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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Democracy

"the problem, of course, isn't the Democratic System,
it's the
living parts which make up the Democratic System.
the next person you pass on the street,
multiply
him or
her by
3 or 4 or 30 or 40 million
and you will know
immediately
why things remain non-functional
for most of
us

I wish I had a cure for the chess pieces
we call Humanity...

we've undergone any number of political
cures

and we all remain
foolish enough to hope
that the one on the way
NOW
will cure almost
everything.

fellow citizens,
the problem never was the Democratic
System, the problem is

you."

C. Bukowski

domingo, 30 de agosto de 2015

Documentário Charles Bukowski - Born into this


Pra quem gosta dos textos do velho Buk, documentário essencial. Vários vídeos com entrevistas com o próprio Bukowski e relatos de amigos e colegas. Dá pra ver melhor quem foi o velho safado.

Eis algumas frases tiradas dali:


You have my soul and I have your money
(Vocês têm a minha alma e eu tenho o seu dinheiro - dito para uma plateia durante leitura de poemas)

When I write I am the hero of my shit
(Quando escrevo sou o herói das minhas merdas)

Sex is something you do when you cant sleep
(Sexo é algo que você faz quando não consegue dormir)

Love is a fog that (dissipates) first daylight of reality
(O amor é uma neblina que se dissipa aos primeiros raios de realidade)

Love is a dog from hell
(O amor é um cão do inferno)


domingo, 23 de agosto de 2015

COME ON IN!


welcome to my wormy hell.
the music grinds off-key.
fish eyes watch from the wall.
this is where the last happy shot was
fired.
the mind snaps closed
like a mind snapping
closed.
we need to discover a new will and a new
way.
we're stuck here now
listening to the laughter of the
gods.
my temples ache with the fact of
the facts.
I get up, move about, scratch
myself.
I'm a pawn.
I am a hungry prayer.
my wormy hell welcomes you.
hello. hello there. come in, come on in!
plenty of room here for us all,
sucker.
we can only blame ourselves so
come sit with me in the dark.
it's half past
nowhere
everywhere.


CHARLES BUKOWSKI

sábado, 24 de setembro de 2011

Um Poema de Amor

todas as mulheres
todos seus beijos os
diferentes modos de amar e
falar e precisar.

suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

na maioria das vezes
as mulheres são
cálidas elas me lembram
de torradas com a manteiga
derretida
nelas.

mas têm um modo de
olhar: elas foram
usadas elas foram
enganadas. fico sem saber o que fazer
por
elas.

sou
um bom cozinheiro um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – eu estava ocupado
com coisas mais importantes.

mas gostei de suas diversas
camas
fumando cigarros
contemplando os
tetos. nunca fui nocivo ou
injusto. só
um estudante.

sei que todas têm esses
pés e descalças cruzam o piso enquanto
eu assisto suas nádegas dengosas no
escuro. sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muito
poucas.

algumas me dão laranjas ou suplementos vitamínicos;
outras falam silenciosamente da
infância e dos pais e
de paisagens; algumas são quase
loucas mas todas têm um
significado; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são as
melhores em outras
coisas; cada uma tem limites como eu tenho
limites e entendemos
um ao outro
bem rápido.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
algo como uma igreja só
às vezes tem
risadas.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos

me vendo, a ternura e
a vontade me possuíram me
possuíram.

__________________________________________________

Charles Bukowski, A Love Poem, do livro 'The pleasures of the damned', tradução minha.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

pensamentos em um banco de pedra em Venice


me sento neste banco e vejo
o mar e os estranhos e os
amantes.

preciso de novos olhos uma nova boca novos
travesseiros, uma nova mulher.

todos os velhos garanhões com meio
olho na cabeça adoram seduzir e montar
uma nova e jovem potranca.

quando penso em homens sem mulheres cortando
a grama nos sábados e jogando futebol,
baseball, basquetebol com seus filhos
sinto vontade de vomitar no distante
horizonte.

a família fede a Cristo
e ao mercado de ações americano.
a família fede a segurança e
torpor e perus de ação de graças.
a família fede a carros sufocantes
empacotados passeando por
florestas de sequoia.

preciso de novos olhos uma nova mulher novos
tornozelos uma nova voz novas traições.

não quero uma longa procissão
funeral quando eu morrer.
quero continuar sem nenhum peso
ou obrigação.

quero somente a escuridão taciturna quero
uma tumba como esta noite agora:
eu aqui não diluído –
sólido, enfermo, imaculado.
seguro-me firmemente em mim. isso é tudo que
existe.
 ____________________________________________
Charles Bukowski, tradução minha

terça-feira, 5 de abril de 2011

os prazeres dos danados

Henry Charles Bukowski
os prazeres dos danados
limitam-se a breves momentos
de felicidade:
como o olhar de um cachorro e seus olhos,
como a cera de uma vela,
como o fogo consumindo a prefeitura,
o condado,
o continente,
como fogo consumindo o cabelo
de donzelas e dragões;
e gaviões rasando as pereiras,
o mar correndo entre suas garras,
O Tempo
ébrio e abatido,
tudo queimando,
tudo úmido,
tudo bem.

_____________________________
Poema retirado do livro The pleasures of the damned, tradução minha

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Duas do Buk - Traduções minhas


poesia

precisa-
se
de muito

desespero

dissabor

e
desilusão

para
escrever


alguns
poucos
poemas.

não é
pra
qualquer um

tanto

escrevê-
los

quanto

lê-
los.



o ovo

ele tem 17.
mãe, ele disse, como se quebra um
ovo?

tudo bem, ela me disse, você não precisa se
sentar olhando desse jeito.

ô, mãe, ele disse, você quebrou a gema.
eu não posso comer a gema quebrada.

tudo bem, ela me disse, você é durão,
já trabalhou em matadouros, indústrias,
na prisão, você é tão fudidamente durão,
mas todas as pessoas não precisam ser como você,
isso não faz com que todos estejam errados e você
certo.

mãe, ele disse, você compra umas cocas
quando estiver voltando do trabalho?

olha, Raleigh, ela disse, você não pode trazer as cocas
na bicicleta, eu estou cansada depois do
trabalho.

mas, mãe, tem uma subida.

que subida, Raleigh?

tem uma subida,
eu tenho que pedalar
ali.

tudo bem, ela me disse, você acha que é
fudidamente durão. você trabalhou nas linhas de
trem, eu ouço isso toda a vez que você fica bêbado:
"eu trabalhei nas linhas de trem."

bom, eu disse, eu trabalhei.

quer dizer, que diferença isso faz?
todo mundo tem que trabalhar em algum lugar.

mãe, disse o menino, você vai trazer as
cocas?

eu gosto muito do menino. acho ele bem
cortês. e assim que ele aprender a quebrar um
ovo poderá fazer algumas
coisas estranhas. no meio tempo
eu durmo com a mãe dele
e tento evitar
discussões.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Na chuvosa noite de Pisa

a alma e o coração
(Charles Bukowski)


inexplicavelmente estamos sozinhos
para sempre sozinhos
e era pra ser
assim,
não era pra ser
de nenhum outro modo -
quando a luta contra a morte
começar
a última coisa que desejo ver
é
um círculo de faces humanas
pairando sobre mim -
prefiro meus velhos amigos,
e as paredes de mim mesmo,
que estejam somente eles ali.

tenho estado sozinho mas raramente
solitário.
satisfiz minha sede
no poço
de mim mesmo
aquele vinho era bom,
o melhor que já bebi,
e esta noite
sentado
olhando a escuridão
finalmente entendo
a escuridão e a
luz e tudo que está
entre os dois.

a paz da alma e do coração
chega
quando aceitamos como
é:
ter nascido
nesta
estranha vida
devemos aceitar
as inúteis apostas de nossos 
dias
e nos satisfazer com
o prazer de
deixar tudo
pra trás.

não chore por mim.
não sofra por mim.

leia
o que escrevi e
então
esqueça
tudo.

beba do poço
de você mesmo
e comece
de novo.
mind and heart 
(Charles Bukowski)

unacccountably we are alone
forever alone
and it was meant to be
that way,
it was never meant 
to be any other way-
and when the death struggle
begins
the last thing I wish to see
is
a ring of human faces
hovering over me-
better just my old friends,
the walls of my self,
let only them be there.

I have been alone but seldom
lonely.
I have satisfied my thirst
at the well
of my self
and that wine was good,
the best I ever had,
and tonight
sitting
staring into the dark
I now finally understand
the dark and the
light and everything
in between.

peace of my mind and heart
arrives
when we accept what
is:
having been
born into this
strange life
we must accept
the wasted gamble of our
days
and take some satisfaction in
the pleasure of
leaving it all
behind.

cry not for me.

grieve not for me.

read
what  I’ve written
then
forget it
all.

drink from the well
of your self
and begin
again.

______________________
Tradução minha.

sábado, 3 de abril de 2010

Oh, yes

existem coisas piores que
estar sozinho
mas com frequência demoramos décadas
pra percebermos isso
e com mais frequência
quando conseguimos
é tarde demais
e não tem nada pior
que
tarde demais.

Charles Bukowski , tradução minha

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os prazeres dos danados

 Não me lembro extamente quando ouvi falar de Henry Charles Bukowski pela primeira vez, nem a primeira coisa que li dele. Com certeza foi entre 1998 e 2003, quando o dito já estava morto (isso em 1994). Tenho alguns livros seus, todos em português, todos em prosa. 

Me lembro que cheguei a criar, durante a faculdade, a década Bukowski, que se não me engano deve terminar em 2014. A data certa será relembrada no momento justo e oportuno.

Uma vez achei um livro que me chamou a atenção pela capa, e em algum poema perdido pelos blogs da vida eu o citei como uma "garrafa de Bukowski 25 anos".Trata-se de um livro bilíngue, ou seja, original em uma página, tradução na seguinte. A tradução era uma porcaria, e isso eu consegui identificar ainda àquela época, muitos anos antes de resolver fazer essa doideira que é o mestrado em tradução que to fazendo. E o título obviamente é passível de objeções. 25 melhores poemas na opinião de quem, cara-pálida?

Mas foi o primeiro contato com as poesias Bukowskianas. Que eu gostei, claro. Mesmo porque, até então, só havia lido as prosas em que ele mesmo se auto-declarava um poeta. Mas um poeta sem livros traduzidos pro português (pelo menos eu nunca tinha achado um, com exceção deste infeliz exemplar já comentado). E o que achei mais interessante em suas poesias, além da melancolia, é uma característica estritamente estética, que consiste em mudar de linha em um ponto não comum da frase, quebrando o ritmo, deixando a leitura como as vidas ali retratadas, tortas e mancas, deixando as palavras que finalizam essas mesmas frases sozinhas, como ele, o poeta misantropo.

Eis que, aqui na Itália, enquanto passeava por uma livraria virtual, achei algo que não pude resistir, e comprei. Uma seleção de poemas do grande poeta das garrafas, do turfe, das mulheres e da solidão, de 1951 a 1993. Embora não seja do Paulo Leminski, o livro é um catatau: 557 páginas contendo em torno de 270 poesias, no original em inglês, sem aquelas traduções sem-graça pra encher o saco. Duzentos e setenta poemas. Pouco, quase nada, se compararmos com as mais de mil poesias que a Wikipedia afirma que ele escreveu (não custa relembrar ao leitor desavisado que o prêmio nobel José Saramago também consulta esta grande obra virtual da sabedoria, como comprova esse post no seu blog oficial, o que sempre a nós, meros mortais, libera a consciência de eventual culpa ou preguiça).

O nome do livro do Buk, pra quem se interessar, é The pleasures of the damned, que eu traduziria em um primeiro momento como "Os prazeres dos danados", embora o damn em inglês tenha também outras acepções tenuamente diversas desta, mas enfim, discutir o título não levará a lugar nenhum, pelo menos nesse momento. 

Enfim. Charles Bukowski é aquele que, como Dalton Trevisan, Pedro Juan Gutierrez, Rubem Fonseca e outros mais nos fazem lembrar que a vida não é essa coisinha bela que muitos queriam que fosse. Que se você não ficar esperto, a vida te aniquila como eu aniquilei nesse momento um mosquito com meu dedo.

Aí embaixo, um dos poemas, traduzido por mim:



Seguros

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
ambos marido e mulher acordam cedo e
vão ao trabalho.
chegam em casa no início da noite.
têm um pequeno menino e uma menina.
pelas 21h todas as luzes na casa
se apagam.
na manhã seguinte ambos marido e
mulher acordam cedo de novo e vão ao
trabalho.
retornam no início da noite.
pelas 21h todas as luzes se
apagam.

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
as pessoas são boas pessoas, eu
gosto deles.

mas sinto que estão se afogando.
e não posso salvá-los.

eles sobrevivem.
eles não são
sem-teto.

mas o preço é
terrível.

às vezes durante o dia
eu olho para a casa
e a casa olha para
mim
e a casa
chora, sim, é verdade, eu
sinto isso.

a casa está triste pelas pessoas que ali
moram
e eu também
e olhamos um ao outro
e carros passam pra lá e pra cá
na rua,
barcos atravessam o porto
e as altas palmeiras cutucam
o céu
e esta noite às 21h
as luzes se apagarão,
e não somente naquela
casa
e não somente nesta
cidade.
vidas seguras se escondem,
quase
paradas,
a respiração dos
corpos e pouco
mais.

sábado, 1 de setembro de 2007

A década Bukowski

Saúdo Charles Bukowski. Porque é a vida sem frescuras que imaginamos ter. Porque é ser seco com outros, sem se importar, como gostaríamos de fazer. Porque o desprezo exercitado continuamente nos traz um ceticismo incomparável. Porque o ceticismo é uma virtude que nos vale por toda a vida, um aprendizado contínuo da natureza humana, um perceber de detalhes indescritível.

Saúdo Bukowski. Como também o faço a John Fante, que mostra as fraquezas tragicômicas da juventude, e o ridículo nosso de cada dia é também uma aula que não se pode desperdiçar. A raiva de nosso ridículo é um motor impulsionando nossas vidas. Para mais situações ridículas, mas ainda assim um motor.

Saúdo Mr. Salinger, o recluso. Saúdo Pedro Juan, o Gutiérrez. O grotesco, o cru, o inenarrável, o deplorável: detestável e excitante, estímulo e ojeriza, tentação e nojo, paixão, ódio e desprezo. Asco.

Saúdo Rubem Fonseca, o mestre.

Saúdo enfim todos os anjos e demônios que me acompanham nessa década. Por que haverá um fim (sempre há de ter) para toda obra literária. Há data e hora, mas ainda não há local.

No dia 22 de abril de 2014 às 23h59 encerra-se a década e a ressaca contínua, e saudarei a meus mestres com muita gratidão. A partir daí, vida nova. Seja lá o que isso quer dizer.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

"Minha alma embriagada de cerveja é mais triste do que todas as árvores de Natal mortas do mundo" *

O maior dos porres não consegue amenizar a pior das dores, o sentimento vago no peito. Apenas o protela. Pois vem a inconsciência, a loucura, o êxtase, o sono, a ressaca, a noite mal dormida, a boca seca, a dor de cabeça, as revoluções do estômago e isso acaba por preencher nosso dia, mas não o vazio. E ele é adiado o suficiente até conseguirmos senti-lo de novo e, mais uma vez, nos inebriarmos de embustes.

E por mais que ganhemos dinheiro, que possamos andar de carro, que encontremos uma bela mulher - e façamos amor com ela - que ouçamos uma música interessante, nada preenche realmente o vazio. E é por isso que trocamos de carros, de empregos, de mulheres, de cd's. Para tentar preencher o vazio que nunca é satisfeito. Como se ele absorvesse o que nele colocamos para mais tarde esvaziar-se novamente. E essa é a eterna busca do homem. A busca incerta de não se sabe o quê.

(*) O título é uma breve citação/homenagem a Henry Charles Bukowski in: Factotum, 1975.