma cara repleta de cirurgias igual a quando assumiu o poder.

Berlusconi chegou ao poder graças ao sucesso empresarial, principalmente em 3 campos: a mídia (jornais de grande circulação, grandes editoras e, das 6 maiores emissoras de TV, é dono de 3. As outras 3 são públicas); o sistema financeiro (possui sei lá quantos bancos e seguradoras e afins) e o futebol (dono do Milan). E a gente acha o Sílvio Santos grande coisa. O banquinho que ele tinha, faliu.

E Sílvio (o Berlusconi, não o Santos) chegou ao poder e, além de controlar as 3 grandes emissoras privadas, passou a controlar indiretamente as 3 tvs públicas. Um dos times mais vitoriosos nos últimos anos no mundo, o Milan, influenciava os novos torcedores. E assim viveu a Itália durante quase 20 anos. Democraticamente.

Não vou nem mencionar os inúmeros escândalos sexuais com menores, ministras modelos e vexames diplomáticos internacionais, como quando chamou o recém eleito Obama de "bronzeado" e pregava peças na alemã Angela Merkel nos encontros de chefes europeus. Sem contar as amizades suspeitas, como o Kadafi.

Mas caiu. É bonito ver alguém cair, desse modo. Porque por mais que o cara tenha sobrevivido por tantos anos, sempre conseguia a maioria absoluta no parlamento, o que prolongava o mandato. Mas, a partir do momento em que perdeu a maioria, caiu. Ao contrário do Brasil onde, se um presidente perde a maioria, digamos, no primeiro mês de mandato, fica ali 4 anos isolado sem fazer nada, porque nada será aprovado. Mas fica, intocado e ninguém diz nada. Quando na minha opinião seria caso de impeachment.

Foi bonito ver o Berlusconi cair. Eu queria estar lá agora, apesar do frio. Queria ver os toscanos, os mais centro-sinistra da Itália, soltando rojões, os estudantes malucos da Universidade de Pisa tocando suas músicas doidas na Piazza dei Cavalieri para comemorar, ironicamente, a queda do Il Cavaliere. Os malucos enchendo a cara na Piazza Garibaldi. Gritando Silvio, vaffanculo, testa di cazzo! E sempre teria alguém pra gritar, no meio de tudo, Livorno merda! Seria legal ver essas cenas. Ou revê-las. No frio e na chuva pisana. Ray Charles me deixa nostálgico.

Ray Charles me deixa nostálgico como estava Guedali, o centauro no livro O centauro no jardim, do falecido imortal (por demais irônico tudo isso) Moacyr Scliar. Guedali nasceu centauro, meio-homem, meio-cavalo. Viveu escondido por anos. Encontrou uma centaura. Fizeram uma cirurgia que os deixaram normais. Casaram-se. Separaram-se. Já homem, quis voltar a ser centauro, apaixonou-se por uma esfinge: busto de mulher e corpo de leoa. Copularam. Mas sobreviveu e delira nostalgicamente de quando galopava pelos pampas tocando violino. Enquanto centauro, quis ser homem. Quando homem, quis retornar a centauro. A metáfora, sobre a condição humana: sabe-se lá o quê. Mas é mais ou menos por aí, já diria Zé Oreia.

Esfinge gatinha. Melhor, gatona
Dizem que é o melhor livro do Scliar. Não li muitos dele, mas creio que A mulher que escreveu a Bíblia deve rivalizar, se não tomar o posto do centauro. São, contudo, livros extraordinários.

Barão Vermelho acabou de tomar o lugar do Ray Charles. Da mesma forma, passo do Scliar para Jean Echenoz. A minha cerveja aquiesce.

Jean Echenoz é um escritor francês maluco, contemporâneo. Se não morreu, ainda está vivo. Apesar de meu mestrado ter sido sobre a literatura de língua inglesa, foi um autor que conheci justamente ali, porque o tradutor da obra do Echenoz pro italiano era meu professor. E achei muito boa a ironia, a combinação de situações absurdas, o ritmo da narrativa. Foi, sem dúvida, uma descoberta fenomenal esse tal de Echenoz. E pelo que procurei na internet, ainda não foi traduzido para o português. Se eu pudesse, traduziria a versão italiana, mas tradução de tradução vira uma confusão, já disse o sábio Zaratustra.

Durante a feira do livro de Pisa, na qual trabalhei no estande da Editora onde eu estagiava (ou terá sido na feira do livro de Torino? minha memória falha) encontrei outro livro do Echenoz, intitulado em italiano Correre (Correr). Neste caso foi uma biografia romanceada do corredor e fenômeno tcheco Emil Zatopek, que assombrou o mundo na metade do século XX com seu estilo nada elegante mas eficaz de correr. Eu, que já tenho uma grande simpatia pela antiga Tchecoslováquia e pelas atuais República Tcheca e República Eslovaca, curti muito o livro, embora não imaginasse que fosse falar desses países quando o comprei. Não por acaso, na mesma feira (Pisa, Torino?) comprei mais dois livros: Un uomo al castello (Um homem no castello) escrito pelo ex-presidente da República Tcheca Václav Havel, que antes de ser presidente era já escritor e dramaturgo, que conta sua passagem pelo poder com muito de bastidores e dúvidas cruéis de um escritor-presidente. O outro livro, lembro-me muito bem até hoje, perguntei à bela moça qual o escritor tcheco mais reconhecido atualmente, e ela me indicou Jan Weiss, com um estilo surreal, disse. O sorriso dela ao dizer surreale me convenceu.  Il palazzo a mille piani (O prédio de mil andares). Já gostei do nome. Pensei comigo, se for como Kafka (autor de A metamorfose) e Milan Kundera (A insustentável leveza do ser), os únicos tchecos que eu conhecia, deve ser bom. Lê-lo-ei, um dia.

Gregor Samsa, alter-ego de Kafka
Praga, a capital da República Tcheca, é uma cidade surreal (gosto da surrealidade do mundo). É considerada uma das mais bonitas de toda Europa. Ali nasceu e viveu Kafka, um judeu burocrata que enloqueceu no trabalho e adoeceu. Morreu cedo e virou barata. Ali Einstein ensinou, durante alguns anos, na Universidade de Praga. Frequentou os mesmo círculos de Kafka, participava dos saraus literários e das discussões locais. À época parte do Império Austro-Húngaro, em Praga falava-se, predominantemente alemão. Kafka escreveu em alemão, embora também soubesse o tcheco. A única palavra que sei em tcheco é pivo. E siginifica cerveja. Ela sorri. A skol.

Einstein
 Ray Charles voltou, agora canta Georgia on my mind, em que ele fala do estado da Georgia, embora eu tenha quase certeza que ele conheceu uma moça chamada Georgia e dedicou-lhe a canção. (Só agora lembrei que tenho em algum lugar desse caos a que chamo de casa um dvd do dueto Ray Charles e Willie Nelson. Preciso escrever qualquer dia ouvindo e bebendo uísque).


Mas sinto que tudo talvez tenha um sentido escondido em algum lugar, seja nas patas e nas vísceras de um centauro, nos seios da bela esfinge, no sexo selvagem entre um homem-cavalo e uma mulher-leoa, na corrida desenfrada de um louco, em prédios surreais, circundado por baratas de Kafka, a vertigem, a vertigem. A sugar-me como um ralo. O cheiro do ralo.

Entretanto: Há guamole em pé dradura. Como já disse Millôr Fernandes, o guru do Méier. Mas a verdade é outra, e diversa.