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quinta-feira, 21 de abril de 2016

COMO PERDER A SI MESMO EM 7 ATOS*


I - A Felicidade Inebriante ou A Vontade de Não-Ser

Nas horas escuras de dúvida e temor e desejo de viver
Insurge-se contra mim e me atropela
A vontade de não-ser
Das profundezas mais sombrias e execradas do meu pensamento surge ela,
fingindo não-ser para ficar
Forçando-me contra meu abismo e sucumbindo-me às suas vontades
A vontade de não-ser toma conta de mim e me governa
Abusa do meu corpo e do meu cérebro obtém o que quer e quando quer
Os fins justificam seus meios sem meio-termo,
nem devaneios e sem ao menos ligar para as conseqüências
O ápice da vontade de não-ser inebria de uma forma o meu ser que,
por estar vivo no outro dia posso considerar-me um vitorioso
Triste, porém, é saber por vozes do além o que a vontade de não-ser provocou em mais alguém



II - Um Sentido Escondido

Assim como sucumbo à vontade de não-ser sucumbo também à dúvida que me dilacera atrás de respostas e de defesas para meu corpo a memória castigada em sua via-crúcis semanal é pouco mais que nada: é uma pegada na lama enquanto chove é uma gota de água na imensidão do mar as escoriações, os odores, as sujeiras e as dores são parcos indícios de coisa alguma as falas confusas, flashes de cenas que bem poderiam ser de um filme, ou de um sonho, mais me atormentam que me acalmam e a angústia de não ser ninguém me abraça e me acolhe com seu calor, seu aconchego e suas canções de ninar

III - Um Motivo Qualquer

Tudo começa na hora do sonho que me excita pensamentos e imagens
Pessoas e lugares desfilam em meu córtex e,
violento e semi-adormecido, aceito dos delírios as provocações sem pestanejar
Ou então não é num sonho, é num convite, numa pergunta e perdido e sem opção me atiro de cabeça na ignomínia desenfreada e sem volta sem pensar
Ou então é só, enquanto eu, pusilânime, me deleito na minha necessidade e no meu vício de solidão que me impelem a ser quem não sou sem questionar
Pode ser um sonho acordado enquanto olho o horizonte fundo,
do outro lado e aceito distanciar-me de mim sem piscar
Ou são apenas desculpas para eu não precisar admitir minha covardia perante a vida.

IV - Um Estímulo Podre e Desleal

Uma vez fora de mim qualquer bobagem torna-se grandiosa e qualquer olhar transfigura-se em amor qualquer mulher em amante qualquer sussurro, um convite
E quanto mais me suicido, mais me maldigo por dentro e, concomitantemente, mais ódio e raiva transbordam de mim e me estimulam a mudar-me, ainda mais, a personalidade
No final todos são procazes (inclusive o mais santo) e todos suscetíveis a opróbrios tão voláteis quanto meu humor e tão vazios quanto eu

V - O Desespero Pós-Felicidade

O ato de acordar talvez seja o mais amargo e acre depois da felicidade inócua
Perdido e sem ação, lamento e retorço as memórias e o corpo numa vã tentativa de retroagir e, sem sucesso, resigno-me e sofro, enfim, o castigo que mereço
Meus fantasmas, sarcásticos, não perdoam nem mesmo meu estado de inação e fraqueza
Meus fantasmas e minhas sombras me subjugam e me desequilibram impiedosos
Meu ódio é inversamente proporcional ao meu conhecimento e às minhas conclusões
Mesmo nosso julgamento das coisas não tem valor quando não se tem noção do que se perde e do que se é

VI - A Angústia Premeditada

Na montanha e na caverna de meu desespero os corvos,
os abutres e os urubus devoram a carne pútrida da minha felicidade
Morreu em êxtase: ébria e dormitante
Morreu desgostosa: só e iludida
Morreu.
Em seu lugar nasceu uma angústia melancólica e sufocante cujo sabor eu já sentira outrora
Senti-me repetindo uma mesma vida
Revivendo meu início, rebobinando e reiniciando a mesma fita
Senti-me pedante como todas as redundâncias
Senti-me enjoado como todas as repetições
Senti-me tonto como tudo o que gira e não consegue parar
E preso à essa angústia renasci igual e tão fútil quanto antes
Todas as vidas que vivi e que vivo têm o mesmo gosto insosso e a mesma cor amarelada
Todos os dias em que me vejo no espelho enxergo uma caveira que acena e ri-se de mim
Corro para longe e, à medida que me afasto,
aproximo-me mais do que tanto fujo e do que tanto temo: A minha verdade
O único modo de não encontrá-la é esconder-me e, abraçado à angústia, fingir não ser para ficar Viver outras vidas, mas ficar.

VII - O Fim do Ser Enquanto Dono de Si Mesmo

O que hei de chamar minha vida?
Eu?
O que vivo?
Minhas lembranças?
O que penso?
O que hei de chamar minha vida?
E o que hei de chamar eu mesmo?
Quem há de saber minha verdade, a não ser a própria verdade?
Estou desenganado.
Já desisti de ser eu mesmo.
Não me reconheço em meus atos nem em minhas palavras.
Muito menos no espelho
O espelho da caveira claudicante deve representar os meus não-seres,
os meus refúgios da verdade, mas não pode representar a mim!
Nego-me a aceitá-la como meu reflexo, ainda que verdadeiro!
Antes renegar o verdadeiro eu e tornar-me outro,
ou sublimar-me no ar, a aceitar minha decadência e viver sem vida
como um inseto ou poeira e perecer destruído mas com o orgulho de ser eu mesmo!
Antes não ter de aceitar minha alma - ou o que dela resta - de volta,
e perder meu espírito,
e sentir-me nu por dentro,
a regozijar-me por morrer em pedaços mas com a alma intacta!
Antes uma não-vida em um não-lugar a uma vida que não se percebe,
num lugar que não se sente!
Agora que a vontade de não-ser se apodera dos meus últimos pensamentos
deveras aproveitáveis e das minhas últimas verdades e suspiros,
digo adeus à vida e a Deus.
Agora não sou mais eu,
nem o intermédio: sou o outro.
Um outro que não sabe quem é,
nem porque é.
Mas vive.
Desalentado e indiferente a tudo,
mas vive.

* Texto escrito por mim mesmo, no já distante 22/01/2003, com 21 anos: estudante, desempregado e sem perspectivas num breve futuro. Mal sabia eu o que aconteceria em poucos meses... É interessante ver como eu pensava àquela época. Minha evolução (ou involução, dependendo do ponto de vista). Fica o registro da péssima escrita do início do século, que deu origem à péssima escrita atual.

sábado, 15 de outubro de 2011

Eins, zwei, polizei


Depois de, em 2009, ter ido à Oktoberfest em Munique, eis que chega a vez de conhecer a 2a. maior festa de alemao do mundo.

Em 3h estarei em Blumenau. Ein prosit!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mochilão na Europa PARTE VII - O lado escuro de Copenhague

Meus caros fantasmas já se foram todos embora. Sobrou-me eu. Só, tento relembrar-me de dias já passados, longínquos, que nem ao menos sei se realmente aconteceram, ou se tudo isso foi mais um sonho. Mais um, entre tantos, entre muitos. Entrementes, sigo o relato, devidamente esquartejado em infinitas partes. Se tudo sair como planejado, antes de completar um ano da minha viagem, isto é, em agosto de 2011, este relato estará completo.

Mas, como eu ia dizendo no último post...





Foi aí que descobri o lado escuro da cidade. O lado escuro, do escuro do mundo. Na rua, mal iluminada, viam-se sombras. Depois dos primeiros passos já pensei que seria assaltado. Mas lembrei-me que estava na Europa e, mais ainda, na Escandinávia. A lascívia amalgamada à ignávia me fizeram sentir na Bolívia, perdido nas florestas.

A Halmtorvet, ao contrário da Vesterbrogade, não era tão frequentada à noite. Ou melhor, era, mas não tão bem. Nas esquinas grupos de pessoas em frente a portas semi-abertas. Nas outras esquinas, mulheres decadentes se ofereciam a clientes idem. Escondidos, os gigolôs observavam. Pocilgas ofereciam strip-teases.

Chega-se ali com a ilusão da perfeição nórdica, que até certo ponto é verdade, mas o ser é humano, e a decadência é inevitável. Decadence avec elegance. Apesar disso, estava muito mais tranquilo do que estaria em uma rua deserta no Brasil. Ali, parece, não mexem com quem tá quieto. Segui meu caminho em frente. Lembrei-me da minha viagem a Barcelona, dois anos antes, onde aconteceram cenas semelhantes.

Quando dei por mim, estava no albergue, dormi profundamente. Acordei tarde, uma chuva interminável o que trouxe um leve frio. A temperatura que peguei na Suécia era em torno de 30 graus, e seria o mesmo na Dinamarca, não fosse pela precipitação. Por causa disso, me vi ao redor dos 15, sem ter trazido muita roupa. Pensei, merda, o que vou fazer num dia de chuva?

Elementar, meu caro fantasma! Aproveite e vá para um museu, e finja ser uma pessoa culta. Boa ideia! (Já estou me acostumando à nova ortografia...escrever sem acento é muito fácil, deveríamos abolí-los todos.)

Fui, então, ao museu. O Museu da Cerveja Carlsberg, a quarta maior cervejaria do mundo. Chegar lá foi difícil. Precisei pegar dois trens e ainda caminhar um bom tempo debaixo do meu guarda-chuva meia boca. Pra piorar, o mapa não dizia exatamente onde era a entrada do museu, e a fábrica da Carlsberg ocupa um espaço imenso. Acho que entrei pela parte dos funcionários. Pelo menos foi isso que consegui identificar com meu dinamarquês cambaleante. Quando finalmente achei a entrada, minhas calças estavam molhadas até os joelhos. Mas como dizem os italianos "Non ti mettere a giocare se non vuoi pericolare". Entrei.



Aí voltamos ao Preâmbulo das minhas aventuras. Depois das cervejas belgas, chegou a vez do Museu da Cerveja. Eu nunca havia experimentado a Carlsberg. Mas até eu provar perdi um bom tempo. Os prédios do local são bonitos, e detalhes peculiares como o Elephant Gate merecem uma paradinha.


Entrando no museu, vê-se a maior coleção de cervejas fechadas do mundo inteiro. São milhares de exemplares expostos aos visitantes, que boquiabertos pensam ao mesmo tempo "que bonito" e "que desperdício". Em seguida, um belo passeio contando a história da cerveja, provavelmente uma das primeira bebidas alcoólicas criadas pelo homem. (Sabe-se que o povo sumério, que viveu 3 mil anos a.C adorava a deusa da cerveja Nin-Kasi). Depois, veio a história da própria cervejaria. Fundada em 1847 por J.C. Carlsberg, vídeos contavam todo o processo de produção da cerveja, a seleção dos grãos, as temperaturas ideais, os ingredientes, as fases de mistura, armazenamento, engarrafamento e distribuição e foi a partir daí, somando-se à minha experiência belga, que tive cada vez mais convicção de que a cerveja é uma arte, uma obra-prima. E só poucos conseguem apreciá-la devidamente. Devemos bebê-la com todo respeito e admiração que ela merece.


No final do museu tive a oportunidade de saborear 3 das várias cervejas produzidas pela Carlsberg, todas muito boas. Saí satisfeito e dizendo em voz alta "In vino veritas" para as pessoas com quem cruzei na rua. A chuva tinha passado, eu estava feliz, mas não percebi que a citação em latim nada tinha a ver com a cerveja.

Continua no próximo post.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Era eu aquele livro


Entre a certeza e a indecisão
ah, indecisão!
No final do dia,
dos dias
do fogo, o fogo
ainda.
Era eu aquele livro. Era
eu!

Mas ninguém me acreditou,
e fui virado
como uma página.

De um livro,
nem um índice, nem um prólogo.
De um livro
nem ao menos
o prefácio.
De um livro,
longe da introdução, de um
capítulo.
A milhas da conclusão.

De um livro,
no máximo um epílogo.

Da vida,
um epitáfio.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE II - Les pays de la bière

Quando vi o menu com mais de 40 tipos de cerveja, fiquei abismado. Eu não estava preparado pra isso. Havia planejado a viagem em alguns pontos. Primeiro, Bruxelas, que seria passagem obrigatória pra chegar em Estocolmo. Em seguida, Copenhagen, e depois não planejei mais nada. Nas últimas semanas a idéia era ver todos os detalhes, pontos turísticos a visitar, essas coisas. Mas fui surpreendido por um freelancer pra um jornal de Londrina e por um volume sobreumano de trabalho no hotel. O que quer dizer que fui meio às cegas.

Cheguei em Charleroi, aeroporto ao sul de Bruxelas. Dali, um ônibus me levaria até o centro.Pra comprar o ticket do ônibus a única opção era uma máquina automática. Toda a Europa é feita de máquinas automáticas. Você pode comprar desde cigarros, comida, bebida, jornais, tirar fotos, até passagens e camisinha. O problema é que quando você adquire uma passagem pro dia errado, não tem opção: não temos com quem reclamar, e a solução é uma só, comprar outra passagem com o cuidado redobrado, pro dia certo. "Merde", eu disse em francês, quando descobri que tinha comprado ida e volta pro mesmo dia.

Depois do episódio, deixei a mochila grande no depósito e com a menor me dirigi à capital das loiras. Cervejas, sejamos bem claros. E da Bélgica também.

Grand Place
Cheguei na estação central. Vi algumas placas que mereceriam uma piada neste relato, mas sem as fotos que tirei, é impossível fazê-la. Tudo bem. Saindo da estação, uma garoa chata mas leve, fiz o primeiro giro a pé pela cidade. Prédios imponentes, igrejas com altas torres. A Bélgica é uma monarquia, o que explica um pouco tudo. Depois, no horário marcado, fui encontrar o casal que iria me hospedar. Andamos por outra parte do centro, tirei foto da fonte mais conhecida do país e seguimos diretamente a um pub muito famoso, mas que obviamente não lembro o nome, porque à epoca eu ainda supria as lacunas da memória com fotos dos locais.




Manneken Pis (O piá que mija),
a mais famosa fonte de Bruxelas
E sentando-me à mesa, tive a primeira das várias lições sobre a arte da cervejaria que aprendi durante minha pitoresca viagem. O garçom traz o menu e pergunta, pra beber? "Bier", respondi em holandês. Ele deu uma risada como se dissesse, sim mas qual, cara pálida. Foi então que vi a coisa mais impressionante que uma pessoa poderia ver em um menu de um bar: mais de quarenta tipos de cerveja, todas locais. Eu não sabia por onde começar. Não fazia a menor idéia de nada, me senti um analfabeto numa linguagem que eu julgava dominar. Primeiro, a descrição das cervejas estava em francês e holandês, as principais línguas da Bélgica. Ok, de certa forma eu era analfabeto. Talvez tivesse também em inglês, mas não me lembro.

No final, não sabendo se pedia um uísque no lugar ou saía correndo, disse pro garçom, me fala um número. 32, respondeu em francês. (Neste momento pedi ajuda aos comensais para a tradução) Contei as cervejas e pedi aquela. Cada um do casal também pediu a sua, eles obviamente já iniciados na arte de escolher uma cerveja belga. Em pouco tempo, tínhamos as três cervejas na mesa. Uma estava inclinada como um champanhe, as outras duas em pé. Cada marca de cerveja tinha uma  garrafa diferente, copo personalizado com nome e formato específico e era servida de uma certa maneira, tudo descrito no rótulo. Olhei boquiaberto todo o ritual. Finalmente, brindamos e bebemos. Era muito boa mesmo. Depois pedi uma outra, também boa. Fomos embora e, no caminho, compramos mais umas 5 pra beber em casa. Eu imaginava quantos copos cada bar não teria e a organização entre copos e cervejas. Perdi alguns bons minutos divagando sobre o assunto.

Chegando em casa, o cara me mostrou uma de suas aquisições: The Bible of Belgian Beers (A bíblia das cervejas belgas) ou algo assim, escrito por um expert que se chama Michael Jackson (!), um best-seller no país. Era uma edição bilíngue, em francês e inglês, contendo detalhes de provavelmente quase todas as cervejas que são produzidas no país, incluindo o tipo de copo que se usa. Lendo a tal Bíblia, descobrimos o formato do copo que se usa com aquelas que compramos e ele foi, com a maior calma, procurar na sua coleção de copos aqueles mais parecidos! Esse é profissional, pensei. E eu que pensava que ter 3 tamanhos diferentes de caneca na estante já tava bom. O cara tinha mais de vinte copos ali, dos mais variados formatos. Achou 3 parecidos e fomos degustar e conversar sobre várias coisas, quase todas elas se referiam à cerveja.

Dormi feliz.

No dia seguinte me despedi dos meus anfitriões, aluguei uma bicicleta pública* e fiz um passeio maior pela cidade, tirei várias fotos (é como uma punhalada, cada volta que me lembro) antes de voltar ao aeroporto, recuperar minha mochila e seguir até a capital das loiras e da Escandinávia. E também da Suécia.

Em Estocolmo eu dormiria em um barco. E as loiras belgas, no seu mais formoso teor alcoólico, me diziam que a viagem estava muito boa, apesar de apenas ter começado.

* Nas grandes cidades européias existem bicicletas públicas disponíveis. Na Bélgica você paga uma quantia baixa (menos de 10 euros) por um dia, com cartão. Se você não devolver a bicicleta, eles te debitam 150 euros. Já em Copenhagen basta uma moeda de 20 coroas pra poder pegar uma (menos de 5 euros). E o mais interessante é que ninguém rouba elas.

Continua no próximo post.

domingo, 15 de agosto de 2010

Rapidinha

Já sobrevivi Bruxelas e suas cervejas e Estocolmo e suas loiras.

Hoje sigo para Copenhagen. Fotos infelizmente, só no final.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Premonição

Sört - pronuncia-se Xôrrt - significa "cerveja" em húngaro. Talvez eu tenha que usar essa palavra em agosto.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A arte de ler

Eu tava aqui, perdido entre as fotocópias do mestrado, as minhas traduções e a bagunça metódica do meu quarto quando percebi que tenho uma quantidade gigantesca de livros aqui que comecei a ler e parei na metade, não por falta de interesse, mas simplesmente por que paro de ler por uma razão mais ou menos razoável - como dormir ou trabalhar - e quando posso retornar à leitura, me esqueço dela e começo outra.

Resolvi então listar, por pura falta do que fazer, ou melhor, por falta de tempo pra escrever algo melhor, resolvi elencar os tais livros aqui embaixo, com alguns comentários a respeito, isso se eu já tiver formado uma opinião a respeito:

L'italiano - lezioni semiserie (O italiano - aulas semi-sérias) de Beppe Severgnini: o autor é um famoso jornalista italiano e o livro é um manual bem-humorado de como escrever bem a língua de Dante. Pra quem estudou jornalismo, lembra muito um manual de estilo, com os erros mais comuns que a italianada comete na fala e na escrita. E percebe-se que cada exemplo que ele dá você ouve muitas vezes ao dia. Mas como diz o título, as lições são meio sérias. Pelo menos se aprende rindo.

Romanzi e Racconti (Romances e contos) de Italo Calvino: Obra completa de um dos maiores escritores italianos do século passado. São três tijolões que quero terminar de ler ainda esse ano. Calvino é um mestre dos contos e um dos autores preferidos de Zaratustra. Esse maluco eu já conhecia ainda no Brasil, com os livros O Cavaleiro inexistente e O castelo dos destinos cruzados (o último deu origem a uma música dos Engenheiros do Hawaii, o que provavelmente vai distanciar os leitores, ao invés de aproximá-los).

La luna e i falò (A lua e as fogueiras) de Cesare Pavese: O autor é outro grande escritor do séc. XX. É o primeiro livro que leio dele e realmente interessante. Conta a história de um italiano que fez fortuna nos EUA, retorna à sua cidade natal e reflete sobre as mudanças das pessoas, da vida e etc. O livro foi o último publicado antes do suicídio do autor e o personagem principal é sem dúvida seu alter ego. Recomendo.

La grande sera (A grande noite) de Giuseppe Pontiggia: Este livro até já comentei outro dia, escolhi ao acaso, sem conhecer nem autor nem obra, e acertei na mosca. O escritor é um grande experimentador da linguagem e como diz na contracapa, o livro é uma pintura impiedosa da Itália dos anos 80, uma sátira lúcida e amarga de uma sociedade feita de ilusões cheias e vazios reais. Estou ainda no início do livro, mas to gostando davvero.

Carta aos loucos de Carlos Nejar: Esse é brasileiro. Achei uns tempos atrás numa loja virtual, comprei e quando vim do Brasil trouxe comigo. Nejar é um poeta e, como sempre digo, um dos poucos que merecem o posto que ocupa na ABL. Esse livro no entanto é um quase romance. Quase porque, mesmo tentando escrever em prosa, o cara não consegue, o que se torna aquilo que chamam de prosa poética, uma coisa de louco mesmo, como já nos adverte o título. O conteúdo é denso e difícil de ler. Mas é bom, embora eu ainda prefira a coletânea de poemas que achei num sebo em Londrina, "De Sélesis a Danações". A única coisa que estraga é o prefácio do Paulo Coelho. Mas como já disse algum sábio, é bom que existam coisas ruins no mundo. Só assim podemos comparar com as boas e, desta forma, teremos certeza que as boas são boas mesmo.

Um excerto: "O verossímil é uma inverossimilhança que bateu com a nuca nalguma lâmpada. A nuca ficou acesa e a lâmpada se apagou".

Nuova grammatica italiana: Essa não preciso explicar porque parei no meio. Teoria é chato pra baralho.

Teoria e storia della traduzione: idem.

Crie planilhas inteligentes com o Excel 2003: Esse eu tava lendo quando não fazia nada além de coçar o saco e esperar a minha cidadania. Um dia, quem sabe, eu termino de ler. Quem sabe...

A arte de escrever de Arthur Schopenhauer: O cara é um dos mais importantes filósofos alemães. Este livro traz textos selecionados em que o autor fala sobre o próprio ofício e tece comentários desta coisa legal pacas que é escrever. Comecei a ler ainda no Brasil e parei na página 52. Mas como não me lembro de nada, provavelmente terei de recomeçar do zero.

Aprendendo a viver de Clarice Lispector: Esse não terminei de ler simplesmente porque se digere em doses homeopáticas. São microtextos e apotegmas da grande escritora brasileira, que se fosse viva e da minha idade, eu casaria sem dúvida. Indispensável.

A Bíblia do caos de Millôr Fernandes: Como o livro da Lispector, são aforismas e se consome tudo lentamente, mas com o estilo sarcástico e inigualável do autor. Recomendo.

Agora me desculpem mas devo voltar ao caos da minha lunática rotina, meus textos, minhas traduções, meus etcéteras inseparáveis.

E depois tem a cerveja, é claro, pois hoje é meu dia de folga.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Do futuro

Bebo uma cerveja. O frio passa em frente à minha janela. As luzes do quarto apagadas. Eu olho pela janela. Eu penso.

Outro gole. Tiro os óculos e de repente minha visão se embaça. Vejo luzes e escuros desfocados. O frio passa. Olho pro relógio: é tarde, muito tarde. Eu penso.

O computador toca Cafe Tacuba. É incrível como a língua espanhola é melancólica, e ao mesmo tempo tão bela. Outro gole. E eu penso no futuro.

O futuro...o futuro promete e ao mesmo tempo distancia. O futuro poderia ser belo como uma música do Cafe Tacuba. Poderia ser simples. Mas a simplicidade não combina com Deus. Deus exige o complexo, o caos, a provação. Deus exige atenção.

Deus exige.

Outro gole. Abro a janela e o frio entra e me envolve. Me deixo ficar. O futuro está próximo. El futuro es mañana. Una mañana linda...

A cerveja termina. O frio continua. O futuro, em um mês, dará provas de existência. "Espero que Deus não seja tão sarcástico comigo", estava escrito no livro.

"Amém", disse o poeta, últimas palavras, lucidez completa.

Depois, silêncio. 

sábado, 21 de novembro de 2009

O pendulo de Foucault


Depois de meses lendo o famigerado exemplar acima nominado, finalmente terminei de ler o livro de Umberto Eco. No meu antigo blog devo ter feito alguns posts comentando do livro.

O final da leitura de livros gigantescos como esse (mais de 600 pag) sempre sao interessantes. O livro, aliàs, começa perto do fim e o narrador aos poucos desenvolve a historia contando o que aconteceu atè ele chegar onde està. E isso se estende por mais da metade do livro. Depois, o final è inicialmente arrebatador, mas me decepcionei na ultima pagina. Pareceu que o Eco nao sabia como terminar e decidiu por fim ao livro de um modo um pouco reticente, sem tanta emoçao.

Ao mesmo tempo que eu terminava de ler, fazia minha primeira traduçao pro mestrado, que era um excerto do Otelo de Shakespeare, do Ingles arcaico pro italiano. Me debati durante uma semana sobre o livro e, especialmente, sobre esse trecho. Um dia antes de terminar a traduçao faltavam 2 frases que eu nao achava um resultado satisfatòrio. Aì resolvi tomar uma cervejinha pra refrescar a cuca e tudo se resolveu.

A pròxima semana serà minha primeira aula do mestrado, em que verei o real resultado de tudo isso, e começo a analisar as vantagens e desvantagens de um mestrado em duas lìnguas estrangeiras. Veremos.

Entao transcrevo a voces, em primeira mao, o excerto do Ato V Cena II do Otelo no original em ingles e na minha traduçao em italiano, pra nao deixar esse blog abandonado às moscas:

LODOVICO: You must forsake this room, and go with us:
Your power and your command is taken off,
And Cassio rules in Cyprus. For this slave,
If there be any cunning cruelty
That can torment him much and hold him long,
It shall be his. You shall close prisoner rest,
Till that the nature of your fault be known
To the Venetian state. Come, bring him away.

OTHELLO: Soft you; a word or two before you go.
I have done the state some service, and they know’t.
No more of that. I pray you, in your letters,
When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am; nothing extenuate,
Nor set down aught in malice: then must you speak
Of one that loved not wisely but too well;
Of one not easily jealous, but being wrought
Perplex’d in the extreme; of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe; of one whose subdued eyes,
Albeit unused to the melting mood,
Drop tears as fast as the Arabian trees
Their medicinal gum. Set you down this;
And say besides, that in Aleppo once,
Where a malignant and a turban’d Turk
Beat a Venetian and traduced the state,
I took by the throat the circumcised dog,
And smote him, thus.

[Stabs himself.]

LODOVICO: O bloody period!

GRATIANO: All that’s spoke is marr’d.

OTHELLO: I kiss’d thee ere I kill’d thee: no way but this;
Killing myself, to die upon a kiss.

[Falls on the bed, and dies.]

CASSIO: This did I fear, but thought he had no weapon;
For he was great of heart.

LODOVICO: [To Iago] O Spartan dog,
More fell than anguish, hunger, or the sea!
Look on the tragic loading of this bed;
This is thy work: the object poisons sight;
Let it be hid. Gratiano, keep the house,
And seize upon the fortunes of the Moor,
For they succeed on you. To you, lord governor,
Remains the censure of this hellish villain;
The time, the place, the torture: O, enforce it!
Myself will straight aboard: and to the state
This heavy act with heavy heart relate.

[Exeunt.]


Aqui embaixo a minha traduçao:

LUDOVICO: Deve abbandonare questa camera, e venire con noi:
Il suo potere e il suo comando sono finiti,
Adesso Cassio governa a Cipro. In quanto a questo malfattore,
Se si conosce crudeltà
Che può tormentarlo tanto e per molto tempo,
Sarà sua. Deve rimanere prigioniero,
Finché lo Stato Veneziano conosca
La natura dei suoi crimini. Venite, portatelo via.

OTELLO: Un attimo; due parole prima che partiate.
Ho fatto alcuni servizi allo stato, e lo sanno.
Basta. Vi prego, nelle vostre lettere,
Quando racconterete queste sventure
Parlate di me come sono; senza eccessi,
Né malizia: dovete parlare
Di uno che non ha amato saggiamente, però molto;
Di uno che non è facilmente geloso, però essendo stato provocato
Divenne confuso all’estremo; di uno la cui mano,
Come l'indegno Indiano, butta via una perla
Più ricca di tutta la sua tribù; di uno i cui occhi repressi,
Sebbene non abituati ai sentimenti più teneri,
Sparsero lacrime così rapidi come gli alberi arabi
Fanno con la loro gomma medicinale. Scrivete questo;
E inoltre dite, che una volta in Aleppo,
Quando un malvagio turco in turbante
Picchiò un veneziano e diffamò lo Stato,
Presi per la gola il cane circonciso
E lo colpii in questo modo.

[si accoltella]

LUDOVICO: Oh, che fine sanguinosa!

GRAZIANO: E’ stato inutile quel che abbiamo detto.

OTELLO: Ti ho baciato prima di ucciderti: così è stato;
Mi uccido, per morire sul tuo bacio

[cade sul letto e muore]

CASSIO: Avevo paura di questo, ma ho pensato che non fosse armato;
Perché è stato un uomo di gran cuore.

LUDOVICO: [a Iago] Oh, cane spartano,
Più crudele dell’angoscia, la fame o il mare!
Veda il tragico fardello su questo letto;
Questo è opera sua: l'oggetto avvelena la vista;
Nascondiamola. Graziano, la casa adesso è sua,
E conservi le ricchezze del Moro,
E’ il suo successore. Lei, Signor Governatore,
Deve giudicare questo diabolico mascalzone;
L’orario, il luogo, la tortura: Oh, lo faccia soffrire!
Io vado direttamente a bordo: e allo stato
A malincuore racconterò questo pesante atto

[Escono.]


Traduzir é um pouco cansativo. Mas é melhor do que trabalhar em um banco e em um hotel.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O fim da madrugada



No alvor do frio dos dias da cidade secular
Dos ventos, das gotas do orvalho que me circundam
O rio e a chuva que de umidade a cidade inundam
O outono das folhas mortas a alma congela devagar

Na madrugada ociosa, silente e abandonada,
nas alamedas desertas, nos becos escuros
abraça a cidade, como os antigos muros,
a voz sôfrega que jaz eternizada

pelos ecos, que dos sinos a toada
acompanha. A sombra, do nada,
surge sem que ninguém a veja

E sucumbe sob os raios da alvorada,
ouve-se o pranto de um'alma desgarrada
e o desespero pela última cerveja

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

The empty afternoon

Daydreaming in the afternoon (or 'on the'?). Do not know. Just spending my little time before some job, more job. Don´t know why they always want me there. Wanderer, bum (is it right?), that´s me. Do not like it, but need it. And they seem to love me each day more and more...

Uninteligible. But that's life, without logic or any kind of sense. My friend Jack K. was living alone on the highest tops of american mountains just to meditate, to think. He had no much needs. Was used to live with almost no money.

(I forgot when I am supposed to use 'on the' and 'in the'. Forgive my errors, if you find them).

And that's me, alone in the cyber cafe, with one cute girl on my side who doesn't even look to her side. She is very busy on her orkut stuff. On the other side there are plenty of crazy children playing their fucking games. I´m not interested in games anymore.

The trees fell to the ground on yesterday's storm. I was asleep almost all the day. 'worst hangover that I ever had', would say my friend Mark Knopfler, but it wasn't the worst. I've had worst before. Now I just get a little bit tired. You know, I´m not that young anymore.

On the 12th october, the trees fell down in Maringá, and I was there too. Soon they'll be calling me to go to brazilian northeastern regions to give them a little water.

I´m just writing with no reason, no story came to my head, but I feel a little melancholic (?) today. Maybe 'cause it's monday. In fact, I don't even know why am I writing all this bullshit in english. Maybe to convince myself that my english is getting worse everyday. But, besides all this, I won't study english, at least not for now. Need to put my italian on the trails. If my english is terrible, you can imagine my spanish and my italian. Even my fucking portuguese is bad. Bad to bone.

As always, I know that nobody is gonna read this text. First because it's in english. Second because it's too damn motherfucking big. People are lazy. I am a living proof of that, because it's hard to know someone lazier than me. But at least I'm not lazy on reading. Commonly, but sometimes...

Agora I gotta go. On the morrow I'll be drinking some beer with my friends on Madalena's bar. If you want, you can go.

"As long as I'm paying the bills, I'm paying the cost to be the boss."

sábado, 1 de setembro de 2007

A década Bukowski

Saúdo Charles Bukowski. Porque é a vida sem frescuras que imaginamos ter. Porque é ser seco com outros, sem se importar, como gostaríamos de fazer. Porque o desprezo exercitado continuamente nos traz um ceticismo incomparável. Porque o ceticismo é uma virtude que nos vale por toda a vida, um aprendizado contínuo da natureza humana, um perceber de detalhes indescritível.

Saúdo Bukowski. Como também o faço a John Fante, que mostra as fraquezas tragicômicas da juventude, e o ridículo nosso de cada dia é também uma aula que não se pode desperdiçar. A raiva de nosso ridículo é um motor impulsionando nossas vidas. Para mais situações ridículas, mas ainda assim um motor.

Saúdo Mr. Salinger, o recluso. Saúdo Pedro Juan, o Gutiérrez. O grotesco, o cru, o inenarrável, o deplorável: detestável e excitante, estímulo e ojeriza, tentação e nojo, paixão, ódio e desprezo. Asco.

Saúdo Rubem Fonseca, o mestre.

Saúdo enfim todos os anjos e demônios que me acompanham nessa década. Por que haverá um fim (sempre há de ter) para toda obra literária. Há data e hora, mas ainda não há local.

No dia 22 de abril de 2014 às 23h59 encerra-se a década e a ressaca contínua, e saudarei a meus mestres com muita gratidão. A partir daí, vida nova. Seja lá o que isso quer dizer.

domingo, 22 de julho de 2007

Glórias a Nin-kasi

Por volta de 3.000 a.C., nas imediações dos rios Tigre e Eufrates, no que hoje é o Iraque, desenvolveu-se o povo Sumério. Acredita-se que dentre os muitos legados deixados à humanidade por eles está a escrita, que teria sido criada nesta época, e a roda. Suas principais cidades eram Ur, Uruk e Lagash, que se revezaram ao longo dos séculos seguintes como as "capitais" desta civilização mesopotâmica. Todos os deuses sumérios eram dotados das mesmas condições e necessidades físicas dos seres humanos: comiam, bebiam, casavam e discutiam entre si. Segundo sua crença, os homens haviam sido moldados pelos deuses, a partir da argila, unicamente para servirem como escravos.

Muitos dos mitos e invenções sumérias influenciaram outras civilizações antigas. Vê-se boa parte espelhada na cultura egípcia, greco-romana e até no dias de hoje: os sumérios utilizavam na matemática o sistema sexagesimal, ou seja, baseado no número 60. Este é tido como o antepassado do sistema decimal arábico vigente e vemos resquícios dele até hoje, como a hora de 60 minutos e o círculo de 360 graus.

Mas talvez o legado mais importante dessa civilização praticamente desconhecida nos dias de hoje - cujas ruínas são destruídas a cada dia mais pelos bombardeios e atentados - é a cerveja. A bebida mais comum na época não continha ervas preservativas, como o lúpulo, que somente seria usado na fabricação por volta do ano 1.000 d.C., mas era amplamente difundida a todos os cidadãos. Cerca de 40% da produção de cereais da Suméria era destinada aos tonéis das cervejarias. Trabalhadores comuns dos Zigurates (os templos sumérios) recebiam uma ração de 1 litro por dia. Já homens mais importantes na sociedade poderiam receber até cinco vezes mais.

O panteão de divindades sumérias ultrapassava as 3 mil entidades, e dentre elas se encontrava Nin-kasi, a deusa que presidia a preparação da cerveja. No dialeto sumério Nin-kasi significa "a senhora que enche a boca", numa certeira alusão ao esporte preferido dos sumérios e, hoje em dia, dos brasileiros.

Mais tarde a Suméria foi unificada e dividida inúmeras vezes, por diferentes povos invasores, mas manteve as principais características de sua cultura que se moldaram às outras. Mas isso é conversa pra outro dia.

O que eu queria exatamente era, no dia de hoje, oferecer um brinde à Nin-kasi. Que ela encha nossa boca.

Cheers!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

"Minha alma embriagada de cerveja é mais triste do que todas as árvores de Natal mortas do mundo" *

O maior dos porres não consegue amenizar a pior das dores, o sentimento vago no peito. Apenas o protela. Pois vem a inconsciência, a loucura, o êxtase, o sono, a ressaca, a noite mal dormida, a boca seca, a dor de cabeça, as revoluções do estômago e isso acaba por preencher nosso dia, mas não o vazio. E ele é adiado o suficiente até conseguirmos senti-lo de novo e, mais uma vez, nos inebriarmos de embustes.

E por mais que ganhemos dinheiro, que possamos andar de carro, que encontremos uma bela mulher - e façamos amor com ela - que ouçamos uma música interessante, nada preenche realmente o vazio. E é por isso que trocamos de carros, de empregos, de mulheres, de cd's. Para tentar preencher o vazio que nunca é satisfeito. Como se ele absorvesse o que nele colocamos para mais tarde esvaziar-se novamente. E essa é a eterna busca do homem. A busca incerta de não se sabe o quê.

(*) O título é uma breve citação/homenagem a Henry Charles Bukowski in: Factotum, 1975.

domingo, 19 de novembro de 2006

Merry Christmas

Kátia estava se acomodando, quando chegou Chan para fazer-lhe companhia. Cumprimentaram-se.

- Olá, meu nome é Kátia. Katiaça. E você?
- Sou Chan Panhe, prazer.
- O prazer é todo meu.

Kátia e Chan conversavam animadamente, enquanto ia servindo comida à vontade: um peru assado, arroz, saladas e, como sobremesa, uma salada de frutas com um creme fenomenal. Ficaram um tempo deliciando-se com a comida, quando surgiu mais um acompanhante.

- Veja, Kátia, é a Cer!
- Quem?
- A Cer, veja!
- Olá pra todas! - disse Cer animadamente - Como estão minhas amigas?
- Ótimas! - responderam em uníssono, sorrindo!
- Que bom, hoje estou animada, não quero ninguém dormindo, hein?

E foram as três, sacolejando, para a boate. Chegando lá, meia-hora na fila, mas entraram, e, de cara, encontraram a pessoa mais estranha da região. Não se contiveram e começaram a cochichar, assim que o avistaram adentrando o recinto.

- Quem é aquele?
- Não conhece?
- Não, mas confesso que nunca vi ninguém tão assim, digamos, estranho.
- O nome dele é Johnny, mas é mais conhecido como Uísque Zito. Cara estranho. Dizem que morou 8 anos em uma casa de madeira em formato de barril.
- É, parece que a casa era feita de carvalho.
- Que cara estranho!
- Olá meninas, disse Johnny, caminhando, como está a noite? Me parece de alta graduação!
- Não falei que era estranho? - cochichou Kátia para Chan.

Johnny não parava. Quando veio da Escócia, seu apelido era Walker, pois não parava de caminhar pra lá e pra cá, sempre entrando, a toda hora, nos lugares. Johnny olhou para Cer, piscou o olho pra ela e disse:

- Gostei de você Cer. Veja bem, fazemos um belo par, se a gente se misturar, podemos fazer loucuras, ficar doidos, caminhar bastante, entende, né? - e sorriu maliciosamente. Cer correspondeu:
- Gosto de caras diferentes. Vamos pirar o cabeçote!

Então Johnny e Cer se alternavam na dança. E o lugar começou a girar, a música alta, luzes piscando, Johnny e Cer se abraçam e se beijam, o estroboscopismo correndo solto, mão aqui e mão ali, Cer resolve ir embora, então chega a dona da festa, olhou pra Johnny e se apresentou:

- Olá Johnny!
- Olá. Conheço você de algum lugar.
- Já deve ter me visto por aí. Sou absoluta nas baladas. Prazer, Vodka.

Johnny tinha uma paixão por russas. Bebeu-a, gole por gole, saboreando-a. Depois beijou-a apaixonadamente e disse:

- To doidão.
- Estamos os dois. Me bebe mais.
- Num güento. O dono do recinto ejagerou dessa veiz. Muitos convidados pruma noite só. Vou reclamar com ele.
- Deixa ele. Tem que beber mesmo. Vamos dormir.

A boate Estômago então encheu-se de risóles de frango, o último petisco da noite, e todos dormiram abraçados, sorrindo, pensando alegremente nas nuvens faceiras do céu azul que amanhecia, a inebriante felicidade de beber e beber e beber e dormir bem, e tudo acabou-se feliz naquela noite de verão, Papai Noel sorria satisfeito e disse pra Mamãe Noel:

- Te amo, véia