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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Cântico

Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.

Canga - Carlos Nejar

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Leminski


"se
nem
for
terra
se
trans
for
mar"
P. Leminski - Sol-te

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A invenção da ubiquidade



Em fevereiro de 1999 tive a satisfação de poder assistir a uma semana literária ocorrida em Buenos Aires e dedicada ao centenário do nascimento do escritor argentino Jorge Luis Borges. De todos os eventos, o que mais me agradou foi a fala do parceiro e amigo de Borges, o escritor Adolfo Bioy Casares.

Durante uma de suas intervenções, em um debate sobre o livro O Aleph (que por coincidência calculada pelo próprio autor – ou por uma sutil ironia do destino – completava cinquenta anos de lançamento naquele mesmo ano), o escritor pôs-se a relatar um fato ocorrido em sua juventude na década de 30, poucos anos após ter sido apresentado a Borges . 
 
Ainda que com uma inevitável infidelidade vocabulária e linguística (graças à língua de origem, o espanhol, e aos anos que já se passaram desde então), reproduzo, na mais sincera e imparcial fidedignidade, possível o relato de Bioy Casares. Ei-lo:

“É a primeira vez que conto este episódio a alguém. Nem mesmo minha falecida esposa, Silvina, jamais soube do acontecido.

Após uma noite de divertimento entre vinhos e algumas garotas, no meio da madrugada encontramo-nos a sós em um bosque. Estávamos eu, Borges e alguns amigos jornalistas e escritores, caminhando, conversando e rindo de nossas histórias patéticas, certamente já ébrios, quando sentimos uma garoa fina e breve. Em nosso estado não nos foi possível perceber, num primeiro momento, nada de estranho ao redor.

Seguimos até sentirmos novamente a mesma garoa, vinda após o ruído de algo sendo atirado em um lago, como um peixe ou uma pedra. Apesar de estarmos longe da cidade, nas redondezas não existia curso d'água algum. Demos, por fim, de ombros e caminhamos por mais uns dez minutos, talvez, até sentirmos de novo a garoa, subitamente após o estalo d'água. Paramos, olhando-nos intrigados. Mais um estampido e eu e Borges notamos uma gota que caía e, em frente aos nossos olhos, diminuía de velocidade, retomando em seguida seu movimento elíptico para cima.

'Estou vendo coisas', pensei. Poderia ser a ressaca, o delírio. Mas não. Era a realidade. E as gotas, também reais, respingavam em nós vindas de cima, ignorando o que chamava-se até então de força gravitacional. Eu estava perplexo, assim como todos os outros colegas ali presentes, mas Borges sorria. Parecia saber do que se tratava.

Ao olharmos para cima, vimos o inacreditável: havia um lago sobre nós, de onde os peixes pulavam e, após suas aterrissagens – de ponta cabeça – as gotas saltitavam em nossas faces descrentes. Foi quando nos demos por conta: estávamos em um ponto onde podíamos interagir com inúmeros locais concomitantes, complementares, simultâneos e, ao mesmo tempo, absurdos e inverossímeis. 
 
Devo adverti-los que o absurdo e a inverossimilhança destas paisagens se resumiam no fato da impossibilidade delas coexistirem daquele modo, dentro do que conhecemos como mundo, e do que supomos seja a realidade (seguindo as 'leis' que aceitamos, durante a existência humana, como regentes do universo). Naquele exato instante, contudo, aquelas paisagens eram tão naturais e críveis como qualquer estímulo visual cotidiano.

Podiámos vê-las e tocá-las, mas não nos era possível crer em nossos sentidos. Tudo se completava e se desmentia diante de nossos olhos incrédulos. Borges conhecia aquele lugar, e ali nos trouxera, sorrateiramente. Ele sorriu, sugerindo uma condescendência amistosa e cúmplice com nossa ignorância.

Após este dia, nunca nenhum dos presentes retomou este assunto. Era como um segredo compartilhado apenas com olhares que, caso revelado, seria certamente tomado por uma alucinação coletiva. Embora repleto de testemunhas, jamais poderia ser levado a sério. Tentei algumas vezes voltar ao local, mas nunca reencontrei o caminho. Eu era apenas um jovem, nos meu vinte e poucos anos, e minha memória relembra o episódio como uma invenção fantástica, um sonho, uma paisagem surreal criada pela minha cabeça, inalcançável, ininteligível. Mas, apesar de tudo, ainda palpável.
Em 1949, uma década depois e no mesmo ano em que completou cinquenta anos de idade, Borges lançou seu famoso livro de contos O Aleph. Algumas coisas então começaram a se explicar.”

Findo o relato, os presentes estavam estupefatos. Não acreditavam no que acabavam de ouvir, mas o modo como foi contado fora tão eficiente que chegou a convencê-los do contrário.

A amizade entre os dois grandes escritores é sabida, mas a origem do Aleph continua um mistério.
No prólogo para a edição inglesa de 1970, Borges define este “objeto” assim: “o que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço”. No conto, o narrador o descreve como uma esfera de mais ou menos três centímetros. Por outro lado, a fala de Bioy Casares menciona paisagens concomitantes e, ainda por cima, palpáveis. Qual das versões torna-se mais convincente? 
 
Tomando como premissa que o local descrito exista mesmo e tenha inspirado Borges, é nítida sua intervenção literária ao transformá-lo em uma esfera: um objeto sem início e sem fim que simboliza, de modo esteticamente perfeito, assuntos caros à sua obra, como o infinito, o absurdo, o fantástico.
E Bioy Casares, teria querido brincar com o misticismo em torno do célebre conto? Nunca saberemos o que realmente se passou: se a verdade, uma invenção, uma brincadeira ou se foi apenas mais um jogo literário de dois mestres, que viam a realidade como apenas mais um dentre vários gêneros literários.

Bioy Casares relatou esta história, pela primeira e única vez, em fevereiro de 1999. Em oito de março do mesmo ano, veio a falecer. Eu, contudo, nunca estive em Buenos Aires. Mas pude presenciar seu belo discurso. Apesar do tempo que passou desde então, lembro-me como suas palavras soaram verdadeiras, e provavelmente o eram. Não me recordo, contudo, se eu estava diante de uma esfera ou de infinitas paisagens. A emoção do momento abarcou minhas lembranças. Mas posso dizer, sem a menor sombra de dúvida, que eu tinha o universo diante de mim.


(Imagem: Jacek Yerka - "Krysia's Garden")

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O exército de um homem só

Faleceu ontem o grande escritor Moacyr Scliar. Posso afirmar que sou um grande leitor seu, graças a meus 1,87 m de altura, mas infelizmente, referindo-me à estatura da sua obra e não à minha, não cheguei a ler 10% de seus livros.

Com mais de 80 publicados, bastariam 8 para atingir essa meta. Eu devo ter lido uns 5 ou 6. Aos poucos devo remediar isso. Ontem mesmo, li um que estava na minha pequena biblioteca há anos - muitos anos. Mês de cães danados, chama-se. Assim como O exército de um homem só, também de Scliar, foram dois dos muitos livros que li graças a referências na obra musical dos Engenheiros do Hawaii. Mês de cães danados fala sobre as aventuras de um filho bastardo de um fazendeiro, nos tempos da renúncia de Jânio Quadros.

Scliar tinha o dom da escrita. Sabia escrever histórias inteligentes, críticas e divertidas ao mesmo tempo. Mas dos três livros que possuo, o meu preferido é, certamente, A mulher que escreveu a Bíblia. Um dos seus livros mais aclamados ainda não tive a oportunidade de ler: O centauro no jardim rendeu vários prêmios nacionais e internacionais ao escritor, e foi parar na lista dos 100 melhores livros do mundo inteiro de todos os tempos sobre a temática judaica.

Não conheci Scliar pessoalmente, nem nunca troquei emails com ele, como o fez meu primo Eduardo, portanto nada posso falar de sua pessoa. Mas o que todos relatam é um homem generoso e simples. Assim como seus livros.

Scliar é imortal de verdade. Mas nessas horas me pergunto: porque não o Sarney?