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domingo, 21 de agosto de 2011

Da linearidade do tempo

Dias atrás conversava com um amigo sobre a perecibilidade humana, visto a nossa chegada às três décadas de vida. E durante esta conversa cheguei a conclusões interessantes sobre a perecibilidade, mas também sobre a perenidade do ser enquanto humano.

A verdade é que, como sabemos desde Einstein, o tempo é relativo. Ele chegou a essa conclusão por meio de cálculos que desconheço. E não sei nem ao menos se um dia conhecerei, mesmo tentando me iniciar nas artes matemático-filósoficas de Bertrand Russell. Mas é fácil supor que o tempo é relativo, justamente porque todos nós, sem execeção, aprendemos a entender o tempo de uma única forma: o tempo é linear, e isso é - ou deveria ser - inquestionável. Nossos ancestrais, os primeiros hominídeos que tentaram entender o tempo, o entenderam desta forma, a mais fácil e lógica, e assim, por milênios e milênios essa sabedoria simiesca tem sido passada de geração em geração, e a quase todos isso tem bastado como verdade óbvia e irrefutável. Alguns poucos loucos, na maior parte físicos (como Einstein), matemáticos (como Russell), filósofos (como Nietzsche), escritores (como Borges) ou desocupados (como eu) crêem em algo além desta linearidade.

(Importante ressaltar que, no meu entendimento, a não-linearidade do tempo não altera em nada nossa vida. Pelo menos não esta que vivemos agora, até chegarmos à nossa primeira morte).

Mas enfim, voltando à conversa com meu amigo, cheguei à seguinte conclusão: como aprendemos desde sempre que o tempo é linear, não conseguimos sequer cogitar a possibilidade de o tempo ser diferente. Não possuímos modelos comparativos, não existem outros tempos. Existe o hoje, o ontem e o amanhã, e basta. Quem ousa afirmar algo diferente a respeito é tratado como louco. Que o digam meus colegas do hospício.

Contudo eu, gastando os poucos neurônios que me foram concedidos, há algum tempo tenho me questionado sobre a linearidade do tempo na forma da eternidade. E percebi que temos que fugir da obviedade do tempo, transgredi-lo, para tentar entendê-lo. O tempo é algo maior que uma seta onde os fatos se sucedem, as pessoas nascem, crescem e morrem. O tempo não é uma linha. Talvez sejam várias, paralelas. Talvez seja um círculo (o eterno retorno). Ou vários círculos paralelos. Quiçá uma espiral, ou ainda algum outro modo que sequer podemos imaginar em nossa mente limitada.

Toda essa minha preocupação talvez tenha começado com as leituras dos livros de Borges e seu fiel amigo Bioy Casares, que citam em suas obras tempos lineares, porém concomitantes e paralelos. Mais ainda: diversos!

Indo mais além, Borges criou em sua obra o Aleph, e o definiu desta forma: "o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço". E não estamos falando aqui do Aleph plágio do Paulo Coelho, que é perecível. Falamos do eterno.

Um modo único de tentar entender o tempo de um modo diverso não existe. Não posso eu dar a fórmula secreta, pois estou ainda engatinhando no assunto, embora tenha o rascunho de uma teoria sobre a eternidade em estado embrionário. E talvez nunca conseguirei provar o que penso (provavelmente não). Mas sinto que a linearidade do tempo não pode ser tomada como verdade absoluta, da mesma forma que devemos sempre questionar qualquer afirmação categórica. Quanto ao Aleph, é uma história mais complexa. Tratemos primeiro de entender o unidimensional. Refutar a linearidade do tempo já me está dando muito trabalho, imagine refutar e tridimensionalidade do espaço. Está muito além da minha capacidade de viajar na maionese.

Mas nunca esqueçam, meus fantasmas: o importante é o que importa.


quinta-feira, 26 de maio de 2011

Considerações sobre a eternidade - o Déjà vu

Eu estava lendo um artigo sobre literatura na internet, quando tive a sensação de já ter vivido aquilo antes. Tecnicamente isto é chamado pelos dicionários e especialistas de "déjà vu". Mas não tratava-se de uma simples sensação de que o que eu vivia já teria acontecido antes. Era algo muito maior.

Pois enquanto eu lia o fatídico artigo, no mesmo momento lembrei-me de uma conversa com um amigo no dia anterior. E tive a sensação de já ter vivido aquele momento, de já ter lembrado daquela conversa antes. Contudo, parecia repetir-se também o instante da leitura no exato momento em que eu presenciava o déjà vu da conversa: o déjà vu de um déjà vu. Um paradoxo. O caos total. O apocalipse.

O déjà vu, pelo menos para mim, que convivo desde pequeno com tal fenômeno, não é somente uma sensação de repetição. Sente-se também a repetição de todo o contexto, as falas, os gestos, os sons. Tudo repete-se da mesma e exata maneira - isso partindo do pressuposto que trata-se de uma repetição. Sendo uma repetição, pode ser uma das provas da teoria do eterno retorno. O que confirma também as teorias que dizem que o destino já está escrito, o que fazemos é somente repetí-lo eternamente. Não poderíamos lutar contra ele (o destino). Ou então tudo isso tem a ver com a existência de múltiplos universos paralelos? A verdade é que o déjà vu é algo maior do que um simples mal-funcionamento ou travessura do nosso cérebro. É algo desconhecido.

Quando pequeno, comecei a perceber esses fenômenos e volta e meia, quando eu presenciava um deles, fazia caretas ou movimentos bruscos e inesperados, como que para fugir do script, o que deve ter causado estranheza a não poucas pessoas que presenciaram esta performance. Provavelmente eu pensava - obviamente de um modo inocente e, acima de tudo, inconsciente - que tudo estava já pré-determinado, e que o déjà vu era somente a confirmação das regras a serem seguidas. Regras impostas por alguém - Deus? - já escritas, prontas e que estavam sendo executadas no momento. Porém mesmo meus movimentos repentinos de nada adiantavam, pois a sensação de repetição abrangia também essas maluquices. Cresci.

Durante muito tempo esqueci-me de tal fenômeno, ou melhor, aprendi a conviver em paz com ele. Nos últimos anos, contudo, tenho entendido o déjà vu como um sinal - do quê? de quem? Deus? - e tenho me guiado pelas suas sucessivas aparições. Demorei algum tempo até aceitar isso como um sinal.

Uma vez admitida esta hipótese, veio outro problema: sinal de quê? Debatendo-me sobre questões cruciais para a humanidade como esta, acabei, por um raciocínio longo que exigiu muito dos meus já exaustos neurônios, decidindo que deveria apreendê-los como sinais do caminho a ser percorrido, das escolhas a serem feitas. Apesar de eu ter uma simpatia pela teoria do eterno retorno, admitir o déjà vu como um sinal acaba por refutar esta teoria. (Foi o que fiz, muito embora eu ainda esteja desenvolvendo a minha teoria. No futuro deverei achar um modo de integrar ambos, conciliando-os. Mas isso é um problema para o futuro). .

Mas como nem tudo são flores, os espinhos apareceram uma vez mais: este sinal - com a sorte de que seja realmente um sinal - refere-se a uma confirmação "sim, você está no caminho certo" ou uma advertência "cuidado, caminho errado, volte duas casas e tente de novo"?

Como sou otimista e gosto de simplificar as coisas, admiti que o sinal era "ok, siga em frente, você está no caminho correto". A partir daí, a cada déjà vu eu relaxava e pensava "maravilha, vamos continuar assim". E nos períodos de estiagem de déjàs vus (o Houaiss não me informou o plural de déjà vu...talvez porque ele não tivesse tantos) o terror me acometia "o que fiz de errado? onde será que eu errei?". E assim segui minha vida, até o dia de hoje, quando o destino - Deus? - resolveu pregar-me mais uma de suas peças.

Um déjà vu duplo. Como interpretar isso? Como uma negação? Como uma ênfase (é isso aí cara! acertou em cheio dessa vez hein)? Como uma histeria? Como o fim dos tempos?

Não sei. Preciso de um tempo para pensar e descansar até conseguir resolver mais este problema mundial. Mas, quando tento dormir, ouço bips dentro da minha cabeça. O silêncio da noite me abarca com a melodia de bips eletrônicos em meu cérebro. E a coceira que a cicatriz antiga me deixa, toda vez que ela muda de mão, me irrita de tal forma que já não consigo mais articular as palavras.

Eis o fim dos tempos.