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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Regina


O desaparecimento de Regina foi um baque para todos nós. Nos reuníamos quase toda semana, cinco a sete pessoas, para bebermos e comemorarmos nossa amizade. Regina sempre fora a mais reservada do grupo, só se soltava depois de beber algumas doses, mas era divertidíssima. De poucas e certeiras palavras, era impossível não se impressionar com a acuidade de sua inteligência. Vez ou outra, devido a alguns remédios que alegava tomar para combater dores insuportáveis na coluna, Regina ia a nossos encontros e não bebia. Já nos acostumáramos a isso depois de anos. A última vez que a vimos ela não bebeu.

Foi um mês sem sua presença e começamos a nos preocupar. Karla era a única da turma que sabia onde Regina morava e propôs que fôssemos visitá-la no fim de semana seguinte. Todos aceitamos e brindamos a ela.

No sábado pela manhã fomos a seu prédio. Não havia porteiro e ninguém respondia ao interfone. Por sorte um morador saiu instantes depois e conseguimos entrar. Encontramos a porta entreaberta e, após tocarmos a campainha, entramos. A sala estava vazia, sem mobília, sem nada. A poeira que se acumulava no assoalho era espessa e parecia de meses. Não havia pegadas ou rastro de móveis arrastados. Simplesmente abandonado. Senti um frio na espinha e todos pressentimos que algo estranho estava para ocorrer.

Queríamos apenas ir embora. Contudo estávamos imóveis. Era certo que não havia mais ninguém além de nós, mas tive a intolerável certeza de que Regina ali estava. Era possível sentir uma presença etérea, difusa, como se preenchesse a sala inteiramente e se unisse ao ar de alguma forma, tornando-o espesso. Nossos movimentos cada vez mais lentos e desesperados pareciam presos, de tal forma que nos sentíamos em câmera lenta, tentando fugir de algo invisível contudo aterrorizante, como nas vãs tentativas de fugas em meus piores pesadelos. E como esse desespero não fosse suficiente para deixar-nos inertes, Regina materializou-se subitamente e o ar voltou ao seu estado físico natural. No entanto o terror que nos acometeu impôs-se sobre nossa vontade, que ordenava a fuga, e somente pudemos sentir o alívio de não estarmos mais presos ao ar espesso e pegajoso. Não havia como reagir, o medo em situações subitamente desconhecidas é como um paralisante. Mesmo o mais forte e emocionalmente controlado dos seres humanos, diante do oculto e do imprevisível, sente-se acuado, perde o controle de seus atos e pensamentos.

Regina parecia querer vingar-se de nós por algum motivo, mesmo sendo todos seus amigos e incapazes de fazer algo que pusesse em perigo a vida de qualquer um de nós, inclusive a dela. Sua face deformada transbordava ódio. Embora fosse possível ter certeza de sua identidade, ela parecia não reconhecer-nos. Pairando a meio metro do chão, assemelhava-se a um animal prestes a destroçar sua presa. Havia Regina e seu corpo, mas não havia alma, nem discernimento entre bem e mal.

Subitamente, como um tigre, Regina investe em nossa direção. A certeza da morte vem como o sopro de uma ventania, acompanhada de um terror lívido que nos obriga a comprimir com força nossos olhos, rezando ardentemente para que possamos acordar de mais este pesadelo.

Regina dissipa-se. Silêncio.
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Texto meu, de 2004 ou 2005, inscrito inutilmente em vários concursos

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os prazeres dos danados

 Não me lembro extamente quando ouvi falar de Henry Charles Bukowski pela primeira vez, nem a primeira coisa que li dele. Com certeza foi entre 1998 e 2003, quando o dito já estava morto (isso em 1994). Tenho alguns livros seus, todos em português, todos em prosa. 

Me lembro que cheguei a criar, durante a faculdade, a década Bukowski, que se não me engano deve terminar em 2014. A data certa será relembrada no momento justo e oportuno.

Uma vez achei um livro que me chamou a atenção pela capa, e em algum poema perdido pelos blogs da vida eu o citei como uma "garrafa de Bukowski 25 anos".Trata-se de um livro bilíngue, ou seja, original em uma página, tradução na seguinte. A tradução era uma porcaria, e isso eu consegui identificar ainda àquela época, muitos anos antes de resolver fazer essa doideira que é o mestrado em tradução que to fazendo. E o título obviamente é passível de objeções. 25 melhores poemas na opinião de quem, cara-pálida?

Mas foi o primeiro contato com as poesias Bukowskianas. Que eu gostei, claro. Mesmo porque, até então, só havia lido as prosas em que ele mesmo se auto-declarava um poeta. Mas um poeta sem livros traduzidos pro português (pelo menos eu nunca tinha achado um, com exceção deste infeliz exemplar já comentado). E o que achei mais interessante em suas poesias, além da melancolia, é uma característica estritamente estética, que consiste em mudar de linha em um ponto não comum da frase, quebrando o ritmo, deixando a leitura como as vidas ali retratadas, tortas e mancas, deixando as palavras que finalizam essas mesmas frases sozinhas, como ele, o poeta misantropo.

Eis que, aqui na Itália, enquanto passeava por uma livraria virtual, achei algo que não pude resistir, e comprei. Uma seleção de poemas do grande poeta das garrafas, do turfe, das mulheres e da solidão, de 1951 a 1993. Embora não seja do Paulo Leminski, o livro é um catatau: 557 páginas contendo em torno de 270 poesias, no original em inglês, sem aquelas traduções sem-graça pra encher o saco. Duzentos e setenta poemas. Pouco, quase nada, se compararmos com as mais de mil poesias que a Wikipedia afirma que ele escreveu (não custa relembrar ao leitor desavisado que o prêmio nobel José Saramago também consulta esta grande obra virtual da sabedoria, como comprova esse post no seu blog oficial, o que sempre a nós, meros mortais, libera a consciência de eventual culpa ou preguiça).

O nome do livro do Buk, pra quem se interessar, é The pleasures of the damned, que eu traduziria em um primeiro momento como "Os prazeres dos danados", embora o damn em inglês tenha também outras acepções tenuamente diversas desta, mas enfim, discutir o título não levará a lugar nenhum, pelo menos nesse momento. 

Enfim. Charles Bukowski é aquele que, como Dalton Trevisan, Pedro Juan Gutierrez, Rubem Fonseca e outros mais nos fazem lembrar que a vida não é essa coisinha bela que muitos queriam que fosse. Que se você não ficar esperto, a vida te aniquila como eu aniquilei nesse momento um mosquito com meu dedo.

Aí embaixo, um dos poemas, traduzido por mim:



Seguros

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
ambos marido e mulher acordam cedo e
vão ao trabalho.
chegam em casa no início da noite.
têm um pequeno menino e uma menina.
pelas 21h todas as luzes na casa
se apagam.
na manhã seguinte ambos marido e
mulher acordam cedo de novo e vão ao
trabalho.
retornam no início da noite.
pelas 21h todas as luzes se
apagam.

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
as pessoas são boas pessoas, eu
gosto deles.

mas sinto que estão se afogando.
e não posso salvá-los.

eles sobrevivem.
eles não são
sem-teto.

mas o preço é
terrível.

às vezes durante o dia
eu olho para a casa
e a casa olha para
mim
e a casa
chora, sim, é verdade, eu
sinto isso.

a casa está triste pelas pessoas que ali
moram
e eu também
e olhamos um ao outro
e carros passam pra lá e pra cá
na rua,
barcos atravessam o porto
e as altas palmeiras cutucam
o céu
e esta noite às 21h
as luzes se apagarão,
e não somente naquela
casa
e não somente nesta
cidade.
vidas seguras se escondem,
quase
paradas,
a respiração dos
corpos e pouco
mais.