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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Cântico

Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.

Canga - Carlos Nejar

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Of Literature



Literature consists in not

                              saying



.

Leminski


"se
nem
for
terra
se
trans
for
mar"
P. Leminski - Sol-te

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Concurso de microcontos

Saiu há alguns dias a classificação do Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro, onde meu microconto ficou em segundo lugar. Reproduzo a minha cria abaixo:



Ernesto e os sábados

Todos os sábados à tarde, Ernesto tinha o costume de sentar-se na rede e ler seus livros preferidos. Contudo, naquela tarde havia encontrado um livro que não recordava ter comprado. Fitou-o e o escolheu como a leitura do dia. Era a história de um homem que, todos os sábados à tarde, tinha o costume de sentar-se na rede e ler seus livros preferidos. Seu nome era Ernesto.

Leu o primeiro parágrafo e ficou paralisado. Todos os livros lidos em sua vida – e sua própria vida – passaram em dois minutos em frente a seus olhos. Os sentimentos eram vários, mas em pouco tempo Ernesto sentiu a felicidade de uma sensacional descoberta e ao mesmo tempo a tristeza decepcionante das derrotas. Havia revelado o sentido de sua vida, a origem de todos ao seu redor. E também o desalento de descobrir-se um mero personagem literário.

E o pior, tinham chegado ao final do livro.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A arte de ler II

Então, como eu dizia nos primeiros parágrafos do último post, fiz algumas compras na última feira do livro de Pisa, o famosíssimo Pisa Book Festival. E como de vez em quando gosto de fazer listas, comentários e críticas sobre livros e autores que mal conheço ou que nunca li, eis uma oportunidade imperdível! (só para complementar, ainda não terminei de ler nenhum dos livros do outro post. Mas estou chegando no final do primeiro).

To build a fire e Lost Face de Jack London: São dois contos do famoso escritor e, o melhor, para tradutores iniciantes como eu, é bilíngue. Original em inglês, tradução em italiano. Nunca li nada do Jack (London), mas segundo o meu primo doidão Eduardo é um autor dos bão. Então comprei, uai!

La felicità è un paio di stivali de Machado de Assis: Sim eu sei, não faz o menor sentido ler Machado de Assis em italiano se eu consigo ler em português (acho que eu ainda consigo). Mas a tradução foi feita por uma ex-professora de italiano e colega tradutora, que me deu muito apoio no mestrado, então não poderia deixar de comprar o livro e ler o famoso Machadão na língua dantesca.

Pensieri e scritti letterari (pensamentos e escritos literários) de Leonardo da Vinci: Uma das tartarugas ninjas, Leonardo da Vinci foi um grande tudo: pintor, escultor, arquiteto, inventor e, o que eu não sabia, também escritor. Vi esse livro e não pensei duas vezes. Um dia comentarei sobre ele.

L'anno della valanga (O ano da avalanche) de Giovanni Orelli: Muita gente não sabe, mas a Suíça é um país pequeno mas com quatro línguas oficiais, alemão, francês, romanche e italiano. Esse livro comprei por pura curiosidade. Cheguei na banquinha da sociedade de editores suíça e perguntei qual era o escritor suíço de língua italiana mais famoso. E essa foi a resposta. Veremos o que vai dar.

Un uomo al Castello (Um homem no Castelo) de Václav Havel: Dos escritores tchecos, conhecia apenas dois: Franz Kafka e Milan Kundera. O autor desse livro, além de escritor e dramaturgo, foi uma importante figura na antiga Tchecoslováquia no combate ao regime comunista, rumo à Revolução de Veludo em 89, quando então foi eleito presidente do país. Quando Rep. Tcheca e Eslováquia se separaram, ainda foi eleito duas vezes presidente tcheco. O livro é uma entrevista-relato com o autor e interessante para pessoas malucas como eu, que gostam de países estranhos e estão pensando em aprender tcheco ou eslovaco.

Il palazzo a mille piani (O prédio de mil andares) de Jan Weiss: Nunca ouvi falar do maluco, que também é tcheco. Mas na banquinha da editora me explicaram que era surrealista, e os surrealistas são meio doidão (pelo menos na pintura) e confesso que o título me chamou a atenção. E normalmente, se não erro, acerto meus palpites.

Four Quartets (Quatro quartetos) de T.S. Eliot: O grande poeta nascido nos EUA e naturalizado inglese em uma edição bilíngue inglês-italiano, comentada e analisada por uma especialista. Não li, mas recomendo. Isso porque já li outras poesias do cara, e é muito bom.

Undici (Onze) de Bernardo Carvalho: É um escritor brasileiro, que confesso que nunca ouvi falar. Traduzido em italiano, comprei somente porque custava 2 euros e precisava de uma sacolinha pra colocar os outros livros.

Um dia, quem sabe, retorno a esses livros pra um comentário crítico (!).

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Há coisas, há
Muitas coisas
E me pergunto
Onde foi que eu errei
Nesta vida

As belas coisas da
Vida
Parecem não funcionar

A vida é dourada
Mas o ouro não é para todas as pessoas
Na verdade
Ouro não é para pessoas

Ouro é um sonho
Que duvida de si mesmo
E de sua própria existência

Raridade seria uma qualidade
Se fosse uma escolha
A raridade me fez perder o controle

Exceções para um
Não são exceções para todos
O que você espera,
Normalmente,
Não é o que você terá

O que você pensa sobre
Tudo
Não é como as coisas realmente são

Vergonha e arrependimento
Devem ser algum
Tipo de dor inconsciente

Que vêm e vão
Quando bem querem

Eu quero uma realidade
Apesar da minha ansiedade
Nonsense
Eu quero uma criação
Separada dos meus medos
De ser
Novo

As paredes se fecham atrás
De você

O lugar não é um
Palácio

Você pensa que vai embora.
Você pensa que vive.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Last in translation - 2

HERMANN O IRASCíVEL - A história do Grande Choro
Saki (Tradução minha)

Foi na segunda década do Séc. XX, depois que a Grande Peste devastara a Inglaterra, que Hermann o Irascível, também apelidado de “o Sábio”, sentou-se no trono britânico. A doença mortal varrera toda a família real até a terceira e quarta gerações e foi assim que Hermann XIV de Saxe-Drachsen-Wachtelstein, o trigésimo na linha de sucessão, viu-se um dia soberano dos domínios britânicos dentro e além-mar. Era uma dessas coisas inesperadas que acontecem na política, e ele surpreendeu com grande eficiência. Em muitos aspectos, era o monarca mais progressista a sentar em um trono importante; quando as pessoas julgavam entender o que ele pensava, ainda havia muito a compreender. Até os ministros, progressistas que eram por tradição, achavam difícil manter o passo com suas sugestões legislativas.

“O fato é que,” admitiu o primeiro-ministro, “estamos sendo constrangidos por essas criaturas do Voto para as mulheres; elas perturbam nossos encontros pelo país e estão tentando transformar Downing Street em um tipo de piquenique político.”

“Temos que lidar com elas” disse Hermann.

“Lidar,” disse o primeiro-ministro; “exato, somente isso. Mas como?”

“Redigirei um projeto” disse o Rei, sentando-se à máquina de escrever, “decretando que as mulheres poderão votar em todas as eleições futuras. Poderão, veja bem. Ou, sendo mais explícito, deverão. Como antes, o voto continua facultativo aos eleitores homens. Mas todas as mulheres entre vinte e um e setenta anos serão obrigadas a votar, não somente para as eleições parlamentares, conselhos contadinos, quadros distritais, conselhos paroquiais e cargos municipais, mas também para juízes, bedéis, sacristães, curadores de museus, autoridades sanitárias, intérpretes dos tribunais de polícia, instrutores de natação, empreiteiros, regentes de corais, gerentes de mercados, professores de arte, coroinhas e outros funcionários locais cujos nomes adicionarei à medida que me vierem em mente. Todas essas funções tornar-se-ão eletivas e o não comparecimento às urnas em qualquer eleição na sua respectiva área residencial, implicará à eleitora uma multa de 10 libras. Abstenções não justificadas com um apropriado atestado médico não serão aceitas como desculpa. Passe este projeto pelas duas casas do Parlamento e traga-me para assinatura depois de amanhã.”

Desde o início o voto obrigatório feminino suscitou pouco ou nenhum entusiasmo, mesmo nos círculos que exigiam com mais fervor esse direito. A maioria das mulheres do país era indiferente ou hostil à agitação pelo voto, e as mais fanáticas sufragistas começaram a questionar-se por que achavam tão atraente a perspectiva de colocar cédulas dentro de uma caixa. Nos distritos rurais a tarefa de executar os preparativos do novo ato foi muito cansativa. Nas vilas e nas cidades tornou-se um pesadelo. As eleições pareciam não acabar. Lavadeiras e costureiras saíam correndo do trabalho para votar, frequentemente em um candidato do qual nunca ouviram falar antes, escolhido por puro acaso. Balconistas e garçonetes acordavam muito cedo pra votar antes de entrarem em seus turnos. As damas da sociedade tiveram seus compromissos cancelados e desordenados pela necessidade contínua de comparecer aos colégios eleitorais, e as festas de fim-de-semana, como as férias de verão, transformaram-se gradualmente em um luxo masculino. Quanto a Cairo e à Riviera, eram acessíveis somente aos inválidos ou às pessoas de grandíssima riqueza, porque o acúmulo de multas de dez libras durante uma viagem prolongada era uma contingência à qual até mesmo os ricos dificilmente se arriscariam.

Não era de se maravilhar que a agitação feminina contra o voto tornara-se um movimento respeitável. As participantes da liga Não ao voto para as mulheres chegavam quase a um milhão; as cores do movimento, verde-limão e vermelho-holandês antigo, eram ostentadas por toda parte e o grito de guerra “Nós não queremos votar” caiu nas graças do povo. Como o governo não mostrou-se impressionado com a persuasão pacífica, métodos mais violentos tornaram-se moda. Encontros eram perturbados, ministros atacados, policiais mordidos e a ração popular, rejeitada. E às vésperas do aniversário de Trafalgar, as mulheres se colocaram em fila por toda a extensão da coluna de Nelson, fazendo com que as costumeiras decorações florais fossem abandonas. Mas o governo estava obstinadamente convicto de que as mulheres deveriam votar.

Em seguida, como último recurso, alguma mulher soube usar de um expediente que estranhamente não havia sido pensado antes. O Grande Choro foi organizado. Turnos de mulheres, dez mil por vez, choravam continuamente nos espaços públicos da metrópole. Choravam nas estações ferroviárias, metrôs e ônibus, na National Gallery, nas lojas The Army and Navy, no parque St. James, em concertos, no Prince’s e na Burlington Arcade. O sucesso até então ininterrupto da brilhante comédia farsesca Henry’s Rabbit foi ameaçado pela presença lúgubre de mulheres chorando na primeira fila, nos balcões e nas galerias, e um dos casos mais notórios de divórcio julgado nos últimos anos foi ofuscado pelo comportamento lacrimoso de uma parte da audiência.

“O que faremos?” perguntou o primeiro ministro, cuja cozinheira chorara sobre todas as louças do café da manhã e a babá, em pranto infeliz e silencioso, saiu a passear com as crianças no parque.

“Tudo tem seu tempo” disse o Rei, “e é tempo de ceder. Passe esta medida pelas duas Casas destituindo o direito ao voto das mulheres e traga-a para mim depois de amanhã, para consentimento real.”

Quando o ministro retirou-se, Hermann o Irascível, também apelidado de “o Sábio”, gargalhou intensamente.

“Há outras maneiras de matar um gato além de empanturrá-lo com creme,” sentenciou, “mas não estou tão certo se não é esta a melhor maneira”.

 Hector Hugh Munro, conhecido como Saki (18/12/1870 a 13/11/1916), nascido na antiga Birmânia à época ainda parte do império britânico, atual Mianmar

domingo, 20 de junho de 2010

Last in translation - 1

Não sei exatamente qual a minha classificação, mas me sinto desmoralizado. Desde o fim do ano passado estava me debatendo pra traduzir dois contos, com o objetivo final de participar de um concurso para novos tradutores. Resumindo, não estou entre os 10 classificados à fase final, nem do conto em inglês, nem daquele em italiano. Mas tudo bem, como já diria uma música dos Engenheiros, "eu não vim até aqui pra desistir agora". Devo reconhecer que após dois anos aqui na Itália, meu português não é mais o mesmo, mas sei lá, o problema é ficar três meses me matando por um zero de reconhecimento. 

Relendo o texto para publicá-lo aqui no blog faria várias outras mudanças, e me parece que este primeiro texto não flui assim naturalmente, já do segundo gostei mais do resultado, mas enfim...depois do desabafo, deixo o julgamento das traduções a vocês, meus fantasmas. Primeiro, publico o texto italiano. Na próxima semana coloco aqui aquele traduzido do inglês.


UMA GOTA 
Dino Buzzati (Tradução minha)

Uma gota d'água sobe os degraus da escada. Consegue escutá-la? Deitado na cama no escuro, percebo o seu misterioso caminhar. Como é que ela faz? Saltita? Tic, tic, ouve-se intermitentemente. Em seguida a gota para e talvez pelo resto da noite não dê mais notícias. Todavia sobe. Galga degrau por degrau, ao contrário das outras gotas que caem perpendicularmente, em obediência à lei da gravidade, e ao final fazem um pequeno estalo, bem conhecido em todo o mundo. Esta não: segue devagar ao longo da escadaria letra E deste interminável edifício.

Não fomos nós, adultos refinados e muito sensíveis, a identificá-la. Mas uma doméstica do primeiro andar, pequena esquálida e ignorante criatura. Notara uma noite, muito tarde, quando todos já dormiam. Pouco depois não resistiu, levantou-se e correu para acordar a patroa. "Senhora" sussurrou "senhora!" "O que é?" disse a patroa, despertando "O que aconteceu?" "É uma gota, senhora, uma gota que tá subindo as escadas!" "Como?" perguntou a outra, confusa. "Uma gota que sobe os degraus!" repetiu a doméstica, e quase começou a chorar. "Essa agora" praguejou a patroa. "Tá maluca? Vai dormir, marcsch! Você bebeu, é isso, sua sem-vergonha. É esse o tanto de vinho que falta na garrafa de manhã! Sua imunda, se você pensa que..." Mas a mocinha fugira, devidamente escondida debaixo das cobertas.

"Quem sabe o que se passa na cabeça daquela estúpida" pensou depois a patroa, em silêncio, tendo já perdido o sono. E escutando involuntariamente a noite que dominava o mundo, ouviu também o curioso ruído. Uma gota que subia as escadas, realmente.

Metódica que é, por um momento a senhora pensou em sair para olhar. Mas o que poderia ver à miserável luz das lâmpadas escurecidas que pendem do corrimão? Como localizar uma gota em plena noite, com aquele frio, pelos lances tenebrosos?

Nos dias seguintes, de família em família, o boato espalhou-se lentamente e agora todos no prédio já estão sabendo, mesmo se preferem não comentar, como se fosse uma coisa boba da qual talvez envergonhar-se. Desde então, muitos ouvidos estão atentos, no escuro, quando cai a noite para oprimir o gênero humano. E há quem pense em uma coisa, quem pense em outra.

Certas noites a gota silencia. Em outras, ao contrário, por longas horas não faz nada além de deslocar-se, sobe, sobe, como se não fosse parar. Os corações se aceleram no momento em que o passo suave parece tocar a porta. Ainda bem, não se deteve. Lá vai ela, distanciando-se, tic, tic, em direção ao andar de cima.

Com certeza, sei que os inquilinos do mezanino a esse ponto pensam estar seguros. A gota – eles creem – já passou em frente à sua porta, não poderá mais perturbá-los; Outros, como eu que estou no sexto andar, têm agora motivos de inquietude, tanto quanto eles. Mas quem lhes disse que nos próximos dias a gota irá retomar o caminho do ponto que atingiu a última vez, ou melhor, não irá recomeçar lá de baixo, iniciando a viagem dos primeiros degraus, sempre úmidos e escuros de abandonada imundície? Não, nem mesmo eles podem se considerar seguros.

De manhã, saindo de casa, olha-se atentamente se por acaso ficou algum rastro. Nada, como era previsível, nem a menor marca. De manhã, no entanto, quem leva essa história a sério? Ao sol da manhã o homem é forte, é um leão, mesmo se poucas horas antes hesitava.

Ou aqueles do mezanino teriam razão? No entanto nós, que antes não percebíamos nada e nos considerávamos imunes, há algumas noites também ouvimos qualquer coisa. A gota está longe ainda, é verdade. Chega a nós somente um tique-taque levíssimo, triste eco através das paredes. Todavia é sinal de que está subindo e cada vez mais perto.

Mesmo dormindo em um quarto interno, longe da escadaria, não adianta. É melhor perceber o rumor do que passar as noites em dúvida se a gota está lá ou não. Quem mora naqueles quartos isolados às vezes não resiste, espreita em silêncio nos corredores e permanece à entrada no frio, atrás da porta, com a respiração suspensa, escutando. Se a ouve, não ousa distanciar-se, escravo de medos indecifráveis.  Pior ainda se está tudo tranquilo: neste caso como descartar que, uma vez de volta à cama, não comecem os rumores?

Que vida estranha, afinal. Não poder reclamar, nem tomar providências, nem achar uma explicação que acalme os ânimos. E não poder nem mesmo persuadir os outros, dos outros edifícios, que não sabem de nada. Mas que coisa seria então esta gota: - perguntam com exasperante boa fé - um camundongo, talvez? Um sapo vindo do subsolo? Na verdade, não.

E então - insistem - seria por acaso uma alegoria? Querer-se-ia, por assim dizer, simbolizar a morte? ou algum perigo? ou os anos que passam? Nada disso, senhores: é simplesmente uma gota, só que ela sobe as escadas.

Ou mais sutilmente pretende-se representar os sonhos e as quimeras? As terras almejadas e distantes onde se presume que esteja a felicidade? Enfim, alguma coisa de poético? Não, absolutamente.

Ou então os lugares mais distantes ainda, nos confins do mundo, os quais nunca alcançaremos? Mas não, digo a vocês, não é uma gozação, não existem duplos sentidos, trata-se - ai de mim - mesmo de uma gota d’água e, pelo que se presume, à noite sobe as escadas. Tic, tic, misteriosamente, degrau por degrau. E por isso se tem medo.




Dino Buzzati Traverso (16/10/1906 a 28/01/1972) escritor italiano, segundo alguns mais conhecido no exterior que no próprio país

sábado, 3 de abril de 2010

Oh, yes

existem coisas piores que
estar sozinho
mas com frequência demoramos décadas
pra percebermos isso
e com mais frequência
quando conseguimos
é tarde demais
e não tem nada pior
que
tarde demais.

Charles Bukowski , tradução minha

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os prazeres dos danados

 Não me lembro extamente quando ouvi falar de Henry Charles Bukowski pela primeira vez, nem a primeira coisa que li dele. Com certeza foi entre 1998 e 2003, quando o dito já estava morto (isso em 1994). Tenho alguns livros seus, todos em português, todos em prosa. 

Me lembro que cheguei a criar, durante a faculdade, a década Bukowski, que se não me engano deve terminar em 2014. A data certa será relembrada no momento justo e oportuno.

Uma vez achei um livro que me chamou a atenção pela capa, e em algum poema perdido pelos blogs da vida eu o citei como uma "garrafa de Bukowski 25 anos".Trata-se de um livro bilíngue, ou seja, original em uma página, tradução na seguinte. A tradução era uma porcaria, e isso eu consegui identificar ainda àquela época, muitos anos antes de resolver fazer essa doideira que é o mestrado em tradução que to fazendo. E o título obviamente é passível de objeções. 25 melhores poemas na opinião de quem, cara-pálida?

Mas foi o primeiro contato com as poesias Bukowskianas. Que eu gostei, claro. Mesmo porque, até então, só havia lido as prosas em que ele mesmo se auto-declarava um poeta. Mas um poeta sem livros traduzidos pro português (pelo menos eu nunca tinha achado um, com exceção deste infeliz exemplar já comentado). E o que achei mais interessante em suas poesias, além da melancolia, é uma característica estritamente estética, que consiste em mudar de linha em um ponto não comum da frase, quebrando o ritmo, deixando a leitura como as vidas ali retratadas, tortas e mancas, deixando as palavras que finalizam essas mesmas frases sozinhas, como ele, o poeta misantropo.

Eis que, aqui na Itália, enquanto passeava por uma livraria virtual, achei algo que não pude resistir, e comprei. Uma seleção de poemas do grande poeta das garrafas, do turfe, das mulheres e da solidão, de 1951 a 1993. Embora não seja do Paulo Leminski, o livro é um catatau: 557 páginas contendo em torno de 270 poesias, no original em inglês, sem aquelas traduções sem-graça pra encher o saco. Duzentos e setenta poemas. Pouco, quase nada, se compararmos com as mais de mil poesias que a Wikipedia afirma que ele escreveu (não custa relembrar ao leitor desavisado que o prêmio nobel José Saramago também consulta esta grande obra virtual da sabedoria, como comprova esse post no seu blog oficial, o que sempre a nós, meros mortais, libera a consciência de eventual culpa ou preguiça).

O nome do livro do Buk, pra quem se interessar, é The pleasures of the damned, que eu traduziria em um primeiro momento como "Os prazeres dos danados", embora o damn em inglês tenha também outras acepções tenuamente diversas desta, mas enfim, discutir o título não levará a lugar nenhum, pelo menos nesse momento. 

Enfim. Charles Bukowski é aquele que, como Dalton Trevisan, Pedro Juan Gutierrez, Rubem Fonseca e outros mais nos fazem lembrar que a vida não é essa coisinha bela que muitos queriam que fosse. Que se você não ficar esperto, a vida te aniquila como eu aniquilei nesse momento um mosquito com meu dedo.

Aí embaixo, um dos poemas, traduzido por mim:



Seguros

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
ambos marido e mulher acordam cedo e
vão ao trabalho.
chegam em casa no início da noite.
têm um pequeno menino e uma menina.
pelas 21h todas as luzes na casa
se apagam.
na manhã seguinte ambos marido e
mulher acordam cedo de novo e vão ao
trabalho.
retornam no início da noite.
pelas 21h todas as luzes se
apagam.

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
as pessoas são boas pessoas, eu
gosto deles.

mas sinto que estão se afogando.
e não posso salvá-los.

eles sobrevivem.
eles não são
sem-teto.

mas o preço é
terrível.

às vezes durante o dia
eu olho para a casa
e a casa olha para
mim
e a casa
chora, sim, é verdade, eu
sinto isso.

a casa está triste pelas pessoas que ali
moram
e eu também
e olhamos um ao outro
e carros passam pra lá e pra cá
na rua,
barcos atravessam o porto
e as altas palmeiras cutucam
o céu
e esta noite às 21h
as luzes se apagarão,
e não somente naquela
casa
e não somente nesta
cidade.
vidas seguras se escondem,
quase
paradas,
a respiração dos
corpos e pouco
mais.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Do trato com a vida

Uno a embarcação
ao porto
e canto a convulsão
de um ser extinto.

Amo o sangue
que me crucia e doma,
com seu ferro.

Não espero
dos deuses,
pois engendro
o deus que me transfere
a solidão de ser
meu próprio invento.

Sou poeta,
formo o ciclo do tempo,
onde me enterro.

II

E vós quem sois? Vós que mostrais o orgulho
de monarcas sentados em seu trono e a ambição
de um jorro que se extingue. Quem sois?

Nada transpõe vossa usura,
nada transpõe a vaidade
das gazelas, com rosto de cavalo.

Vós que desprezais
do canto, a mina;
do tear da vida, a linha,
quem sois?

III

Se mostrardes
a erosão do dia
nas carroças,
concordarei com o sangue.

Se mostrardes
o término do jugo e sua máquina,
calada e represada,
concordarei com o sangue.

Não.
Não pactuo.
Não pactuo com o numerário das serpentes,
tentando violar a talha da nascente.

Não pactuo
com as garras
e o estômago encurvado
deste animal em desuso.

Não pactuo
com a turbulência fátua
da morte e o senhorio
que nos arrasta.

Entre areias sepultas,
estreitado na erva,
odiai-me fundamente.
Não pactuo.

Brotando das idades,
arbusto,
levedado no mundo,
odiai-me.

Sou vosso vômito profundo.

(Carlos Nejar)

segunda-feira, 22 de março de 2010

A arte de ler

Eu tava aqui, perdido entre as fotocópias do mestrado, as minhas traduções e a bagunça metódica do meu quarto quando percebi que tenho uma quantidade gigantesca de livros aqui que comecei a ler e parei na metade, não por falta de interesse, mas simplesmente por que paro de ler por uma razão mais ou menos razoável - como dormir ou trabalhar - e quando posso retornar à leitura, me esqueço dela e começo outra.

Resolvi então listar, por pura falta do que fazer, ou melhor, por falta de tempo pra escrever algo melhor, resolvi elencar os tais livros aqui embaixo, com alguns comentários a respeito, isso se eu já tiver formado uma opinião a respeito:

L'italiano - lezioni semiserie (O italiano - aulas semi-sérias) de Beppe Severgnini: o autor é um famoso jornalista italiano e o livro é um manual bem-humorado de como escrever bem a língua de Dante. Pra quem estudou jornalismo, lembra muito um manual de estilo, com os erros mais comuns que a italianada comete na fala e na escrita. E percebe-se que cada exemplo que ele dá você ouve muitas vezes ao dia. Mas como diz o título, as lições são meio sérias. Pelo menos se aprende rindo.

Romanzi e Racconti (Romances e contos) de Italo Calvino: Obra completa de um dos maiores escritores italianos do século passado. São três tijolões que quero terminar de ler ainda esse ano. Calvino é um mestre dos contos e um dos autores preferidos de Zaratustra. Esse maluco eu já conhecia ainda no Brasil, com os livros O Cavaleiro inexistente e O castelo dos destinos cruzados (o último deu origem a uma música dos Engenheiros do Hawaii, o que provavelmente vai distanciar os leitores, ao invés de aproximá-los).

La luna e i falò (A lua e as fogueiras) de Cesare Pavese: O autor é outro grande escritor do séc. XX. É o primeiro livro que leio dele e realmente interessante. Conta a história de um italiano que fez fortuna nos EUA, retorna à sua cidade natal e reflete sobre as mudanças das pessoas, da vida e etc. O livro foi o último publicado antes do suicídio do autor e o personagem principal é sem dúvida seu alter ego. Recomendo.

La grande sera (A grande noite) de Giuseppe Pontiggia: Este livro até já comentei outro dia, escolhi ao acaso, sem conhecer nem autor nem obra, e acertei na mosca. O escritor é um grande experimentador da linguagem e como diz na contracapa, o livro é uma pintura impiedosa da Itália dos anos 80, uma sátira lúcida e amarga de uma sociedade feita de ilusões cheias e vazios reais. Estou ainda no início do livro, mas to gostando davvero.

Carta aos loucos de Carlos Nejar: Esse é brasileiro. Achei uns tempos atrás numa loja virtual, comprei e quando vim do Brasil trouxe comigo. Nejar é um poeta e, como sempre digo, um dos poucos que merecem o posto que ocupa na ABL. Esse livro no entanto é um quase romance. Quase porque, mesmo tentando escrever em prosa, o cara não consegue, o que se torna aquilo que chamam de prosa poética, uma coisa de louco mesmo, como já nos adverte o título. O conteúdo é denso e difícil de ler. Mas é bom, embora eu ainda prefira a coletânea de poemas que achei num sebo em Londrina, "De Sélesis a Danações". A única coisa que estraga é o prefácio do Paulo Coelho. Mas como já disse algum sábio, é bom que existam coisas ruins no mundo. Só assim podemos comparar com as boas e, desta forma, teremos certeza que as boas são boas mesmo.

Um excerto: "O verossímil é uma inverossimilhança que bateu com a nuca nalguma lâmpada. A nuca ficou acesa e a lâmpada se apagou".

Nuova grammatica italiana: Essa não preciso explicar porque parei no meio. Teoria é chato pra baralho.

Teoria e storia della traduzione: idem.

Crie planilhas inteligentes com o Excel 2003: Esse eu tava lendo quando não fazia nada além de coçar o saco e esperar a minha cidadania. Um dia, quem sabe, eu termino de ler. Quem sabe...

A arte de escrever de Arthur Schopenhauer: O cara é um dos mais importantes filósofos alemães. Este livro traz textos selecionados em que o autor fala sobre o próprio ofício e tece comentários desta coisa legal pacas que é escrever. Comecei a ler ainda no Brasil e parei na página 52. Mas como não me lembro de nada, provavelmente terei de recomeçar do zero.

Aprendendo a viver de Clarice Lispector: Esse não terminei de ler simplesmente porque se digere em doses homeopáticas. São microtextos e apotegmas da grande escritora brasileira, que se fosse viva e da minha idade, eu casaria sem dúvida. Indispensável.

A Bíblia do caos de Millôr Fernandes: Como o livro da Lispector, são aforismas e se consome tudo lentamente, mas com o estilo sarcástico e inigualável do autor. Recomendo.

Agora me desculpem mas devo voltar ao caos da minha lunática rotina, meus textos, minhas traduções, meus etcéteras inseparáveis.

E depois tem a cerveja, é claro, pois hoje é meu dia de folga.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Amelia Rosselli

"Mas se a morte vencia era a corrosão a me impedir de
revelar aos outros aquilo que faltava em mim. A ciência dos
números era a minha fortaleza, a ciência dos amores a
minha fraqueza. Eu não sou um Chinês! Não tenho poder! As
minhas condições são de naufragar! No naufrágio da
grande andorinha que sobrevoava acima da minha cabeça realmente
redonda estava o segredo da minha misantropia. Cantava histórias
e descia um degrau a cada passo em falso. Acima da minha
cabeça realmente redonda nascia o quadrado da certeza.
Se na cabeça realmente redonda nascia o retorno impossível
às antigas maneiras então na minha cabeça realmente redonda
caía o grão o sal de Deus, a última mina. Se na
redonda cabeça de Deus estava o incremento da jornada então
nas caretas dos jovens entrevia a bondade. Mas o
piche, o negro, o granizo, as fúrias, a revolta, a
canhonada, o país fora de si controlava cada movimento meu.
Antiga civilização descrita nos livros tu és a revolta que
não se deixou domar, tu és o mar que tinge de vermelho a
fúria dos ventos e leva à aurora uma canção."

Traduçao minha

sábado, 9 de janeiro de 2010

quase hai kai

Dizem que a verdade é que
o importante é o que importa.
Mas a verdade é outra, e diversa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Que merda!

Enquanto não me vem nada pra escrever, coloco aqui mais um exercício de tradução do mestrado. A autora é Sujata Bhatt, nasceu na Índia em 1956, cresceu nos EUA e mora na Alemanha. Eis aqui minha tradução:



Feminilidade

Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -


A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.

Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.

Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O inferno de Dante (e de Shakespeare, e de Camões...e o meu também)


A correria destes últimos dias tem sido grande. Leio muito e tenho que começar a tomar cuidado pra não embaralhar tudo que to lendo. Mas enfim, como já disse algum nobre filósofo, é a vida.
Falando em nobreza, não que eu seja nobre, embora seja Dalla Corte (hein hein?), enfim, piadas infames à parte, como eu dizia, falando em nobreza, hoje em um seminário do mestrado o professor deu um exemplo muito certeiro, que achei legal compartilhar aqui com vocês, meus fantasmas.
Contextualizando o ocorrido: o professor nos deu cópias de trechos de MacBeth, de Shakespeare, na versão original, e depois confrontava estes trechos primeiro com uma “tradução” prum inglês moderno (fraca, por sinal) e depois com várias traduções feitas em diferentes  épocas para o italiano. Viam-se coisas absurdas.
Aí entra a questão do distanciamento, não somente entre duas línguas diversas (ou culturas diversas, pra ser mais preciso), como também o distanciamento temporal na mesma língua, ou seja, querendo ou não o inglês da época de Shakespeare não é o inglês de hoje, assim como o italiano de Dante diverge do italiano de Gérson.
Neste momento o professor perguntou: é justo traduzir Shakespeare para uma linguagem moderna?
Antes de eu começar a pensar na resposta, aconteceu uma discussão, mas entre professores. Nunca vi isso no Brasil, mas aqui é normal (ou pelo menos parece) um professor assistir a aula do outro e não só, discutir e questionar o que o outro está propondo. (Creio que se ocorresse no Brasil, depois da aula um diria pro outro, po, ta querendo me fuder na frente dos alunos? Aqui eles discutem, e embora parecesse que o professor fosse dar meia-volta, permaneceu na sala)
Enfim, não to aqui também querendo dizer que todas as intervenções são oportunas. Na verdade ninguém entendeu porra nenhuma do que o cara tava dizendo, e perderam preciosos minutos da aula por uma discussão vã e inútil. Só sei que finalmente o tal professor conseguiu uma brecha pra explicar melhor.
Disse ele, diante da argumentação fervorosa das outras professoras, que Shakespeare escrevia o inglês comum à época, da plebe, não o inglês dos nobres. Da mesma forma, Dante, que foi um dos primeiros senão o primeiro a escrever em latino volgare (que virou o italiano de hoje), escreveu na língua do povo, de outra forma teria escrito em latim, a língua oficial à época. Ou seja, a tradução à linguagem moderna de certa forma seria um retorno ao objetivo inicial do bardo inglês, que era falar a língua do povo. As professoras se chocaram de novo...
E o professor, meio que pra alfinetar de vez, explicava que no futuro, daqui uns 200 ou 300 anos Bob Dylan e Elvis Presley serão estudados pelos cientistas como hoje fazemos com esses poetas antigos. E a língua de hoje será tão arcaica a eles quanto é Camões e Os Lusíadas pra nós ou Cervantes e Dom Quixote pros Castelhanos. Uma professora, que sentava na fileira logo atrás da minha murmurou “Bob Dylan, sinceramente...”. Eu ria sozinho.
No fim o professor disse: “Il tempo nobilta”. Foi um certo neologismo, pois usou o substantivo nobiltà e o utilizou como verbo, embora exista o verbo nobilitare, que é tornar nobre. Uma tradução mulambenta seria O tempo nobra. Em suma, o tempo enobrece. O que era popular torna-se elitizado, torna-se nobre. Vimos isso durante toda a história da humanidade, não só com escritores, mas também na música (um exemplo o jazz), em manifestações populares (ex. o carnaval) e com políticos (depois de mortos, são todos respeitáveis). Poderia citar outros exemplos vários, mas não vem ao caso agora.
Portanto, não adianta escrever com pompas e circunstâncias. Depreende-se que o popular será eternizado e, posteriormente, adorado pelas gerações futuras de intelectuais, cujos filhos farão caretas aos professores quando tiverem que estudar Bob Dylan no segundo grau e, o pior, pro vestibular.


O mais importante, na verdade, e no final,  é que o tempo nobra. Mas a verdade é outra, e diversa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Sobre coelhos e cajados

Nada que suponho conhecer parece-me verdade. O diálogo:
Hot guns and cold cold night

O diálogo. Sobretudo agora, quando Débora ao longe, em minhas memórias, acenou-me sua tristeza. Débora foi a primeira pessoa a quem amei realmente. Sempre tento colocá-la em meus contos, mas nunca parece natural o suficiente o nome Débora. Talvez porque a história não esteja sendo contada de maneira natural, talvez isso. O diálogo:

“Bom dia.”

Sempre fico em dúvida de como começar um diálogo, se com aspas ou travessão. Saramago inovou, seus diálogos separam-se por vírgulas, num mesmo parágrafo:

A manhã estava clara quando Joaquim disse, Bons dias Maria, no que ela lhe respondeu, Bons dias, Manoel.

Rubem Fonseca não usa exclamação em suas frases. Nunca. Mesmo as mais desesperadas, aos berros, não possuem o alarmante “!”. Concordo com ele. Voltemos ao diálogo:

Lilith, pelos campos verdejantes, saltitava e cantarolava sua música preferida, chacoalhando a longa cabeleira negra, assoviando, agitando os braços. “Six six six, the number of the beast”. Nada mais puro que um heavy metal.

Kerouac carregava seus livros com adjetivos mil, um atrás do outro, sem muita ordem. Há uma linearidade, contudo, que prende o leitor, pois seguimos os caminhos do pensamento, sem esbarrarmos em formalidades demasiadas. Talvez uma forma de entrarmos na cabeça do autor. A pontuação formal, se considerarmos sob certo viés “conservador” - não arrumei melhor adjetivo - molda o leitor à história. Ou talvez eu esteja divagando. Engraçado eu ter falado em diálogo, muito embora, até agora, necas de pitibiribas. Minto. Olhá lá ele:

- Te conheço de algum lugar, garota.
- Não sei donde possa conhecer-me. Eu não existo.

Primeiro clichê: surpreender o leitor no início do diálogo. Logo de cara ele percebe que se passa algo unnatural, não existe. A partir daí começa a supor teorias, será um fantasma, a consciência, ou, como em Ítalo Calvino, simplesmente alguém que não existe mas, ainda assim, convive naturalmente com as outras pessoas. Cabe ao autor manter a emoção dessa novidade até o final, criando sempre, e cada vez mais, situações inusitadas. Primeiro, por si só, criará empatia com o leitor, afinal, quem não gosta de dar risadas? Segundo, situações desconexas não necessitam ter tanta semelhança com a realidade, permite mais liberdade. Mais fácil para o autor e entretém o leitor. Dois Paulos Coelhos numa cajadada só. Enfim:

- ... Eu não existo.
- Sei, conta outra.
- Assim como é difícil você acreditar, é difícil para eu provar. Não posso manifestar-me, não posso mover objetos. Sabe lá como, de alguma forma, ainda consigo manter um diálogo, mas isso, como você mesmo objetou, não é prova suficiente.

Nessa hora, Saramago interviria na narração para supor que o leitor está duvidando da veracidade da trama, procurando erros formais e lógicos, mesmo num texto ilógico, e justificando-os. Borges, ao contrário, no conto em que ele se encontra consigo mesmo, põe em dúvida a veracidade da história através do diálogo dos dois Borges de maneira tal que, no final, sabe lá como, ficamos ainda em dúvida se não haveria acontecido o tal encontro. É um tipo de descrição e de diálogo incrivelmente natural. O mesmo acontece com García Márquez, porém de uma forma mais bucólica.


Outro dia continuo essa brincadeira de análise literária.