Se um dia o sol surgisse por entre as nuvens, como uma surpresa
A queimar a vida, como outrora a aguardente em minha garganta fazia
O que hoje as estrelas e o vento, nulos, fazem com tamanha beleza
E percebesse o estado em que está relegado, na fria
E crua, ardente e vil estação que – quem diria – arde
Na pele, não obstante o temor da insana selvageria
Se um dia sol, como uma vontade incessante de ser,
No entardecer do caos dos morros que, com alarde,
Quisesse fazer, sabe là como, por merecer
Estes humildes versos ébrios e crus, sem remédio,
Teria, ao menos por educação, maneiras mais gentis
De abordagem, maneiras sutis de espantar meu tédio
Cujas artimanhas e artifícios ardis
Na convulsão do tempo, no caos estático do sublime,
Ecoam no ar, como suspiros senis
Esses ventos e o sol, um dia surgirão
Com pesar no olhar e arrependimentos mil
A implorar, de joelhos, misericórdia e perdão
E lhes direi, do fundo de meu coração,
Com meu mais singelo sorriso, um belo olhar
De abnegada resignação, meu mais profundo e sincero não!
Publicado em 12 de dezembro de 2008
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terça-feira, 18 de maio de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
A mosca e o fogo
A aranha trouxe a teia e mosca à teia veio. Trouxe a aranha a mosca à teia. Pobre mosca! Será o final que veio? Mas a mosca não bobeia, de tanto à teia vir, ateia fogo à teia e à aranha até. Esqueceu-se porém a mosca de que na teia também atada estava ela e tão bem atada que fugir da teia não tinha como. Aranha, mosca? Já era! Como fogo, teia incinerou aranha e mosca e a própria teia. Incinerou-se. Jaziam as cinzas das três atiradas no canto do chão do quarto escuro e flamejante que, por pura falta de noção da mosca, por ora está em chamas.
As chamas chamejantes chamejavam e a chamar ficavam. Chamavam o ar, clamavam por ar, mais ar, precisavam de ar para poder respirar, queimar, incinerar. As labaredas, como lavas recém expelidas de um vulcão ativo, escorriam para os céus, mais alto, mais alto, queimavam as folhas das árvores, as próprias ávores e quem mais desavisado se opusesse ao seu avanço. Lentamente, as labaredas avançavam. Mas eram tantas labaredas a lentamente avançar que rapidamente se alastravam. E não havia extintor que as extinguisse, bombeiros que as bombeassem ou aguás que as esfriassem. O fogo era quente, alto e altivo. Ardia, de volúpia, languidamente, a paixão corava as faces dos transeuntes. O fogo a queimar a vida aos poucos, a intoxicar os pulmões aos tantos e aos montes subindo, cavalgando suas gramíneas prateadas. O vapor emana da fogueira, fogos, fogos, fogões. O amor ao ar, é o fogo.
"De tanto amar e amar,
o que em nós queimar,
é o que nos vai podando.
Amar é libertar,
libertar-se das cinzas,
até ficar o fogo,
o seu trote frondoso,
o fogo, o fogo ainda."
______________________________________________________
Texto: meu
As chamas chamejantes chamejavam e a chamar ficavam. Chamavam o ar, clamavam por ar, mais ar, precisavam de ar para poder respirar, queimar, incinerar. As labaredas, como lavas recém expelidas de um vulcão ativo, escorriam para os céus, mais alto, mais alto, queimavam as folhas das árvores, as próprias ávores e quem mais desavisado se opusesse ao seu avanço. Lentamente, as labaredas avançavam. Mas eram tantas labaredas a lentamente avançar que rapidamente se alastravam. E não havia extintor que as extinguisse, bombeiros que as bombeassem ou aguás que as esfriassem. O fogo era quente, alto e altivo. Ardia, de volúpia, languidamente, a paixão corava as faces dos transeuntes. O fogo a queimar a vida aos poucos, a intoxicar os pulmões aos tantos e aos montes subindo, cavalgando suas gramíneas prateadas. O vapor emana da fogueira, fogos, fogos, fogões. O amor ao ar, é o fogo.
"De tanto amar e amar,
o que em nós queimar,
é o que nos vai podando.
Amar é libertar,
libertar-se das cinzas,
até ficar o fogo,
o seu trote frondoso,
o fogo, o fogo ainda."
______________________________________________________
Texto: meu
Poema final: Carlos Nejar
Publicado em 25 de julho de 2008
Publicado em 25 de julho de 2008
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sexta-feira, 14 de maio de 2010
Eu e meu copo de uísque
Hoje era um dia pra beber. Eu e meu copo de uísque.
A verdade contudo impede. Sexta-feira bebi muito e demasiado rápido. Coisas desse tipo acontecem. Ontem, não fosse uma coca-cola salvadora, não teria sobrevivido das 15h até às 21h. Bebendo.
Chegando em casa, não fossem 2,5l de água antes de dormir, hoje eu estaria terrivelmente em estado letárgico de ressaca acumulada. Ainda assim, hoje era um dia para beber. Eu e meu copo de uísque.
Acordei cedo. O silêncio ao redor, quebrado por vezes pelos pios dos pássaros. Nada fazia sentido. A não ser meu copo de uísque. Que não bebi.
Hoje não fiz muita coisa. Li um livro de contos do Bukowski, o que, por si só, já exige um copo de bebida. Até mesmo um uísque. Fiz um arroz muito sem-vergonha e um bife pra comer. E bebi a coca-cola, sem uísque. À tarde dormi um pouco. Olhava pela janela no horizonte e nada via de interessante. Olhei minha cadela reclusa em seu canto. Acho que ela também precisava de um copo de uísque.
Fucei a internet. Li mais um pouco do Buk, sentado sob o sol das 16h, na grama. Eu e meu copo de água.
Vi um resto do jogo do Grêmio. Uma vitória sem-vergonha. 3 pontos a mais. Desde então ouço aqui neste computador rádios italianas de notícias. Pra acostumar o ouvido. Ontem ganhei uma garrafa de vinho. Sobraram 4 latas de cerveja e um restinho de vodka. A noite caía, ontem. Caiu por terra.
Hoje, jantei às 19h. Jejum de 12h até amanhã de manhã. Regras da minha nova religião. Mas não, esta religião não exige o celibato. Só um copo de uísque.
Daqui a 60 anos, ainda estarei procurando o copo de uísque, pois os uísques são como pensamentos melancólicos. Melancolia de cú é rola. Dizem que em 60 anos os uísques valerão tanto como obras de arte. Lá estarei eu (onde?), a procurar e a me perguntar, como um autômato:
- Em 13 de julho de 2008, onde estava meu copo de uísque?
Acho que a minha cadela bebeu tudo o que restava dele.
Publicado em 13 de julho de 2008
A verdade contudo impede. Sexta-feira bebi muito e demasiado rápido. Coisas desse tipo acontecem. Ontem, não fosse uma coca-cola salvadora, não teria sobrevivido das 15h até às 21h. Bebendo.
Chegando em casa, não fossem 2,5l de água antes de dormir, hoje eu estaria terrivelmente em estado letárgico de ressaca acumulada. Ainda assim, hoje era um dia para beber. Eu e meu copo de uísque.
Acordei cedo. O silêncio ao redor, quebrado por vezes pelos pios dos pássaros. Nada fazia sentido. A não ser meu copo de uísque. Que não bebi.
Hoje não fiz muita coisa. Li um livro de contos do Bukowski, o que, por si só, já exige um copo de bebida. Até mesmo um uísque. Fiz um arroz muito sem-vergonha e um bife pra comer. E bebi a coca-cola, sem uísque. À tarde dormi um pouco. Olhava pela janela no horizonte e nada via de interessante. Olhei minha cadela reclusa em seu canto. Acho que ela também precisava de um copo de uísque.
Fucei a internet. Li mais um pouco do Buk, sentado sob o sol das 16h, na grama. Eu e meu copo de água.
Vi um resto do jogo do Grêmio. Uma vitória sem-vergonha. 3 pontos a mais. Desde então ouço aqui neste computador rádios italianas de notícias. Pra acostumar o ouvido. Ontem ganhei uma garrafa de vinho. Sobraram 4 latas de cerveja e um restinho de vodka. A noite caía, ontem. Caiu por terra.
Hoje, jantei às 19h. Jejum de 12h até amanhã de manhã. Regras da minha nova religião. Mas não, esta religião não exige o celibato. Só um copo de uísque.
Daqui a 60 anos, ainda estarei procurando o copo de uísque, pois os uísques são como pensamentos melancólicos. Melancolia de cú é rola. Dizem que em 60 anos os uísques valerão tanto como obras de arte. Lá estarei eu (onde?), a procurar e a me perguntar, como um autômato:
- Em 13 de julho de 2008, onde estava meu copo de uísque?
Acho que a minha cadela bebeu tudo o que restava dele.
Publicado em 13 de julho de 2008
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sábado, 8 de maio de 2010
A expectativa é a única a esvaecer
E hoje lá ia eu andando por estas ruas, que nos países de fala espanhola são chamadas de calles, e topei com um abstêmio. Me disse - e fez questão de me antes de dizer - que as auréolas hoje são raras e, como um bom taciturno, não se locupletava indistintamente. Sorumbático de espanto, esquizofrenei-o de interrogações exclamativas exigindo melhoras, mas não as obtive. O abstêmio, com aquele ar escalafobético intrínseco àqueles que primam pela excentricidade extrínseca e concêntrica, anatematizou-me e, trêfego, como convém aos abstêmios, exauriu pela fresta à direita.
Com opróbrios nauseabundos, exteriorei minha cólera. Não pude catequizar-me sob tal suspeição. Obcecado, ermo e lúgubre, o vento enlevou minhas memórias a tal ponto que chafurdaram nas lamas do brejo de lava incandescente.
Qüiproquós guincharam desesperados. The return has begun. Por ora, horas não são bem vindas, nem bem vistas. Inebriado pela exasperação do acontecido, entornei a garrafa de Água benta até virar abstêmio.
Fui traído.
Publicado em 28 de março de 2008
Com opróbrios nauseabundos, exteriorei minha cólera. Não pude catequizar-me sob tal suspeição. Obcecado, ermo e lúgubre, o vento enlevou minhas memórias a tal ponto que chafurdaram nas lamas do brejo de lava incandescente.
Qüiproquós guincharam desesperados. The return has begun. Por ora, horas não são bem vindas, nem bem vistas. Inebriado pela exasperação do acontecido, entornei a garrafa de Água benta até virar abstêmio.
Fui traído.
Publicado em 28 de março de 2008
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quinta-feira, 6 de maio de 2010
A terra sem volta
À noite, quando todos os Gattopardos são negros, e a cegueira é luz que guia o reino; quando os postes se apagam e a ilusão retorna; quando o exagero não mais é sentido como um excesso, mas como adendo: nessa hora incerta e obscura, a opacidade surge, enfim, triunfante.
Nessas horas a horda de bárbaros crê na dissonância circunspecta de uma pretensa algazarra, quase um dilúvio, êxtase a reverberar junto aos campos e o concreto. Vejo silhuetas insinuantes, vejo caminhos convexos. O mundo como um astigmatismo.
Pensar, neste momento, é exercício ridículo. As feições de quem pela gente se afeiçoa, como um blended scotch, com o tempo maturam, com o tempo melhoram, com o passar do tempo, se recuperam. O alçar do vôo à quintessência.
As pernas roçam em mim. Aquelas pernas lisas e sedutoras, lascivas, lânguidas, encostam na epiderme em cicatrização. O frenesi, o frêmito do desejo.
Na treva do quarto, o Gattopardo vê. No canto onde a sombra da porta enegrece o mundo. O suspiro.
A procura cessa, por um momento. A eternidade da dúvida ressurge, abarca o pensamento, como um abismo infindo engole, impiedoso, a ansiedade.
O piscar do olho iluminado na escuridão.
Publicado em 26 de janeiro de 2008
Nessas horas a horda de bárbaros crê na dissonância circunspecta de uma pretensa algazarra, quase um dilúvio, êxtase a reverberar junto aos campos e o concreto. Vejo silhuetas insinuantes, vejo caminhos convexos. O mundo como um astigmatismo.
Pensar, neste momento, é exercício ridículo. As feições de quem pela gente se afeiçoa, como um blended scotch, com o tempo maturam, com o tempo melhoram, com o passar do tempo, se recuperam. O alçar do vôo à quintessência.
As pernas roçam em mim. Aquelas pernas lisas e sedutoras, lascivas, lânguidas, encostam na epiderme em cicatrização. O frenesi, o frêmito do desejo.
Na treva do quarto, o Gattopardo vê. No canto onde a sombra da porta enegrece o mundo. O suspiro.
A procura cessa, por um momento. A eternidade da dúvida ressurge, abarca o pensamento, como um abismo infindo engole, impiedoso, a ansiedade.
O piscar do olho iluminado na escuridão.
Publicado em 26 de janeiro de 2008
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terça-feira, 4 de maio de 2010
E assim começa mais um ano
Hoje no 1° dia de 2008 lembrei-me do natal, e um sorriso surgiu espontâneo. Sim, estou muito mal hoje. Mas já estive pior.
*
Acordei com vassouras ao redor. Sensação estranha.
*
Músicas surgem na minha lembrança. Todas elas do Morphine. Um dos versos que ecoam (e ecoa mesmo, porque hj minha cabeça está vazia por opção) e que gosto muito é assim:
you're the night Lilah
you're everything that we can see
Lilah, you're the possibility
*
Possibilidade: Acontecimento ou circunstância possível, que pode ser, ter sido ou vir a ser real.
*
Lilah deve estar se perguntando das circunstâncias. Razões obscuras. Talvez os russos tenham seqüestrado minha memória, mas não fizeram direito a lavagem cerebral, tanto que lembro vagamente de um sobrenome: Smirnoff.
*
Em O castelo dos destinos cruzados, livro de Italo Calvino que li recentemente, pessoas momentaneamente impossibilitadas de falar tentam contar suas vidas por meio de um baralho de tarô. As cartas depositadas contam várias histórias e a cada leitura o significado pode mudar ou ser interpretado de forma diversa. As possibilidades e circunstâncias da vida e sua multiplicidade cabem em apenas um baralho.
*
Se os destinos se cruzam, há possibilidades, mas não certezas. O importante é tentar entender a encruzilhada e lembrar dos bons e divertidos momentos do ano passado. Tentar entender, a minha sina. Mas é como música aos meus ouvidos. Baixo, bateria e sax. Ou uma banda de salsa. Rú!
*
Que 2008 seja pior que 2009 e melhor que 2007. É o que desejo a vocês, meus fantasmas. E também a Lilah.
Publicado em 01 de janeiro de 2008
*
Acordei com vassouras ao redor. Sensação estranha.
*
Músicas surgem na minha lembrança. Todas elas do Morphine. Um dos versos que ecoam (e ecoa mesmo, porque hj minha cabeça está vazia por opção) e que gosto muito é assim:
you're the night Lilah
you're everything that we can see
Lilah, you're the possibility
*
Possibilidade: Acontecimento ou circunstância possível, que pode ser, ter sido ou vir a ser real.
*
Lilah deve estar se perguntando das circunstâncias. Razões obscuras. Talvez os russos tenham seqüestrado minha memória, mas não fizeram direito a lavagem cerebral, tanto que lembro vagamente de um sobrenome: Smirnoff.
*
Em O castelo dos destinos cruzados, livro de Italo Calvino que li recentemente, pessoas momentaneamente impossibilitadas de falar tentam contar suas vidas por meio de um baralho de tarô. As cartas depositadas contam várias histórias e a cada leitura o significado pode mudar ou ser interpretado de forma diversa. As possibilidades e circunstâncias da vida e sua multiplicidade cabem em apenas um baralho.
*
Se os destinos se cruzam, há possibilidades, mas não certezas. O importante é tentar entender a encruzilhada e lembrar dos bons e divertidos momentos do ano passado. Tentar entender, a minha sina. Mas é como música aos meus ouvidos. Baixo, bateria e sax. Ou uma banda de salsa. Rú!
*
Que 2008 seja pior que 2009 e melhor que 2007. É o que desejo a vocês, meus fantasmas. E também a Lilah.
Publicado em 01 de janeiro de 2008
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sábado, 1 de maio de 2010
Dreaming shadows of the past
Sometimes it is incredible. She spinned a web of friendships so thin however intense, as if she wanted to heal deep scars from her past.
There is something of vulnerable in her attitude. Something she wants to hide but she let a tiny piece uncovered for the right people find and finally try to love her.
Her kids are a clue. The several relationships inconcluded. The need of alcohol and parties to forget - or at least to ease - the pains that hurt so deep inside her chest.
The memories alive, come out on her dreams. Sleeping she is helpless, an easy prey. She wakes up sweaty. She needs water. She needs peace.
At the moment, she can never live. She can only think.
Publicado em 29 de dezembro de 2007
There is something of vulnerable in her attitude. Something she wants to hide but she let a tiny piece uncovered for the right people find and finally try to love her.
Her kids are a clue. The several relationships inconcluded. The need of alcohol and parties to forget - or at least to ease - the pains that hurt so deep inside her chest.
The memories alive, come out on her dreams. Sleeping she is helpless, an easy prey. She wakes up sweaty. She needs water. She needs peace.
At the moment, she can never live. She can only think.
Publicado em 29 de dezembro de 2007
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quinta-feira, 29 de abril de 2010
Às margens do rio Piedra...
Foi no raiar do dia, de óculos escuros protegendo-me da sensação sempre incoveniente da luz solar, que percebi a finitude do ser enquanto humano (bonita essa).
Talvez tenha sido o uísque falsificado. Mas a claridez (!) foi tão nítida e, desculpem a redundância, clara, que pensei 'como não tinha percebido tudo isso antes?'
E tudo se fez inteligível repentinamente. Como se fosse um aleph mental súbito. Todas as peças do quebra-cabeças se encaixaram e desfrutei da sabedoria e do sentimento de onisciência que só os sábios possuem, aquela mansidão nos gestos, economia na fala, a exatidão das palavras, a momentânea percepção de tudo que é, foi e será, sua razão, causa e circunstância, início, meio e fim.
A vontade era escrever tudo aquilo, publicar, ganhar o Nobel de literatura, doar o dinheiro a causas sociais e viver eremita em cavernas como Zaratustra mesmo o fez, com minhas mulheres eremitas ao redor, exultando-nos em intermináveis festas e descansos em remansos, observando do alto de nossa montanha como a vida flui aos que não perceberam o óbvio, que resplandece em nossa face diariamente e por estarmos ocupados não nos damos conta do quê, afinal, acontece nessa coisa a que chamamos vida.
Mas como eu estava dirigindo deixei pra escrever em casa, e duas quadras depois eu já tinha esquecido tudo isso e só queria chegar em casa, dormir, e torcia para que meu estômago resistisse bravamente ao uísque falsificado.
Publicado em 10 de dezembro de 2007
Talvez tenha sido o uísque falsificado. Mas a claridez (!) foi tão nítida e, desculpem a redundância, clara, que pensei 'como não tinha percebido tudo isso antes?'
E tudo se fez inteligível repentinamente. Como se fosse um aleph mental súbito. Todas as peças do quebra-cabeças se encaixaram e desfrutei da sabedoria e do sentimento de onisciência que só os sábios possuem, aquela mansidão nos gestos, economia na fala, a exatidão das palavras, a momentânea percepção de tudo que é, foi e será, sua razão, causa e circunstância, início, meio e fim.
A vontade era escrever tudo aquilo, publicar, ganhar o Nobel de literatura, doar o dinheiro a causas sociais e viver eremita em cavernas como Zaratustra mesmo o fez, com minhas mulheres eremitas ao redor, exultando-nos em intermináveis festas e descansos em remansos, observando do alto de nossa montanha como a vida flui aos que não perceberam o óbvio, que resplandece em nossa face diariamente e por estarmos ocupados não nos damos conta do quê, afinal, acontece nessa coisa a que chamamos vida.
Mas como eu estava dirigindo deixei pra escrever em casa, e duas quadras depois eu já tinha esquecido tudo isso e só queria chegar em casa, dormir, e torcia para que meu estômago resistisse bravamente ao uísque falsificado.
Publicado em 10 de dezembro de 2007
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terça-feira, 27 de abril de 2010
O meu abacateiro
Quando eu era criança, lá na década de 80, morava numa bela cidade chamada Panambi, em uma casa sem muros ou grades, numa esquina, coisa quase impensável no Brasil de hoje. Aliás, a última vez que passei em frente a esta casa, já estava devidamente amurada e gradeada.
Nesta minha feliz época, onde trabalhar era algo distante, muito distante, que só viria a conhecer uma década depois, brincar na rua era algo tão natural como atender um celular no trânsito. Lembro que meus vizinhos Cícero e Alan - onde estarão eles hoje? - tinham um quintal com árvores de cinamomo, onde subiámos para pegar aquelas bolinhas que nos serviam de munição.
Mas no meu quintal tinha um abacateiro. Altivo e portentoso, com seus galhos a crescer lateralmente, o abacateiro, apesar do apreço que eu tinha para com ele, nunca nos deu abacates.
Anos se passaram e vim parar no interior do Paraná, onde também plantamos um abacateiro há alguns anos, que desde o ano passado nos poupa de comprar abacates no supermercado. E por poupar-nos desse preço, nosso apreço por ele é imenso como seus ramos. E até maior que pelo abacateiro primordial.
O abacateiro fica ao lado do canil de nossa cadela vira-lata importada de Sertaneja. Sempre achei meio doida essa cadela, seu comportamento não é o habitual aos cães. Hoje descobri a razão de toda esse desvario: há um Aleph no abacateiro.
Para quem não sabe do que se trata o Aleph, aí embaixo menciono ele, num famoso conto de Borges. E para quem está com preguiça de procurar, coloco aqui uma breve síntese do quê, afinal, se trata esse tal de Aleph: “o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos”. Ao mesmo tempo, acrescento eu.
É o mundo inteiro num pequeno ponto luminoso. E o vi hoje à noite, quando ia, rotineiramente, alimentar minha pequenina monstra doida canina. Quando me dirigia até lá, percebi um pequeno ponto luminoso, que nunca antes tinha visto. Voltei, e vi de novo. Era assombroso.
Agora entendo minha pequena cadela, que loucamente latia sempre que alguém se aproximava, como que querendo avisar "olhe ali! é o mundo em nossa frente!", e corria atrás de seu próprio rabo, provavelmente indignada que nenhum de seus donos percebia a imensidão que se encontrava no pequeno ponto luminoso escondido em meio às folhagens do abacateiro.
Estou me decidindo no momento o que faço, se começo a cobrar visitas ou se me deleito solitariamente nesse ínfimo prazer que é conhecer o mundo sem sair de casa. Ficaria certamente rico, se optasse pela primeira. Mas o ser humano é egoísta por natureza. Talvez eu decida ficar pobre e doido, rindo do infinito mundo e sua patética existência. Comendo abacates.
O abacateiro está eternamente condenado à vida. Preciso ir agora. O Aleph me espera.
Publicado em 01 de dezembro de 2007
Nesta minha feliz época, onde trabalhar era algo distante, muito distante, que só viria a conhecer uma década depois, brincar na rua era algo tão natural como atender um celular no trânsito. Lembro que meus vizinhos Cícero e Alan - onde estarão eles hoje? - tinham um quintal com árvores de cinamomo, onde subiámos para pegar aquelas bolinhas que nos serviam de munição.
Mas no meu quintal tinha um abacateiro. Altivo e portentoso, com seus galhos a crescer lateralmente, o abacateiro, apesar do apreço que eu tinha para com ele, nunca nos deu abacates.
Anos se passaram e vim parar no interior do Paraná, onde também plantamos um abacateiro há alguns anos, que desde o ano passado nos poupa de comprar abacates no supermercado. E por poupar-nos desse preço, nosso apreço por ele é imenso como seus ramos. E até maior que pelo abacateiro primordial.
O abacateiro fica ao lado do canil de nossa cadela vira-lata importada de Sertaneja. Sempre achei meio doida essa cadela, seu comportamento não é o habitual aos cães. Hoje descobri a razão de toda esse desvario: há um Aleph no abacateiro.
Para quem não sabe do que se trata o Aleph, aí embaixo menciono ele, num famoso conto de Borges. E para quem está com preguiça de procurar, coloco aqui uma breve síntese do quê, afinal, se trata esse tal de Aleph: “o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos”. Ao mesmo tempo, acrescento eu.
É o mundo inteiro num pequeno ponto luminoso. E o vi hoje à noite, quando ia, rotineiramente, alimentar minha pequenina monstra doida canina. Quando me dirigia até lá, percebi um pequeno ponto luminoso, que nunca antes tinha visto. Voltei, e vi de novo. Era assombroso.
Agora entendo minha pequena cadela, que loucamente latia sempre que alguém se aproximava, como que querendo avisar "olhe ali! é o mundo em nossa frente!", e corria atrás de seu próprio rabo, provavelmente indignada que nenhum de seus donos percebia a imensidão que se encontrava no pequeno ponto luminoso escondido em meio às folhagens do abacateiro.
Estou me decidindo no momento o que faço, se começo a cobrar visitas ou se me deleito solitariamente nesse ínfimo prazer que é conhecer o mundo sem sair de casa. Ficaria certamente rico, se optasse pela primeira. Mas o ser humano é egoísta por natureza. Talvez eu decida ficar pobre e doido, rindo do infinito mundo e sua patética existência. Comendo abacates.
O abacateiro está eternamente condenado à vida. Preciso ir agora. O Aleph me espera.
Publicado em 01 de dezembro de 2007
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Jorge Luis Borges,
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domingo, 25 de abril de 2010
"O que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço"
Enquanto tento retomar o ritmo perdido do mestrado, começo hoje a resgatar textos do limbo do meu antigo Grogue hospedado no Tipos. Grogue este que uso de vez em quando pra treinar italiano, cujo link vocês encontram ali do lado. Do lado direito. Os critérios de escolha são estritamente subjetivos e não é possível recorrer. Se tudo der certo, nada dará errado. Eis o texto:
Com essas palavras Borges inicia o prefácio de seu melhor livro que já li, El Aleph, cujo conto homônimo já havia baixado e lido em espanhol.
Obviamente há coisas chatíssimas como um conto chamado Os Teólogos que quem não for da área não agüenta dois parágrafos sem fazer um esgar de desgosto. Li até o final por teimosia.
O que faz Borges parecer tão bom e suas histórias soarem tão verídicas (ele mesmo conta em seu prefácio a vez que um jornalista perguntou a ele se o Aleph existia realmente) é sua grande erudição e a profusão de citações, que mesmo que quiséssemos não teríamos material para pesquisa para comprovar, num país tão privado do hábito da leitura. Desta forma, ficamos sem saber se as citações são verdadeiras ou não. Algumas o são, e talvez (certamente) ele tenha usado esse artifício justamente para confundir. E consegue.
Mas o que em seus livros me chama a atenção é o fascínio pelos labirintos, pelos sonhos e pelo absurdo. São temas que invariavelmente acabo por ser atraído de alguma forma, e isso certamente reflete no que escrevo, assim como o Bukowski reflete no que bebo, e vice-versa.
Dos 17 contos que compõem o livro, pelo menos quatro, que me lembro, ou aludem a labirintos em sua trama, ou se passam dentro de labirintos. O que mais me chamou a atenção foi o conto "A Casa de Astérion", justamente porque uns dias antes estava lendo algo sobre a mitologia grega, sabe lá porque razões do acaso, e escrevi este texto no meu antigo blog.
A auto referência entre os contos do mesmo livro é também interessante. E O Aleph, na primeira vez que li, apesar da falta de treino do meu espanhol, mostrou-me uma faceta diferente dos contos absurdos e sobrenaturais. Diferentemente de H.P. Lovecraft, cujas histórias sobrenaturais sempre envolvem poderes antigos, ocultos e desconhecidos dos seres humanos, Borges, pelo menos no que li até agora, sempre conta histórias "já relatadas" por outros, repletas de citações, o que de alguma forma as torna mais verossímeis. Raramente é o narrador onipresente e onisciente nosso velho conhecido.
Como sabiamente o próprio Borges disse no chatíssimo texto Os Teólogos: "As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia".
Substitua heresias por contos.
Publicado em 22 de novembro de 2007
Com essas palavras Borges inicia o prefácio de seu melhor livro que já li, El Aleph, cujo conto homônimo já havia baixado e lido em espanhol.
Obviamente há coisas chatíssimas como um conto chamado Os Teólogos que quem não for da área não agüenta dois parágrafos sem fazer um esgar de desgosto. Li até o final por teimosia.
O que faz Borges parecer tão bom e suas histórias soarem tão verídicas (ele mesmo conta em seu prefácio a vez que um jornalista perguntou a ele se o Aleph existia realmente) é sua grande erudição e a profusão de citações, que mesmo que quiséssemos não teríamos material para pesquisa para comprovar, num país tão privado do hábito da leitura. Desta forma, ficamos sem saber se as citações são verdadeiras ou não. Algumas o são, e talvez (certamente) ele tenha usado esse artifício justamente para confundir. E consegue.
Mas o que em seus livros me chama a atenção é o fascínio pelos labirintos, pelos sonhos e pelo absurdo. São temas que invariavelmente acabo por ser atraído de alguma forma, e isso certamente reflete no que escrevo, assim como o Bukowski reflete no que bebo, e vice-versa.
Dos 17 contos que compõem o livro, pelo menos quatro, que me lembro, ou aludem a labirintos em sua trama, ou se passam dentro de labirintos. O que mais me chamou a atenção foi o conto "A Casa de Astérion", justamente porque uns dias antes estava lendo algo sobre a mitologia grega, sabe lá porque razões do acaso, e escrevi este texto no meu antigo blog.
A auto referência entre os contos do mesmo livro é também interessante. E O Aleph, na primeira vez que li, apesar da falta de treino do meu espanhol, mostrou-me uma faceta diferente dos contos absurdos e sobrenaturais. Diferentemente de H.P. Lovecraft, cujas histórias sobrenaturais sempre envolvem poderes antigos, ocultos e desconhecidos dos seres humanos, Borges, pelo menos no que li até agora, sempre conta histórias "já relatadas" por outros, repletas de citações, o que de alguma forma as torna mais verossímeis. Raramente é o narrador onipresente e onisciente nosso velho conhecido.
Como sabiamente o próprio Borges disse no chatíssimo texto Os Teólogos: "As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia".
Substitua heresias por contos.
Publicado em 22 de novembro de 2007
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Tipo assim...falhou Zaratustra
Disponibilizo aqui o endereço do meu novo blog que, por razões ocultas e alheias de força maior, vai se tornar o principal, apesar do design ficar devendo um pouco:
http://zaratustra.tipos.com.br
Divirtam-se?
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