Mostrando postagens com marcador maluco só pode. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador maluco só pode. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Mochilão na Europa parte X - Alles gut, mein frau!

Tiergarten

Meus fantasmas já não são mais meus: assombrarão outras pessoas agora. Desistir é uma fraqueza, característica comumente inexistente nos fantasmas, mas a espera angustiante e indefinida da continuação deste maluco e despedaçado relato transforma até a mais feroz das assombrações em pusilânime vítima do tédio. E o tédio, até os Deuses o sabem, é cruel e não perdoa.


Deixando, contudo, os Deuses de lado, que já se ocupam bastante de outros assuntos verdadeiramente importantes, voltemos ao relato, inacabado (como se uma novidade fosse), cujo último capítulo, publicado em outubro do ano passado, ninguém mais lembra. Da minha viagem, minha memória, que era de vidro, se quebrou. Só sei os lugares que visitei em Berlim porque relatei-os no último post. Mas talvez mesmo naquele texto eu os tenha inventado, portanto o que se lerá a seguir trata-se somente, e nada mais, que ficção. 


A ordem dos dias e dos acontecimentos não refletem a realidade. Passou-se mais de um ano e espero terminar em breve este relato maldito, pois minha consciência pesa a cada vez que tento lembrar-me do que, na memória, já não encontro mais. Por isso crio tudo, com os mapas em minha frente, a única coisa palpável desta viagem que a Gulliver causa invejas.


Mas, como eu ia dizendo no último post:

Schloss Charlottenburg, Tiergarten, Brandenburger Tor, Friedrichstrasse, Alexanderplatz, o Muro de Berlim. Todos esses lugares existem, eu sei. O meu mapa diz isso. E, como eu mesmo afirmei que os visitei no último post, se eu não acreditar em mim mesmo, em quem poderia?

Sei que fui em todos, mas não me lembro a ordem. Finjamos, então, que eu tenha ido nesta ordem mesmo. Vejamos: enquanto minha anfitriã ia ao seu trabalho, peguei o metrô e dirigi-me ao metrô, peguei a linha U2 que leva até ao Schloss Charlottenburg. Burro fui, porque se seguisse mais um pouco na mesma linha, desceria no grande Olympia Stadion, o famosíssimo Estádio Olímpico de Berlim, onde poderia ter tirado belas e inúmeras fotos, que de nada adiantariam graças à prematura morte de minha máquina fotográfica antes do fim da viagem.

Desci na estação Richard Wagner Platz, se não me engano (a partir de agora abster-me-ei de usar o termo "se não me engano", visto a grande possibilidade de enganar-me. Pressupõe-se, doravante, que estou sempre enganado). Dali, caminhei alguns metros pela Otto-Suhr Allee, admirando a arquitetura alemoa e as alemãs arquitetônicas, até chegar na Spandauer Damm, que me levou diretamente ao Schloss (Castelo) Charlottenburg.
Schloss Charlottenburg

Dei uma volta ao redor, mas decidi não entrar. De qualquer forma, era um belo castelo, embora eu tenha visitado alguns mais bonitos em Viena, em uma viagem de 4 dias que fiz para visitar Bratislava, a capital da Eslováquia, e Viena, capoluogo da Áustria (viagem esta que talvez, um dia, eu conte. Por sorte, tenho fotos, que servem de muletas à minha memória).

Decidi então, por um golpe de azar, ir até a estação do metrô Zoologischer Garten e ir a pé até a famosa Brandenburger Tor, passando pelo meio do Tiergarten, um gigantesco parque no coração de uma das maiores cidades europeias. Posso ter perdido minha máquina e minha memória, mas minhas pernas dóem ao lembrar desta decisão. Custou-me, certamente, alguns músculos de meu joelho. Fui-me, porém, inconsciente dos perigos que me esperavam pelo caminho. Primeiramente, até chegar à Strasse des 17 Juni, a avenida que corta o Tiergarten de leste a oeste, devo ter demorado quase meia hora. Em seguida, até atingir o Siegessaeule Victory Column, mais meia hora. Ali comecei a ver onde tinha me metido. Muito embora em meu mapa tudo coubesse em dois dedos, vi que a fatiga seria enorme. A Victory Column ficava, em meu mapa, a um terço do caminho até o Brandenburger Tor. E, se até ali eu levara uma hora quase, imagine até o final. Decidi, pois, pegar o primeiro ônibus que passasse. Caminhei com calma, olhando volta e meia para trás, esperando o momento de acenar ao motorista para parar. Porém, para tristeza minha, nenhum ônibus passava.

No desespero que a sobrevivência impõe aos desvalidos, aceitei mentalmente até mesmo a hipótese de pegar um táxi, alternativa extremamente cara e fora do planejado nesta viagem, mas que meu corpo exigia, visto o desgaste não programado e, considerando ainda, que eu estava pouco além da metade de minha viagem e energias eram necessárias para chegar ao final e poder relatar tudo, como ora estou relatando aos fantasmas de meus fantasmas. Entretanto, táxis eram como discos voadores, existiam somente na minha imaginação. Em todo este tempo, não passou nenhum em um ponto turístico dos mais visitados na Alemanha. (Em minha próxima vida vou ter um táxi nesta avenida. Ficarei rico com os turistas desavisados que por ali passarem).
Pequeno trecho da Strasse des 17 Juni por mim percorrido a pé. (Beeem) ao fundo, Brandenburger Tor.

Mas, como diria o grande e já falecido José Saramago, o que não tem remédio, remediado está. Fui-me a pé até o dito Brandenburger Tor. Ali sim, em meio a uma multidão de turistas malditos, fatigado, com as pernas doloridas, avistei ônibus para turistas, aqueles clássicos de dois andares, e com ele visitei os pontos famosos de Berlim, dentre eles, todos aqueles listados no início deste relato.

Já no início da viagem, por uma das ruas que cortavam o fatídico Tiergarten, o guia turístico relatava, tranquilamente os pontos turísticos pelos quais passávamos, citando nomes, história e etc desses locais, até que disse, como se estivesse lendo um texto, em um tom tranquilo, não olhem para a esquerda. Obviamente, todos os turistas olharam, e viram um bando de alemão pelado. Tratava-se de um setor do parque para os praticantes de nudismo, no centro da cidade. Os americanos ali no busão presentes sussurravam "oh my god!", os eventuais sul-americanos riam, e os europeus nem bola. Os japoneses tiravam fotos, obviamente.

Alemoada pelada, nem aí pra paçoca

A alemoada gosta de ficar pelada. Vi isso também em Colônia, quando andei num teleférico que, coincidência ou não, passava por cima dum parque de nudismo. Aliás, quem gosta de cerveja e de ficar pelado tem que ir pra Alemanha. Mein gott!

Sinceramente, não lembro muito mais além disso de Berlim. Fui no Muro, ou nos restos dele chamado de East Side Gallery, e não passa de partes que permanecem em pé, devidamente pintados e grafitados por artistas de todas as partes do mundo. Fui ao checkpoint-charlie, fui à Alexanderplatz, mas não lembro de nada. Recordo-me, porém, que em meu último dia na Alemanha minha anfitriã roubou a bike da sua colega de casa e fizemos um tour pela cidade, coisa que relatei no post anterior, o que demonstra a falta de lógica e de ordenação dos acontecimentos. Saindo de sua casa ainda vaguei por algumas horas em Berlim, decidindo se ficava um dia a mais na cidade para curtir uma verdadeira balada ou se me mandava pra Praga, capital da República Tcheca. A chuva interminável que desabou sobre a capital teutônica decidiu por mim. Seis (ou foram quatro?) horas depois, chegava eu em Praga: depois de passar pela Bélgica, a terra das loiras (as melhores e mais variadas), pela Suécia, a terra das loiras (as mais encorpadas), pela Dinamarca, a terra das loiras (as mais simpáticas), pela Alemanha, a terra das loiras (as tradicionais), acabara de chegar na República Tcheca, a terra das loiras (as mais bonitas e mais baratas, não necessariamente nesta ordem). Mas tudo isto será devidamente explicado nos próximos relatos, da mais bela cidade europeia que visitei, a mais surpreendente, a mais exuberante e, por incrível que pareça, a mais barata também, onde pude saborear quitutes nunca antes vistos, adentrar castelos gigantescos, embebedar-me em bares subterrâneos, provar cervejas mais baratas que água e ainda assim saborosas e, acima de tudo, conhecer a cidade onde Kafka nasceu e viveu e onde Einstein, na mesma época, lecionava e frequentava os mesmo saraus literários do escritor tcheco, nos longínquos primórdios do século XX.

Praga

Continua no próximo post.




sábado, 8 de outubro de 2011

Mochilão na Europa PARTE IX - Berlim



Eis-me aqui novamente, cada vez mais escrevendo menos. Mas isso faz parte da vida, essa coisa da qual todos fazemos parte, mas cada um tem a sua. Falando brevemente da minha, estou eternamente  em adaptação, mas quase chegando àquilo que é tido pelo senso comum de uma vida normal. Pelo menos é no que creio, neste instante.

Graças à minha relapsia, já se passaram 7 meses da última publicação do meu relato e mais de um ano da minha viagem. Como anunciei neste post, a viagem fez aniversário. Muitas lembranças se perderam no caminho, da mesma maneira que a minha câmera fotográfica. Eu até teria como reconstituir as datas exatas em que estive em Berlim, mas obstáculos me impedem de fazê-lo no momento. Como a preguiça. Tenho a leve impressão que era um fim de semana. Vamos todos acreditar nisso mesmo, e tocar o relato pra frente, pois o mesmo deve ser finalizado antes de seu aniversário de dois anos. E agora tenho uma motivação a mais, visto que encontrei a coleção de mapas das cidades visitadas, os únicos resquícios verdadeiros dessa viagem que a mim já  parece um sonho, ou um delírio, inacontecido. 

Mas, como eu ia dizendo no  último post:

Cheguei em Berlim perdido, mas me achei. A minha anfitriã, a jornalista alemoa, morava com uma francesa que não estava em casa no referido fim de semana. A casa não era uma casa, era um apartamento razoavelmente velho, bagunçado e cheio de moscas. O bairro de Neukölln é repleto de imigrantes das mais variadas nacionalidades, e é frequentado também por artistas alternativos, intelectuais ou pseudo tais entre outros malucos. Fazia parte da Berlim Ocidental, na época da Guerra Fria.

Aliás, a Guerra Fria representada pela divisão da cidade em duas, ainda pode ser muito bem observada tanto na arquitetura como na mentalidade do povo alemão. A parte soviética construía edifícios feios, grandes. Totalmente diferente da parte americana. E até hoje têm-se um preconceito. Foi o que percebi conversando com algumas pessoas, numa festa de aniversário em que entrei de penetra. Mas talvez eu tenha tido esta impressão porque falei somente com pessoas que vivem no lado americano.

Festa estranha com gente esquisita. Eu na verdade queria ir a um outro lugar qualquer, ver movimento, pessoas etc. Mas como hóspede, não tive muita escolha. Como a jornalista alemã era misantropa, fomos ao aniversário de uma moça razoavelmente antipática. Ambas haviam dividido uma casa um tempo atrás e, mesmo uma não indo muito com a cara da outra, a jornalista preferiu estar ali presente a ir pra uma verdadeira balada. Ach, diese Deutsch...

Mas conversando e tomando um mé - cacildis! - acabou que um casal puxou conversa. Ele um maluco professor universitário de não me lembro o quê. Ela, professora de crianças, se não me engano - e tenho grandes chances de me enganar. Nesta conversa foi que percebi o preconceito alemão em relação à parte soviética da cidade.

Contudo, ali mesmo na parte soviética,vê-se também a imponência e a grandiloquência do regime socialista russo. Em um dos passeios que fiz com minha anfitriã (com a bicicleta da companheira de casa pega escondida), fomos ao Treptower Park, um imenso local verde, memorial da II Guerra que homenageia 5 mil soldados russos mortos na batalha de Berlim em 1945. As estátuas ali presentes, umas com mais de 10m de altura se não me engano, impressionam a qualquer um. Eis algumas fotos (da internet, óbvio, visto a morte prematura da minha máquina fotográfica, que um dia será também homenageada com uma estátua de 10m de altura):


Até os dias de hoje, o lado soviético ainda é economicamente menos desenvolvido que o lado americano, apesar da queda do muro ter acontecido há 20 anos. É interessante também o famoso Checkpoint Charlie, um posto militar controlado pelos EUA que permitia a passagem de estrangeiros e autoridades do lado oriental para o ocidental e vice-versa. Hoje uma réplica foi reconstruída para satisfazer os turistas loucos por fotos. No romance Vastas emoções e pensamentos imperfeitos do grande Rubem Fonseca, o protagonista, metido em inúmeras intrigas, atravessa para o lado oriental como turista para contrabandear um suposto antigo manuscrito do escritor russo Isaac Bábel. Um bom livro, diga-se de passagem. Mas voltemos ao relato.

Esse contraste em Berlim acho que foi o que mais me impressionou, e foi então que decidi pesquisar algo sobre a história alemã, e descobri simplesmente que...ela não existe! O território que hoje é chamado de Alemanha já passou por várias, inúmeras mãos no passar dos séculos, e pode ser considerada Alemanha somente a partir de 1990, com a unificação da Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental em República Federal da Alemanha (Bundesrepublik Deutschland). O caos. Mas isso, aprendi, aconteceu com quase toda a Europa.

Chegando em Berlim, a primeira coisa que fiz foi descobrir um ponto de informações turísticas e pegar um mapinha, que normalmente é de graça. Mas ali não era, somente os folders de propaganda eram gratuitos. Porém vi um mapinha pequeno e, pensando que pelo tamanho fosse grátis, peguei-o e fui embora. Ao abrir, vi que tinha um preço bem na capa do mapinha, mas já era tarde demais. Dei o calote na alemoada.

Berlim é uma cidade gigantesca. Durante esta viagem meu joelho ainda estava em bom funcionamento e em todas as cidades eu fazia tudo a pé, para conhecer mesmo os lugares, me enturmar com a populaça e desbravar o desconhecido. Até tentei fazer o mesmo em Berlim, mas depois de caminhar por horas e continuar na mesma avenida, sem alcançar os lugares que eu queria e - o pior - sem nenhum ônibus passando por perto, tive que chegar à conclusão de que era uma cidade grande mesmo, muito embora coubesse dentro do meu mapa roubado, que cabia no meu bolso.

Berlim é, além de gigantesca, moderna. Diferentemente do resto da Europa que conserva construções medievais de séculos anteriores ao nosso, Berlim (e as grandes cidades da Alemanha) foram praticamente destruídas por completo na segunda guerra. Pela mesma razão, senti-me talvez pela primeira vez em um local vivo, parte de uma história recente que vivenciei, mesmo criança, pela televisão: a divisão da Alemanha em duas.

Apesar de ter ido a locais mais "famosos" como Roma e Barcelona, na Alemanha foi que me dei conta de que o mundo existe mesmo, e não é apenas uma ficção de um escritor louco, tendo nós como personagens. Ou talvez seja. Mas ali em Berlim eu percebi que, mesmo que eu seja um personagem de um escritor louco, pelo menos sou um personagem com a consciência de sê-lo em um local que, fictício ou não, fez parte da história recente do mundo, seja este mundo real ou irreal ou surreal ou abn amro real.

Creio, porém, ter-me alongado muito nessas digressões inúteis e deixado pouco tempo ao relato da viagem propriamente dita. Mas tudo bem, agora estou de volta, novamente com meus mapas e, no próximo relato, tentarei detalhar as possibilidades e impossibilidades berlinenses nestas linhas tortas, relatando minha ida ao Schloss Charlottenburg, Tiergarten, Brandenburger Tor, Friedrichstrasse, Alexanderplatz, o Muro de Berlim e mais outros locais tipicamente alemães. Nos vemos lá.

domingo, 18 de setembro de 2011

Fundo do baú

The stairs seem to have
no end
& I seem to
have gone insane.

(23-12-1999)

domingo, 21 de agosto de 2011

Da linearidade do tempo

Dias atrás conversava com um amigo sobre a perecibilidade humana, visto a nossa chegada às três décadas de vida. E durante esta conversa cheguei a conclusões interessantes sobre a perecibilidade, mas também sobre a perenidade do ser enquanto humano.

A verdade é que, como sabemos desde Einstein, o tempo é relativo. Ele chegou a essa conclusão por meio de cálculos que desconheço. E não sei nem ao menos se um dia conhecerei, mesmo tentando me iniciar nas artes matemático-filósoficas de Bertrand Russell. Mas é fácil supor que o tempo é relativo, justamente porque todos nós, sem execeção, aprendemos a entender o tempo de uma única forma: o tempo é linear, e isso é - ou deveria ser - inquestionável. Nossos ancestrais, os primeiros hominídeos que tentaram entender o tempo, o entenderam desta forma, a mais fácil e lógica, e assim, por milênios e milênios essa sabedoria simiesca tem sido passada de geração em geração, e a quase todos isso tem bastado como verdade óbvia e irrefutável. Alguns poucos loucos, na maior parte físicos (como Einstein), matemáticos (como Russell), filósofos (como Nietzsche), escritores (como Borges) ou desocupados (como eu) crêem em algo além desta linearidade.

(Importante ressaltar que, no meu entendimento, a não-linearidade do tempo não altera em nada nossa vida. Pelo menos não esta que vivemos agora, até chegarmos à nossa primeira morte).

Mas enfim, voltando à conversa com meu amigo, cheguei à seguinte conclusão: como aprendemos desde sempre que o tempo é linear, não conseguimos sequer cogitar a possibilidade de o tempo ser diferente. Não possuímos modelos comparativos, não existem outros tempos. Existe o hoje, o ontem e o amanhã, e basta. Quem ousa afirmar algo diferente a respeito é tratado como louco. Que o digam meus colegas do hospício.

Contudo eu, gastando os poucos neurônios que me foram concedidos, há algum tempo tenho me questionado sobre a linearidade do tempo na forma da eternidade. E percebi que temos que fugir da obviedade do tempo, transgredi-lo, para tentar entendê-lo. O tempo é algo maior que uma seta onde os fatos se sucedem, as pessoas nascem, crescem e morrem. O tempo não é uma linha. Talvez sejam várias, paralelas. Talvez seja um círculo (o eterno retorno). Ou vários círculos paralelos. Quiçá uma espiral, ou ainda algum outro modo que sequer podemos imaginar em nossa mente limitada.

Toda essa minha preocupação talvez tenha começado com as leituras dos livros de Borges e seu fiel amigo Bioy Casares, que citam em suas obras tempos lineares, porém concomitantes e paralelos. Mais ainda: diversos!

Indo mais além, Borges criou em sua obra o Aleph, e o definiu desta forma: "o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço". E não estamos falando aqui do Aleph plágio do Paulo Coelho, que é perecível. Falamos do eterno.

Um modo único de tentar entender o tempo de um modo diverso não existe. Não posso eu dar a fórmula secreta, pois estou ainda engatinhando no assunto, embora tenha o rascunho de uma teoria sobre a eternidade em estado embrionário. E talvez nunca conseguirei provar o que penso (provavelmente não). Mas sinto que a linearidade do tempo não pode ser tomada como verdade absoluta, da mesma forma que devemos sempre questionar qualquer afirmação categórica. Quanto ao Aleph, é uma história mais complexa. Tratemos primeiro de entender o unidimensional. Refutar a linearidade do tempo já me está dando muito trabalho, imagine refutar e tridimensionalidade do espaço. Está muito além da minha capacidade de viajar na maionese.

Mas nunca esqueçam, meus fantasmas: o importante é o que importa.


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Memórias de minhas putas tristes


É agosto e faz frio. Chove. Diferentemente de um ano atrás, quando, no mesmo mês de agosto, no auge do calor, comecei um mochilão pela Europa. Era verão e o sol esquentou os dias que vieram. E o título deste post é o mesmo do livro do García Márquez.

A viagem fez um ano e, diferentemente do que previ neste post, não consegui terminar meu relato antes deste aniversário. Faltam ainda minhas desventuras em Berlim, Praga e Berna, mais ou menos metade da viagem a ser relatada.

Desculpas tenho de sobra, muitas mudanças repentinas e novidades aconteceram, coisas que exigiram total atenção da minha parte. Espero, sinceramente, terminar tudo isto antes do final de 2011, antes que minhas memórias já devidamente deterioradas possam se deteriorar ainda mais.

Preciso somente reencontrar os mapas das cidades e minhas anotações esparsas nas diversas caixas que me rodeiam, como cachorros a me olhar, suplicando por comida. Reencontrá-las, estas anotações, e combiná-las com um copo de qualquer coisa e um saxofone nas caixas de som, é o que preciso.

Somente isso. Tudo isso.

terça-feira, 22 de março de 2011

O abacateiro eterno e outras histórias


Vendo as estatísticas deste blog do último ano, descobri várias coisas interessantes: 2.766 pessoas diversas visitaram meu blog, atingindo a média de 7,58 pessoas por dia. Cada uma ficou, em média, 2 minutos e meio neste humilde espaço. Nada mal. Destes visitantes, a grande maioria é do Brasil (2.016 pessoas), seguido pela Itália (517), Portugal (134), Alemanha (16) e Estados Unidos (12). Mas também tive visitas de lugares inóspitos como Marrocos, Arábia Saudita e República Tcheca (uma cada). 

Dos meus posts, o mais lido foi escrito anos atrás: trata-se do Exame psiquiátrico pré-admissional (publicado aqui em 2007, mas escrito em 2003 pro meu falecido primeiro blog) e é fácil deduzir que o povo chegou aqui porque, provavelmente, também passaria por tal tormento. Em segundo lugar, esse confesso que não faço a menor idéia do porquê, está o post O meu abacateiro, no qual falo do Aleph. Do original, de Jorge Luis Borges, não do plágio de Paulo Coelho. O terceiro lugar foi para uma paródia meio sem-graça da lenda do Minotauro, que chama-se O corno de Creta. Com execeção do primeiro, os outros dois originaram-se da leitura de livros do Borges. Uma estranha coincidência, porque justamente agora estou com outro em mãos.

Borges
Lendo o livro História da Eternidade do mesmo Borges, deparei-me com temas que, ao menos para mim, são interessantes: a própria Eternidade do título; a hipótese do Eterno-retorno, que ficou famosa com Nietzsche (saúde!); a existência de universos paralelos, entre outras maluquices.

Graças a isso e a várias citações e indicações de leituras feitas pelo próprio Borges, desemboquei em outros escritores e filósofos que eu pouco conhecia, em áreas que eu jamais teria imaginado: física, química, matemática aplicada à filosofia, metafísica, entre outras piras.

Um desses é o filósofo inglês Bertrand Russell. Aliás, talvez seja um modo de remediar minha aversão inconsciente ao mundo anglófono. Pois bem, decidi começar me embrenhando na obra de Russell, e tive uma agradável surpresa. Ainda estou longe de chegar na parte em que ele fala de filosofia matemática, que é o que interessa falando de eternidade, mas lendo pequenos excertos que encontrei na internet já me iluminaram.

Russell
 Graças a isso, baixei na internet vários livros em PDF (pra alguma coisa a internet serve), inclusive sua autobiografia.  Apenas comecei, mas é um texto muito bom de se ler. Por causa de sua ligação com a matemática, Russell explica em um texto que remexe as frases que escreve de todos os modos até que consiga dizer o que quer da forma mais clara e mais simples possível. E acaba tornando a filosofia palatável. Por essas e outras o rapaz ganhou o Nobel de Literatura em 1950.

Sua obra fala, principalmente, de lógica, religião, política e moral. Conheceu e foi amigo de grandes intelectuais nos quase cem anos em que viveu (1872-1970), de Einstein a Sartre, pra citar só dois.

Russell parece interessante. Mas é somente um pequeno passo rumo à eternidade. Se eu conseguir manter meu entusiasmo, vou ler também Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, o físico Arthur Stanley Eddington (tradutor da obra de Einstein para o inglês e grande propagador da Teoria da Relatividade), provavelmente quase toda a obra de Borges e de seu companheiro Adolfo Bioy Casares, além de ter de ler e reler várias coisas do Nietzsche (saúde!), e o que mais eu achar no caminho. Tudo isso para, no final, poder pôr em prática a minha Teoria da Eternidade, que se encontra em fase de incubação.

Entre as minhas peregrinações por vários sites da internet, descobri que um dos símbolos usados para representar a eternidade (e não só ela) é o Ouroboros, uma cobra ou um dragão que devora o próprio rabo.



E de repente tudo começa a fazer sentido. A capa do vinil dos Engenheiros do Hawaii, onde a cobra come o próprio rabo. E o conto sobre o abacateiro, citado lá em cima, onde minha cadela, monstra doida canina, corria atrás do próprio rabo. Eram sinais. Sinais de que estou no caminho certo.

Mas a verdade é outra. E diversa.

domingo, 13 de março de 2011

Mochilão na Europa PARTE VIII - Interlúdio

De Copenhague a Berlim em 2 dias (passando por Colônia e Maastricht)

Segundo o Houaiss, o substantivo masculino interlúdio possui vários significados, entre eles:  mús composição instrumental com a função de separar partes musicais, litúrgicas ou cênicas; intervalo entre duas cenas; entreato ('representação entre dois atos'); lapso de tempo que interrompe provisoriamente alguma coisa. Pensando nisso - não somente nisso, pois eu ainda pensava muito na balada de ontem e, além disso, em como elaborar um texto sobre a Eternidade, confrontando minha teoria com as de Borges, Nietzsche e Santo Agostinho - enfim, digamos que eu estivesse pensando somente nisso, no interlúdio, resolvi resumir dois dias da viagem em um só post, como se separasse a minha viagem em Antes de Maastricht e Depois de Maastricht (doravante AM e DM). Pois nessa viagem, Maastricht foi o divisor de águas. Antes, a primeira etapa, o deslumbre, a inquietação, o êxtase do novo. Depois, a segunda etapa, o deslumbre, a inquietação, o êxtase do novo. De novo. Mas porque criar este hipotético marco divisório em Maastricht e não em Colônia? Isso, meus caros fantasmas, deixo para vocês especularem uma resposta.

Mas, como eu ia dizendo no último post:

Bairro de Christianshavn


Saí do museu Carlsberg e fui diretamente dormir. Acordei pelas 19h e, bem acompanhado por uma cicerone loira dinamarquesa, fui para o famoso reduto hippie alternativo de Copenhague, o famigerado Christiania. Nunca ouviu falar? Mesmo? Nem eu, pelo menos até aquele dia. Localizado dentro do bairro de Christianshavn, é um local que foi invadido umas décadas atrás e agora se auto-proclama uma comunidade alternativa independente. Quando entrei lá, Raul Seixas me disse: "viva a sociedade alternativa". Apesar de ser uma atração turística, as fotografias são proibidas, então mesmo eu perdendo minha máquina fotográfica, essas fotos eu não perdi, pelo simples fato de que não as fiz.

A loira hippie
Após tomar umas loiras geladas fabricadas ali mesmo pelas loiras hippies, dei mais uma volta com minha loira e fui pra casa. No dia seguinte, sob uma garoa chata e insistente, visitei alguns belos locais, subi em uma torre circular e tive uma bela visão da cidade inteira que registrei em fotos, mas que de nada adiantou. Depois disso, dirigi-me para a minha grande amiga estação ferroviária, onde enrolei bastante até decidir onde ir. Poderia ficar ali mais um dia, mas com essa chuva interminável não representava uma boa opção. Analisando as opções de trens noturnos, preços, próximas paradas (Berlim e Praga, as únicas certezas que eu tinha), além de outros fatores que foram decisivos, fiquei dividido entre ir para Hamburgo ou Köln (Colônia em português). Como tinha amigos na segunda cidade, uni o útil ao agradável, e lá me fui. Já havia estado ali pouco antes de visitar a Oktoberfest de Munique em 2009 e, após este mochilão, retornei uma vez mais. É uma bela e agradável cidade. Peguei o trem noturno e me mandei.

Foto da primeira vez que estive em Colônia, AM, com o rio Reno ao fundo

Cheguei de manhã cedo e dei uma volta pela cidade com minha anfitriã, Aninha Schönefrau. Dormimos cedo e, na manhã seguinte, como eu já conhecia bem a cidade, decidimos ir até Maastricht, na Holanda, que ficava a 2h de Colônia. A única coisa que eu sabia sobre o local era que ali tinha sido assinado o Tratado de Maastricht, que eu nem me lembrava o que era. Só hoje, escrevendo minhas memórias sobre esta viagem louca, consultei a wikipédia que me disse que tal tratado foi o criador da União Européia. Muito bem, sussurrei, e continuei a escrever.

Maastricht


Bonita, pequena e cara cidade. Vê-se visivelmente que se trata de um local que explora o turismo de alta renda, pois até um sanduichinho meia-boca custa quase 10 euros. Mas as igrejas, torres, os muros e o rio Maas compensam, o visual é decididamente interessante e, podendo ser feito em uma tarde, vale a pena. Subi novamente em outra torre, de onde pude admirar uma bela visão da cidade inteira que registrei em fotos, mas que de nada adiantou. O legal é que quando estávamos lá em cima, começaram a tocar os sinos das várias torres das cidades, o que imagino seja uma das grandes atrações turísticas da cidade.



Em seguida fui a uma loja de antiguidades que parecia interessante, com muito mapas antigos expostos. Como grande ex-futuro-geógrafo, gosto dessa coisas de mapas, e ali perguntei o preço. Algo em torno de 5 mil euros. Uma mixaria, que resolvi deixar para outro dia, pois ia gastar essa quantia com o combustível no meu helicóptero.

Maastricht em 1652


Depois de caminhar bastante pela cidade, voltamos para Colônia, pois dali eu não só pegaria o trem para Berlim, como realmente o peguei. No trem - muito confortável se comparado com os trens italianos, mas bem sem-vergonha se a comparação for com os trens suecos ou dinamarqueses (ah, as suecas e as dinamarquesas...) - puxei papo com um cara que só reclamava da Alemanha, e dizia como era uma merda os trens. Chorava o cidadão e, ainda por cima, queria me converter para a religião dele, que eu nunca tinha ouvido falar e cujo nome não me lembro agora. Só sei que eles não podiam beber álcool, e isso foi determinante. Aliás, me perguntei como na Alemanha, considerada por muitos a terra da cerveja (do inglês antigo Ale=cerveja e do Grego pré-socrático manha=terra); como ali, no país que criou a Oktoberfest, que se orgulha de usar bermuda com suspensórios e um chapéu com uma pena do lado pra beber cerveja - como, mein Gott! - como permitiram, neste país, que existisse uma religião que proíbe a cerveja? Até que, enfim, o trem foi esvaziando e, com a desculpa de dormir um pouco, sentei em outra poltrona e escapei das lamentações do Fritz.

Acordei pouco antes de Berlim, pouco antes da meia-noite. Cansado. Com fome. Com um endereço na mão. Endereço este que eu não fazia a menor idéia de como chegar. Sabia - e somente isso sabia - que era o local onde me hospedariam na capital alemã. Chegar lá foi difícil. Muito difícil.

DM


Mas cheguei. Conversei um pouco com minha anfitriã, desta vez uma jornalista alemã que trabalhava no jornal Der Tagesspiegel. Ela me hospedaria em sua casa por três noites. E não só o faria, como realmente o fez. O bairro de Neukölln é relativamente perto do centro. Mas relativamente perto, para Berlim, é longe bagarai.

Como vocês verão no próximo post...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mochilão na Europa PARTE VII - O lado escuro de Copenhague

Meus caros fantasmas já se foram todos embora. Sobrou-me eu. Só, tento relembrar-me de dias já passados, longínquos, que nem ao menos sei se realmente aconteceram, ou se tudo isso foi mais um sonho. Mais um, entre tantos, entre muitos. Entrementes, sigo o relato, devidamente esquartejado em infinitas partes. Se tudo sair como planejado, antes de completar um ano da minha viagem, isto é, em agosto de 2011, este relato estará completo.

Mas, como eu ia dizendo no último post...





Foi aí que descobri o lado escuro da cidade. O lado escuro, do escuro do mundo. Na rua, mal iluminada, viam-se sombras. Depois dos primeiros passos já pensei que seria assaltado. Mas lembrei-me que estava na Europa e, mais ainda, na Escandinávia. A lascívia amalgamada à ignávia me fizeram sentir na Bolívia, perdido nas florestas.

A Halmtorvet, ao contrário da Vesterbrogade, não era tão frequentada à noite. Ou melhor, era, mas não tão bem. Nas esquinas grupos de pessoas em frente a portas semi-abertas. Nas outras esquinas, mulheres decadentes se ofereciam a clientes idem. Escondidos, os gigolôs observavam. Pocilgas ofereciam strip-teases.

Chega-se ali com a ilusão da perfeição nórdica, que até certo ponto é verdade, mas o ser é humano, e a decadência é inevitável. Decadence avec elegance. Apesar disso, estava muito mais tranquilo do que estaria em uma rua deserta no Brasil. Ali, parece, não mexem com quem tá quieto. Segui meu caminho em frente. Lembrei-me da minha viagem a Barcelona, dois anos antes, onde aconteceram cenas semelhantes.

Quando dei por mim, estava no albergue, dormi profundamente. Acordei tarde, uma chuva interminável o que trouxe um leve frio. A temperatura que peguei na Suécia era em torno de 30 graus, e seria o mesmo na Dinamarca, não fosse pela precipitação. Por causa disso, me vi ao redor dos 15, sem ter trazido muita roupa. Pensei, merda, o que vou fazer num dia de chuva?

Elementar, meu caro fantasma! Aproveite e vá para um museu, e finja ser uma pessoa culta. Boa ideia! (Já estou me acostumando à nova ortografia...escrever sem acento é muito fácil, deveríamos abolí-los todos.)

Fui, então, ao museu. O Museu da Cerveja Carlsberg, a quarta maior cervejaria do mundo. Chegar lá foi difícil. Precisei pegar dois trens e ainda caminhar um bom tempo debaixo do meu guarda-chuva meia boca. Pra piorar, o mapa não dizia exatamente onde era a entrada do museu, e a fábrica da Carlsberg ocupa um espaço imenso. Acho que entrei pela parte dos funcionários. Pelo menos foi isso que consegui identificar com meu dinamarquês cambaleante. Quando finalmente achei a entrada, minhas calças estavam molhadas até os joelhos. Mas como dizem os italianos "Non ti mettere a giocare se non vuoi pericolare". Entrei.



Aí voltamos ao Preâmbulo das minhas aventuras. Depois das cervejas belgas, chegou a vez do Museu da Cerveja. Eu nunca havia experimentado a Carlsberg. Mas até eu provar perdi um bom tempo. Os prédios do local são bonitos, e detalhes peculiares como o Elephant Gate merecem uma paradinha.


Entrando no museu, vê-se a maior coleção de cervejas fechadas do mundo inteiro. São milhares de exemplares expostos aos visitantes, que boquiabertos pensam ao mesmo tempo "que bonito" e "que desperdício". Em seguida, um belo passeio contando a história da cerveja, provavelmente uma das primeira bebidas alcoólicas criadas pelo homem. (Sabe-se que o povo sumério, que viveu 3 mil anos a.C adorava a deusa da cerveja Nin-Kasi). Depois, veio a história da própria cervejaria. Fundada em 1847 por J.C. Carlsberg, vídeos contavam todo o processo de produção da cerveja, a seleção dos grãos, as temperaturas ideais, os ingredientes, as fases de mistura, armazenamento, engarrafamento e distribuição e foi a partir daí, somando-se à minha experiência belga, que tive cada vez mais convicção de que a cerveja é uma arte, uma obra-prima. E só poucos conseguem apreciá-la devidamente. Devemos bebê-la com todo respeito e admiração que ela merece.


No final do museu tive a oportunidade de saborear 3 das várias cervejas produzidas pela Carlsberg, todas muito boas. Saí satisfeito e dizendo em voz alta "In vino veritas" para as pessoas com quem cruzei na rua. A chuva tinha passado, eu estava feliz, mas não percebi que a citação em latim nada tinha a ver com a cerveja.

Continua no próximo post.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Mochilão na Europa PARTE VI - Copenhague

Continuando o último post:

Posso dizer que finalmente estava começando a minha viagem, já que foi o primeiro trem que peguei. Não sei porque, mas todas as vezes em que andei de trem na Europa lembrava-me do famoso livro de Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente, onde o grande detetive Hercule Poirot (pronuncia-se Poarrô) desvenda um crime indesvendável. Mas felizmente, que eu saiba, ninguém morreu nos trens em que viajei. Que eu saiba.

De qualquer maneira, eu dizia que peguei o trem noturno de Estocolmo, terra das loiras, para Copenhague, terra das loiras. As outras. Existem vários tipos de loiras, quer dizer, de trens noturnos, sendo o mais legal aquele com cabines e seis beliches, três de cada lado. Se minha memória não falha, dormi na de baixo do lado direito.

A viagem nem vi passar. Quando dei por mim estavam anunciando Copenhagen, peguei minha mochila e saí, perdido como sempre. Eu deveria ter descansado, mas o fim de semana tinha me destruído de tal forma que me senti como se estivesse 24h sem dormir. Eram umas 6h30 e eu tinha fome.

Eu tinha fome, mas não tinha dinheiro. Aliás, eu tinha, mas euros e a coroa sueca. Ali a moeda era outra. Pra poder ter uns trocados da coroa dinamarquesa em mãos, tive que esperar até umas 7h30, quando então a barraquinha do câmbio abriu. Feliz, comi um sanduíche. Uma das sensações mais claras e marcantes de um ser humano, que ele certamente se lembrará pelo resto da vida, é quando enche a boca quando está com fome. É uma sensação indescritível, não sei porque ainda teimo em tentar descrevê-la.

Com um mapa em mãos, fui ao ponto de informações turísticas que também estava fechado. Tive que esperar até umas 9h pra poder perguntar onde tinha um albergue pra poder dormir um pouco, decentemente. Uma das sensações mais claras e marcantes de um ser humano, que ele certamente se lembrará pelo resto da vida, é quando ele consegue uma informação depois de horas esperando por ela. É uma sensação indescritível, não sei porque ainda teimo em descrevê-la.

Com a informação no mapa e o mapa em mãos, segui o caminho dos albergues, do mais perto ao mais longe. Com sorte o primeiro tinha vagas. Eram umas 10h quando fiz o check-in, mas os quartos só estariam livres a partir da uma. Encostei minha bagagem em um canto, mas eu sou um cara que não sabe esperar sentado, e ao invés de ficar por ali, saí pra dar uma caminhada e conhecer os arredores. Segui pela Absalonsgade, cruzei a Sønder Boulevard, peguei a Skelbaekgade e fui reto até chegar na beira do canal Sydhavnen, onde tinha um shopping. Pensei em ir ao cinema e passar o tempo assistindo aos Mercenários do Stallone, aí lembrei-me que na Europa eles dublam todos os filmes, e meu nível de dinamarquês não estava tão bom ainda.

Só sei que caminhei pacas, tirei várias fotos (que dor no coração), e enfim voltei para o albergue, onde minha cama me esperava. Uma das sensações mais claras e marcantes de um ser humano, que ele certamente se lembrará pelo resto da vida, é quando acha uma cama depois de horas sem dormir direito. É uma sensação indescritível, não sei porque ainda teimo em descrevê-la.

Com o travesseiro em mãos, dormi até umas 17h, quando resolvi caminhar. Copenhague é uma bela cidade, devo reconhecer. Uma pena que por motivos de cansaço, minha memória não se lembre muito. Uma pena que estava nublado no primeiro dia, e choveu durante todo o segundo.

Do albergue, caminhei pela Vesterbrogade, que é tipo uma avenida principal. Passei na frente do Tivoli Garden (um dos parques de diversões mais antigos do mundo), de uma estátua do escritor e poeta dinamarquês Hans Christian Andersen, pela bela praça Rådhuspladsen, enveredei pela Stroget, fiz mais um monte de voltas que não me lembro mais até chegar ao Kastellet, um belo parque onde repousa a estátua da Pequena Sereia, criação de Andersen. A Pequena Sereia, não a estátua. Os canais/rios de Copenhague dão um ar elegante à cidade. O nome em dinamarquês "København" significa Porto dos Mercadores, onde Havn está para porto, e qualquer canalzinho sem vergonha tem um Havn no final do nome. O que quer dizer que perdi o fio da meada.

Quando começou a querer escurecer, decidi voltar e passei na minha já conhecida e velha amiga estação ferroviária pra surfar na internet e comer um baguio. Na saída, já pelas 21h ou 22h da noite, ao invés de ir pelo caminho natural da Vesterbrogade, atalhei pela Halmtorvet, pois o mapa me dizia que era mais perto. E foi aí que descobri o lado escuro da cidade.

Que contarei no próximo post.

domingo, 21 de novembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE V - A noite escandinava

Quase um mês atrás eu tinha escrito a última parte desta saga pela Europa. Se continuar nesse ritmo, talvez perto do mundial de 2014 eu termine de contar o que aconteceram em duas semanas cheias de episódios insólitos, alguns meses atrás, durante o verão europeu.

Mas como eu dizia no último post: depois de um bom cochilo, fui pra noite sueca. A primeira coisa que eu queria ver era o sol da meia-noite, mas descobri que isso acontece só na parte setentrional do país, perto do Pólo Norte, onde é frio, muito frio, frio pacas, mesmo no verão. Paciência, já diria alguém.

No bar do barco-albergue-restaurante (como poderia chamá-lo, barguete? ou resalbar?) enquanto bebia uma loira sueca (muito boa, por sinal),  perguntei às funcionárias os melhores locais de Estocolmo.

- Existem duas concentrações - disseram - uma um pouco mais ao sul daqui, ainda em Södermalm, tem vários bares etc. Mas normalmente fecha cedo e depois o pessoal todo migra pra Norrmalm, onde estão as discotecas.

- Mas e são boas as discotecas? - perguntei, curioso.

- Absolutely!



Esses suecos são espertos, pensei. Era o que eu estava planejando fazer. Um barzinho e depois um tutz tutz. No metrô, pensava como era bom tirar férias e cantarolei alguma coisa do ABBA. Pra quem não sabe, ABBA era um grupo sueco lá dos anos 60-70 conhecido mundialmente e o mais importante representante da cultura sueca. Sucessos como Dancing Queen e Mamma Mia ecoam em cada esquina, souvenirs são vendidos em toda parte, camisetas, bonés e o que mais vier em mente. É o orgulho nacional. Se qualquer um dos ex-integrantes se candidatasse ao parlamento sueco, provavelmente seriam eleitos. Mais ou menos como o Tiririca, para os brasileiros.

Saindo do metrô vi uma movimentação enorme. Que magavilha, pensei. Foi então que descobri que estava acontecendo uma corrida noturna, e era quase impossível atravessar as ruas. Fiquei vagando entre os dois bares que eu conseguia acessar enquanto olhava perplexo a galera que corria. Ou estavam correndo ao redor do quarteirão, ou tinha muita gente mesmo. Fiquei por ali mais ou menos uns 40 minutos, e não parava de passar gente. Até que desisti, terminei a última loira e entrei no metrô em direção ao norte das ilhas.

Descendo - aliás, subindo, porque o metrô é subterrâneo - na estação de Östermalmstorg, uma cidade vivaz me esperava. Alguns bares e muitas discotecas. Comecei a fazer o reconhecimento das ruas, pra não correr o risco de me perder. Que mentira.

Girei um pouco com essa desculpa esfarrapada e vi que tinha uma discoteca cheia de gente querendo entrar, entupida. Parecia ser aquela da moda. Fui me infiltrando até que cheguei na frente do segurança. Só que o cara deixava entrar todo mundo, menos eu. "Skitstövel!", disse em sueco. E saí correndo. Não sei o que quer dizer, mas só pode ser um palavrão. Errei mais um pouco até encontrar um outro lugar, Golden Hits, com somente três pessoas na fila. O nome era suspeito, mas entrei. Era estranho. Deveras estranho. Mas fui andando, afinal, estou em um outro país, numa outra cultura, devo respeitar. 

À esquerda da entrada, uma sala com karaoke, cheia de suecos cantantes. "Porca puttana", murmurei em italiano, "até aqui essa praga". Várias mesas distribuídas em um grande espaço. Admirei o espetáculo por uns minutos, e não durou muito até que um resolveu cantar ABBA. Foi demais pra mim e segui adiante. Em frente, uma bifurcação: uma escada em caracol à esquerda, um bar à direita e, seguindo um pouco mais pelo corredor, uma mesa de cassino (?) e uma pista de dança. Com tantas opções, sem saber o que fazer, fui à direita, peguei uma loira e continuei admirando as outras. Por sorte não estava tocando ABBA em versão dance. Fiquei um pouco ali até que me veio a curiosidade de subir as escadas.

No Brasil, quando tem uma escada em qualquer discoteca, pode ter certeza que um segurança vai te barrar se você não tiver a pulseirinha que te autoriza a ser superior aos outros. Mas não vi ninguém barrando ninguém, e fui reto, como se fosse normal pra mim, ignorando todos ao redor. Depois dos três primeiros degraus ninguém me puxou pelo braço e sorri no pensamento. Até que, mais seguro, olhei pra trás, e todo mundo subia tranquilamente. Essa escada é pros mortais, pensei. Em algum ponto me barram.

No segundo andar, uma outra pista de danças, e outras mesas com jogos de azar. A galera era mais agitada, também porque a música o era. Peguei outra loira e analisava atentamente o local. Foi quando começou uma música que não me era estranha. Lembro de tê-la sentido quando era criança, mas não estava reconhecendo o ritmo. Eu sentia que o refrão estava por vir, e veio: "Chiquitita, you and I know..." ABBA! Não!

Encontrei outra escada e subi correndo, cuidando pra não derrubar nenhuma loira, principalmente a minha, na roupa. No terceiro andar, adivinhem: outra pista de dança, com mesas de cassino (porém menos) e dois fliperamas. Num terraço ao ar livre, um bar. Não lembro que música tocava, mas creio que não era ABBA. Fiquei algumas horas por ali, subindo e descendo os três andares até que decidi dar uma volta, pra conhecer outro local.

Mas, no momento em que eu ia sair, me barraram. De qualquer maneira sabia que me barrariam em algum momento, mas não entendi porra nenhuma. Na Suécia te barram na saída... Provavelmente, àquela altura da noite, eu tentava exigir explicações em russo e o cara respondia em sueco. Deve ter sido um belo diálogo. Alguma coisa ele provavelmente entendeu, porque me respondia com frases ininteligíveis. Ficamos algum tempo assim, até que me dei conta que eu deveria tentar falar inglês. "Uai? Uai?" disse em inglês, mas gesticulando em italiano. Ele entendeu e respondeu: "No beer". Eu insisti, "Ai pei for de bier, ai laique bier, de bier iss main". Pra tentar comovê-lo, peguei-a nos braços e disse "ai loviú". Com o mais belo olhar possível com aquela graduação alcoólica àquela hora da noite, mirei aquela loira maravilhosa em meus braços e a bebi inteira. "Posso sair agora?", perguntei já em português cambaleante. "Absolutely", disse o capanga. "Thenquiú sãr! Si iú!" respondi e pensava como eu poderia tentar seguir a carreira na dramaturgia, depois de tão bela encenação e consequente comoção da platéia.

Somente no dia seguinte fui entender que na Suécia não é permitido beber cerveja pelas ruas. Foi por isso que, durante a tarde, eu bebia minha loirinha na grama e todos olhavam, atônitos. E foi também por isso que o segurança não me deixou passar. Enquanto eu imaginava que viveria confinado em uma discoteca para todo o sempre, cercado de loiras e torturado pelas canções do ABBA, tudo que eu precisava era beber a cerveja pra poder sair. "Santa proibição, Batman!", já diria o menino prodígio.

Dali, girei mais um pouco pelo centro, até que decidi voltar ao resalbar (ou barguete, como você preferirem). No dia seguinte, uma ressaca do cão e enrolei o dia inteiro até pegar o trem noturno que me levaria de Estocolmo a Copenhagen, a capital da Dinamarca, onde beberia algumas outras loiras com algumas outras loiras falando outra língua incompreensível, e também aconteceriam algumas outras histórias que, não só aconteceriam, como aconteceram, e eu as contarei no próximo post, sem data definida para ser publicado.

DINAMARCA

"Mamma Mia!", já diria um famoso grupo sueco.


Continua no próximo post.

domingo, 24 de outubro de 2010

Mochilão na Europa PARTE IV - No calor da Suécia

 Vou tentar, vou tentar. Não prometo nada, mas tentarei continuar o relato de apenas memórias, as memórias que me restaram, que são minha única lembrança das cidades pelas quais passei. Estou cansado. Trabalhei na Feira do Livro de Pisa, e também fiz minhas compras. Oito livros. Que não sei quando serão lidos. Ou se o serão.

A verdade é que nesses dois anos na Europa mudei muito o jeito de ver o mundo. A perspectiva é outra. E isso todo mundo fala, mas não deixa de ser verdade. A minha visão de literatura também mudou muito. E como sou um aprendiz de tradutor - ou algo do gênero - percebo o quanto a literatura é frágil. Mas essa ladainha eu deixo para outro dia.

Continuando o post anterior: acordei cansado. Muito cansado. Mas estava de férias, então pra quê descansar? Saí às 7h do barco-albergue-lanchonete, com um mapa na mão e - graças ao avanço da minha calvície - quase nada na cabeça. E claro, minha defunta máquina fotográfica.

Peguei o metrô na estação de Slussen e segui em direção nordeste até Karlaplan, onde desci e caminhei pela avenida Narvavägen até encontrar uma das inúmeras pontes da cidade, atravessá-la e, enfim, atingir meu destino: Djurgården, uma ilha-parque muito bonita, onde as pessoas correm, pedalam, navegam, além de muitos outros verbos. Segundo meu mapa, dali eu poderia alcançar facilmente a torre de tv Kaknästornet, o edifício mais alto da cidade com 155 m de altura e uma visão de tirar o fôlego. Mas não foi assim tão fácil. O que afinal tirou o meu fôlego foi o tal "passeio" no parque, que não terminava mais. Porém o panorama valeu a pena.

Nesse momento comecei a sentir um pouco de fome. Só de pensar em voltar caminhando, perdi o ânimo. Vi um ônibus que chegava e me fingi de turista (fingi tão bem que parecia ser um mesmo), perguntei se meu passe de metrô valia também pro ônibus. Qual não foi a surpresa quando soube que sim. "Carajo", disse em espanhol. Se soubesse antes teria poupado um pouco minhas pernas. Desci do ônibus em Strandvägen e caminhava tranquilamente pela orla sueca, admirando as belezas naturais do país, quando me deparo com um barco. Bonito, à vela, ancorado. Sem nenhuma indicação de nome ou se era um passeio de barco pra turistas. Acesso aberto, pessoas entrando, fui atrás, esperando que alguém me parasse pra dizer o preço ou, na pior das hipóteses, ser obrigado a descascar batatas no porão (como já fizeram os Paralamas do Sucesso, quando entraram de gaiato num navio).

Andando mais e mais, vi, para minha surpresa, que era um restaurante. "Mamma mia!", pensei no mais puro italiano. E sentei-me em frente ao rio, estiquei as desgastadas pernas enquanto esperava a carne de porco com geléia e a cerveja. Não sei exatamente o que era a comida, mas tinha uma coisa doce que parecia ser geléia, e a semelhança foi suficiente para que eu a definisse como tal. "Isso é que é vida", já pensou alguma vez o bicho-preguiça. Após o merecido desjejum, comprei outra cerveja, deitei-me na grama em frente ao rio, sob a sombra de um'árvore, e tive belos sonhos.

Acordei com olhares sobre mim. As pessoas ao meu redor pareciam curiosas. Ou insanas. Sabe lá. Primeiro fui ver se nenhum pombo tinha cagado em mim. Depois pensei, são apenas malucos na folga do fim de semana. Se é que os sanatórios permitem aos malucos um passeio dominical. Enfim, deixei pra lá, terminei minha cerveja e dirigi-me ao outro barco, o albergue flutuante, onde um repouso merecido aconteceria em breve tempo, antes da balada na terra dos vikings e das loiras. 

Falando nisso, durante a viagem - e até depois - dediquei várias horas à meditação sobre o porque do fetiche das moças suecas com a palavra Absolutely, relatada no post anterior. Porém a resposta fui encontrar somente hoje, enquanto escrevo esse post. Foi um estalo, que me fez, do nada, entender tudo, como nos desenhos de Escher, o holandês doidão. A resposta é mais óbvia do que parece: a bebida mais conhecida da Suécia é uma vodka? Absolute(ly)!

Continua no próximo post.




quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE III - Öl? Absolutely!

Eu dormia tranquilo, quando ouvi um barulho. No início pensei que estivesse ainda sonhando. Parecia um motor. Depois me dei conta que o barco estaria se movendo. Acordei e percebi que era um ronco, mas muito alto. O mais alto ronco que havia sentido na minha vida.

Algumas horas antes o avião de Bruxelas aterrisou em Skavsta, uma cidade a mais ou menos 2h de ônibus de Estocolmo. A paisagem no trajeto não muda: árvores, plantações e estradas. É quando a civilização começa a aparecer. Desci na estação central, perto das 21h. Beleza, cheguei em Estocolmo. E agora?

A estação central é um caos, como já me alertou antes o meu guia "Europa de trem". A primeira coisa era achar um banheiro, mas as placas indicavam lugares inexistentes. Ou passagens secretas a mim desconhecidas. Estudei bem a situação e decidi que dava pra aguentar até chegar no barco. Nessas horas a gente aprende a observar os outros turistas. Segui de longe um casal que estava no mesmo ônibus, e logo eles acharam um local com o mapa da cidade e do metrô. Peguei o meu mapa e, enquanto fingia que lia, os segui e chegamos no metrô. "Magavilha!", pensei. Depois disso me separei deles. Poderiam chamar a polícia porque eu os seguia.

Lá fui eu pra máquina de passagens do metrô. Escolhi tudo como havia planejado, um ticket pra três dias. Mas na hora de pagar não aceitava o meu cartão. Tentei algumas outras vezes e nada. "Shit", disse em inglês. Foi então que vi um guichê de vendas. Comprei e analisei o mapa do metrô. Precisava descer em Slussen, na ilha de Södermalm, duas estações ao sul.

Quando cheguei ali, fui em direção ao rio. Na verdade não é exatamente um rio, mas um estuário em delta no qual o lago Mälaren se encontra com o mar Báltico. Estocolmo é formada por 14 ilhas e é rodeada de água. Mas àquela hora eu não podia ver a beleza da cidade. Era noite. Eu estava cansado. Eu queria ir no banheiro. Eu carregava duas mochilas pesadas. E eu estava aparentemente perdido.

Segui meus instintos e descia uma escada quando me apareceu uma loira. Sem saber o que dizer, perguntei se ela sabia onde ficava o barco. Não, não sabia. Segui adiante, e vi que o primeiro barco era algo como um restaurante-bar-pub-discoteca. À medida que eu me aproximava, o segurança me olhava mais perplexo. Perguntei onde ficava o meu barco, e ele disse que dois barcos adiante eu iria encontrá-lo. Meraviglia.

Entrei e já percebi que tudo era pequeno e estreito. "Tenho que cuidar pra não bater a..." foi o que pensei, antes de bater a cabeça. A primeira de várias vezes. Cheguei na recepção e a loira me disse "Hey!". Estranho. Já nos conhecemos? Toda essa familiaridade... respondi "Hey!". (Somente mais tarde fui descobrir que o correto é Hej e não Hey, e que isso significa Oi, Olá, e não uma hipotética intimidade que os mais ingênuos poderiam pensar).

A cada pergunta que eu fazia, a moça respondia "Absolutely!", com um largo sorriso. Ela gosta dessa palavra, pensei. Nos dias seguintes percebi que todas as suecas são assim simpáticas e sorridentes, e tem um fetiche pela palavra "absolutely". Fui pro meu compartimento, tomando todo o cuidado pra não bater a cabeça enquanto subia as escadas, no pequeno barco chamado Gustaf af Klint. Que até agora não faço a menor idéia se tem a ver com o pintor austríaco Gustav Klimt. Será?

"Absolutely!"

Era um barco transformado em albergue, e cada compartimento era cheio de beliches. Quando entrei tinha um grupo de holandeses saindo pra balada. Preferi não falar sobre futebol com eles. Malditos. O quarto não possuía outra ventilação a não ser a porta. Era quente pacas.

Desci ao convés onde fica um bar e se pode admirar o incrível cenário noturno iluminado. Pedi uma öl pela primeira vez. Öl em sueco é cerveja. Boa. Na dúvida sobre o que comer, pedi uma pizza. Sair da Itália pra comer pizza na Suécia. Acho que tô ficando doido. "Absolutely!"

O mais estranho é o balanço do barco pra lá e pra cá. Se eu não passar mal, já valeu. Relaxei um pouco, enquanto a suave brisa massageava minha careca. "A vida é boa", pensei. "Devo massagear minha careca com mais fequência". E fui dormir.

E no meio da madrugada, ouvi o ronco, que em um primeiro momento pensei que fosse o barco partindo, em uma viagem maluca ao redor do mundo. Ou me sequestrando. Mas percebi que era um dos holandeses. Depois da Copa do Mundo começo a não gostar muito desse povo. Das 4 às 7 não dormi quase nada. Mas apesar de cansativo, o dia seguinte mostrar-se-ia muito interessante.

Continua no próximo post. Absolutely!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE II - Les pays de la bière

Quando vi o menu com mais de 40 tipos de cerveja, fiquei abismado. Eu não estava preparado pra isso. Havia planejado a viagem em alguns pontos. Primeiro, Bruxelas, que seria passagem obrigatória pra chegar em Estocolmo. Em seguida, Copenhagen, e depois não planejei mais nada. Nas últimas semanas a idéia era ver todos os detalhes, pontos turísticos a visitar, essas coisas. Mas fui surpreendido por um freelancer pra um jornal de Londrina e por um volume sobreumano de trabalho no hotel. O que quer dizer que fui meio às cegas.

Cheguei em Charleroi, aeroporto ao sul de Bruxelas. Dali, um ônibus me levaria até o centro.Pra comprar o ticket do ônibus a única opção era uma máquina automática. Toda a Europa é feita de máquinas automáticas. Você pode comprar desde cigarros, comida, bebida, jornais, tirar fotos, até passagens e camisinha. O problema é que quando você adquire uma passagem pro dia errado, não tem opção: não temos com quem reclamar, e a solução é uma só, comprar outra passagem com o cuidado redobrado, pro dia certo. "Merde", eu disse em francês, quando descobri que tinha comprado ida e volta pro mesmo dia.

Depois do episódio, deixei a mochila grande no depósito e com a menor me dirigi à capital das loiras. Cervejas, sejamos bem claros. E da Bélgica também.

Grand Place
Cheguei na estação central. Vi algumas placas que mereceriam uma piada neste relato, mas sem as fotos que tirei, é impossível fazê-la. Tudo bem. Saindo da estação, uma garoa chata mas leve, fiz o primeiro giro a pé pela cidade. Prédios imponentes, igrejas com altas torres. A Bélgica é uma monarquia, o que explica um pouco tudo. Depois, no horário marcado, fui encontrar o casal que iria me hospedar. Andamos por outra parte do centro, tirei foto da fonte mais conhecida do país e seguimos diretamente a um pub muito famoso, mas que obviamente não lembro o nome, porque à epoca eu ainda supria as lacunas da memória com fotos dos locais.




Manneken Pis (O piá que mija),
a mais famosa fonte de Bruxelas
E sentando-me à mesa, tive a primeira das várias lições sobre a arte da cervejaria que aprendi durante minha pitoresca viagem. O garçom traz o menu e pergunta, pra beber? "Bier", respondi em holandês. Ele deu uma risada como se dissesse, sim mas qual, cara pálida. Foi então que vi a coisa mais impressionante que uma pessoa poderia ver em um menu de um bar: mais de quarenta tipos de cerveja, todas locais. Eu não sabia por onde começar. Não fazia a menor idéia de nada, me senti um analfabeto numa linguagem que eu julgava dominar. Primeiro, a descrição das cervejas estava em francês e holandês, as principais línguas da Bélgica. Ok, de certa forma eu era analfabeto. Talvez tivesse também em inglês, mas não me lembro.

No final, não sabendo se pedia um uísque no lugar ou saía correndo, disse pro garçom, me fala um número. 32, respondeu em francês. (Neste momento pedi ajuda aos comensais para a tradução) Contei as cervejas e pedi aquela. Cada um do casal também pediu a sua, eles obviamente já iniciados na arte de escolher uma cerveja belga. Em pouco tempo, tínhamos as três cervejas na mesa. Uma estava inclinada como um champanhe, as outras duas em pé. Cada marca de cerveja tinha uma  garrafa diferente, copo personalizado com nome e formato específico e era servida de uma certa maneira, tudo descrito no rótulo. Olhei boquiaberto todo o ritual. Finalmente, brindamos e bebemos. Era muito boa mesmo. Depois pedi uma outra, também boa. Fomos embora e, no caminho, compramos mais umas 5 pra beber em casa. Eu imaginava quantos copos cada bar não teria e a organização entre copos e cervejas. Perdi alguns bons minutos divagando sobre o assunto.

Chegando em casa, o cara me mostrou uma de suas aquisições: The Bible of Belgian Beers (A bíblia das cervejas belgas) ou algo assim, escrito por um expert que se chama Michael Jackson (!), um best-seller no país. Era uma edição bilíngue, em francês e inglês, contendo detalhes de provavelmente quase todas as cervejas que são produzidas no país, incluindo o tipo de copo que se usa. Lendo a tal Bíblia, descobrimos o formato do copo que se usa com aquelas que compramos e ele foi, com a maior calma, procurar na sua coleção de copos aqueles mais parecidos! Esse é profissional, pensei. E eu que pensava que ter 3 tamanhos diferentes de caneca na estante já tava bom. O cara tinha mais de vinte copos ali, dos mais variados formatos. Achou 3 parecidos e fomos degustar e conversar sobre várias coisas, quase todas elas se referiam à cerveja.

Dormi feliz.

No dia seguinte me despedi dos meus anfitriões, aluguei uma bicicleta pública* e fiz um passeio maior pela cidade, tirei várias fotos (é como uma punhalada, cada volta que me lembro) antes de voltar ao aeroporto, recuperar minha mochila e seguir até a capital das loiras e da Escandinávia. E também da Suécia.

Em Estocolmo eu dormiria em um barco. E as loiras belgas, no seu mais formoso teor alcoólico, me diziam que a viagem estava muito boa, apesar de apenas ter começado.

* Nas grandes cidades européias existem bicicletas públicas disponíveis. Na Bélgica você paga uma quantia baixa (menos de 10 euros) por um dia, com cartão. Se você não devolver a bicicleta, eles te debitam 150 euros. Já em Copenhagen basta uma moeda de 20 coroas pra poder pegar uma (menos de 5 euros). E o mais interessante é que ninguém rouba elas.

Continua no próximo post.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mochilão na Europa PARTE I - Perdido no meio do nada

Algumas fotografias dos Alpes, foram suas últimas visões. Depois, fechou os olhos para sempre e ninguém mais a viu. Tinha sido uma ótima companhia nessa viagem, embora sempre calada. Possuía um olhar curioso e uma memória muito boa, capaz de recordar quase imediatamente os principais pontos turísticos que visitamos juntos. Nos separamos no caminho para a Suíça. Os últimos dias tinham sido muito cansativos, e sinto-me um pouco culpado por tudo o que aconteceu.

Lembro-me que no último dia em Praga saí à noite sem ela, e voltei muito tarde, bêbado, nem a olhei direito antes de me jogar na cama. No dia seguinte precisávamos ir cedo pegar o trem pra Munique, de onde algumas horas mais tarde, entraríamos em outro para Salzburg na Áustria e depois de um dia inteiro viajando de ressaca, poderíamos enfim descansar em um trem noturno com camas, que no final nos deixaria em Zurique, a apenas uma hora de Berna, a capital da Suíça, último destino antes de voltar à Itália.

Tudo parecia simples e tranquilo, como foi toda a viagem até ali. À meia-noite e quinze o trem deveria parar em Salzburg. Nesse horário ele parou, e descemos. Fui diretamente procurar o trem noturno, mas não existia. Não existia porque ali não era Salzburg, era Freilassing, uma cidadezinha no meio do nada. Quando me dei conta disso, o trem já se movia e a única coisa que pude dizer foi "Scheisse!", que em alemão quer dizer merda. Ela permaneceu imóvel. No cartaz com o horário dizia que em meia-hora partiria outro trem e com muita sorte, se o trem em Salzburg atrasasse, poderíamos ainda fazer a conexão. Esperamos.

Passaram-se 40 minutos e nada. Um pouco nervoso, fui confirmar no cartaz se eu tinha visto o horário correto, foi então que descobri que este trem passava somente aos sábados. "Merda!" gritei com o meu já deteriorado português. O silêncio dela, nesse momento pareceu-me de desdenho, reprovação pelos últimos acontecimentos, mas preferi não comentar, não resolveria nada naquele momento delicado.

Depois de 14 dias de tranquilidade na viagem, foi a primeira vez que me senti sem saber o que fazer, perdido no meio da Europa. O próximo trem pra Salzburg seria depois das 5 da manhã. Dormir na estação era uma opção, mas destruído como eu estava, precisava de uma cama confortável. Fomos então ao redor da estação à procura de um hotel. Depois de quase uma hora, encontrei dois, um ao lado do outro, mas estavam completos. Ou pelo menos foi o que me disseram. Desisto, vamos pra estação e dormimos lá, pensei.

Chegando ali, com minhas duas mochilas que pareciam querer me esmagar sob seus pesos, vejo de relance um táxi. Era só o que faltava, alucinações, pensei. Mas não, era um táxi, e este táxi nos levou à Salzburg. Embora fosse muito tarde para pegar o nosso trem noturno, Salzburg é uma estação grande e dali seria mais fácil - como realmente foi - achar um trem que fosse em direção a Zurique. Às 4h30 sairia um para Innsbruck, ainda na Áustria, que meu mapa indicava ser a alternativa mais lógica para alcançar a famosa cidade suíça.

Sem poder dormir muito, chegamos a Innsbruck pelas 8h. Dali foi fácil: até Zurique teríamos que mudar de trem somente três vezes e, com muita sorte e nenhum atraso, a estação de Zurique seria pisada por meus pés às 13h23, de onde eu pegaria o primeiro trem pra Berna, onde efetivamente cheguei, pelas 16h. Sem dormir quase nada em dois dias.

Foi nesse caminho de pequenos cochilos, que mais me cansavam que repousavam, trocas de trens e fotos dos Alpes que ela teve sua última visão. Um pico altíssimo, circundado por um grande lago. Muito bonito. Nesse vai e vem, dois dias sem dormir, eu a perdi. Ou a roubaram. E todas as fotos que tirei com ela de uma hora pra outra também se escafederam. "Mierda!" disse em espanhol, quando descobri o acontecido, já chegando em Berna. Mas eu estava muito cansado pra me preocupar com aquilo. Queria somente dormir.

Enquanto eu caía no sono, lembrei da nossa jornada, com ela, minha nova câmera fotográfica, que eu havia comprado exclusivamente para a viagem, e que agora me havia abandonado pra sempre. Dormindo, revivi os nossos melhores momentos, 14 dias antes, quando pegamos o avião em Pisa e aterrissamos na Bélgica, a terra das cervejas.

Continua no próximo post.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mochilão na Europa - preâmbulo

Disse uma vez o escritor americano Charles Bukowski: "Minha alma embriagada de cerveja é mais triste que todas as árvores de natal mortas do mundo". Eu porém discordo. A minha alma embriagada de cerveja é feliz, ah como é feliz.

O velho Buk tomando uma


Mas antes que alguém se assuste, essa frase foi escolhida porque representa um bom preâmbulo, e quando citamos outros escritores os nossos textos sempre ficam com uma boa aparência. Mas falemos do que é para ser falado: sobrevivi. Sim, foi uma bela e cansativa viagem, mas com muitos ensinamentos, que levarei para o resto da vida. Por exemplo, aprendi que a palavra “tack” quer dizer Obrigado em sueco e dinamarquês. Da mesma forma, “Öl” e “Øl” significam Cerveja, respectivamente nas mesmas línguas. Por isso, depois de comprar uma Öl, diga tack.

O que eu queria com esta viagem?, perguntaria algum fantasma distraído. Respondo: relaxar, descansar do estresse, conhecer novos países, observar novas culturas, saborear novas gostosuras, enfim, exercitar os cinco sentidos em outras paragens. Mas aos poucos vocês verão, de acordo com o desenvolvimento do meu relato, a razão da cerveja merecer estar nas primeiras linhas.

É inegável que quanto mais o final da viagem se aproximava, maior era a vontade de largar tudo pra viver em Praga ou Estocolmo, mas algumas coisas me fizeram pensar melhor e voltar a Pisa pra terminar o meu master em tradução:

1- o inverno nessas cidades com temperaturas ao redor dos 20 negativos;

2- eu ia demorar muito tempo pra aprender tcheco ou sueco, e até lá viveria desempregado, que no inverno significaria morrer de fome e de frio.

3- mesmo a escravidão pode ter seu lado bom, se exercida em temperaturas relativamente agradáveis. (N.do autor: escravidão, nesse contexto, significa estágio obrigatório não remunerado sem tempo pra ter um segundo emprego pra ganhar dinheiro).

No final, já conformado em voltar à vila Pisa, aconteceu o inesperado, que provavelmente não será perdoado por alguns fantasmas: perdi a máquina fotográfica (ou me roubaram), com as quase 500 fotos de todos os lugares que passei nesses 18 dias de viagem. As cervejas de Bruxelas, as ilhas de Estocolmo, as loiras de Copenhagen, as torres de Maastricht, as peladas em Berlim, o Castelo e as aventuras em Praga. Tudo desaparecido, cancelado, anulado, apagado, varrido da face da terra.

Estocolmo, vista do alto


Mas tudo bem, a vida segue seu rumo, e esse relato, esperemos, sirva alguma coisa para o bem estar da humanidade. Com alguma (ou muita) sorte, encontrarei minha máquina nos achados e perdidos da companhia ferroviária.

No meio tempo, ilustrarei com fotos do google essa coisa doida que é viajar de trem pela europa, com uma mochila nas costas e nada na cabeça. A não ser o boné pra não queimar a careca.

Até a próxima,

Zaratustra