segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE I - Perdido no meio do nada

Algumas fotografias dos Alpes, foram suas últimas visões. Depois, fechou os olhos para sempre e ninguém mais a viu. Tinha sido uma ótima companhia nessa viagem, embora sempre calada. Possuía um olhar curioso e uma memória muito boa, capaz de recordar quase imediatamente os principais pontos turísticos que visitamos juntos. Nos separamos no caminho para a Suíça. Os últimos dias tinham sido muito cansativos, e sinto-me um pouco culpado por tudo o que aconteceu.

Lembro-me que no último dia em Praga saí à noite sem ela, e voltei muito tarde, bêbado, nem a olhei direito antes de me jogar na cama. No dia seguinte precisávamos ir cedo pegar o trem pra Munique, de onde algumas horas mais tarde, entraríamos em outro para Salzburg na Áustria e depois de um dia inteiro viajando de ressaca, poderíamos enfim descansar em um trem noturno com camas, que no final nos deixaria em Zurique, a apenas uma hora de Berna, a capital da Suíça, último destino antes de voltar à Itália.

Tudo parecia simples e tranquilo, como foi toda a viagem até ali. À meia-noite e quinze o trem deveria parar em Salzburg. Nesse horário ele parou, e descemos. Fui diretamente procurar o trem noturno, mas não existia. Não existia porque ali não era Salzburg, era Freilassing, uma cidadezinha no meio do nada. Quando me dei conta disso, o trem já se movia e a única coisa que pude dizer foi "Scheisse!", que em alemão quer dizer merda. Ela permaneceu imóvel. No cartaz com o horário dizia que em meia-hora partiria outro trem e com muita sorte, se o trem em Salzburg atrasasse, poderíamos ainda fazer a conexão. Esperamos.

Passaram-se 40 minutos e nada. Um pouco nervoso, fui confirmar no cartaz se eu tinha visto o horário correto, foi então que descobri que este trem passava somente aos sábados. "Merda!" gritei com o meu já deteriorado português. O silêncio dela, nesse momento pareceu-me de desdenho, reprovação pelos últimos acontecimentos, mas preferi não comentar, não resolveria nada naquele momento delicado.

Depois de 14 dias de tranquilidade na viagem, foi a primeira vez que me senti sem saber o que fazer, perdido no meio da Europa. O próximo trem pra Salzburg seria depois das 5 da manhã. Dormir na estação era uma opção, mas destruído como eu estava, precisava de uma cama confortável. Fomos então ao redor da estação à procura de um hotel. Depois de quase uma hora, encontrei dois, um ao lado do outro, mas estavam completos. Ou pelo menos foi o que me disseram. Desisto, vamos pra estação e dormimos lá, pensei.

Chegando ali, com minhas duas mochilas que pareciam querer me esmagar sob seus pesos, vejo de relance um táxi. Era só o que faltava, alucinações, pensei. Mas não, era um táxi, e este táxi nos levou à Salzburg. Embora fosse muito tarde para pegar o nosso trem noturno, Salzburg é uma estação grande e dali seria mais fácil - como realmente foi - achar um trem que fosse em direção a Zurique. Às 4h30 sairia um para Innsbruck, ainda na Áustria, que meu mapa indicava ser a alternativa mais lógica para alcançar a famosa cidade suíça.

Sem poder dormir muito, chegamos a Innsbruck pelas 8h. Dali foi fácil: até Zurique teríamos que mudar de trem somente três vezes e, com muita sorte e nenhum atraso, a estação de Zurique seria pisada por meus pés às 13h23, de onde eu pegaria o primeiro trem pra Berna, onde efetivamente cheguei, pelas 16h. Sem dormir quase nada em dois dias.

Foi nesse caminho de pequenos cochilos, que mais me cansavam que repousavam, trocas de trens e fotos dos Alpes que ela teve sua última visão. Um pico altíssimo, circundado por um grande lago. Muito bonito. Nesse vai e vem, dois dias sem dormir, eu a perdi. Ou a roubaram. E todas as fotos que tirei com ela de uma hora pra outra também se escafederam. "Mierda!" disse em espanhol, quando descobri o acontecido, já chegando em Berna. Mas eu estava muito cansado pra me preocupar com aquilo. Queria somente dormir.

Enquanto eu caía no sono, lembrei da nossa jornada, com ela, minha nova câmera fotográfica, que eu havia comprado exclusivamente para a viagem, e que agora me havia abandonado pra sempre. Dormindo, revivi os nossos melhores momentos, 14 dias antes, quando pegamos o avião em Pisa e aterrissamos na Bélgica, a terra das cervejas.

Continua no próximo post.

3 comentários:

  1. bah... como é que tu desce do trem sem nem saber se é o lugar certo? asuhasuahsuhas...

    vai ver foi por isso que ela te abandonou... hehehe

    mas que nada... vai que ela volte... hehe

    esperando a continuação!

    Abraço ae manolo!

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  2. Leia Assim falhou Zaratrusta e aprenda a falar merda em vários idiomas.

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