domingo, 25 de abril de 2010

"O que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço"

Enquanto tento retomar o ritmo perdido do mestrado, começo hoje a resgatar textos do limbo do meu antigo Grogue hospedado no Tipos. Grogue este que uso de vez em quando pra treinar italiano, cujo link vocês encontram ali do lado. Do lado direito. Os critérios de escolha são estritamente subjetivos e não é possível recorrer. Se tudo der certo, nada dará errado. Eis o texto:



Com essas palavras Borges inicia o prefácio de seu melhor livro que já li, El Aleph, cujo conto homônimo já havia baixado e lido em espanhol.

Obviamente há coisas chatíssimas como um conto chamado Os Teólogos que quem não for da área não agüenta dois parágrafos sem fazer um esgar de desgosto. Li até o final por teimosia.
O que faz Borges parecer tão bom e suas histórias soarem tão verídicas (ele mesmo conta em seu prefácio a vez que um jornalista perguntou a ele se o Aleph existia realmente) é sua grande erudição e a profusão de citações, que mesmo que quiséssemos não teríamos material para pesquisa para comprovar, num país tão privado do hábito da leitura. Desta forma, ficamos sem saber se as citações são verdadeiras ou não. Algumas o são, e talvez (certamente) ele tenha usado esse artifício justamente para confundir. E consegue.

Mas o que em seus livros me chama a atenção é o fascínio pelos labirintos, pelos sonhos e pelo absurdo. São temas que invariavelmente acabo por ser atraído de alguma forma, e isso certamente reflete no que escrevo, assim como o Bukowski reflete no que bebo, e vice-versa.

Dos 17 contos que compõem o livro, pelo menos quatro, que me lembro, ou aludem a labirintos em sua trama, ou se passam dentro de labirintos. O que mais me chamou a atenção foi o conto "A Casa de Astérion", justamente porque uns dias antes estava lendo algo sobre a mitologia grega, sabe lá porque razões do acaso, e escrevi este texto no meu antigo blog.

A auto referência entre os contos do mesmo livro é também interessante. E O Aleph, na primeira vez que li, apesar da falta de treino do meu espanhol, mostrou-me uma faceta diferente dos contos absurdos e sobrenaturais. Diferentemente de H.P. Lovecraft, cujas histórias sobrenaturais sempre envolvem poderes antigos, ocultos e desconhecidos dos seres humanos, Borges, pelo menos no que li até agora, sempre conta histórias "já relatadas" por outros, repletas de citações, o que de alguma forma as torna mais verossímeis. Raramente é o narrador onipresente e onisciente nosso velho conhecido.

Como sabiamente o próprio Borges disse no chatíssimo texto Os Teólogos: "As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia".

Substitua heresias por contos.

Publicado em 22 de novembro de 2007

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