A chuva é sempre uma imagem poética que dá audiência. Batida e rebatida, todos a usam e sempre funciona. Assim como entes etéreos e eternos como o tempo, o vento, a vida, a morte, o nada, e etc etc e etc e talz.
Chuva é sinônimo de Joinville. Há mais de dois anos descobri esta definição que não se encontra nos melhores dicionários. A morte porém ronda. E muito embora as metáforas sejam boas e quase sempre definitivas, quando a morte deixa de sê-la (uma metáfora), torna-se um peso.
Uma das metáforas da chuva é o choro. Chover é o mundo que chora. Alguém que chove por dentro, chora, copiosamente. A união de elementos eternos, a morte e a chuva. São tristes. Literariamente eficazes. Humanamente insuportáveis. Céu e inferno, dois lados da mesma moeda.
Desde 2008, vejo a morte de perto. E a cada morte, um pouco de mim também morre. A intolerância, embora ainda de tamanhos incomensuráveis, diminui. É a vida a preparar-nos ao nosso fim. Ashes to ashes. Até lá estaremos acostumados.
Sempre relutei em admitir, mas a morte me fez escrever a coisa mais linda que realizei na minha vida, mas que se perdeu nesta labirinto chamado internet. Era um texto sobre a morte de meu avô e do nascimento de meu sobrinho, quase concomitantes. Espero um dia reencontrá-lo.
Foi triste demais escrever este texto. Lembro de ter chorado um monte após terminá-lo, e parece que a tristeza ali descrita e escancarada abarca todas as mortes posteriores que vivi. Presenciei mortes que em mim tiveram impacto semelhante a esta primeira, mas que por descaminhos incompreensíveis, não originaram nenhum texto.
A morte é uma merda. Um ser (um ser?) desprezível. Sou sempre um dos primeiros a questionar a morte, ou qualquer outra verdade eterna. Mas sem provas irrefuáveis, temos que admitir: ela existe. E fede pra caralho.
Minha esperança não é, como pensam, a imortalidade. Deixo isso para os tolos. Não penso, nem mesmo, na ubiquidade. A onisciência, para mim, é uma ostentação supérflua.
Quero somente, antes de minha morte, reecontrar o texto que escrevi. É a minha essência. Aquilo sou eu.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Antipasto
Não mais verão,
inverno,
inferno!
E o verão se foi
com os dias que se foram.
Que se fodam!
Veremos, então,
se eles verão
o verão
que virá
com os dias que virão.
Veramente...
~ Z ~
Anos atrás fiz um poema parecido com o acima. De 23 de janeiro de 2005. Ei-lo:
É verão e o sol quente é como os dias que virão.
Como eles verão o verão dos dias (e das noites) que viramos?
Não se sabe ao certo.
O amanhecer do sol, nascer no verão...
veremos dias na manhã do amanhã?
Virei a página, varei a noite, verei o luar do verão que se foi.
Verão a página do verão à noite.
Como verão os dias da primavera? Como o frio do inverno?
Comoverão?
Serão os dias? Como os verão?
Serão os dias como o verão?
Virão os dias?
Deverão?
Veremos.
Sete anos atrás. Eu, ébrio já, procurava um destino, que ainda procuro, embora, muito embora agora eu esteja deveras mais próximo. Àquela altura nem formado eu era. Eu era um qualquer em busca de algo desconhecido. Melhorei um pouco, vivi um pouco. Porém vocês, meus fantasmas, hão de concordar que o mundo, assim como tudo, é cíclico e eternamente retorna, como vê-se pelos versos tortos acima transcritos.
Fiz inúmeras coisas deixadas pela metade, outrossim, várias e inúmeras coisas me deixaram pela metade. Porém o tempo passa e ao mesmo tempo é eterno e é cíclico. Pois envelhecemos, e ele passa. Pois o tempo não envelhece, e é, desta forma, eterno. Pois os anos e as estações se repetem e, vós vedes, é cíclico.
A unicidade e a incongruência trina e una do tempo. A afirmação, a negação e a transposição da verdade, no tempo. O tempo ceifa o vento. O tempo, o tempo, a incógnita suprema. Demasiado simples, demasiado complexo.
Demasiado.
E nós, aqui, a indagar-nos. Ao invés de beber, em um bar.
~ Z ~
Vamos, como o tempo que só vai. E o tempo foi indo, indo, indo... e iu!
Sei das minhas limitações. Reconheço meus defeitos e tento ao poucos torná-los mais suportáveis aos outros e a mim.
Acusando-me assim obtenho subitamente vossa compreensão e comiseração com minha vil situação atual. O compadecimento alheio é facilmente conquistado. A compaixão encontramo-la nas esquinas mas lúgubres. E assim conseguimos a força que nos faz sobrepor pequenos e intangíveis obstáculos.
Toda essa enrolação é pra dizer, em palavras bonitas, que como prometido neste post, DEVO terminar os relatos de minha viagem pela Europa antes de seu aniversário de 2 anos. E o farei, visto que os dois anos completar-se-ão em agosto e férias me aguardam no próximo mês, onde poderei visitar amigos paranaenses e parentes gaúchos, deixando, contudo, o coração em Santa Catarina.
É, porém, o destino escrito e deve ser seguido, sob pena de intempéries e impropérios das mais variadas formas.
Despeço-me com um gole do meu uísque que, como eu, treme de frio nesta madrugada insólita de chuva eterna. Esta chuva, que passa, como o tempo, que retorna, como o tempo, e que, como o tempo, infinita é.
Saluti!
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Tempo
domingo, 21 de agosto de 2011
Da linearidade do tempo
Dias atrás conversava com um amigo sobre a perecibilidade humana, visto a nossa chegada às três décadas de vida. E durante esta conversa cheguei a conclusões interessantes sobre a perecibilidade, mas também sobre a perenidade do ser enquanto humano.
A verdade é que, como sabemos desde Einstein, o tempo é relativo. Ele chegou a essa conclusão por meio de cálculos que desconheço. E não sei nem ao menos se um dia conhecerei, mesmo tentando me iniciar nas artes matemático-filósoficas de Bertrand Russell. Mas é fácil supor que o tempo é relativo, justamente porque todos nós, sem execeção, aprendemos a entender o tempo de uma única forma: o tempo é linear, e isso é - ou deveria ser - inquestionável. Nossos ancestrais, os primeiros hominídeos que tentaram entender o tempo, o entenderam desta forma, a mais fácil e lógica, e assim, por milênios e milênios essa sabedoria simiesca tem sido passada de geração em geração, e a quase todos isso tem bastado como verdade óbvia e irrefutável. Alguns poucos loucos, na maior parte físicos (como Einstein), matemáticos (como Russell), filósofos (como Nietzsche), escritores (como Borges) ou desocupados (como eu) crêem em algo além desta linearidade.
(Importante ressaltar que, no meu entendimento, a não-linearidade do tempo não altera em nada nossa vida. Pelo menos não esta que vivemos agora, até chegarmos à nossa primeira morte).
Mas enfim, voltando à conversa com meu amigo, cheguei à seguinte conclusão: como aprendemos desde sempre que o tempo é linear, não conseguimos sequer cogitar a possibilidade de o tempo ser diferente. Não possuímos modelos comparativos, não existem outros tempos. Existe o hoje, o ontem e o amanhã, e basta. Quem ousa afirmar algo diferente a respeito é tratado como louco. Que o digam meus colegas do hospício.
Contudo eu, gastando os poucos neurônios que me foram concedidos, há algum tempo tenho me questionado sobre a linearidade do tempo na forma da eternidade. E percebi que temos que fugir da obviedade do tempo, transgredi-lo, para tentar entendê-lo. O tempo é algo maior que uma seta onde os fatos se sucedem, as pessoas nascem, crescem e morrem. O tempo não é uma linha. Talvez sejam várias, paralelas. Talvez seja um círculo (o eterno retorno). Ou vários círculos paralelos. Quiçá uma espiral, ou ainda algum outro modo que sequer podemos imaginar em nossa mente limitada.
Toda essa minha preocupação talvez tenha começado com as leituras dos livros de Borges e seu fiel amigo Bioy Casares, que citam em suas obras tempos lineares, porém concomitantes e paralelos. Mais ainda: diversos!
Indo mais além, Borges criou em sua obra o Aleph, e o definiu desta forma: "o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço". E não estamos falando aqui do Aleph plágio do Paulo Coelho, que é perecível. Falamos do eterno.
Um modo único de tentar entender o tempo de um modo diverso não existe. Não posso eu dar a fórmula secreta, pois estou ainda engatinhando no assunto, embora tenha o rascunho de uma teoria sobre a eternidade em estado embrionário. E talvez nunca conseguirei provar o que penso (provavelmente não). Mas sinto que a linearidade do tempo não pode ser tomada como verdade absoluta, da mesma forma que devemos sempre questionar qualquer afirmação categórica. Quanto ao Aleph, é uma história mais complexa. Tratemos primeiro de entender o unidimensional. Refutar a linearidade do tempo já me está dando muito trabalho, imagine refutar e tridimensionalidade do espaço. Está muito além da minha capacidade de viajar na maionese.
Mas nunca esqueçam, meus fantasmas: o importante é o que importa.
A verdade é que, como sabemos desde Einstein, o tempo é relativo. Ele chegou a essa conclusão por meio de cálculos que desconheço. E não sei nem ao menos se um dia conhecerei, mesmo tentando me iniciar nas artes matemático-filósoficas de Bertrand Russell. Mas é fácil supor que o tempo é relativo, justamente porque todos nós, sem execeção, aprendemos a entender o tempo de uma única forma: o tempo é linear, e isso é - ou deveria ser - inquestionável. Nossos ancestrais, os primeiros hominídeos que tentaram entender o tempo, o entenderam desta forma, a mais fácil e lógica, e assim, por milênios e milênios essa sabedoria simiesca tem sido passada de geração em geração, e a quase todos isso tem bastado como verdade óbvia e irrefutável. Alguns poucos loucos, na maior parte físicos (como Einstein), matemáticos (como Russell), filósofos (como Nietzsche), escritores (como Borges) ou desocupados (como eu) crêem em algo além desta linearidade.
(Importante ressaltar que, no meu entendimento, a não-linearidade do tempo não altera em nada nossa vida. Pelo menos não esta que vivemos agora, até chegarmos à nossa primeira morte).
Mas enfim, voltando à conversa com meu amigo, cheguei à seguinte conclusão: como aprendemos desde sempre que o tempo é linear, não conseguimos sequer cogitar a possibilidade de o tempo ser diferente. Não possuímos modelos comparativos, não existem outros tempos. Existe o hoje, o ontem e o amanhã, e basta. Quem ousa afirmar algo diferente a respeito é tratado como louco. Que o digam meus colegas do hospício.
Contudo eu, gastando os poucos neurônios que me foram concedidos, há algum tempo tenho me questionado sobre a linearidade do tempo na forma da eternidade. E percebi que temos que fugir da obviedade do tempo, transgredi-lo, para tentar entendê-lo. O tempo é algo maior que uma seta onde os fatos se sucedem, as pessoas nascem, crescem e morrem. O tempo não é uma linha. Talvez sejam várias, paralelas. Talvez seja um círculo (o eterno retorno). Ou vários círculos paralelos. Quiçá uma espiral, ou ainda algum outro modo que sequer podemos imaginar em nossa mente limitada.
Toda essa minha preocupação talvez tenha começado com as leituras dos livros de Borges e seu fiel amigo Bioy Casares, que citam em suas obras tempos lineares, porém concomitantes e paralelos. Mais ainda: diversos!
Indo mais além, Borges criou em sua obra o Aleph, e o definiu desta forma: "o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço". E não estamos falando aqui do Aleph plágio do Paulo Coelho, que é perecível. Falamos do eterno.
Um modo único de tentar entender o tempo de um modo diverso não existe. Não posso eu dar a fórmula secreta, pois estou ainda engatinhando no assunto, embora tenha o rascunho de uma teoria sobre a eternidade em estado embrionário. E talvez nunca conseguirei provar o que penso (provavelmente não). Mas sinto que a linearidade do tempo não pode ser tomada como verdade absoluta, da mesma forma que devemos sempre questionar qualquer afirmação categórica. Quanto ao Aleph, é uma história mais complexa. Tratemos primeiro de entender o unidimensional. Refutar a linearidade do tempo já me está dando muito trabalho, imagine refutar e tridimensionalidade do espaço. Está muito além da minha capacidade de viajar na maionese.
Mas nunca esqueçam, meus fantasmas: o importante é o que importa.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Considerações sobre a eternidade - o Déjà vu
Eu estava lendo um artigo sobre literatura na internet, quando tive a sensação de já ter vivido aquilo antes. Tecnicamente isto é chamado pelos dicionários e especialistas de "déjà vu". Mas não tratava-se de uma simples sensação de que o que eu vivia já teria acontecido antes. Era algo muito maior.
Pois enquanto eu lia o fatídico artigo, no mesmo momento lembrei-me de uma conversa com um amigo no dia anterior. E tive a sensação de já ter vivido aquele momento, de já ter lembrado daquela conversa antes. Contudo, parecia repetir-se também o instante da leitura no exato momento em que eu presenciava o déjà vu da conversa: o déjà vu de um déjà vu. Um paradoxo. O caos total. O apocalipse.
O déjà vu, pelo menos para mim, que convivo desde pequeno com tal fenômeno, não é somente uma sensação de repetição. Sente-se também a repetição de todo o contexto, as falas, os gestos, os sons. Tudo repete-se da mesma e exata maneira - isso partindo do pressuposto que trata-se de uma repetição. Sendo uma repetição, pode ser uma das provas da teoria do eterno retorno. O que confirma também as teorias que dizem que o destino já está escrito, o que fazemos é somente repetí-lo eternamente. Não poderíamos lutar contra ele (o destino). Ou então tudo isso tem a ver com a existência de múltiplos universos paralelos? A verdade é que o déjà vu é algo maior do que um simples mal-funcionamento ou travessura do nosso cérebro. É algo desconhecido.
Quando pequeno, comecei a perceber esses fenômenos e volta e meia, quando eu presenciava um deles, fazia caretas ou movimentos bruscos e inesperados, como que para fugir do script, o que deve ter causado estranheza a não poucas pessoas que presenciaram esta performance. Provavelmente eu pensava - obviamente de um modo inocente e, acima de tudo, inconsciente - que tudo estava já pré-determinado, e que o déjà vu era somente a confirmação das regras a serem seguidas. Regras impostas por alguém - Deus? - já escritas, prontas e que estavam sendo executadas no momento. Porém mesmo meus movimentos repentinos de nada adiantavam, pois a sensação de repetição abrangia também essas maluquices. Cresci.
Durante muito tempo esqueci-me de tal fenômeno, ou melhor, aprendi a conviver em paz com ele. Nos últimos anos, contudo, tenho entendido o déjà vu como um sinal - do quê? de quem? Deus? - e tenho me guiado pelas suas sucessivas aparições. Demorei algum tempo até aceitar isso como um sinal.
Uma vez admitida esta hipótese, veio outro problema: sinal de quê? Debatendo-me sobre questões cruciais para a humanidade como esta, acabei, por um raciocínio longo que exigiu muito dos meus já exaustos neurônios, decidindo que deveria apreendê-los como sinais do caminho a ser percorrido, das escolhas a serem feitas. Apesar de eu ter uma simpatia pela teoria do eterno retorno, admitir o déjà vu como um sinal acaba por refutar esta teoria. (Foi o que fiz, muito embora eu ainda esteja desenvolvendo a minha teoria. No futuro deverei achar um modo de integrar ambos, conciliando-os. Mas isso é um problema para o futuro). .
Mas como nem tudo são flores, os espinhos apareceram uma vez mais: este sinal - com a sorte de que seja realmente um sinal - refere-se a uma confirmação "sim, você está no caminho certo" ou uma advertência "cuidado, caminho errado, volte duas casas e tente de novo"?
Como sou otimista e gosto de simplificar as coisas, admiti que o sinal era "ok, siga em frente, você está no caminho correto". A partir daí, a cada déjà vu eu relaxava e pensava "maravilha, vamos continuar assim". E nos períodos de estiagem de déjàs vus (o Houaiss não me informou o plural de déjà vu...talvez porque ele não tivesse tantos) o terror me acometia "o que fiz de errado? onde será que eu errei?". E assim segui minha vida, até o dia de hoje, quando o destino - Deus? - resolveu pregar-me mais uma de suas peças.
Um déjà vu duplo. Como interpretar isso? Como uma negação? Como uma ênfase (é isso aí cara! acertou em cheio dessa vez hein)? Como uma histeria? Como o fim dos tempos?
Não sei. Preciso de um tempo para pensar e descansar até conseguir resolver mais este problema mundial. Mas, quando tento dormir, ouço bips dentro da minha cabeça. O silêncio da noite me abarca com a melodia de bips eletrônicos em meu cérebro. E a coceira que a cicatriz antiga me deixa, toda vez que ela muda de mão, me irrita de tal forma que já não consigo mais articular as palavras.
Eis o fim dos tempos.
Pois enquanto eu lia o fatídico artigo, no mesmo momento lembrei-me de uma conversa com um amigo no dia anterior. E tive a sensação de já ter vivido aquele momento, de já ter lembrado daquela conversa antes. Contudo, parecia repetir-se também o instante da leitura no exato momento em que eu presenciava o déjà vu da conversa: o déjà vu de um déjà vu. Um paradoxo. O caos total. O apocalipse.
O déjà vu, pelo menos para mim, que convivo desde pequeno com tal fenômeno, não é somente uma sensação de repetição. Sente-se também a repetição de todo o contexto, as falas, os gestos, os sons. Tudo repete-se da mesma e exata maneira - isso partindo do pressuposto que trata-se de uma repetição. Sendo uma repetição, pode ser uma das provas da teoria do eterno retorno. O que confirma também as teorias que dizem que o destino já está escrito, o que fazemos é somente repetí-lo eternamente. Não poderíamos lutar contra ele (o destino). Ou então tudo isso tem a ver com a existência de múltiplos universos paralelos? A verdade é que o déjà vu é algo maior do que um simples mal-funcionamento ou travessura do nosso cérebro. É algo desconhecido.
Quando pequeno, comecei a perceber esses fenômenos e volta e meia, quando eu presenciava um deles, fazia caretas ou movimentos bruscos e inesperados, como que para fugir do script, o que deve ter causado estranheza a não poucas pessoas que presenciaram esta performance. Provavelmente eu pensava - obviamente de um modo inocente e, acima de tudo, inconsciente - que tudo estava já pré-determinado, e que o déjà vu era somente a confirmação das regras a serem seguidas. Regras impostas por alguém - Deus? - já escritas, prontas e que estavam sendo executadas no momento. Porém mesmo meus movimentos repentinos de nada adiantavam, pois a sensação de repetição abrangia também essas maluquices. Cresci.
Durante muito tempo esqueci-me de tal fenômeno, ou melhor, aprendi a conviver em paz com ele. Nos últimos anos, contudo, tenho entendido o déjà vu como um sinal - do quê? de quem? Deus? - e tenho me guiado pelas suas sucessivas aparições. Demorei algum tempo até aceitar isso como um sinal.
Uma vez admitida esta hipótese, veio outro problema: sinal de quê? Debatendo-me sobre questões cruciais para a humanidade como esta, acabei, por um raciocínio longo que exigiu muito dos meus já exaustos neurônios, decidindo que deveria apreendê-los como sinais do caminho a ser percorrido, das escolhas a serem feitas. Apesar de eu ter uma simpatia pela teoria do eterno retorno, admitir o déjà vu como um sinal acaba por refutar esta teoria. (Foi o que fiz, muito embora eu ainda esteja desenvolvendo a minha teoria. No futuro deverei achar um modo de integrar ambos, conciliando-os. Mas isso é um problema para o futuro). .
Mas como nem tudo são flores, os espinhos apareceram uma vez mais: este sinal - com a sorte de que seja realmente um sinal - refere-se a uma confirmação "sim, você está no caminho certo" ou uma advertência "cuidado, caminho errado, volte duas casas e tente de novo"?
Como sou otimista e gosto de simplificar as coisas, admiti que o sinal era "ok, siga em frente, você está no caminho correto". A partir daí, a cada déjà vu eu relaxava e pensava "maravilha, vamos continuar assim". E nos períodos de estiagem de déjàs vus (o Houaiss não me informou o plural de déjà vu...talvez porque ele não tivesse tantos) o terror me acometia "o que fiz de errado? onde será que eu errei?". E assim segui minha vida, até o dia de hoje, quando o destino - Deus? - resolveu pregar-me mais uma de suas peças.
Um déjà vu duplo. Como interpretar isso? Como uma negação? Como uma ênfase (é isso aí cara! acertou em cheio dessa vez hein)? Como uma histeria? Como o fim dos tempos?
Não sei. Preciso de um tempo para pensar e descansar até conseguir resolver mais este problema mundial. Mas, quando tento dormir, ouço bips dentro da minha cabeça. O silêncio da noite me abarca com a melodia de bips eletrônicos em meu cérebro. E a coceira que a cicatriz antiga me deixa, toda vez que ela muda de mão, me irrita de tal forma que já não consigo mais articular as palavras.
Eis o fim dos tempos.
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terça-feira, 22 de março de 2011
O abacateiro eterno e outras histórias
Vendo as estatísticas deste blog do último ano, descobri várias coisas interessantes: 2.766 pessoas diversas visitaram meu blog, atingindo a média de 7,58 pessoas por dia. Cada uma ficou, em média, 2 minutos e meio neste humilde espaço. Nada mal. Destes visitantes, a grande maioria é do Brasil (2.016 pessoas), seguido pela Itália (517), Portugal (134), Alemanha (16) e Estados Unidos (12). Mas também tive visitas de lugares inóspitos como Marrocos, Arábia Saudita e República Tcheca (uma cada).
Dos meus posts, o mais lido foi escrito anos atrás: trata-se do Exame psiquiátrico pré-admissional (publicado aqui em 2007, mas escrito em 2003 pro meu falecido primeiro blog) e é fácil deduzir que o povo chegou aqui porque, provavelmente, também passaria por tal tormento. Em segundo lugar, esse confesso que não faço a menor idéia do porquê, está o post O meu abacateiro, no qual falo do Aleph. Do original, de Jorge Luis Borges, não do plágio de Paulo Coelho. O terceiro lugar foi para uma paródia meio sem-graça da lenda do Minotauro, que chama-se O corno de Creta. Com execeção do primeiro, os outros dois originaram-se da leitura de livros do Borges. Uma estranha coincidência, porque justamente agora estou com outro em mãos.
| Borges |
Graças a isso e a várias citações e indicações de leituras feitas pelo próprio Borges, desemboquei em outros escritores e filósofos que eu pouco conhecia, em áreas que eu jamais teria imaginado: física, química, matemática aplicada à filosofia, metafísica, entre outras piras.
Um desses é o filósofo inglês Bertrand Russell. Aliás, talvez seja um modo de remediar minha aversão inconsciente ao mundo anglófono. Pois bem, decidi começar me embrenhando na obra de Russell, e tive uma agradável surpresa. Ainda estou longe de chegar na parte em que ele fala de filosofia matemática, que é o que interessa falando de eternidade, mas lendo pequenos excertos que encontrei na internet já me iluminaram.
| Russell |
Sua obra fala, principalmente, de lógica, religião, política e moral. Conheceu e foi amigo de grandes intelectuais nos quase cem anos em que viveu (1872-1970), de Einstein a Sartre, pra citar só dois.
Russell parece interessante. Mas é somente um pequeno passo rumo à eternidade. Se eu conseguir manter meu entusiasmo, vou ler também Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, o físico Arthur Stanley Eddington (tradutor da obra de Einstein para o inglês e grande propagador da Teoria da Relatividade), provavelmente quase toda a obra de Borges e de seu companheiro Adolfo Bioy Casares, além de ter de ler e reler várias coisas do Nietzsche (saúde!), e o que mais eu achar no caminho. Tudo isso para, no final, poder pôr em prática a minha Teoria da Eternidade, que se encontra em fase de incubação.
Entre as minhas peregrinações por vários sites da internet, descobri que um dos símbolos usados para representar a eternidade (e não só ela) é o Ouroboros, uma cobra ou um dragão que devora o próprio rabo.
E de repente tudo começa a fazer sentido. A capa do vinil dos Engenheiros do Hawaii, onde a cobra come o próprio rabo. E o conto sobre o abacateiro, citado lá em cima, onde minha cadela, monstra doida canina, corria atrás do próprio rabo. Eram sinais. Sinais de que estou no caminho certo.
Mas a verdade é outra. E diversa.
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