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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eleições 2010 - pior do que tá, fica?

Ainda me sinto assim no Brasil

Eu sei, eu sei. Estou devendo a continuação da minha viagem. Ela virá. A verdade é que estou muito ocupado ultimamente e com muitas coisas na cabeça, e quando aparece uma folguinha prefiro dormir ao invés de escrever. Mas isso passará.

Ontem, por exemplo, foi cansativo. Apesar de não ter exercido meu direito de cidadão - não fui até Roma votar porque não havia me cadastrado - fiquei satisfeito com o resultado parcial da eleição pra presidente. Mesmo se a Dilma ganhar, creio que o segundo turno seja mais saudável pra democracia brasileira. A crença de que estava tudo garantido pro PT poderia alimentar um monstro ainda escondido, mas que volta e meia entrevíamos seu rabo saindo das trevas. E não era o rabo da mulher melancia.

Enquanto eu navegava, me atualizava a respeito de tudo que aconteceu na campanha eleitoral. Mesmo um pouco atrasado, deu pra ter uma idéia geral. Inclusive das lambanças do Tribunal Eleitoral. E da horda de corruptos que insiste em voltar. Em uma conversa muito construtiva com meu primo Eduardo via MSN, destacávamos as aberrações eleitorais em todo o país, como os futebolistas Danrlei, Bebeto e Romário, o boxeador Popó, Garotinho, ACM Neto, Roseana Sarney, Zoinho (quem?), Wagner Montes, Ratinho Jr e o mais votado pra deputado estadual da Paraíba, Toinho do Sopão.

Nessas trocas úteis de informação, lembrei-me de quando ainda era bancário na cidade de Ibiporã, onde foi eleito para vereador o catador de papel Beiçola. Ele ia retirar o seu salário no meu caixa, e em seguida bebia tudo nos bares da cidade. Mas com certeza, bebia com muito mais classe, com todo o respeito que um excelentíssimo senhor político merece. Uma beleza.

Mas voltando, gostei do desempenho da Marina Silva, é uma nova alternativa o crescimento do PV. Mesmo sendo ela cria do PT. Na verdade, a minha filosofia é: "Si hay gobierno, soy contra. Si no hay gobierno, tambien soy". No Brasil é um perigo apoiar governos. E como os partidos são uma bagunça, quando voto escolho o candidato analisando pessoa por pessoa, e não de acordo com uma pretensa e inexistente ideologia política.

Enfim. O Tiririca, se tudo der certo, será impugnado. E também cancelados os ficha-suja. Esperemos. "A esperança é a única que morre", já disse algum sábio filósofo. E que minha sogra não se chame Esperança.

Mas o que mais gostei do dia de ontem não tem nada a ver com eleições. Enquanto falava com minha irmãzinha que estava fazendo aniversário, perguntei como ela estava se sentindo agora, no alto de seus nove anos. Eis a resposta:

- Eu to me sentindo mais independente!


É uma figura, a mocinha.

***

Espero voltar em breve com a continuação das aventuras na Europa. Se tudo der certo e nada der errado. Até.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Poi zé, amigo...

"Não é preciso muito pra intuir como reagirá uma pessoa inteligente, que coisa fará em determinada circunstância, porque partimos do pressuposto que se deixa guiar pela lógica... Enquanto é impossível prever que coisa fará um imbecil"

Georges Simenon - A louca de Itteville

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Bentornato, Zaratustra!

Depois de breve período de férias ensolaradas e quentes no Brasil, a Itália me saúda com seus 5°C e chuva.

De volta aos livros.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Constatações

Por mais que a gente tente ou nossa economia avance, ou mesmo se, subitamente, todos os nossos políticos começassem a ser honestos, não tem jeito, a Europa vai estar sempre à frente do Brasil. A não ser que mudem o fuso horário.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

O EXAME PSIQUIÁTRICO PRÉ-ADMISSIONAL

Tudo isso ocorreu nos idos de março ou abril de 2003, enquanto fazia os exames necessários para a admissão no banco. Mas comecemos pelo princípio.

Sempre quis ver um divã na minha vida. Cresci ouvindo falar em psiquiatras e psicólogos e psicanalistas (algum dia eu já soube a diferença de cada um) com divãs no consultório e bustos de Freud por todos os lados.

O endereço era JK 277 (foi alterado para preservar a imagem do psiquiatra) e eu passava do 270 ao 280 e nada. Até me dar conta de que 277 era do outro lado da rua. Torcia para que o doutor não estivesse na janela do consultório observando minhas vãs idas e vindas e fazendo 'tsc tsc' com a cabeça: "esse não passa".

Entrei. Primeiro andar, fui de escada mesmo. Adentrei a salinha. A secretária me olhava, eu olhava ao redor. Comecei a perscrutar a sala de espera, reparava em tudo: rachaduras, quadros, revistas, lâmpadas, moscas, o trânsito pela janela. Estaria eu ficando paranóico justo naquele instante?

"Tenho uma consulta às..." seguiram-se os procedimentos normais de qualquer consulta, sentei, e nesse mesmo instante começaram a chegar pessoas. Olhava-as. Todas pareciam um pouco loucas. Ou era eu o louco ali? Tentava imaginar o que levava essas pessoas a um psiquiatra. Primeiro, uma mulher, com seus 50 e tantos anos que tinha um jeito estranho nos gestos. Tomava Prozac. Ela e a filha. Tinha ido buscar receita pras duas. Depois entrou um rapaz um pouco gordinho. Puxou conversa com a secretária. Parecia normal, amigo do médico. Falava de família com ela, feriadão, viagens. Repentinamente ela pergunta seu nome para apresentá-lo ao médico. "Ferrari", responde.

Ferrari. Esse nome definitivamente não é normal. E eu esperava. Chegou um homem barbudo, com uma pochete na cintura e meio hesitante nos gestos. Mantinha uma certa distância de tudo. Em seguida entrou um maluco de capacete na cabeça. Bom, acho que não era maluco, era um motoboy. Mas como eu já estava no clima...

Enfim, o Ferrari foi embora e eu entrei. Apreensão. Emoção. Finalmente verei um divã! Eis que, senão quando, olhei para os lados e só faltou pegar o psiquiatra pelo colarinho e chacoalhá-lo contra a parede, gritando "Cadê o maldito divã!?" Não havia um divã. Não havia! Apenas duas singelas cadeiras em frente à mesa e, mais ao canto, duas cadeiras maiores e uma pequena.

Manti-me calmo, afinal, ele poderia pensar que eu era louco, e isso é algo que definitivamente não sou, embora seja meio obsessivo em algumas coisas. O que me fez feliz é que havia um busto de Freud. Pequeno, de plástico branco, quase irreconhecível, mas tinha um cavanhaque discreto e tomei ele como se fosse Freud e pronto. Podia ser qualquer pessoa de cavanhaque, podia ser, inclusive, uma falha no plástico e não um cavanhaque, mas pra mim era Freud. Também havia dois globos. Por que cargas d´água haveria de existir dois globos terrestres num consultório psiquiátrico? Um era pequeno, do tamanho de um punho. O outro era grande. Talvez pra mostrar a dualidade das pessoas que têm dupla personalidade, o ego e o id, ou o superego, ou sabe-se lá o quê. Mas havia. Talvez o psiquiatra fosse fã de geografia. Começou o diálogo:

-Quer dizer então que você vai trabalhar num banco, hein?

-É.

-PUTA QUE PARIU! Tirou a sorte grande!

Talvez o doutor fale palavrões de cara pra tentar detectar algum espanto, algo em nossa conduta que ele possa identificar como patológico. Porém manti-me frio e calmo. Quase xinguei também, mas me contive.

A conversa decorreu de maneira estranha. Ele perguntava coisas aleatórias, eu respondia monossilábico. Isso mostra o papel burocrático de exames pré-admissionais. Eu mal falei e fui considerado qualificado. Acho que só se eu o atacasse exigindo que trouxessem um divã ele teria me julgado inapto. Ninguém que responde a um psiquiatra monossilabicamente devia ser considerado são. Ou não. Mas fico feliz que descobri que sou. Afinal, ele poderia pensar que eu era lacônico devido a alguma psicose ou perturbação que me fazia pensar em coisas maléficas, como roubar um banco. Ou um divã. Enfim, sou normal.

Ao sair, já me sentia em casa e cumprimentei a todos, até ao homem da pochete que estava sentado no banco, tremendo. Não vi o divã, mas foi como se o tivesse visto.

Ou não.