sábado, 20 de outubro de 2007

Waking Life

Eu me via no espelho e me achava tão normal. Aquele rosto desconhecido era comum, prosaico, vulgar. Não bastasse ter de reconhecer-me diariamente, ver-me ali, em frente a mim, com os olhos curiosos, tentando achar alguma coisa que me diga que sou eu este ali, ó, outrossim era preciso esconder-me para não ser tão facilmente reconhecido.

O alvorecer era um desafio diário. A batalha iniciava-se nos sonhos pitorescos e lúcidos, cruéis e ardis armadilhas. Os incautos ali fenecem fácil e rapidamente. Tendo apenas a matéria viva do sonho como limite ou escafandro, sucumbir ante o próprio abismo é de tal maneira tão simplório - e ao mesmo tempo, exatamente por causa dessa simplicidade, tão confuso - que perder o controle da própria imaginação, o que poderia de certa forma criar-nos mundos fabulosos, nos torna vítimas supérstites do engodo pessoal de cada um.

Não falo aqui como autoridade, mas um mero curioso que vez ou outra viaja pelas dimensões maravilhosas dos sonhos. Nessas incursões, deparei várias vezes com vontades próprias não personificadas num corpo, mas etéreas, muito embora pudessem ser tocadas. Hostis quase todas. Deste contato não havia diálogos. A comunicação era sensorial e incrivelmente era-se possível saber, apenas pelo tato, se as vontades me viam como um intruso ou um visitante, e daí sentia em mim mesmo, no sonho, como reagiam, como se conversassem sem sons, sem gestos, sem nada.

As possibilidades se multiplicam e o curso da história e seu discurso se enveredam por outros caminhos nunca dantes atalhados. O atalho sempre nos leva antes ao fim do caminho. A dúvida que no ar paira é que ninguém sabe ao certo se chegar antes ao fim é um bom negócio.

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- Super perfundo no amanhecer antecipado do seu dia.
- O que significa isso?
- Nunca consegui entender. Talvez você consiga.
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