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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A invenção da ubiquidade



Em fevereiro de 1999 tive a satisfação de poder assistir a uma semana literária ocorrida em Buenos Aires e dedicada ao centenário do nascimento do escritor argentino Jorge Luis Borges. De todos os eventos, o que mais me agradou foi a fala do parceiro e amigo de Borges, o escritor Adolfo Bioy Casares.

Durante uma de suas intervenções, em um debate sobre o livro O Aleph (que por coincidência calculada pelo próprio autor – ou por uma sutil ironia do destino – completava cinquenta anos de lançamento naquele mesmo ano), o escritor pôs-se a relatar um fato ocorrido em sua juventude na década de 30, poucos anos após ter sido apresentado a Borges . 
 
Ainda que com uma inevitável infidelidade vocabulária e linguística (graças à língua de origem, o espanhol, e aos anos que já se passaram desde então), reproduzo, na mais sincera e imparcial fidedignidade, possível o relato de Bioy Casares. Ei-lo:

“É a primeira vez que conto este episódio a alguém. Nem mesmo minha falecida esposa, Silvina, jamais soube do acontecido.

Após uma noite de divertimento entre vinhos e algumas garotas, no meio da madrugada encontramo-nos a sós em um bosque. Estávamos eu, Borges e alguns amigos jornalistas e escritores, caminhando, conversando e rindo de nossas histórias patéticas, certamente já ébrios, quando sentimos uma garoa fina e breve. Em nosso estado não nos foi possível perceber, num primeiro momento, nada de estranho ao redor.

Seguimos até sentirmos novamente a mesma garoa, vinda após o ruído de algo sendo atirado em um lago, como um peixe ou uma pedra. Apesar de estarmos longe da cidade, nas redondezas não existia curso d'água algum. Demos, por fim, de ombros e caminhamos por mais uns dez minutos, talvez, até sentirmos de novo a garoa, subitamente após o estalo d'água. Paramos, olhando-nos intrigados. Mais um estampido e eu e Borges notamos uma gota que caía e, em frente aos nossos olhos, diminuía de velocidade, retomando em seguida seu movimento elíptico para cima.

'Estou vendo coisas', pensei. Poderia ser a ressaca, o delírio. Mas não. Era a realidade. E as gotas, também reais, respingavam em nós vindas de cima, ignorando o que chamava-se até então de força gravitacional. Eu estava perplexo, assim como todos os outros colegas ali presentes, mas Borges sorria. Parecia saber do que se tratava.

Ao olharmos para cima, vimos o inacreditável: havia um lago sobre nós, de onde os peixes pulavam e, após suas aterrissagens – de ponta cabeça – as gotas saltitavam em nossas faces descrentes. Foi quando nos demos por conta: estávamos em um ponto onde podíamos interagir com inúmeros locais concomitantes, complementares, simultâneos e, ao mesmo tempo, absurdos e inverossímeis. 
 
Devo adverti-los que o absurdo e a inverossimilhança destas paisagens se resumiam no fato da impossibilidade delas coexistirem daquele modo, dentro do que conhecemos como mundo, e do que supomos seja a realidade (seguindo as 'leis' que aceitamos, durante a existência humana, como regentes do universo). Naquele exato instante, contudo, aquelas paisagens eram tão naturais e críveis como qualquer estímulo visual cotidiano.

Podiámos vê-las e tocá-las, mas não nos era possível crer em nossos sentidos. Tudo se completava e se desmentia diante de nossos olhos incrédulos. Borges conhecia aquele lugar, e ali nos trouxera, sorrateiramente. Ele sorriu, sugerindo uma condescendência amistosa e cúmplice com nossa ignorância.

Após este dia, nunca nenhum dos presentes retomou este assunto. Era como um segredo compartilhado apenas com olhares que, caso revelado, seria certamente tomado por uma alucinação coletiva. Embora repleto de testemunhas, jamais poderia ser levado a sério. Tentei algumas vezes voltar ao local, mas nunca reencontrei o caminho. Eu era apenas um jovem, nos meu vinte e poucos anos, e minha memória relembra o episódio como uma invenção fantástica, um sonho, uma paisagem surreal criada pela minha cabeça, inalcançável, ininteligível. Mas, apesar de tudo, ainda palpável.
Em 1949, uma década depois e no mesmo ano em que completou cinquenta anos de idade, Borges lançou seu famoso livro de contos O Aleph. Algumas coisas então começaram a se explicar.”

Findo o relato, os presentes estavam estupefatos. Não acreditavam no que acabavam de ouvir, mas o modo como foi contado fora tão eficiente que chegou a convencê-los do contrário.

A amizade entre os dois grandes escritores é sabida, mas a origem do Aleph continua um mistério.
No prólogo para a edição inglesa de 1970, Borges define este “objeto” assim: “o que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço”. No conto, o narrador o descreve como uma esfera de mais ou menos três centímetros. Por outro lado, a fala de Bioy Casares menciona paisagens concomitantes e, ainda por cima, palpáveis. Qual das versões torna-se mais convincente? 
 
Tomando como premissa que o local descrito exista mesmo e tenha inspirado Borges, é nítida sua intervenção literária ao transformá-lo em uma esfera: um objeto sem início e sem fim que simboliza, de modo esteticamente perfeito, assuntos caros à sua obra, como o infinito, o absurdo, o fantástico.
E Bioy Casares, teria querido brincar com o misticismo em torno do célebre conto? Nunca saberemos o que realmente se passou: se a verdade, uma invenção, uma brincadeira ou se foi apenas mais um jogo literário de dois mestres, que viam a realidade como apenas mais um dentre vários gêneros literários.

Bioy Casares relatou esta história, pela primeira e única vez, em fevereiro de 1999. Em oito de março do mesmo ano, veio a falecer. Eu, contudo, nunca estive em Buenos Aires. Mas pude presenciar seu belo discurso. Apesar do tempo que passou desde então, lembro-me como suas palavras soaram verdadeiras, e provavelmente o eram. Não me recordo, contudo, se eu estava diante de uma esfera ou de infinitas paisagens. A emoção do momento abarcou minhas lembranças. Mas posso dizer, sem a menor sombra de dúvida, que eu tinha o universo diante de mim.


(Imagem: Jacek Yerka - "Krysia's Garden")

domingo, 21 de agosto de 2011

Da linearidade do tempo

Dias atrás conversava com um amigo sobre a perecibilidade humana, visto a nossa chegada às três décadas de vida. E durante esta conversa cheguei a conclusões interessantes sobre a perecibilidade, mas também sobre a perenidade do ser enquanto humano.

A verdade é que, como sabemos desde Einstein, o tempo é relativo. Ele chegou a essa conclusão por meio de cálculos que desconheço. E não sei nem ao menos se um dia conhecerei, mesmo tentando me iniciar nas artes matemático-filósoficas de Bertrand Russell. Mas é fácil supor que o tempo é relativo, justamente porque todos nós, sem execeção, aprendemos a entender o tempo de uma única forma: o tempo é linear, e isso é - ou deveria ser - inquestionável. Nossos ancestrais, os primeiros hominídeos que tentaram entender o tempo, o entenderam desta forma, a mais fácil e lógica, e assim, por milênios e milênios essa sabedoria simiesca tem sido passada de geração em geração, e a quase todos isso tem bastado como verdade óbvia e irrefutável. Alguns poucos loucos, na maior parte físicos (como Einstein), matemáticos (como Russell), filósofos (como Nietzsche), escritores (como Borges) ou desocupados (como eu) crêem em algo além desta linearidade.

(Importante ressaltar que, no meu entendimento, a não-linearidade do tempo não altera em nada nossa vida. Pelo menos não esta que vivemos agora, até chegarmos à nossa primeira morte).

Mas enfim, voltando à conversa com meu amigo, cheguei à seguinte conclusão: como aprendemos desde sempre que o tempo é linear, não conseguimos sequer cogitar a possibilidade de o tempo ser diferente. Não possuímos modelos comparativos, não existem outros tempos. Existe o hoje, o ontem e o amanhã, e basta. Quem ousa afirmar algo diferente a respeito é tratado como louco. Que o digam meus colegas do hospício.

Contudo eu, gastando os poucos neurônios que me foram concedidos, há algum tempo tenho me questionado sobre a linearidade do tempo na forma da eternidade. E percebi que temos que fugir da obviedade do tempo, transgredi-lo, para tentar entendê-lo. O tempo é algo maior que uma seta onde os fatos se sucedem, as pessoas nascem, crescem e morrem. O tempo não é uma linha. Talvez sejam várias, paralelas. Talvez seja um círculo (o eterno retorno). Ou vários círculos paralelos. Quiçá uma espiral, ou ainda algum outro modo que sequer podemos imaginar em nossa mente limitada.

Toda essa minha preocupação talvez tenha começado com as leituras dos livros de Borges e seu fiel amigo Bioy Casares, que citam em suas obras tempos lineares, porém concomitantes e paralelos. Mais ainda: diversos!

Indo mais além, Borges criou em sua obra o Aleph, e o definiu desta forma: "o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço". E não estamos falando aqui do Aleph plágio do Paulo Coelho, que é perecível. Falamos do eterno.

Um modo único de tentar entender o tempo de um modo diverso não existe. Não posso eu dar a fórmula secreta, pois estou ainda engatinhando no assunto, embora tenha o rascunho de uma teoria sobre a eternidade em estado embrionário. E talvez nunca conseguirei provar o que penso (provavelmente não). Mas sinto que a linearidade do tempo não pode ser tomada como verdade absoluta, da mesma forma que devemos sempre questionar qualquer afirmação categórica. Quanto ao Aleph, é uma história mais complexa. Tratemos primeiro de entender o unidimensional. Refutar a linearidade do tempo já me está dando muito trabalho, imagine refutar e tridimensionalidade do espaço. Está muito além da minha capacidade de viajar na maionese.

Mas nunca esqueçam, meus fantasmas: o importante é o que importa.


terça-feira, 22 de março de 2011

O abacateiro eterno e outras histórias


Vendo as estatísticas deste blog do último ano, descobri várias coisas interessantes: 2.766 pessoas diversas visitaram meu blog, atingindo a média de 7,58 pessoas por dia. Cada uma ficou, em média, 2 minutos e meio neste humilde espaço. Nada mal. Destes visitantes, a grande maioria é do Brasil (2.016 pessoas), seguido pela Itália (517), Portugal (134), Alemanha (16) e Estados Unidos (12). Mas também tive visitas de lugares inóspitos como Marrocos, Arábia Saudita e República Tcheca (uma cada). 

Dos meus posts, o mais lido foi escrito anos atrás: trata-se do Exame psiquiátrico pré-admissional (publicado aqui em 2007, mas escrito em 2003 pro meu falecido primeiro blog) e é fácil deduzir que o povo chegou aqui porque, provavelmente, também passaria por tal tormento. Em segundo lugar, esse confesso que não faço a menor idéia do porquê, está o post O meu abacateiro, no qual falo do Aleph. Do original, de Jorge Luis Borges, não do plágio de Paulo Coelho. O terceiro lugar foi para uma paródia meio sem-graça da lenda do Minotauro, que chama-se O corno de Creta. Com execeção do primeiro, os outros dois originaram-se da leitura de livros do Borges. Uma estranha coincidência, porque justamente agora estou com outro em mãos.

Borges
Lendo o livro História da Eternidade do mesmo Borges, deparei-me com temas que, ao menos para mim, são interessantes: a própria Eternidade do título; a hipótese do Eterno-retorno, que ficou famosa com Nietzsche (saúde!); a existência de universos paralelos, entre outras maluquices.

Graças a isso e a várias citações e indicações de leituras feitas pelo próprio Borges, desemboquei em outros escritores e filósofos que eu pouco conhecia, em áreas que eu jamais teria imaginado: física, química, matemática aplicada à filosofia, metafísica, entre outras piras.

Um desses é o filósofo inglês Bertrand Russell. Aliás, talvez seja um modo de remediar minha aversão inconsciente ao mundo anglófono. Pois bem, decidi começar me embrenhando na obra de Russell, e tive uma agradável surpresa. Ainda estou longe de chegar na parte em que ele fala de filosofia matemática, que é o que interessa falando de eternidade, mas lendo pequenos excertos que encontrei na internet já me iluminaram.

Russell
 Graças a isso, baixei na internet vários livros em PDF (pra alguma coisa a internet serve), inclusive sua autobiografia.  Apenas comecei, mas é um texto muito bom de se ler. Por causa de sua ligação com a matemática, Russell explica em um texto que remexe as frases que escreve de todos os modos até que consiga dizer o que quer da forma mais clara e mais simples possível. E acaba tornando a filosofia palatável. Por essas e outras o rapaz ganhou o Nobel de Literatura em 1950.

Sua obra fala, principalmente, de lógica, religião, política e moral. Conheceu e foi amigo de grandes intelectuais nos quase cem anos em que viveu (1872-1970), de Einstein a Sartre, pra citar só dois.

Russell parece interessante. Mas é somente um pequeno passo rumo à eternidade. Se eu conseguir manter meu entusiasmo, vou ler também Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, o físico Arthur Stanley Eddington (tradutor da obra de Einstein para o inglês e grande propagador da Teoria da Relatividade), provavelmente quase toda a obra de Borges e de seu companheiro Adolfo Bioy Casares, além de ter de ler e reler várias coisas do Nietzsche (saúde!), e o que mais eu achar no caminho. Tudo isso para, no final, poder pôr em prática a minha Teoria da Eternidade, que se encontra em fase de incubação.

Entre as minhas peregrinações por vários sites da internet, descobri que um dos símbolos usados para representar a eternidade (e não só ela) é o Ouroboros, uma cobra ou um dragão que devora o próprio rabo.



E de repente tudo começa a fazer sentido. A capa do vinil dos Engenheiros do Hawaii, onde a cobra come o próprio rabo. E o conto sobre o abacateiro, citado lá em cima, onde minha cadela, monstra doida canina, corria atrás do próprio rabo. Eram sinais. Sinais de que estou no caminho certo.

Mas a verdade é outra. E diversa.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O meu abacateiro

Quando eu era criança, lá na década de 80, morava numa bela cidade chamada Panambi, em uma casa sem muros ou grades, numa esquina, coisa quase impensável no Brasil de hoje. Aliás, a última vez que passei em frente a esta casa, já estava devidamente amurada e gradeada.

Nesta minha feliz época, onde trabalhar era algo distante, muito distante, que só viria a conhecer uma década depois, brincar na rua era algo tão natural como atender um celular no trânsito. Lembro que meus vizinhos Cícero e Alan - onde estarão eles hoje? - tinham um quintal com árvores de cinamomo, onde subiámos para pegar aquelas bolinhas que nos serviam de munição.

Mas no meu quintal tinha um abacateiro. Altivo e portentoso, com seus galhos a crescer lateralmente, o abacateiro, apesar do apreço que eu tinha para com ele, nunca nos deu abacates.

Anos se passaram e vim parar no interior do Paraná, onde também plantamos um abacateiro há alguns anos, que desde o ano passado nos poupa de comprar abacates no supermercado. E por poupar-nos desse preço, nosso apreço por ele é imenso como seus ramos. E até maior que pelo abacateiro primordial.

O abacateiro fica ao lado do canil de nossa cadela vira-lata importada de Sertaneja. Sempre achei meio doida essa cadela, seu comportamento não é o habitual aos cães. Hoje descobri a razão de toda esse desvario: há um Aleph no abacateiro.

Para quem não sabe do que se trata o Aleph, aí embaixo menciono ele, num famoso conto de Borges. E para quem está com preguiça de procurar, coloco aqui uma breve síntese do quê, afinal, se trata esse tal de Aleph: “o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos”. Ao mesmo tempo, acrescento eu.

É o mundo inteiro num pequeno ponto luminoso. E o vi hoje à noite, quando ia, rotineiramente, alimentar minha pequenina monstra doida canina. Quando me dirigia até lá, percebi um pequeno ponto luminoso, que nunca antes tinha visto. Voltei, e vi de novo. Era assombroso.

Agora entendo minha pequena cadela, que loucamente latia sempre que alguém se aproximava, como que querendo avisar "olhe ali! é o mundo em nossa frente!", e corria atrás de seu próprio rabo, provavelmente indignada que nenhum de seus donos percebia a imensidão que se encontrava no pequeno ponto luminoso escondido em meio às folhagens do abacateiro.

Estou me decidindo no momento o que faço, se começo a cobrar visitas ou se me deleito solitariamente nesse ínfimo prazer que é conhecer o mundo sem sair de casa. Ficaria certamente rico, se optasse pela primeira. Mas o ser humano é egoísta por natureza. Talvez eu decida ficar pobre e doido, rindo do infinito mundo e sua patética existência. Comendo abacates.

O abacateiro está eternamente condenado à vida. Preciso ir agora. O Aleph me espera.

Publicado em 01 de dezembro de 2007

domingo, 25 de abril de 2010

"O que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço"

Enquanto tento retomar o ritmo perdido do mestrado, começo hoje a resgatar textos do limbo do meu antigo Grogue hospedado no Tipos. Grogue este que uso de vez em quando pra treinar italiano, cujo link vocês encontram ali do lado. Do lado direito. Os critérios de escolha são estritamente subjetivos e não é possível recorrer. Se tudo der certo, nada dará errado. Eis o texto:



Com essas palavras Borges inicia o prefácio de seu melhor livro que já li, El Aleph, cujo conto homônimo já havia baixado e lido em espanhol.

Obviamente há coisas chatíssimas como um conto chamado Os Teólogos que quem não for da área não agüenta dois parágrafos sem fazer um esgar de desgosto. Li até o final por teimosia.
O que faz Borges parecer tão bom e suas histórias soarem tão verídicas (ele mesmo conta em seu prefácio a vez que um jornalista perguntou a ele se o Aleph existia realmente) é sua grande erudição e a profusão de citações, que mesmo que quiséssemos não teríamos material para pesquisa para comprovar, num país tão privado do hábito da leitura. Desta forma, ficamos sem saber se as citações são verdadeiras ou não. Algumas o são, e talvez (certamente) ele tenha usado esse artifício justamente para confundir. E consegue.

Mas o que em seus livros me chama a atenção é o fascínio pelos labirintos, pelos sonhos e pelo absurdo. São temas que invariavelmente acabo por ser atraído de alguma forma, e isso certamente reflete no que escrevo, assim como o Bukowski reflete no que bebo, e vice-versa.

Dos 17 contos que compõem o livro, pelo menos quatro, que me lembro, ou aludem a labirintos em sua trama, ou se passam dentro de labirintos. O que mais me chamou a atenção foi o conto "A Casa de Astérion", justamente porque uns dias antes estava lendo algo sobre a mitologia grega, sabe lá porque razões do acaso, e escrevi este texto no meu antigo blog.

A auto referência entre os contos do mesmo livro é também interessante. E O Aleph, na primeira vez que li, apesar da falta de treino do meu espanhol, mostrou-me uma faceta diferente dos contos absurdos e sobrenaturais. Diferentemente de H.P. Lovecraft, cujas histórias sobrenaturais sempre envolvem poderes antigos, ocultos e desconhecidos dos seres humanos, Borges, pelo menos no que li até agora, sempre conta histórias "já relatadas" por outros, repletas de citações, o que de alguma forma as torna mais verossímeis. Raramente é o narrador onipresente e onisciente nosso velho conhecido.

Como sabiamente o próprio Borges disse no chatíssimo texto Os Teólogos: "As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia".

Substitua heresias por contos.

Publicado em 22 de novembro de 2007

domingo, 22 de novembro de 2009

Domingo

O domingo hoje passou lento. Pouca gente. Pouco movimento.

Nem as moscas, a me encher a paciencia, apareceram

O domingo foi tao lento, mas tao cheio de nada, que pra se ter uma idéia de que nao poderia ser mais monòtono, nao recebi nem mesmo um spam no meu email. Nem unzinho.
Pois é, amigo. Tem dias em que o dia nao passa.

E esse dia é hoje.

* * *

James Joyce, Jorge Luis Borges, Samuel Beckett e Vladimir Nabokov. Segundo um critico italiano, esses 4 definiram as coordenadas mentais da narrativa no século XX. Seja là o que isso quer dizer.

Coordenadas mentais...é interessante este uso de termos vagos que soam bem e impoem um certo respeito ao texto. Uma coordenada mental ninguém sabe o que é, deduz-se que seja algo como "estrutura psicològica da narrativa", ou padroes, sei là. Acho que fiquei mais vago ainda.

Mas o importante é o que importa, o resto é o que sobrou. E a verdade é outra e diversa. Ou nao.

O futuro...no domingo vazio se pensa muito no futuro. E é logo ali.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Sobre coelhos e cajados

Nada que suponho conhecer parece-me verdade. O diálogo:
Hot guns and cold cold night

O diálogo. Sobretudo agora, quando Débora ao longe, em minhas memórias, acenou-me sua tristeza. Débora foi a primeira pessoa a quem amei realmente. Sempre tento colocá-la em meus contos, mas nunca parece natural o suficiente o nome Débora. Talvez porque a história não esteja sendo contada de maneira natural, talvez isso. O diálogo:

“Bom dia.”

Sempre fico em dúvida de como começar um diálogo, se com aspas ou travessão. Saramago inovou, seus diálogos separam-se por vírgulas, num mesmo parágrafo:

A manhã estava clara quando Joaquim disse, Bons dias Maria, no que ela lhe respondeu, Bons dias, Manoel.

Rubem Fonseca não usa exclamação em suas frases. Nunca. Mesmo as mais desesperadas, aos berros, não possuem o alarmante “!”. Concordo com ele. Voltemos ao diálogo:

Lilith, pelos campos verdejantes, saltitava e cantarolava sua música preferida, chacoalhando a longa cabeleira negra, assoviando, agitando os braços. “Six six six, the number of the beast”. Nada mais puro que um heavy metal.

Kerouac carregava seus livros com adjetivos mil, um atrás do outro, sem muita ordem. Há uma linearidade, contudo, que prende o leitor, pois seguimos os caminhos do pensamento, sem esbarrarmos em formalidades demasiadas. Talvez uma forma de entrarmos na cabeça do autor. A pontuação formal, se considerarmos sob certo viés “conservador” - não arrumei melhor adjetivo - molda o leitor à história. Ou talvez eu esteja divagando. Engraçado eu ter falado em diálogo, muito embora, até agora, necas de pitibiribas. Minto. Olhá lá ele:

- Te conheço de algum lugar, garota.
- Não sei donde possa conhecer-me. Eu não existo.

Primeiro clichê: surpreender o leitor no início do diálogo. Logo de cara ele percebe que se passa algo unnatural, não existe. A partir daí começa a supor teorias, será um fantasma, a consciência, ou, como em Ítalo Calvino, simplesmente alguém que não existe mas, ainda assim, convive naturalmente com as outras pessoas. Cabe ao autor manter a emoção dessa novidade até o final, criando sempre, e cada vez mais, situações inusitadas. Primeiro, por si só, criará empatia com o leitor, afinal, quem não gosta de dar risadas? Segundo, situações desconexas não necessitam ter tanta semelhança com a realidade, permite mais liberdade. Mais fácil para o autor e entretém o leitor. Dois Paulos Coelhos numa cajadada só. Enfim:

- ... Eu não existo.
- Sei, conta outra.
- Assim como é difícil você acreditar, é difícil para eu provar. Não posso manifestar-me, não posso mover objetos. Sabe lá como, de alguma forma, ainda consigo manter um diálogo, mas isso, como você mesmo objetou, não é prova suficiente.

Nessa hora, Saramago interviria na narração para supor que o leitor está duvidando da veracidade da trama, procurando erros formais e lógicos, mesmo num texto ilógico, e justificando-os. Borges, ao contrário, no conto em que ele se encontra consigo mesmo, põe em dúvida a veracidade da história através do diálogo dos dois Borges de maneira tal que, no final, sabe lá como, ficamos ainda em dúvida se não haveria acontecido o tal encontro. É um tipo de descrição e de diálogo incrivelmente natural. O mesmo acontece com García Márquez, porém de uma forma mais bucólica.


Outro dia continuo essa brincadeira de análise literária.

sábado, 7 de abril de 2007

Sábados

Afuera hay un ocaso, alhaja oscura
engastada en el tiempo,
y una honda ciudad ciega
de hombres que no te vieron.
La tarde calla o canta.
Alguien descrucifica los anhelos
clavados en el piano.
Siempre, la multitud de tu hermosura.
***
A despecho de tu desamor
tu hermosura
prodiga su milagro por el tiempo.
Está en ti la ventura
como la primavera en la hoja nueva.
Ya casi no soy nadie,
soy tan sólo ese anhelo
que se pierde en la tarde.
En ti está la delicia
como está la crueldad en las espadas.
***
Agravando la reja está la noche.
En la sala severa
se buscan como ciegos nuestras dos soledades.
Sobrevive a la tarde
la blancura gloriosa de tu carne.
En nuestro amor hay una pena
que se parece al alma.
***
que ayer sólo eras toda la hermosura
eres tambien todo el amor, ahora.
J.L. Borges