sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE II - Les pays de la bière

Quando vi o menu com mais de 40 tipos de cerveja, fiquei abismado. Eu não estava preparado pra isso. Havia planejado a viagem em alguns pontos. Primeiro, Bruxelas, que seria passagem obrigatória pra chegar em Estocolmo. Em seguida, Copenhagen, e depois não planejei mais nada. Nas últimas semanas a idéia era ver todos os detalhes, pontos turísticos a visitar, essas coisas. Mas fui surpreendido por um freelancer pra um jornal de Londrina e por um volume sobreumano de trabalho no hotel. O que quer dizer que fui meio às cegas.

Cheguei em Charleroi, aeroporto ao sul de Bruxelas. Dali, um ônibus me levaria até o centro.Pra comprar o ticket do ônibus a única opção era uma máquina automática. Toda a Europa é feita de máquinas automáticas. Você pode comprar desde cigarros, comida, bebida, jornais, tirar fotos, até passagens e camisinha. O problema é que quando você adquire uma passagem pro dia errado, não tem opção: não temos com quem reclamar, e a solução é uma só, comprar outra passagem com o cuidado redobrado, pro dia certo. "Merde", eu disse em francês, quando descobri que tinha comprado ida e volta pro mesmo dia.

Depois do episódio, deixei a mochila grande no depósito e com a menor me dirigi à capital das loiras. Cervejas, sejamos bem claros. E da Bélgica também.

Grand Place
Cheguei na estação central. Vi algumas placas que mereceriam uma piada neste relato, mas sem as fotos que tirei, é impossível fazê-la. Tudo bem. Saindo da estação, uma garoa chata mas leve, fiz o primeiro giro a pé pela cidade. Prédios imponentes, igrejas com altas torres. A Bélgica é uma monarquia, o que explica um pouco tudo. Depois, no horário marcado, fui encontrar o casal que iria me hospedar. Andamos por outra parte do centro, tirei foto da fonte mais conhecida do país e seguimos diretamente a um pub muito famoso, mas que obviamente não lembro o nome, porque à epoca eu ainda supria as lacunas da memória com fotos dos locais.




Manneken Pis (O piá que mija),
a mais famosa fonte de Bruxelas
E sentando-me à mesa, tive a primeira das várias lições sobre a arte da cervejaria que aprendi durante minha pitoresca viagem. O garçom traz o menu e pergunta, pra beber? "Bier", respondi em holandês. Ele deu uma risada como se dissesse, sim mas qual, cara pálida. Foi então que vi a coisa mais impressionante que uma pessoa poderia ver em um menu de um bar: mais de quarenta tipos de cerveja, todas locais. Eu não sabia por onde começar. Não fazia a menor idéia de nada, me senti um analfabeto numa linguagem que eu julgava dominar. Primeiro, a descrição das cervejas estava em francês e holandês, as principais línguas da Bélgica. Ok, de certa forma eu era analfabeto. Talvez tivesse também em inglês, mas não me lembro.

No final, não sabendo se pedia um uísque no lugar ou saía correndo, disse pro garçom, me fala um número. 32, respondeu em francês. (Neste momento pedi ajuda aos comensais para a tradução) Contei as cervejas e pedi aquela. Cada um do casal também pediu a sua, eles obviamente já iniciados na arte de escolher uma cerveja belga. Em pouco tempo, tínhamos as três cervejas na mesa. Uma estava inclinada como um champanhe, as outras duas em pé. Cada marca de cerveja tinha uma  garrafa diferente, copo personalizado com nome e formato específico e era servida de uma certa maneira, tudo descrito no rótulo. Olhei boquiaberto todo o ritual. Finalmente, brindamos e bebemos. Era muito boa mesmo. Depois pedi uma outra, também boa. Fomos embora e, no caminho, compramos mais umas 5 pra beber em casa. Eu imaginava quantos copos cada bar não teria e a organização entre copos e cervejas. Perdi alguns bons minutos divagando sobre o assunto.

Chegando em casa, o cara me mostrou uma de suas aquisições: The Bible of Belgian Beers (A bíblia das cervejas belgas) ou algo assim, escrito por um expert que se chama Michael Jackson (!), um best-seller no país. Era uma edição bilíngue, em francês e inglês, contendo detalhes de provavelmente quase todas as cervejas que são produzidas no país, incluindo o tipo de copo que se usa. Lendo a tal Bíblia, descobrimos o formato do copo que se usa com aquelas que compramos e ele foi, com a maior calma, procurar na sua coleção de copos aqueles mais parecidos! Esse é profissional, pensei. E eu que pensava que ter 3 tamanhos diferentes de caneca na estante já tava bom. O cara tinha mais de vinte copos ali, dos mais variados formatos. Achou 3 parecidos e fomos degustar e conversar sobre várias coisas, quase todas elas se referiam à cerveja.

Dormi feliz.

No dia seguinte me despedi dos meus anfitriões, aluguei uma bicicleta pública* e fiz um passeio maior pela cidade, tirei várias fotos (é como uma punhalada, cada volta que me lembro) antes de voltar ao aeroporto, recuperar minha mochila e seguir até a capital das loiras e da Escandinávia. E também da Suécia.

Em Estocolmo eu dormiria em um barco. E as loiras belgas, no seu mais formoso teor alcoólico, me diziam que a viagem estava muito boa, apesar de apenas ter começado.

* Nas grandes cidades européias existem bicicletas públicas disponíveis. Na Bélgica você paga uma quantia baixa (menos de 10 euros) por um dia, com cartão. Se você não devolver a bicicleta, eles te debitam 150 euros. Já em Copenhagen basta uma moeda de 20 coroas pra poder pegar uma (menos de 5 euros). E o mais interessante é que ninguém rouba elas.

Continua no próximo post.

5 comentários:

  1. voce ja me convenceu de qual o primeiro lugar que devo conhecer da europa
    boa historia
    me fale que dia saiu sua materia no jornal gersao

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  2. Uau... Fiquei surpresa por existir tantos tipos de cerveja num lugar só! Aguardo mais relatos da sua viagem. Um abraço!

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  3. bah... e eu que pensava que o país da cerveja era a Alemanha...me surpreendi com a Bélgica...

    pra quem é grande admirador da bebida... é o paraíso então...hehe...

    pow... legal o lance das bicicletas hein... mas imagina implantar isso aqui no Brasil... nussa... acabava em um dia...

    bom... vou esperar a continuação...

    abraço ae manolo!

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  4. O relato está delicioso. E só pra avisar Blumenau já tem um sistema de bicicletas públicas.

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