quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Maddening sameness

Eu poderia ficar aqui por linhas e linhas traduzindo outros textos do mestrado; neste momento, aliás, eu deveria estar estudando teorias, lendo livros (e trechos deles), procurando palavras desconhecidas no dicionário como "skeezed", "swagman", "saddle-strap", passando para o computador as anotações que fiz na última aula; eu poderia discorrer nesse espaço como achei interessante a expressão "maddening sameness" de um conto não menos interessante do autor australiano Henry Lawson, e como essa expressão (que significa algo como monotonia enlouquecedora, mas com mais estilo) traduz em duas palavras um estado de espírito incrivelmente comum nessa nossa era incrivelmente atípica e transbordante de novidades e informações - e por causa disso, paradoxalmente, monótona; Eu poderia excrusive estar perdendo meu já escarso tempo no orkut, mas decidi falar de Jeanne.




Sim, Jeanne é seu nome. A conheci em março, logo que cheguei no hotel, e cruzo com ela todo dia de trabalho. Com esse nome, provavelmente nao é italiana. Não sei sua nacionalidade e creio que mesmo se eu perguntasse, não me responderia.

Jeanne tem feições finas, cabelo liso levemente ondulado e està sempre usando um coque. O olhar fixo é curioso, mas não menos cativante. Não esboça nunca um sorriso. Nunca ouvi sua voz. Mas está sempre ali, ao lado dos clientes que tomam o café da manhã, no primeiro andar deste velho hotel de Pisa.

Pensei em perguntar aos outros colegas sobre Jeanne, mas seria muita indiscrição da minha parte. Talvez nem mesmo eles saibam como ela veio parar ali no hotel. Na verdade, parece que todos estão abituados a sua presença, menos ela mesma. E eu.

Ontem decidi encará-la. Eu estava de pé em sua frente, olhando fixo nos seus olhos. Não esboçou reação. Perscrutei-a, insisti. Passei a mão em seu rosto, mas era frio, e essa frieza eu não esperava. Olhei ao redor e procurei seguir seu olhar, tentando identificar o que buscava com incansável insistência. E exatamente nessa direção fica uma das paredes da sala. Relutantemente, desisti.

Hoje vindo de novo ao trabalho, ali estava Jeanne. Desta vez eu que a ignorei. Quando às 3h da manhã fui fazer a ronda pelo hotel, passei ao lado do meu já velho conhecido e (posso dizer) grande amigo, busto de Dante. Depois de cumprimentá-lo como sempre fazemos (cito um verso aleatório da Divina Comédia, ele complementa e damos boas risadas, grande figura), percebi que meu amigo está posicionado exatamente atrás da parede que Jeanne insiste em mirar, com inesgotável ânsia. Jeanne, oh Jeanne, pequena e inocente criatura, todos esses meses (seriam, talvez, anos?) procuras simplesmente o contato com o "sumo poeta"? Saberás tu que ele percorreu o purgatório, os céus e o inferno em busca de sua amada Beatriz? Saberás tu que ele é oficialmente comprometido, ou seja, sem chance mulher!? Saberás tu?

Perguntei a Dante o que acontecia e ele, com aquela sua abitual carranca, respondeu que não gosta de tocar no assunto porque Beatriz é muito ciumenta. Mas ao pronunciar essas palavras, percebi um leve sorriso, como o da Gioconda, no canto da boca. "Ah, garanhão", eu disse em latim com uma leve cotovelada no seu ombro, e voltei pra recepção. "Esse Dante é uma comédia!" pensei rindo, enquanto descia as escadas.

Posso imaginar o que acontece a essas horas da madrugada lá em cima, quando o busto de Dante fica sozinho com o busto de Jeanne, sem o fantasma de Beatriz por perto. Curiosamente, no hall do hotel tem um outro busto de mulher, mas essa não tem nome. Também é bela, e seus olhos semi-cerrados fitam o chão, como se os desviasse por qualquer motivo. A cabeça volta-se levemente para seu ombro direito, como se uma forte desilusão a tivesse acometido. Como se, além da impossibilidade do movimento, sua tristeza perene tivesse origem na decepção e no amargo sabor que somente um ser humano tem ao descobrir-se traído por seu verdadeiro amor.

Eis que encontro Beatriz.

6 comentários:

  1. Esse ficou bom hein
    esse Dante é uma comédia, mas acho que não chega ser divina
    aoo fiao

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  2. Gostei da novidade do blog, um perfil mais artistico. :)

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  3. Primeiro, se te ajuda, arrisco a tradução das palavras:
    skeezed - zé do boné
    swagman - zeca do boné
    saddle-strap - streap tease, ou, em bom português, tirar a roupa sexyamente.
    Já sobre a Janne (é janne?), bom, esse é o nome da minha sogra, portanto, vou me abster de comentários para evitar futuras complicações...
    E se ver a Beatriz de novo, manda um beijo para ela, mas não conte ao Dante! abraço alemão! Porra!

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  4. Meu seu blog é espetacular, show, not°10 desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos
    e da sua família
    Um grande abraço e tudo de bom
    Ass:Rodrigo

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  5. Adorei o texto! Paixões platônicas, amor não correspondido... Deu pena da Beatriz.

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