quarta-feira, 14 de abril de 2010

Matemática e outros causos

Muito embora eu tenha trabalhado durante 5 anos num banco, nunca gostei muito de matemática. Porém confesso que a habilidade e a convivência diária com os números melhora realmente o raciocínio lógico. Isso se você não enlouquecer antes.

Dias atrás comecei a fazer as contas. Não as contas que devo pagar mensalmente, mas comecei a contar, num simples momento de ócio - coisa rara ultimamente - as cicatrizes que detenho pelo corpo, quase todas adquiridas durante a infância, e as histórias que só a elas pertencem. Muito curiosas, por sinal.

Um exemplo: creio que a primeira em ordem cronológica foi a que tenho na sobrancelha. Parte esta da anatomia humana que desde pequeno chamo de sombrancelha com M, ao contrário do que relata o meu amigo Aurélio, que prefere a primeira opção. Isso tudo por questões de preferência estilística. Ou licença poética. Escolham vocês.

Enfim, eu devia ter no máximo uns 6 anos, porque ainda ia à pré-escola. Meu pai, quando jogava na loteria, sempre me pedia pra escolher os números, e foi isso que fiz. Um jogo era sempre o meu, outro da minha irmã. Um dia, chegando em casa, meu pai disse que eu tinha acertado a quina, e tava rico. Comecei a pular de alegria. Embora pra mim rico seria provavelmente o suficiente pra comprar alguns brinquedos que eu queria e outras baboseiras pra comer. Pulei sem direção e sem prestar muita atenção no que fazia até que, em um desses saltos, pisei numa bola que estava por ali justamente para ser pisada, e bati com a testa num degrau. Só depois descobri que era uma brincadeira do meu pai. Mas querendo ou não, a quina eu acertei. A quina do degrau. Cinco pontos na sombrancelha, cujo prêmio, pra toda vida, foi uma cicatriz.

Algumas vezes abri o joelho durante a infância, mas são tantas cicatrizes uma em cima da outra que nem se percebe mais. Parece um joelho (ou dois) normais. Já na adolescência, apesar de eu sofrer gravemente com a acne e não ter dó de espremer aqueles minivulcões da minha face, por algum motivo inexplicável não fiquei marcado.

Incontáveis vezes cortei os dedos e a mão com papel, inclusive contando dinheiro no banco (quem disse que dinheiro não faz mal a ninguém?) mas creio que nenhuma dessas vezes foi suficientemente profundo pra deixar uma cicatriz. Hoje em dia, no hotel em que trabalho na Itália, não passo mais de uma semana sem cortar os dedos com o papel. Esse é um dos problemas das pessoas sistemáticas...

Mas creio que o caso mais insólito é de uma cicatriz que tenho no dedo indicador da mão. E não digo em qual das mãos a cicatriz está, porque ela passa de uma mão para a outra quando bem quer. Neste momento está na direita, mas nada posso garantir até amanhã.

Durante muito tempo, eu tive quase certeza absoluta que essa cicatriz (à época sempre no dedo da mão esquerda) tivesse ocorrido durante uma pescaria no sítio do meu falecido avô, onde sempre eu passava minhas férias escolares, às vezes sozinho, às vezes com meus primos, desbravando o mato e pescando. Numa dessas pescarias - de lambaris, óbvio, com caniço de taquara (bambu para os leitores do Paraná pra cima) - eu teria, distraidamente, deixado que o anzol se enroscasse no meu dedo e fizesse essa pequena curva perto da dobradiça do meio. Passei anos contando aos colegas dos colégios onde passei, vangloriando-me como se fosse uma cicatriz de guerra, conseguida com um anzol. Ledo engano.

Muitos anos depois, sabe lá por que desrazões da memória, me lembrei o que de fato havia acontecido. Eu e um colega de classe, como todos aqueles da nossa idade, tínhamos cada um seu canivete. E a brincadeira era aquela de, rapidamente, como uma das mãos bem aberta, fazer com que o canivete batesse entre os vãos de cada dedo, o mais rápido possível. Eu era craque nisso e então, com a mão esquerda aberta, comecei os movimentos, ritmados e lentamente aumentando de velocidade. São nessa coisas estúpidas da vida que se percebe o quanto a notoriedade faz bem ao ego. E também o quão fácil é transformar essa vanglória (já diz o próprio nome: vã glória) em arrogância, para em seguida precipitarmos no poço obscuro do ridículo. E é aí que também aprendemos, normalmente a contragosto, como se joga sujo.

Um desafeto, sabendo que eu gostava de uma guria chamada Débora (sinto cheiro do seu perfume até hoje), disse que ela estava vindo. Comecei a suar, enquanto lutava para não errar as batidas e a galera contava pra ver se eu ultrapassava o recorde vigente. Num momento de esperança, estiquei os olhos ao lado pra ver se ela estava ali, e o canivete cortou fora metade do meu dedo. Me sentia como Lula, se àquela época eu o conhecesse e soubesse que era manco dos dedos. Mas não pensei em virar presidente, nem em colar novamente o dedo, só queria que Débora não tivesse visto.

Só quando vi que ela não estava por ali foi que peguei a ponta do dedo e o forçava contra o cotoco, enquanto um outro colega enrolava tudo com um pano. Não lembro dos dias que se passaram depois, nem se fui a um hospital (creio que sim), mas talvez o trauma de tudo isso tenha me levado a acreditar, por anos, a origem errada da cicatriz.

A cirurgia, muito bem feita por sinal, me deixou com poucas marcas e a articulação do dedo indicador não sofreu limitações. A única coisa estranha é quando a cicatriz muda de uma mão à outra. Às vezes sonho com um disco voador. Curiosamente, desde então, meus polegares têm o movimento restrito.

3 comentários:

  1. ahah fantastico
    e cuidado com as quinas hein
    aoo fiao

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  2. Porra alemão! Teu erro foi não ter tido a idéia do Lula de ser presidente, até pq assim, vc poderia tornar a débora primeira dama e eu, seu assessor d imprensa, e todos estariam felizes para sempre! ah, e faltou uma: eu lembro d uma vez q vc caiu d skate qdo morava em caxias, não? não ficou sicatriz? e ve se tira na quina na proxima vez e me contrata pra administra teu dinheiro!! eeuhuehue. abraço aeh!

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  3. Gostei muito desse seu relato. Tenho também as minhas cicatrizes. E uma delas é o corte com sete pontos no dedo mínimo direito. Culpa do pernilongo! Tentei matá-lo, mas acertei o meu dedo num prego sem cabeça na parede. Maldito pernilongo! Rsrsrs...

    Gostei de vir aqui. Visitarei outras vezes. Um abraço!

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