sábado, 23 de janeiro de 2010
"O dia passa devagar quando a gente tá com saudade de alguém"
Minhã irmãzinha, 8 anos, me surpreendendo (mais uma vez) por telefone, falando de um dia que ficou longe da mãe.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Constatações
Por mais que a gente tente ou nossa economia avance, ou mesmo se, subitamente, todos os nossos políticos começassem a ser honestos, não tem jeito, a Europa vai estar sempre à frente do Brasil. A não ser que mudem o fuso horário.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Maddening sameness
Eu poderia ficar aqui por linhas e linhas traduzindo outros textos do mestrado; neste momento, aliás, eu deveria estar estudando teorias, lendo livros (e trechos deles), procurando palavras desconhecidas no dicionário como "skeezed", "swagman", "saddle-strap", passando para o computador as anotações que fiz na última aula; eu poderia discorrer nesse espaço como achei interessante a expressão "maddening sameness" de um conto não menos interessante do autor australiano Henry Lawson, e como essa expressão (que significa algo como monotonia enlouquecedora, mas com mais estilo) traduz em duas palavras um estado de espírito incrivelmente comum nessa nossa era incrivelmente atípica e transbordante de novidades e informações - e por causa disso, paradoxalmente, monótona; Eu poderia excrusive estar perdendo meu já escarso tempo no orkut, mas decidi falar de Jeanne.
Sim, Jeanne é seu nome. A conheci em março, logo que cheguei no hotel, e cruzo com ela todo dia de trabalho. Com esse nome, provavelmente nao é italiana. Não sei sua nacionalidade e creio que mesmo se eu perguntasse, não me responderia.
Jeanne tem feições finas, cabelo liso levemente ondulado e està sempre usando um coque. O olhar fixo é curioso, mas não menos cativante. Não esboça nunca um sorriso. Nunca ouvi sua voz. Mas está sempre ali, ao lado dos clientes que tomam o café da manhã, no primeiro andar deste velho hotel de Pisa.
Pensei em perguntar aos outros colegas sobre Jeanne, mas seria muita indiscrição da minha parte. Talvez nem mesmo eles saibam como ela veio parar ali no hotel. Na verdade, parece que todos estão abituados a sua presença, menos ela mesma. E eu.
Ontem decidi encará-la. Eu estava de pé em sua frente, olhando fixo nos seus olhos. Não esboçou reação. Perscrutei-a, insisti. Passei a mão em seu rosto, mas era frio, e essa frieza eu não esperava. Olhei ao redor e procurei seguir seu olhar, tentando identificar o que buscava com incansável insistência. E exatamente nessa direção fica uma das paredes da sala. Relutantemente, desisti.
Hoje vindo de novo ao trabalho, ali estava Jeanne. Desta vez eu que a ignorei. Quando às 3h da manhã fui fazer a ronda pelo hotel, passei ao lado do meu já velho conhecido e (posso dizer) grande amigo, busto de Dante. Depois de cumprimentá-lo como sempre fazemos (cito um verso aleatório da Divina Comédia, ele complementa e damos boas risadas, grande figura), percebi que meu amigo está posicionado exatamente atrás da parede que Jeanne insiste em mirar, com inesgotável ânsia. Jeanne, oh Jeanne, pequena e inocente criatura, todos esses meses (seriam, talvez, anos?) procuras simplesmente o contato com o "sumo poeta"? Saberás tu que ele percorreu o purgatório, os céus e o inferno em busca de sua amada Beatriz? Saberás tu que ele é oficialmente comprometido, ou seja, sem chance mulher!? Saberás tu?
Perguntei a Dante o que acontecia e ele, com aquela sua abitual carranca, respondeu que não gosta de tocar no assunto porque Beatriz é muito ciumenta. Mas ao pronunciar essas palavras, percebi um leve sorriso, como o da Gioconda, no canto da boca. "Ah, garanhão", eu disse em latim com uma leve cotovelada no seu ombro, e voltei pra recepção. "Esse Dante é uma comédia!" pensei rindo, enquanto descia as escadas.
Posso imaginar o que acontece a essas horas da madrugada lá em cima, quando o busto de Dante fica sozinho com o busto de Jeanne, sem o fantasma de Beatriz por perto. Curiosamente, no hall do hotel tem um outro busto de mulher, mas essa não tem nome. Também é bela, e seus olhos semi-cerrados fitam o chão, como se os desviasse por qualquer motivo. A cabeça volta-se levemente para seu ombro direito, como se uma forte desilusão a tivesse acometido. Como se, além da impossibilidade do movimento, sua tristeza perene tivesse origem na decepção e no amargo sabor que somente um ser humano tem ao descobrir-se traído por seu verdadeiro amor.
Eis que encontro Beatriz.
Sim, Jeanne é seu nome. A conheci em março, logo que cheguei no hotel, e cruzo com ela todo dia de trabalho. Com esse nome, provavelmente nao é italiana. Não sei sua nacionalidade e creio que mesmo se eu perguntasse, não me responderia.
Jeanne tem feições finas, cabelo liso levemente ondulado e està sempre usando um coque. O olhar fixo é curioso, mas não menos cativante. Não esboça nunca um sorriso. Nunca ouvi sua voz. Mas está sempre ali, ao lado dos clientes que tomam o café da manhã, no primeiro andar deste velho hotel de Pisa.
Pensei em perguntar aos outros colegas sobre Jeanne, mas seria muita indiscrição da minha parte. Talvez nem mesmo eles saibam como ela veio parar ali no hotel. Na verdade, parece que todos estão abituados a sua presença, menos ela mesma. E eu.
Ontem decidi encará-la. Eu estava de pé em sua frente, olhando fixo nos seus olhos. Não esboçou reação. Perscrutei-a, insisti. Passei a mão em seu rosto, mas era frio, e essa frieza eu não esperava. Olhei ao redor e procurei seguir seu olhar, tentando identificar o que buscava com incansável insistência. E exatamente nessa direção fica uma das paredes da sala. Relutantemente, desisti.
Hoje vindo de novo ao trabalho, ali estava Jeanne. Desta vez eu que a ignorei. Quando às 3h da manhã fui fazer a ronda pelo hotel, passei ao lado do meu já velho conhecido e (posso dizer) grande amigo, busto de Dante. Depois de cumprimentá-lo como sempre fazemos (cito um verso aleatório da Divina Comédia, ele complementa e damos boas risadas, grande figura), percebi que meu amigo está posicionado exatamente atrás da parede que Jeanne insiste em mirar, com inesgotável ânsia. Jeanne, oh Jeanne, pequena e inocente criatura, todos esses meses (seriam, talvez, anos?) procuras simplesmente o contato com o "sumo poeta"? Saberás tu que ele percorreu o purgatório, os céus e o inferno em busca de sua amada Beatriz? Saberás tu que ele é oficialmente comprometido, ou seja, sem chance mulher!? Saberás tu?
Perguntei a Dante o que acontecia e ele, com aquela sua abitual carranca, respondeu que não gosta de tocar no assunto porque Beatriz é muito ciumenta. Mas ao pronunciar essas palavras, percebi um leve sorriso, como o da Gioconda, no canto da boca. "Ah, garanhão", eu disse em latim com uma leve cotovelada no seu ombro, e voltei pra recepção. "Esse Dante é uma comédia!" pensei rindo, enquanto descia as escadas.
Posso imaginar o que acontece a essas horas da madrugada lá em cima, quando o busto de Dante fica sozinho com o busto de Jeanne, sem o fantasma de Beatriz por perto. Curiosamente, no hall do hotel tem um outro busto de mulher, mas essa não tem nome. Também é bela, e seus olhos semi-cerrados fitam o chão, como se os desviasse por qualquer motivo. A cabeça volta-se levemente para seu ombro direito, como se uma forte desilusão a tivesse acometido. Como se, além da impossibilidade do movimento, sua tristeza perene tivesse origem na decepção e no amargo sabor que somente um ser humano tem ao descobrir-se traído por seu verdadeiro amor.
Eis que encontro Beatriz.
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sábado, 9 de janeiro de 2010
quase hai kai
Dizem que a verdade é que
o importante é o que importa.
Mas a verdade é outra, e diversa.
o importante é o que importa.
Mas a verdade é outra, e diversa.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Que merda!
Enquanto não me vem nada pra escrever, coloco aqui mais um exercício de tradução do mestrado. A autora é Sujata Bhatt, nasceu na Índia em 1956, cresceu nos EUA e mora na Alemanha. Eis aqui minha tradução:
Feminilidade
Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -
A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.
Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.
Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!
Feminilidade
Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -
A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.
Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.
Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Prosecco, fantasmas e o ano novo
Agora são 23h54 no horário italiano. Alguns fogos de artifício. Não muitos, comparando com o Brasil. Estou no trabalho, uma taça de Prosecco do meu lado. Quadros antigos e o vazio ao meu redor. Prosecco, pra quem não sabe, é um vinho frisante tipicamente italiano, que ao invés dos frisantes normais, não é doce, mas como diz o nome, seco.
Os clientes estão fora, ou estão nos seus quartos. Pra quem não sabe, trabalho num hotel, e nesse exato momento faço o turno da noite na recepção. Mas como eu ia dizendo, todos estão por aí, menos aqui. Embora Pisa não seja uma cidade de grandes atrativos. A maquininha do cartão de crédito acabou de fazer seu bip pontual da meia-noite. Ela não sabe que é dia de festa. Hoje é um dia como qualquer outro pra ela. O que não deixa de ser verdade também pra nós. Ou pelo menos pra mim. Bebo um gole.
Meia-noite. Já tive reveillons melhores na vida. Hoje, como várias outras vezes aqui na Itália, é um dia que me faz pensar e comparar. Penso como foram meus outros reveillons, penso no calor que faz agora no Brasil e como seria ótimo estar à beira-mar nesse exato momento. Penso neste tempo que estou aqui na Itália. Penso no futuro próximo, quando retornarei ao Brasil por alguns dias... Se não se quer chegar a conclusão nenhuma, pensar talvez não seja a melhor escolha. Tarde demais. Outro gole.
Como eu dizia, Pisa não é um "granché" no que se refere a divertimento. Uma cidade de mais ou menos 80 mil habitantes, cuja metade da população é estudante, o que torna a situação mais bizarra ainda, porque no Brasil onde há estudante, há festa. Pisa não. Pisa possui leis que proibem a abertura de locais depois das 2h da manhã (sexta e sábado) e depois da 1h nos dias de semana. Pisa não possui discotecas. Pisa, enfim, é uma cidade de velhos, feita por velhos e para velhos, muito embora a população predominante seja de jovens.
Depois de 10 meses morando aqui, já desisti de tentar achar uma exceção. Já imaginava que o ano novo seria pobre de opções e, pior ainda, com a chuva que cai agora. Duas da manhã estarão todos em casa, enquanto a chuva, o frio e os fantasmas medievais percorrem as ruas da cidade.
Nessas horas, é melhor estar trabalhando. Ironicamente, é a primeira vez que ficarei acordado no ano novo até às 9h da manhã. Não lembro quando, mas um tempo atrás, enquanto eu reclavama da falta de opções da cidade com meus fantasmas, um deles me respondeu: "talvez seja melhor assim, porque daí você estuda, se Pisa fosse agitada à noite, provavelmente você não faria isso".
Bebendo meu Prosecco, enquanto soa Audioslave no computador do trampo, começo a concordar com ele. É, meu fantasma, talvez 2010 seja hora de estudar mesmo. E depois teremos uma vida inteira pela frente. Eu e ela.
Um feliz ano novo a todos. Auguri!
Os clientes estão fora, ou estão nos seus quartos. Pra quem não sabe, trabalho num hotel, e nesse exato momento faço o turno da noite na recepção. Mas como eu ia dizendo, todos estão por aí, menos aqui. Embora Pisa não seja uma cidade de grandes atrativos. A maquininha do cartão de crédito acabou de fazer seu bip pontual da meia-noite. Ela não sabe que é dia de festa. Hoje é um dia como qualquer outro pra ela. O que não deixa de ser verdade também pra nós. Ou pelo menos pra mim. Bebo um gole.
Meia-noite. Já tive reveillons melhores na vida. Hoje, como várias outras vezes aqui na Itália, é um dia que me faz pensar e comparar. Penso como foram meus outros reveillons, penso no calor que faz agora no Brasil e como seria ótimo estar à beira-mar nesse exato momento. Penso neste tempo que estou aqui na Itália. Penso no futuro próximo, quando retornarei ao Brasil por alguns dias... Se não se quer chegar a conclusão nenhuma, pensar talvez não seja a melhor escolha. Tarde demais. Outro gole.
Como eu dizia, Pisa não é um "granché" no que se refere a divertimento. Uma cidade de mais ou menos 80 mil habitantes, cuja metade da população é estudante, o que torna a situação mais bizarra ainda, porque no Brasil onde há estudante, há festa. Pisa não. Pisa possui leis que proibem a abertura de locais depois das 2h da manhã (sexta e sábado) e depois da 1h nos dias de semana. Pisa não possui discotecas. Pisa, enfim, é uma cidade de velhos, feita por velhos e para velhos, muito embora a população predominante seja de jovens.
Depois de 10 meses morando aqui, já desisti de tentar achar uma exceção. Já imaginava que o ano novo seria pobre de opções e, pior ainda, com a chuva que cai agora. Duas da manhã estarão todos em casa, enquanto a chuva, o frio e os fantasmas medievais percorrem as ruas da cidade.
Nessas horas, é melhor estar trabalhando. Ironicamente, é a primeira vez que ficarei acordado no ano novo até às 9h da manhã. Não lembro quando, mas um tempo atrás, enquanto eu reclavama da falta de opções da cidade com meus fantasmas, um deles me respondeu: "talvez seja melhor assim, porque daí você estuda, se Pisa fosse agitada à noite, provavelmente você não faria isso".
Bebendo meu Prosecco, enquanto soa Audioslave no computador do trampo, começo a concordar com ele. É, meu fantasma, talvez 2010 seja hora de estudar mesmo. E depois teremos uma vida inteira pela frente. Eu e ela.
Um feliz ano novo a todos. Auguri!
domingo, 27 de dezembro de 2009
Exercícios de tradução
"Todo o mundo é viúvo se é verdade que caminhas ainda
todo o mundo é viúvo se é verdade! Todo o mundo
é verdade se é verdade que caminhas ainda. todo o
mundo é viúvo se não morres! Todo o mundo
é meu se é verdade que não estás vivo mas só
uma lanterna para meus olhos oblíquos. Cega permaneci
do teu nascimento e a importância do novo dia
não é que noite pela tua distância. Cega sou
se tu caminhas ainda! cega sou se tu caminhas
e o mundo é viúvo e o mundo é cego se tu caminhas
ainda agarrado aos meus olhos celestiais"
Amelia Rosselli (1930-1996), poetisa italiana
Traduçao minha
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Do futuro
Bebo uma cerveja. O frio passa em frente à minha janela. As luzes do quarto apagadas. Eu olho pela janela. Eu penso.
Outro gole. Tiro os óculos e de repente minha visão se embaça. Vejo luzes e escuros desfocados. O frio passa. Olho pro relógio: é tarde, muito tarde. Eu penso.
O computador toca Cafe Tacuba. É incrível como a língua espanhola é melancólica, e ao mesmo tempo tão bela. Outro gole. E eu penso no futuro.
O futuro...o futuro promete e ao mesmo tempo distancia. O futuro poderia ser belo como uma música do Cafe Tacuba. Poderia ser simples. Mas a simplicidade não combina com Deus. Deus exige o complexo, o caos, a provação. Deus exige atenção.
Deus exige.
Outro gole. Abro a janela e o frio entra e me envolve. Me deixo ficar. O futuro está próximo. El futuro es mañana. Una mañana linda...
A cerveja termina. O frio continua. O futuro, em um mês, dará provas de existência. "Espero que Deus não seja tão sarcástico comigo", estava escrito no livro.
"Amém", disse o poeta, últimas palavras, lucidez completa.
Depois, silêncio.
Outro gole. Tiro os óculos e de repente minha visão se embaça. Vejo luzes e escuros desfocados. O frio passa. Olho pro relógio: é tarde, muito tarde. Eu penso.
O computador toca Cafe Tacuba. É incrível como a língua espanhola é melancólica, e ao mesmo tempo tão bela. Outro gole. E eu penso no futuro.
O futuro...o futuro promete e ao mesmo tempo distancia. O futuro poderia ser belo como uma música do Cafe Tacuba. Poderia ser simples. Mas a simplicidade não combina com Deus. Deus exige o complexo, o caos, a provação. Deus exige atenção.
Deus exige.
Outro gole. Abro a janela e o frio entra e me envolve. Me deixo ficar. O futuro está próximo. El futuro es mañana. Una mañana linda...
A cerveja termina. O frio continua. O futuro, em um mês, dará provas de existência. "Espero que Deus não seja tão sarcástico comigo", estava escrito no livro.
"Amém", disse o poeta, últimas palavras, lucidez completa.
Depois, silêncio.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Aquele ali
Eu sou um narrador em terceira pessoa. Embora agora eu esteja falando de mim, o que me desmente, estou aqui pra falar de outro. Aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso. A mao, no singular. A outra nao tà no bolso.Aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, neste momento procura alguma coisa no bolso da camisa, com a outra mao que nao estava no bolso, embora agora esteja, mas em outro. E muito embora eu seja um narrador em terceira pessoa, o escritor que me criou e que criou também aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, nao me fez onisciente. Quer dizer que eu nao sei dizer o que se passa na cabeça daquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso. Também nao sei seu nome, nem ao menos o que procura no bolso. E se por acaso aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, resolver ir embora, nao poderei mais dizer nada a seu respeito.
A outra mao daquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, que procurava qualquer coisa no outro bolso, o da camisa, a outra mao saiu de là, segurando um maço de cigarros.
Com um cigarro na boca aquele ali, que tà sentado na mureta, agora nao tem mais nenhuma mao em bolso algum, porque a mao que estava dentro do bolso saiu de là com um isqueiro pra acender o cigarro daquele ali, que agora està fumando, ainda sentado na mureta.
Aquele ali, sentado na mureta, fumando, tirou o òculos de sol pra coçar os olhos e virou a cabeça pro outro lado da mureta, botou de novo os òculos e coçou o saco com a mao que estava primeiro no bolso. A outra mao jogou a bituca fora, e entrou no outro bolso, enquanto a primeira mao daquele ali, que coçava o saco em cima da mureta, ajudou a dar o impulso pra sair da mureta e entao aquele ali, que tava na mureta com a mao no bolso, atravessou a rua e dobrou a esquina.
Aquele ali, que jà nao està mais na mureta, que coçou o saco e jà dobrou a esquina, aquele ali ninguém sabe de seu fim. Nao sabemos nem ao menos se a outra mao ainda està no bolso. Ou se coça o saco pelo furo do bolso. Ou se fuma outro cigarro, colocado na boca pela primeira mao, que no inìcio estava no bolso.
A ùnica coisa que sei è que nao tem mais ninguém ali.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Às cinco
Quando o sino da Igreja soa, é já noite, e o frio envolve a cidade de Pisa no inverno, como um cachecol de gelo.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O inferno de Dante (e de Shakespeare, e de Camões...e o meu também)
A correria destes últimos dias tem sido grande. Leio muito e tenho que começar a tomar cuidado pra não embaralhar tudo que to lendo. Mas enfim, como já disse algum nobre filósofo, é a vida.
Falando em nobreza, não que eu seja nobre, embora seja Dalla Corte (hein hein?), enfim, piadas infames à parte, como eu dizia, falando em nobreza, hoje em um seminário do mestrado o professor deu um exemplo muito certeiro, que achei legal compartilhar aqui com vocês, meus fantasmas.
Contextualizando o ocorrido: o professor nos deu cópias de trechos de MacBeth, de Shakespeare, na versão original, e depois confrontava estes trechos primeiro com uma “tradução” prum inglês moderno (fraca, por sinal) e depois com várias traduções feitas em diferentes épocas para o italiano. Viam-se coisas absurdas.
Aí entra a questão do distanciamento, não somente entre duas línguas diversas (ou culturas diversas, pra ser mais preciso), como também o distanciamento temporal na mesma língua, ou seja, querendo ou não o inglês da época de Shakespeare não é o inglês de hoje, assim como o italiano de Dante diverge do italiano de Gérson.
Neste momento o professor perguntou: é justo traduzir Shakespeare para uma linguagem moderna?
Antes de eu começar a pensar na resposta, aconteceu uma discussão, mas entre professores. Nunca vi isso no Brasil, mas aqui é normal (ou pelo menos parece) um professor assistir a aula do outro e não só, discutir e questionar o que o outro está propondo. (Creio que se ocorresse no Brasil, depois da aula um diria pro outro, po, ta querendo me fuder na frente dos alunos? Aqui eles discutem, e embora parecesse que o professor fosse dar meia-volta, permaneceu na sala)
Enfim, não to aqui também querendo dizer que todas as intervenções são oportunas. Na verdade ninguém entendeu porra nenhuma do que o cara tava dizendo, e perderam preciosos minutos da aula por uma discussão vã e inútil. Só sei que finalmente o tal professor conseguiu uma brecha pra explicar melhor.
Disse ele, diante da argumentação fervorosa das outras professoras, que Shakespeare escrevia o inglês comum à época, da plebe, não o inglês dos nobres. Da mesma forma, Dante, que foi um dos primeiros senão o primeiro a escrever em latino volgare (que virou o italiano de hoje), escreveu na língua do povo, de outra forma teria escrito em latim, a língua oficial à época. Ou seja, a tradução à linguagem moderna de certa forma seria um retorno ao objetivo inicial do bardo inglês, que era falar a língua do povo. As professoras se chocaram de novo...
E o professor, meio que pra alfinetar de vez, explicava que no futuro, daqui uns 200 ou 300 anos Bob Dylan e Elvis Presley serão estudados pelos cientistas como hoje fazemos com esses poetas antigos. E a língua de hoje será tão arcaica a eles quanto é Camões e Os Lusíadas pra nós ou Cervantes e Dom Quixote pros Castelhanos. Uma professora, que sentava na fileira logo atrás da minha murmurou “Bob Dylan, sinceramente...”. Eu ria sozinho.
No fim o professor disse: “Il tempo nobilta”. Foi um certo neologismo, pois usou o substantivo nobiltà e o utilizou como verbo, embora exista o verbo nobilitare, que é tornar nobre. Uma tradução mulambenta seria O tempo nobra. Em suma, o tempo enobrece. O que era popular torna-se elitizado, torna-se nobre. Vimos isso durante toda a história da humanidade, não só com escritores, mas também na música (um exemplo o jazz), em manifestações populares (ex. o carnaval) e com políticos (depois de mortos, são todos respeitáveis). Poderia citar outros exemplos vários, mas não vem ao caso agora.
Portanto, não adianta escrever com pompas e circunstâncias. Depreende-se que o popular será eternizado e, posteriormente, adorado pelas gerações futuras de intelectuais, cujos filhos farão caretas aos professores quando tiverem que estudar Bob Dylan no segundo grau e, o pior, pro vestibular. O mais importante, na verdade, e no final, é que o tempo nobra. Mas a verdade é outra, e diversa.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Resolvido o maior problema do século
Durante este tempo que estou aqui na bota, mais de um ano, aprendi o nome de várias comidas, que com saudade da culinária brasileira eu procurava aqui. Mas uma coisa eu nunca descobri: como se chama o chuchu em italiano.
Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.
Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.
Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.
Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.
Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.
Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.
sábado, 5 de dezembro de 2009
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Teorias de traduçao e estudos culturais pòs-coloniais
"(...) Figured in the disjointed signifier of the present, this supplementary third space introduces a structure of ambivalence into the very construction of Jameson's internationalism. There is, on the one hand, a recognition of the interstitial, disjunctive spaces and signs crucial for the emergence of the new historical subjects of the translational phase of late capitalism. However, having located the image of the historical present in the signifier of a 'disintegrative' narrative, Jameson disavows the temporality of displacement which is, quite literally, its medium of communication. For Jameson, the possibility of becoming historical demands a containment of this disjunctive social time."
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994
Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994
Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)
domingo, 22 de novembro de 2009
Domingo
O domingo hoje passou lento. Pouca gente. Pouco movimento.Nem as moscas, a me encher a paciencia, apareceram
O domingo foi tao lento, mas tao cheio de nada, que pra se ter uma idéia de que nao poderia ser mais monòtono, nao recebi nem mesmo um spam no meu email. Nem unzinho.
Pois é, amigo. Tem dias em que o dia nao passa.
E esse dia é hoje.
* * *
James Joyce, Jorge Luis Borges, Samuel Beckett e Vladimir Nabokov. Segundo um critico italiano, esses 4 definiram as coordenadas mentais da narrativa no século XX. Seja là o que isso quer dizer.
Coordenadas mentais...é interessante este uso de termos vagos que soam bem e impoem um certo respeito ao texto. Uma coordenada mental ninguém sabe o que é, deduz-se que seja algo como "estrutura psicològica da narrativa", ou padroes, sei là. Acho que fiquei mais vago ainda.
Mas o importante é o que importa, o resto é o que sobrou. E a verdade é outra e diversa. Ou nao.
O futuro...no domingo vazio se pensa muito no futuro. E é logo ali.
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