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domingo, 11 de setembro de 2011

A vida embaçada

Muitos anos atrás eu li alguma coisa a respeito de teorias literárias e métodos narrativos, não me lembro onde nem o autor. Mas era um livro (ou um artigo ou um site na internet) que listava os métodos conhecidos de narrativa e dava exemplos de livros e autores famosos que o utilizaram. Um desses livros era "Se um viajante numa noite de inverno" do Italo Calvino e me chamou muito a atenção por ser um dos livros que usam a narração na segunda pessoa. À época eu não consegui sequer imaginar como poderia ser feita uma narrativa desta forma, e fiquei com aquela pulga atrás da orelha.

E a pulga, durante todos esses anos, coçou muito. Volta e meia eu tinha que me lembrar de ler tal livro. Eis que, após minha  mudança para a cidade mais líquida do Brasil, descobri aqui perto da minha casa várias coisas, como supermercado, fruteira, ponto de ônibus, estádios, padarias, bares, universidades, cursos e, também, a biblioteca municipal. Lá fomos nós, eu e a pulga, conhecer o local.

Fiquei impressionado com o tamanho do local: minúsculo. Pouquíssimos livros, o que demonstra que ninguém mais se interessa por essas coisas antiquadas cheia de letras. Nem eu, que confesso diminuí muito a quantidade de leituras. Mas graças à pulga, lembrei-me na hora do livro e o peguei.

Após quase 2 meses, a pulga merece vários aplausos e agradecimentos. Ela, envaidecida e tímida, aceita. Calvino é um dos grandes escritores italianos do século XX e um dos mais criativos do mundo. A pulga, com curiosidade, leu muito mais rápido o livro, e me incentivava a terminá-lo. No final consegui, mas não me animei a escrever nada, então a pulga fez uma pequena resenha, que eu iria reproduzir aqui, mas com a chuva torrencial dos últimos dias a umidade relativa do ar ultrapassou os 100%, molhando o manuscrito do inseto.

Nesses dias de chuvas intensas qualquer movimento que eu fizesse tinha a resistência similar à da água. Eu me sentia em uma piscina 24h por dia, as pessoas estavam esverdeadas, como que nascendo musgos e líquens em suas peles. Me senti um dos Buendía na Macondo de García Márquez, durante a chuva que durou mais de 4 anos.

(A pulga me pede nesse momento pra recomendar o livro do Calvino. Tudo bem, eu recomendo.)

Nadando pelas lojas centrais da cidade-água, descobri um sebo onde encontrei um dos outros grandes escritores que gosto pacas, o Fonseca, Rubem. Além de ser um dos fodões da literatura brasileira é um grande criador de títulos. "Vastas emoções e sentimentos imperfeitos" é o nome do romance que, como tudo que vem de Fonseca, é cru, sem meias-palavras, sem pedir licença. Acontece e pá pum. Fonseca não justifica nada, seus personagens não justificam nada e tudo flui como água para a imensidão do mar.

Outro livro do Fonseca cujo título é bom, porém ainda não lido pela minha pessoa, nem pela pulga, é "E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto". Tenho aqui em minha estante uma coletânea de contos e o romance "Diário de um fescenino", mas já li vários outros e como o Calvino, a pulga também recomenda.

Após ter saciado a vontade da pulga em recomendar livros e autores, coisa que eu acho meio chato, me ne vado, que hoje tenho que pegar um pouco de sol, coisa rara aqui, na cidade molhada.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os prazeres dos danados

 Não me lembro extamente quando ouvi falar de Henry Charles Bukowski pela primeira vez, nem a primeira coisa que li dele. Com certeza foi entre 1998 e 2003, quando o dito já estava morto (isso em 1994). Tenho alguns livros seus, todos em português, todos em prosa. 

Me lembro que cheguei a criar, durante a faculdade, a década Bukowski, que se não me engano deve terminar em 2014. A data certa será relembrada no momento justo e oportuno.

Uma vez achei um livro que me chamou a atenção pela capa, e em algum poema perdido pelos blogs da vida eu o citei como uma "garrafa de Bukowski 25 anos".Trata-se de um livro bilíngue, ou seja, original em uma página, tradução na seguinte. A tradução era uma porcaria, e isso eu consegui identificar ainda àquela época, muitos anos antes de resolver fazer essa doideira que é o mestrado em tradução que to fazendo. E o título obviamente é passível de objeções. 25 melhores poemas na opinião de quem, cara-pálida?

Mas foi o primeiro contato com as poesias Bukowskianas. Que eu gostei, claro. Mesmo porque, até então, só havia lido as prosas em que ele mesmo se auto-declarava um poeta. Mas um poeta sem livros traduzidos pro português (pelo menos eu nunca tinha achado um, com exceção deste infeliz exemplar já comentado). E o que achei mais interessante em suas poesias, além da melancolia, é uma característica estritamente estética, que consiste em mudar de linha em um ponto não comum da frase, quebrando o ritmo, deixando a leitura como as vidas ali retratadas, tortas e mancas, deixando as palavras que finalizam essas mesmas frases sozinhas, como ele, o poeta misantropo.

Eis que, aqui na Itália, enquanto passeava por uma livraria virtual, achei algo que não pude resistir, e comprei. Uma seleção de poemas do grande poeta das garrafas, do turfe, das mulheres e da solidão, de 1951 a 1993. Embora não seja do Paulo Leminski, o livro é um catatau: 557 páginas contendo em torno de 270 poesias, no original em inglês, sem aquelas traduções sem-graça pra encher o saco. Duzentos e setenta poemas. Pouco, quase nada, se compararmos com as mais de mil poesias que a Wikipedia afirma que ele escreveu (não custa relembrar ao leitor desavisado que o prêmio nobel José Saramago também consulta esta grande obra virtual da sabedoria, como comprova esse post no seu blog oficial, o que sempre a nós, meros mortais, libera a consciência de eventual culpa ou preguiça).

O nome do livro do Buk, pra quem se interessar, é The pleasures of the damned, que eu traduziria em um primeiro momento como "Os prazeres dos danados", embora o damn em inglês tenha também outras acepções tenuamente diversas desta, mas enfim, discutir o título não levará a lugar nenhum, pelo menos nesse momento. 

Enfim. Charles Bukowski é aquele que, como Dalton Trevisan, Pedro Juan Gutierrez, Rubem Fonseca e outros mais nos fazem lembrar que a vida não é essa coisinha bela que muitos queriam que fosse. Que se você não ficar esperto, a vida te aniquila como eu aniquilei nesse momento um mosquito com meu dedo.

Aí embaixo, um dos poemas, traduzido por mim:



Seguros

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
ambos marido e mulher acordam cedo e
vão ao trabalho.
chegam em casa no início da noite.
têm um pequeno menino e uma menina.
pelas 21h todas as luzes na casa
se apagam.
na manhã seguinte ambos marido e
mulher acordam cedo de novo e vão ao
trabalho.
retornam no início da noite.
pelas 21h todas as luzes se
apagam.

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
as pessoas são boas pessoas, eu
gosto deles.

mas sinto que estão se afogando.
e não posso salvá-los.

eles sobrevivem.
eles não são
sem-teto.

mas o preço é
terrível.

às vezes durante o dia
eu olho para a casa
e a casa olha para
mim
e a casa
chora, sim, é verdade, eu
sinto isso.

a casa está triste pelas pessoas que ali
moram
e eu também
e olhamos um ao outro
e carros passam pra lá e pra cá
na rua,
barcos atravessam o porto
e as altas palmeiras cutucam
o céu
e esta noite às 21h
as luzes se apagarão,
e não somente naquela
casa
e não somente nesta
cidade.
vidas seguras se escondem,
quase
paradas,
a respiração dos
corpos e pouco
mais.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Sobre coelhos e cajados

Nada que suponho conhecer parece-me verdade. O diálogo:
Hot guns and cold cold night

O diálogo. Sobretudo agora, quando Débora ao longe, em minhas memórias, acenou-me sua tristeza. Débora foi a primeira pessoa a quem amei realmente. Sempre tento colocá-la em meus contos, mas nunca parece natural o suficiente o nome Débora. Talvez porque a história não esteja sendo contada de maneira natural, talvez isso. O diálogo:

“Bom dia.”

Sempre fico em dúvida de como começar um diálogo, se com aspas ou travessão. Saramago inovou, seus diálogos separam-se por vírgulas, num mesmo parágrafo:

A manhã estava clara quando Joaquim disse, Bons dias Maria, no que ela lhe respondeu, Bons dias, Manoel.

Rubem Fonseca não usa exclamação em suas frases. Nunca. Mesmo as mais desesperadas, aos berros, não possuem o alarmante “!”. Concordo com ele. Voltemos ao diálogo:

Lilith, pelos campos verdejantes, saltitava e cantarolava sua música preferida, chacoalhando a longa cabeleira negra, assoviando, agitando os braços. “Six six six, the number of the beast”. Nada mais puro que um heavy metal.

Kerouac carregava seus livros com adjetivos mil, um atrás do outro, sem muita ordem. Há uma linearidade, contudo, que prende o leitor, pois seguimos os caminhos do pensamento, sem esbarrarmos em formalidades demasiadas. Talvez uma forma de entrarmos na cabeça do autor. A pontuação formal, se considerarmos sob certo viés “conservador” - não arrumei melhor adjetivo - molda o leitor à história. Ou talvez eu esteja divagando. Engraçado eu ter falado em diálogo, muito embora, até agora, necas de pitibiribas. Minto. Olhá lá ele:

- Te conheço de algum lugar, garota.
- Não sei donde possa conhecer-me. Eu não existo.

Primeiro clichê: surpreender o leitor no início do diálogo. Logo de cara ele percebe que se passa algo unnatural, não existe. A partir daí começa a supor teorias, será um fantasma, a consciência, ou, como em Ítalo Calvino, simplesmente alguém que não existe mas, ainda assim, convive naturalmente com as outras pessoas. Cabe ao autor manter a emoção dessa novidade até o final, criando sempre, e cada vez mais, situações inusitadas. Primeiro, por si só, criará empatia com o leitor, afinal, quem não gosta de dar risadas? Segundo, situações desconexas não necessitam ter tanta semelhança com a realidade, permite mais liberdade. Mais fácil para o autor e entretém o leitor. Dois Paulos Coelhos numa cajadada só. Enfim:

- ... Eu não existo.
- Sei, conta outra.
- Assim como é difícil você acreditar, é difícil para eu provar. Não posso manifestar-me, não posso mover objetos. Sabe lá como, de alguma forma, ainda consigo manter um diálogo, mas isso, como você mesmo objetou, não é prova suficiente.

Nessa hora, Saramago interviria na narração para supor que o leitor está duvidando da veracidade da trama, procurando erros formais e lógicos, mesmo num texto ilógico, e justificando-os. Borges, ao contrário, no conto em que ele se encontra consigo mesmo, põe em dúvida a veracidade da história através do diálogo dos dois Borges de maneira tal que, no final, sabe lá como, ficamos ainda em dúvida se não haveria acontecido o tal encontro. É um tipo de descrição e de diálogo incrivelmente natural. O mesmo acontece com García Márquez, porém de uma forma mais bucólica.


Outro dia continuo essa brincadeira de análise literária.

sábado, 1 de setembro de 2007

A década Bukowski

Saúdo Charles Bukowski. Porque é a vida sem frescuras que imaginamos ter. Porque é ser seco com outros, sem se importar, como gostaríamos de fazer. Porque o desprezo exercitado continuamente nos traz um ceticismo incomparável. Porque o ceticismo é uma virtude que nos vale por toda a vida, um aprendizado contínuo da natureza humana, um perceber de detalhes indescritível.

Saúdo Bukowski. Como também o faço a John Fante, que mostra as fraquezas tragicômicas da juventude, e o ridículo nosso de cada dia é também uma aula que não se pode desperdiçar. A raiva de nosso ridículo é um motor impulsionando nossas vidas. Para mais situações ridículas, mas ainda assim um motor.

Saúdo Mr. Salinger, o recluso. Saúdo Pedro Juan, o Gutiérrez. O grotesco, o cru, o inenarrável, o deplorável: detestável e excitante, estímulo e ojeriza, tentação e nojo, paixão, ódio e desprezo. Asco.

Saúdo Rubem Fonseca, o mestre.

Saúdo enfim todos os anjos e demônios que me acompanham nessa década. Por que haverá um fim (sempre há de ter) para toda obra literária. Há data e hora, mas ainda não há local.

No dia 22 de abril de 2014 às 23h59 encerra-se a década e a ressaca contínua, e saudarei a meus mestres com muita gratidão. A partir daí, vida nova. Seja lá o que isso quer dizer.

sábado, 25 de novembro de 2006

O Caso Morel - Rubem Fonseca


"Suspeito que o universo não é apenas mais estranho do que supomos - é mais estranho do que somos capazes de supor"

Eu recomendo.