quinta-feira, 29 de abril de 2010

Às margens do rio Piedra...

Foi no raiar do dia, de óculos escuros protegendo-me da sensação sempre incoveniente da luz solar, que percebi a finitude do ser enquanto humano (bonita essa).

Talvez tenha sido o uísque falsificado. Mas a claridez (!) foi tão nítida e, desculpem a redundância, clara, que pensei 'como não tinha percebido tudo isso antes?'

E tudo se fez inteligível repentinamente. Como se fosse um aleph mental súbito. Todas as peças do quebra-cabeças se encaixaram e desfrutei da sabedoria e do sentimento de onisciência que só os sábios possuem, aquela mansidão nos gestos, economia na fala, a exatidão das palavras, a momentânea percepção de tudo que é, foi e será, sua razão, causa e circunstância, início, meio e fim.

A vontade era escrever tudo aquilo, publicar, ganhar o Nobel de literatura, doar o dinheiro a causas sociais e viver eremita em cavernas como Zaratustra mesmo o fez, com minhas mulheres eremitas ao redor, exultando-nos em intermináveis festas e descansos em remansos, observando do alto de nossa montanha como a vida flui aos que não perceberam o óbvio, que resplandece em nossa face diariamente e por estarmos ocupados não nos damos conta do quê, afinal, acontece nessa coisa a que chamamos vida.

Mas como eu estava dirigindo deixei pra escrever em casa, e duas quadras depois eu já tinha esquecido tudo isso e só queria chegar em casa, dormir, e torcia para que meu estômago resistisse bravamente ao uísque falsificado.

Publicado em 10 de dezembro de 2007

2 comentários:

  1. porra alemão, as vozes tem me dito várias coisas sobre isso. mas seguinte: hoje é meu último dia em Poa (antes de retornar ao fim do mundo, de onde observo a rotatividade da Terra)e também tive várias inspirações para escrever, mas sei que não vou lembrar de quase nada quando chegar no fim do mundo. portanto, como tu e as vozes dizem: a verdade sempre é outra e diversa.

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