Já ouvi muitas pessoas, professores, mestres e doutores falando que não existem sinônimos perfeitos, em nenhuma língua. A não ser em palavras como "vassoura" e "bassoura" - que no fundo são a mesma palavra e não sinônimos - no fundo no fundo os ditos "sinônimos" diferem levemente nos significados, por detalhes, nuances, o que os tornam somente quase sinônimos. Porém não é o que acontece com a bosta.
Bosta é o sinônimo perfeito de Merda. Pode ser usada nas mesmas situações, frases, inclusive em sentido figurado: "Vida de merda", "Vida de bosta". Com a diferença que, na minha opinião, quando se diz bosta, se diz com a boca cheia (de merda, talvez).
A maior parte das pessoas, porém, prefere fazer uso da merda ao invés da bosta. A merda tá na boca do povo. O que torna a segunda um pouco mais elegante. É como uma bebedeira de uísque, torna a nossa ressaca mais respeitável.
Depois de repetir várias vezes esta palavra nesses últimos dias, acabei por me perguntar sobre as origens da palavra bosta e da singularidade da sua existência na língua portuguesa. Pois bem, bosta e merda tem origens latinas, mas diversas. Segundo meu amigo Antônio Houaiss, Bosta vem do baixo-latim bóstar, bostáris 'estábulo, curral de bois', derivado de bos,bovis, boi. Já a Merda vem do latim merda, merdae 'excremento'. Vê-se que, no início, bosta referia-se somente aos bois. Já a merda sempre foi bem mais ampla. Até que, no português brasileiro moderno, merda e bosta viraram o mesmo cocô.
Em janeiro do ano passado publiquei aqui um belo poema de uma escritora indiana, que toca na merda. No assunto merda, sejamos bem claros. Porém, como falava de esterco de bovinos, etimologicamente talvez seja mais correto falar que se tratava de um poema sobre a bosta. Meu comentário sobre o poema e o próprio poema traduzido por mim mesmo podem ser lidos aqui. Mas a verdade é que vi que meu blog andava muito parado e resolvi escrever qualquer merda. Ou bosta.
O mais interessante é que bosta existe somente no Português (muito embora os americanos tenham tentado nos copiar com Boston). As outras línguas latinas que conheço possuem somente os derivados da merdae latina: merda (italiano), mierda (espanhol), merde (francês) e por aí vai. Assim como a saudade, a bosta é uma coisa da qual podemos nos orgulhar! Ninguém no mundo possui bosta como nós!
Só cuidado pra não pisar em cima.
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sábado, 25 de junho de 2011
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Que merda!
Enquanto não me vem nada pra escrever, coloco aqui mais um exercício de tradução do mestrado. A autora é Sujata Bhatt, nasceu na Índia em 1956, cresceu nos EUA e mora na Alemanha. Eis aqui minha tradução:
Feminilidade
Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -
A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.
Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.
Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!
Feminilidade
Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -
A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.
Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.
Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!
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