terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Às cinco
Quando o sino da Igreja soa, é já noite, e o frio envolve a cidade de Pisa no inverno, como um cachecol de gelo.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O inferno de Dante (e de Shakespeare, e de Camões...e o meu também)
A correria destes últimos dias tem sido grande. Leio muito e tenho que começar a tomar cuidado pra não embaralhar tudo que to lendo. Mas enfim, como já disse algum nobre filósofo, é a vida.
Falando em nobreza, não que eu seja nobre, embora seja Dalla Corte (hein hein?), enfim, piadas infames à parte, como eu dizia, falando em nobreza, hoje em um seminário do mestrado o professor deu um exemplo muito certeiro, que achei legal compartilhar aqui com vocês, meus fantasmas.
Contextualizando o ocorrido: o professor nos deu cópias de trechos de MacBeth, de Shakespeare, na versão original, e depois confrontava estes trechos primeiro com uma “tradução” prum inglês moderno (fraca, por sinal) e depois com várias traduções feitas em diferentes épocas para o italiano. Viam-se coisas absurdas.
Aí entra a questão do distanciamento, não somente entre duas línguas diversas (ou culturas diversas, pra ser mais preciso), como também o distanciamento temporal na mesma língua, ou seja, querendo ou não o inglês da época de Shakespeare não é o inglês de hoje, assim como o italiano de Dante diverge do italiano de Gérson.
Neste momento o professor perguntou: é justo traduzir Shakespeare para uma linguagem moderna?
Antes de eu começar a pensar na resposta, aconteceu uma discussão, mas entre professores. Nunca vi isso no Brasil, mas aqui é normal (ou pelo menos parece) um professor assistir a aula do outro e não só, discutir e questionar o que o outro está propondo. (Creio que se ocorresse no Brasil, depois da aula um diria pro outro, po, ta querendo me fuder na frente dos alunos? Aqui eles discutem, e embora parecesse que o professor fosse dar meia-volta, permaneceu na sala)
Enfim, não to aqui também querendo dizer que todas as intervenções são oportunas. Na verdade ninguém entendeu porra nenhuma do que o cara tava dizendo, e perderam preciosos minutos da aula por uma discussão vã e inútil. Só sei que finalmente o tal professor conseguiu uma brecha pra explicar melhor.
Disse ele, diante da argumentação fervorosa das outras professoras, que Shakespeare escrevia o inglês comum à época, da plebe, não o inglês dos nobres. Da mesma forma, Dante, que foi um dos primeiros senão o primeiro a escrever em latino volgare (que virou o italiano de hoje), escreveu na língua do povo, de outra forma teria escrito em latim, a língua oficial à época. Ou seja, a tradução à linguagem moderna de certa forma seria um retorno ao objetivo inicial do bardo inglês, que era falar a língua do povo. As professoras se chocaram de novo...
E o professor, meio que pra alfinetar de vez, explicava que no futuro, daqui uns 200 ou 300 anos Bob Dylan e Elvis Presley serão estudados pelos cientistas como hoje fazemos com esses poetas antigos. E a língua de hoje será tão arcaica a eles quanto é Camões e Os Lusíadas pra nós ou Cervantes e Dom Quixote pros Castelhanos. Uma professora, que sentava na fileira logo atrás da minha murmurou “Bob Dylan, sinceramente...”. Eu ria sozinho.
No fim o professor disse: “Il tempo nobilta”. Foi um certo neologismo, pois usou o substantivo nobiltà e o utilizou como verbo, embora exista o verbo nobilitare, que é tornar nobre. Uma tradução mulambenta seria O tempo nobra. Em suma, o tempo enobrece. O que era popular torna-se elitizado, torna-se nobre. Vimos isso durante toda a história da humanidade, não só com escritores, mas também na música (um exemplo o jazz), em manifestações populares (ex. o carnaval) e com políticos (depois de mortos, são todos respeitáveis). Poderia citar outros exemplos vários, mas não vem ao caso agora.
Portanto, não adianta escrever com pompas e circunstâncias. Depreende-se que o popular será eternizado e, posteriormente, adorado pelas gerações futuras de intelectuais, cujos filhos farão caretas aos professores quando tiverem que estudar Bob Dylan no segundo grau e, o pior, pro vestibular. O mais importante, na verdade, e no final, é que o tempo nobra. Mas a verdade é outra, e diversa.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Resolvido o maior problema do século
Durante este tempo que estou aqui na bota, mais de um ano, aprendi o nome de várias comidas, que com saudade da culinária brasileira eu procurava aqui. Mas uma coisa eu nunca descobri: como se chama o chuchu em italiano.
Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.
Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.
Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.
Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.
Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.
Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.
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sábado, 5 de dezembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Teorias de traduçao e estudos culturais pòs-coloniais
"(...) Figured in the disjointed signifier of the present, this supplementary third space introduces a structure of ambivalence into the very construction of Jameson's internationalism. There is, on the one hand, a recognition of the interstitial, disjunctive spaces and signs crucial for the emergence of the new historical subjects of the translational phase of late capitalism. However, having located the image of the historical present in the signifier of a 'disintegrative' narrative, Jameson disavows the temporality of displacement which is, quite literally, its medium of communication. For Jameson, the possibility of becoming historical demands a containment of this disjunctive social time."
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994
Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994
Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)
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domingo, 22 de novembro de 2009
Domingo
O domingo hoje passou lento. Pouca gente. Pouco movimento.Nem as moscas, a me encher a paciencia, apareceram
O domingo foi tao lento, mas tao cheio de nada, que pra se ter uma idéia de que nao poderia ser mais monòtono, nao recebi nem mesmo um spam no meu email. Nem unzinho.
Pois é, amigo. Tem dias em que o dia nao passa.
E esse dia é hoje.
* * *
James Joyce, Jorge Luis Borges, Samuel Beckett e Vladimir Nabokov. Segundo um critico italiano, esses 4 definiram as coordenadas mentais da narrativa no século XX. Seja là o que isso quer dizer.
Coordenadas mentais...é interessante este uso de termos vagos que soam bem e impoem um certo respeito ao texto. Uma coordenada mental ninguém sabe o que é, deduz-se que seja algo como "estrutura psicològica da narrativa", ou padroes, sei là. Acho que fiquei mais vago ainda.
Mas o importante é o que importa, o resto é o que sobrou. E a verdade é outra e diversa. Ou nao.
O futuro...no domingo vazio se pensa muito no futuro. E é logo ali.
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sábado, 21 de novembro de 2009
O pendulo de Foucault

Depois de meses lendo o famigerado exemplar acima nominado, finalmente terminei de ler o livro de Umberto Eco. No meu antigo blog devo ter feito alguns posts comentando do livro.
O final da leitura de livros gigantescos como esse (mais de 600 pag) sempre sao interessantes. O livro, aliàs, começa perto do fim e o narrador aos poucos desenvolve a historia contando o que aconteceu atè ele chegar onde està. E isso se estende por mais da metade do livro. Depois, o final è inicialmente arrebatador, mas me decepcionei na ultima pagina. Pareceu que o Eco nao sabia como terminar e decidiu por fim ao livro de um modo um pouco reticente, sem tanta emoçao.
Ao mesmo tempo que eu terminava de ler, fazia minha primeira traduçao pro mestrado, que era um excerto do Otelo de Shakespeare, do Ingles arcaico pro italiano. Me debati durante uma semana sobre o livro e, especialmente, sobre esse trecho. Um dia antes de terminar a traduçao faltavam 2 frases que eu nao achava um resultado satisfatòrio. Aì resolvi tomar uma cervejinha pra refrescar a cuca e tudo se resolveu.
A pròxima semana serà minha primeira aula do mestrado, em que verei o real resultado de tudo isso, e começo a analisar as vantagens e desvantagens de um mestrado em duas lìnguas estrangeiras. Veremos.
Entao transcrevo a voces, em primeira mao, o excerto do Ato V Cena II do Otelo no original em ingles e na minha traduçao em italiano, pra nao deixar esse blog abandonado às moscas:
LODOVICO: You must forsake this room, and go with us:
Your power and your command is taken off,
And Cassio rules in Cyprus. For this slave,
If there be any cunning cruelty
That can torment him much and hold him long,
It shall be his. You shall close prisoner rest,
Till that the nature of your fault be known
To the Venetian state. Come, bring him away.
OTHELLO: Soft you; a word or two before you go.
I have done the state some service, and they know’t.
No more of that. I pray you, in your letters,
When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am; nothing extenuate,
Nor set down aught in malice: then must you speak
Of one that loved not wisely but too well;
Of one not easily jealous, but being wrought
Perplex’d in the extreme; of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe; of one whose subdued eyes,
Albeit unused to the melting mood,
Drop tears as fast as the Arabian trees
Their medicinal gum. Set you down this;
And say besides, that in Aleppo once,
Where a malignant and a turban’d Turk
Beat a Venetian and traduced the state,
I took by the throat the circumcised dog,
And smote him, thus.
[Stabs himself.]
LODOVICO: O bloody period!
GRATIANO: All that’s spoke is marr’d.
OTHELLO: I kiss’d thee ere I kill’d thee: no way but this;
Killing myself, to die upon a kiss.
[Falls on the bed, and dies.]
CASSIO: This did I fear, but thought he had no weapon;
For he was great of heart.
LODOVICO: [To Iago] O Spartan dog,
More fell than anguish, hunger, or the sea!
Look on the tragic loading of this bed;
This is thy work: the object poisons sight;
Let it be hid. Gratiano, keep the house,
And seize upon the fortunes of the Moor,
For they succeed on you. To you, lord governor,
Remains the censure of this hellish villain;
The time, the place, the torture: O, enforce it!
Myself will straight aboard: and to the state
This heavy act with heavy heart relate.
[Exeunt.]
Aqui embaixo a minha traduçao:
LUDOVICO: Deve abbandonare questa camera, e venire con noi:
Il suo potere e il suo comando sono finiti,
Adesso Cassio governa a Cipro. In quanto a questo malfattore,
Se si conosce crudeltà
Che può tormentarlo tanto e per molto tempo,
Sarà sua. Deve rimanere prigioniero,
Finché lo Stato Veneziano conosca
La natura dei suoi crimini. Venite, portatelo via.
OTELLO: Un attimo; due parole prima che partiate.
Ho fatto alcuni servizi allo stato, e lo sanno.
Basta. Vi prego, nelle vostre lettere,
Quando racconterete queste sventure
Parlate di me come sono; senza eccessi,
Né malizia: dovete parlare
Di uno che non ha amato saggiamente, però molto;
Di uno che non è facilmente geloso, però essendo stato provocato
Divenne confuso all’estremo; di uno la cui mano,
Come l'indegno Indiano, butta via una perla
Più ricca di tutta la sua tribù; di uno i cui occhi repressi,
Sebbene non abituati ai sentimenti più teneri,
Sparsero lacrime così rapidi come gli alberi arabi
Fanno con la loro gomma medicinale. Scrivete questo;
E inoltre dite, che una volta in Aleppo,
Quando un malvagio turco in turbante
Picchiò un veneziano e diffamò lo Stato,
Presi per la gola il cane circonciso
E lo colpii in questo modo.
[si accoltella]
LUDOVICO: Oh, che fine sanguinosa!
GRAZIANO: E’ stato inutile quel che abbiamo detto.
OTELLO: Ti ho baciato prima di ucciderti: così è stato;
Mi uccido, per morire sul tuo bacio
[cade sul letto e muore]
CASSIO: Avevo paura di questo, ma ho pensato che non fosse armato;
Perché è stato un uomo di gran cuore.
LUDOVICO: [a Iago] Oh, cane spartano,
Più crudele dell’angoscia, la fame o il mare!
Veda il tragico fardello su questo letto;
Questo è opera sua: l'oggetto avvelena la vista;
Nascondiamola. Graziano, la casa adesso è sua,
E conservi le ricchezze del Moro,
E’ il suo successore. Lei, Signor Governatore,
Deve giudicare questo diabolico mascalzone;
L’orario, il luogo, la tortura: Oh, lo faccia soffrire!
Io vado direttamente a bordo: e allo stato
A malincuore racconterò questo pesante atto
[Escono.]
Traduzir é um pouco cansativo. Mas é melhor do que trabalhar em um banco e em um hotel.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
Shakespeare
"DESDÊMONA - Estou certa de que meu nobre esposo me considera honesta.
OTELO - Oh, sim! Sem dúvida! como as moscas no açougue, que recebem vida da podridão. Ó erva daninha, tão bela ao parecer e tão cheirosa que ofendes os sentidos! Oh! se nunca tivesses vindo ao mundo!"
Iago é o mais vil dos biltres. E Shakespeare é legal.
No fundo, no fundo, me divirto com tudo isso. Mas o fundo, é o outro lado. Que começa.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O uivo

Na madrugada fria abro a janela do quarto. O rio em minha frente. O vento gelado me congela, mas me deixo ficar. E ouço ecos distantes, que confundem-se. Uns mais altos, outros mais baixos. As ruas estão desertas, os bares estão fechados, a pessoas se trancam no calor da solidão italiana.
Os ecos me intrigam. Olho o rio, que reflete luzes esparsas. Hoje fez sol. Amanhã? Nem a previsão do tempo sabe.
Amanhã é outro dia. Ontem voei sobre a torre de Pisa. Amanhã conquistarei impérios. Hoje foi o meu exílio. E eu não sei mais se volto pro espaço ou pro fundo do mar.
Pois meu nome é querer.
Pois meu nome é impronunciável. Pois meu nome é intraduzível.
E entre os bosques dos Alpes, nas neves eternas, com a lua ao fundo e o céu estrelado, ouve-se o uivo de um lobo. Um lobo que enxerga o mundo pelo alto. Um lobo que se esconde da vida. Um lobo que foge do medo e vê no futuro algo disforme, impreciso, que o atrai.
Um abismo.
E ele se chama urgência.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Penso, logo existo
A prova de admissão ao mestrado será essa semana. Na verdade, eu ainda nem sei se farei essa prova, porque antes de tudo isso tem uma análise curricular que pode me excluir definitivamente do certame. E a lista de quem faz a prova sai na quarta. A prova será na sexta. E eu to começando a pegar mais pesado nas minhas traduções doidas. E to ficando doidim, doidim,
E nessa pira, que sempre me leva a mudar de direção, porque começo a traduzir um texto, busco uma palavra no dicionário, mas dali já passo por uma outra interessante que sempre quis saber e assim vai infinitamente e quando vejo traduzi muito pouco do texto que eu me propunha, embora de alguma forma também tenha adquirido algum conhecimento igualmente útil.
Enfim toda essa ladainha foi porque eu tava nessa pira, tá ligado?, de viajar nos dicionários e de repente me deparei com a famosa frase de Renè Descartes, que é o título desse post (tenho que descobrir uma tradução pro termo post). Mas no original em latim, que seria "Cogito ergo sum". O legal do dicionário em italiano que comprei é que, como o italiano é a língua mais próxima do latim dentre as línguas latinas (português, espanhol, francês, catalão, romeno e italiano, isso sem contar os infinitos dialetos em cada país), enfim, o dicionário italiano tem um apêndice só com termos e locuções em latim, o que é interessante pra caramba, pra quem gosta disso como eu. Mas não era por aí que eu ia.
Voltando à vaca fria, fiquei me perguntando como seria o famoso termo "cogito ergo sum" em outras línguas. E nessa hora a wikipedia é insuperável. Em poucos cliques você descobre que em eslovaco se diz "Myslím, teda som" embora eu não faça idéia de como se pronuncia isso. Em inglês: "I think, therefore I am". Em italiano "Penso, quindi sono" ou "Penso, dunque sono", o que dá na mesma. E seguindo essa linha de raciocínio me veio novamente uma dúvida que me surgiu muitos anos atrás quando eu ainda estudava inglês. E se o tradutor entendeu tudo errado?
Pense bem, pateta: em inglês o verbo to be, assim como em italiano o verbo essere tem dois significados, ser e estar. E alguém dirá "mas o Descartes era Francês, animal!". Eu sei disso, besta. E muito embora eu não saiba francês pra afirmar se o mesmo acontece com a frase original (se é que ela não foi escrita em latim mesmo), ainda assim a tradução pro italiano e pro inglês são ambíguas. É óbvio que o contexto da obra ajuda a definir melhor a escolha das palavras, mas eu imagino na minha maluquice se por acaso algum tradutor um dia não bebeu demais enquanto traduzia Shakespeare e entendeu o to be or not to be, that's the question erroneamente, quando o bardo inglês queria (ou quereria) dizer estar ou não estar, eis a questão.
Imagina quantas guerras e quantos mal entendidos no mundo ocorreram por erros de tradução. Imagina o trabalho do intérprete do Lula pra traduzir em outras línguas suas piadinhas futebolísticas. É passível de um desentendimento diplomático, tudo isso! E se o mundo não passa de um erro de tradução, meu deus!
Mas eu me divirto, na verdade. Embora nesse caso, não creio que a verdade seja outra. Contudo pode ainda ser diversa.
E tenho dito!
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O fim da madrugada
No alvor do frio dos dias da cidade secular
Dos ventos, das gotas do orvalho que me circundam
O rio e a chuva que de umidade a cidade inundam
O outono das folhas mortas a alma congela devagar
Na madrugada ociosa, silente e abandonada,
nas alamedas desertas, nos becos escuros
abraça a cidade, como os antigos muros,
a voz sôfrega que jaz eternizada
pelos ecos, que dos sinos a toada
acompanha. A sombra, do nada,
surge sem que ninguém a veja
E sucumbe sob os raios da alvorada,
ouve-se o pranto de um'alma desgarrada
e o desespero pela última cerveja
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domingo, 18 de outubro de 2009
A dubitável certeza
Ler antes do
tempo
Crer.
A ciência de saber-se possível.
Superestimar
o ego.
O nulo.
Querer
e não ter
a certeza
Poder
e não possuir
a firmeza
Fazer
e desconhecer
o impossível
Demasiado.
Simples assim.
Exerço o meu
erro
Execro
meus acertos
E amo
a instabilidade
do porvir
Saber e ser
o que se é
anula a dúvida
Saber e ser
o que se queria ser
e o que se queria
saber.
Nada
E o fundo do escuro do mundo
é a sombra do vento
a perfumar
a cor dos dias
que já foram
E o rei da cocada preta
disse "Vamo nessa"
lhe respondi com uma careta
"Mas a verdade é outra, e diversa"
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O retorno de Zaratustra
Depois de quase dois anos longe, retorno a este endereço. Talvez tenha sido um belo equìvoco ter saìdo daqui. Talvez nao.
Dizem por aì que o bom filho à casa retorna. E cà estou, ora pois.
Mas a verdade é outra e diversa.
Dizem por aì que o bom filho à casa retorna. E cà estou, ora pois.
Mas a verdade é outra e diversa.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Tipo assim...falhou Zaratustra
Disponibilizo aqui o endereço do meu novo blog que, por razões ocultas e alheias de força maior, vai se tornar o principal, apesar do design ficar devendo um pouco:
http://zaratustra.tipos.com.br
Divirtam-se?
http://zaratustra.tipos.com.br
Divirtam-se?
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sábado, 3 de novembro de 2007
O corno de Creta - a lenda do Minotauro revisitada
O Minotauro (touro de Minos) vivia em um labirinto na ilha de Creta. O labirinto foi erguido por Dédalo (palavra usada em portugês também como sinônimo de labirinto) a pedido do rei Minos para abrigar o monstro. Conta a lenda que antes de se tornar rei, Minos havia feito um pedido aos deuses para conseguir o trono. Poseidon (ou Netuno para os romanos) concordou contanto que Minos sacrificasse em sua homenagem um touro branco que sairia do mar. Admirado pela beleza do touro, Minos acabou por sacrificar outro touro, esperando que Poseidon não percebesse. Ledo engano.
(Segundo o Aurélio, ledo significa "risonho, alegre". Já meu amigo Michaelis acrescenta também os adjetivos "contente, jubiloso")
Alegre engano.
Furioso, Poseidon fez com que a esposa do rei, Pasífae (!), se apaixonasse então pelo touro branco e desta feliz união nasceu o famigerado Minotauro, com cabeça e rabo de boi e corpo humano.
O malvado rei Minos ainda exigia que todo ano sete moças e sete rapazes fossem entregues a seu bastardo para saciar sua fome e vontade de comer. Foi então que apareceu o grande herói Teseu disposto a matar a besta. Ariadne, filha do rei Minos, ao ver Teseu com toda aquela desenvoltura e o nome estranho comuns aos políticos, achou que o rapaz tinha alguma influência e afeiçoou-se a ele, dando-lhe um novelo de lã mágico e uma espada. Na verdade a espada é que era mágica e o novelo de lã era, bem... um belo novelo.
No labirinto adentrou Teseu
e o Minotauro se fudeu.
Percebe-se com essa história como era culto o povo grego, pois já àquela época conheciam a narrativa de João e Maria e, desta forma, evitavam o rastro de migalhas de pão. Piadas infames à parte, essa história demonstrava aos jovens gregos o que poderia acontecer se se opusessem às vontades dos deuses. Uma forma de intimidação moral recorrente nas diversas religiões deste e de outros mundos. Ou seja, se desobedeceres aos deuses, tua mulher trair-te-á com um bicho, e ainda terás que alimentar o rebento.
A ironia - sempre aparece ela nessas histórias - do destino é que apesar da mulher ter traído o monarca com um touro, o corno mesmo foi o rei Minos. (Hein hein?)
(Segundo o Aurélio, ledo significa "risonho, alegre". Já meu amigo Michaelis acrescenta também os adjetivos "contente, jubiloso")
Alegre engano.
Furioso, Poseidon fez com que a esposa do rei, Pasífae (!), se apaixonasse então pelo touro branco e desta feliz união nasceu o famigerado Minotauro, com cabeça e rabo de boi e corpo humano.
O malvado rei Minos ainda exigia que todo ano sete moças e sete rapazes fossem entregues a seu bastardo para saciar sua fome e vontade de comer. Foi então que apareceu o grande herói Teseu disposto a matar a besta. Ariadne, filha do rei Minos, ao ver Teseu com toda aquela desenvoltura e o nome estranho comuns aos políticos, achou que o rapaz tinha alguma influência e afeiçoou-se a ele, dando-lhe um novelo de lã mágico e uma espada. Na verdade a espada é que era mágica e o novelo de lã era, bem... um belo novelo.
No labirinto adentrou Teseu
e o Minotauro se fudeu.
Percebe-se com essa história como era culto o povo grego, pois já àquela época conheciam a narrativa de João e Maria e, desta forma, evitavam o rastro de migalhas de pão. Piadas infames à parte, essa história demonstrava aos jovens gregos o que poderia acontecer se se opusessem às vontades dos deuses. Uma forma de intimidação moral recorrente nas diversas religiões deste e de outros mundos. Ou seja, se desobedeceres aos deuses, tua mulher trair-te-á com um bicho, e ainda terás que alimentar o rebento.
A ironia - sempre aparece ela nessas histórias - do destino é que apesar da mulher ter traído o monarca com um touro, o corno mesmo foi o rei Minos. (Hein hein?)
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domingo, 28 de outubro de 2007
Vem aí a série: Teorias Inócuas
Hoje não estou muito bem, estomacalmente falando, mas adianto que está em desenvolvimento pela minha pessoa uma teoria que tem o nome provisório de O princípio da índole, que trata, obviamente, da índole das pessoas. É uma conjectura besta mas tentarei provar com argumentos (facilmente) refutáveis que essa viagem doida aí é verdadeira, tá ligado?, e o barato é legal.
Porque casou com a barata.
Aguardem.
Porque casou com a barata.
Aguardem.
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007
The empty afternoon
Daydreaming in the afternoon (or 'on the'?). Do not know. Just spending my little time before some job, more job. Don´t know why they always want me there. Wanderer, bum (is it right?), that´s me. Do not like it, but need it. And they seem to love me each day more and more...
Uninteligible. But that's life, without logic or any kind of sense. My friend Jack K. was living alone on the highest tops of american mountains just to meditate, to think. He had no much needs. Was used to live with almost no money.
(I forgot when I am supposed to use 'on the' and 'in the'. Forgive my errors, if you find them).
And that's me, alone in the cyber cafe, with one cute girl on my side who doesn't even look to her side. She is very busy on her orkut stuff. On the other side there are plenty of crazy children playing their fucking games. I´m not interested in games anymore.
The trees fell to the ground on yesterday's storm. I was asleep almost all the day. 'worst hangover that I ever had', would say my friend Mark Knopfler, but it wasn't the worst. I've had worst before. Now I just get a little bit tired. You know, I´m not that young anymore.
On the 12th october, the trees fell down in Maringá, and I was there too. Soon they'll be calling me to go to brazilian northeastern regions to give them a little water.
I´m just writing with no reason, no story came to my head, but I feel a little melancholic (?) today. Maybe 'cause it's monday. In fact, I don't even know why am I writing all this bullshit in english. Maybe to convince myself that my english is getting worse everyday. But, besides all this, I won't study english, at least not for now. Need to put my italian on the trails. If my english is terrible, you can imagine my spanish and my italian. Even my fucking portuguese is bad. Bad to bone.
As always, I know that nobody is gonna read this text. First because it's in english. Second because it's too damn motherfucking big. People are lazy. I am a living proof of that, because it's hard to know someone lazier than me. But at least I'm not lazy on reading. Commonly, but sometimes...
Agora I gotta go. On the morrow I'll be drinking some beer with my friends on Madalena's bar. If you want, you can go.
"As long as I'm paying the bills, I'm paying the cost to be the boss."
Uninteligible. But that's life, without logic or any kind of sense. My friend Jack K. was living alone on the highest tops of american mountains just to meditate, to think. He had no much needs. Was used to live with almost no money.
(I forgot when I am supposed to use 'on the' and 'in the'. Forgive my errors, if you find them).
And that's me, alone in the cyber cafe, with one cute girl on my side who doesn't even look to her side. She is very busy on her orkut stuff. On the other side there are plenty of crazy children playing their fucking games. I´m not interested in games anymore.
The trees fell to the ground on yesterday's storm. I was asleep almost all the day. 'worst hangover that I ever had', would say my friend Mark Knopfler, but it wasn't the worst. I've had worst before. Now I just get a little bit tired. You know, I´m not that young anymore.
On the 12th october, the trees fell down in Maringá, and I was there too. Soon they'll be calling me to go to brazilian northeastern regions to give them a little water.
I´m just writing with no reason, no story came to my head, but I feel a little melancholic (?) today. Maybe 'cause it's monday. In fact, I don't even know why am I writing all this bullshit in english. Maybe to convince myself that my english is getting worse everyday. But, besides all this, I won't study english, at least not for now. Need to put my italian on the trails. If my english is terrible, you can imagine my spanish and my italian. Even my fucking portuguese is bad. Bad to bone.
As always, I know that nobody is gonna read this text. First because it's in english. Second because it's too damn motherfucking big. People are lazy. I am a living proof of that, because it's hard to know someone lazier than me. But at least I'm not lazy on reading. Commonly, but sometimes...
Agora I gotta go. On the morrow I'll be drinking some beer with my friends on Madalena's bar. If you want, you can go.
"As long as I'm paying the bills, I'm paying the cost to be the boss."
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domingo, 21 de outubro de 2007
Do trato com a vida
Uno a embarcação
ao porto
e canto a convulsão
de um ser extinto.
Amo o sangue
que me crucia e doma,
com seu ferro.
Não espero
dos deuses,
pois engendro
o deus que me transfere
a solidão de ser
meu próprio invento.
Sou poeta,
formo o ciclo do tempo,
onde me enterro.
II
E vós quem sois? Vós que mostrais o orgulho
de monarcas sentados em seu trono e a ambição
de um jorro que se extingue. Quem sois?
Nada transpõe vossa usura,
nada transpõe a vaidade
das gazelas, com rosto de cavalo.
Vós que desprezais
do canto, a mina;
do tear da vida, a linha,
quem sois?
III
Se mostrardes
ao porto
e canto a convulsão
de um ser extinto.
Amo o sangue
que me crucia e doma,
com seu ferro.
Não espero
dos deuses,
pois engendro
o deus que me transfere
a solidão de ser
meu próprio invento.
Sou poeta,
formo o ciclo do tempo,
onde me enterro.
II
E vós quem sois? Vós que mostrais o orgulho
de monarcas sentados em seu trono e a ambição
de um jorro que se extingue. Quem sois?
Nada transpõe vossa usura,
nada transpõe a vaidade
das gazelas, com rosto de cavalo.
Vós que desprezais
do canto, a mina;
do tear da vida, a linha,
quem sois?
III
Se mostrardes
a erosão do dia
nas carroças,
concordarei com o sangue.
Se mostrardes
o término do jugo e sua máquina,
calada e represada,
concordarei com o sangue.
Não.
Não pactuo.
Não pactuo com o numerário das serpentes,
tentando violar a talha da nascente.
Não pactuo
com as garras
e o estômago encurvado
deste animal em desuso.
Não pactuo
com a turbulência fátua
da morte e o senhorio
que nos arrasta.
Entre areias sepultas,
estreitado na erva,
odiai-me fundamente.
Não pactuo.
Brotando das idades,
arbusto,
levedado no mundo,
odiai-me.
Sou vosso vômito profundo.
(C. Nejar)
nas carroças,
concordarei com o sangue.
Se mostrardes
o término do jugo e sua máquina,
calada e represada,
concordarei com o sangue.
Não.
Não pactuo.
Não pactuo com o numerário das serpentes,
tentando violar a talha da nascente.
Não pactuo
com as garras
e o estômago encurvado
deste animal em desuso.
Não pactuo
com a turbulência fátua
da morte e o senhorio
que nos arrasta.
Entre areias sepultas,
estreitado na erva,
odiai-me fundamente.
Não pactuo.
Brotando das idades,
arbusto,
levedado no mundo,
odiai-me.
Sou vosso vômito profundo.
(C. Nejar)
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sábado, 20 de outubro de 2007
Waking Life
Eu me via no espelho e me achava tão normal. Aquele rosto desconhecido era comum, prosaico, vulgar. Não bastasse ter de reconhecer-me diariamente, ver-me ali, em frente a mim, com os olhos curiosos, tentando achar alguma coisa que me diga que sou eu este ali, ó, outrossim era preciso esconder-me para não ser tão facilmente reconhecido.
O alvorecer era um desafio diário. A batalha iniciava-se nos sonhos pitorescos e lúcidos, cruéis e ardis armadilhas. Os incautos ali fenecem fácil e rapidamente. Tendo apenas a matéria viva do sonho como limite ou escafandro, sucumbir ante o próprio abismo é de tal maneira tão simplório - e ao mesmo tempo, exatamente por causa dessa simplicidade, tão confuso - que perder o controle da própria imaginação, o que poderia de certa forma criar-nos mundos fabulosos, nos torna vítimas supérstites do engodo pessoal de cada um.
Não falo aqui como autoridade, mas um mero curioso que vez ou outra viaja pelas dimensões maravilhosas dos sonhos. Nessas incursões, deparei várias vezes com vontades próprias não personificadas num corpo, mas etéreas, muito embora pudessem ser tocadas. Hostis quase todas. Deste contato não havia diálogos. A comunicação era sensorial e incrivelmente era-se possível saber, apenas pelo tato, se as vontades me viam como um intruso ou um visitante, e daí sentia em mim mesmo, no sonho, como reagiam, como se conversassem sem sons, sem gestos, sem nada.
As possibilidades se multiplicam e o curso da história e seu discurso se enveredam por outros caminhos nunca dantes atalhados. O atalho sempre nos leva antes ao fim do caminho. A dúvida que no ar paira é que ninguém sabe ao certo se chegar antes ao fim é um bom negócio.
"- Super perfundo no amanhecer antecipado do seu dia.
- O que significa isso?
- Nunca consegui entender. Talvez você consiga."
O alvorecer era um desafio diário. A batalha iniciava-se nos sonhos pitorescos e lúcidos, cruéis e ardis armadilhas. Os incautos ali fenecem fácil e rapidamente. Tendo apenas a matéria viva do sonho como limite ou escafandro, sucumbir ante o próprio abismo é de tal maneira tão simplório - e ao mesmo tempo, exatamente por causa dessa simplicidade, tão confuso - que perder o controle da própria imaginação, o que poderia de certa forma criar-nos mundos fabulosos, nos torna vítimas supérstites do engodo pessoal de cada um.
Não falo aqui como autoridade, mas um mero curioso que vez ou outra viaja pelas dimensões maravilhosas dos sonhos. Nessas incursões, deparei várias vezes com vontades próprias não personificadas num corpo, mas etéreas, muito embora pudessem ser tocadas. Hostis quase todas. Deste contato não havia diálogos. A comunicação era sensorial e incrivelmente era-se possível saber, apenas pelo tato, se as vontades me viam como um intruso ou um visitante, e daí sentia em mim mesmo, no sonho, como reagiam, como se conversassem sem sons, sem gestos, sem nada.
As possibilidades se multiplicam e o curso da história e seu discurso se enveredam por outros caminhos nunca dantes atalhados. O atalho sempre nos leva antes ao fim do caminho. A dúvida que no ar paira é que ninguém sabe ao certo se chegar antes ao fim é um bom negócio.
"- Super perfundo no amanhecer antecipado do seu dia.
- O que significa isso?
- Nunca consegui entender. Talvez você consiga."
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sonhos lúcidos
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
O escritor e seus fantasmas*
Hoje achei uma frase que sabe lá de onde tirei mas anotei entre aspas, o que significa que não é minha. Apesar de todo esse cuidado, sabe lá por que razões alheias, não tive o cuidado de anotar o nome do autor. Um pequeno lápis de minha parte.
A frase é bonita, profunda e inspira um senso de responsabilidade incomum. Poética e bem desenvolvida, traz ao leitor (a mim ao menos) a imagem de um escritor já com seus cabelos grisalhos, sério, marcado por rugas de expressão na testa. Ei-la:
"I write because something inside myself, inner and unconscious forces me to. That is the first compulsion. The second is one of ethical and moral duty. I feel responsible to tell stories that inspire readers to consider more deeply who they are."
Por razões que desconheço, não traduzi a frase, o que deixo para cada um de vocês, meus dois leitores.
Há vários motivos que levam uma pessoa a escrever. A falta do que fazer. O excesso de coisas a fazer. Um amigo chamado diário. Um pretenso talento literário. Eu até citaria alguns autores famosos dizendo porque eles escrevem, mas justamente agora me deu um branco (branco: um tema para um futuro post) e preguiça de buscar em meus arquivos. Se lembrar, depois os coloco aqui.
Não poderia deixar de finalizar esse pequeno texto inócuo sem as minhas razões, o que me faz e leva a escrever tanto e tão mal. É fácil.
Escrevo porque é líquido.
________________________________________
* Bela obra de meu amigo Ernesto Sábato.
A frase é bonita, profunda e inspira um senso de responsabilidade incomum. Poética e bem desenvolvida, traz ao leitor (a mim ao menos) a imagem de um escritor já com seus cabelos grisalhos, sério, marcado por rugas de expressão na testa. Ei-la:
"I write because something inside myself, inner and unconscious forces me to. That is the first compulsion. The second is one of ethical and moral duty. I feel responsible to tell stories that inspire readers to consider more deeply who they are."
Por razões que desconheço, não traduzi a frase, o que deixo para cada um de vocês, meus dois leitores.
Há vários motivos que levam uma pessoa a escrever. A falta do que fazer. O excesso de coisas a fazer. Um amigo chamado diário. Um pretenso talento literário. Eu até citaria alguns autores famosos dizendo porque eles escrevem, mas justamente agora me deu um branco (branco: um tema para um futuro post) e preguiça de buscar em meus arquivos. Se lembrar, depois os coloco aqui.
Não poderia deixar de finalizar esse pequeno texto inócuo sem as minhas razões, o que me faz e leva a escrever tanto e tão mal. É fácil.
Escrevo porque é líquido.
________________________________________
* Bela obra de meu amigo Ernesto Sábato.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007
O Cadáver
Dormia inerte em seu jazigo. Morto sim, mas dormia, pois vivo estava. Sentia-se solitário a despeito da companhia dos vermes. Desprezava os vermes, execrava-os. Ainda assim, eram seus únicos e grandes companheiros
O cadáver putrefato deleitava-se em seu sono. Sua pulcritude exalava odores exóticos, perfumes que atraíam borboletas mil, insetos dois mil e micróbios três mil e quinhentos. O corpo jogado perecia com o tempo. Cria na exumação eterna da alma, na mumificação das virtudes e na cremação dos pecados e arrependimentos. A violação dos túmulos dos desejos era uma heresia castigada com a morte. O cadáver tinha princípios claros seguidos à risca.
O velório do cadáver não teve defunto. Sua cova vazia permanece. A nota de falecimento no jornal, contudo, existiu, e embrulhou peixes na feira no dia seguinte. Foi também usada para forrar o chão de carros recém-lavados, para servir de base a excrementos caninos em apartamentos, para atear fogo a churrasqueiras cujos pedaços de carne salgada em cada grelha era como a carne do cadáver sendo cauterizada em fogo brando, as feridas com sal, a dor insuportável, o urro dilacerante aturdindo os vermes.
A necrópsia no cadáver não foi feita. Seus parentes não o procuram. Seus pertences a Deus pertencem. O leito de morte é exíguo. O candelabro que ilumina o sono do cadáver permanece com apenas uma vela acesa e as sombras que dali derivam dançam languidamente sobre sua cama.
D. Aristéia usa seus poderes sobrenaturais para acordar o morto. A necromancia é o pesadelo do cadáver. Por mais abjeto que seja e por mais ojeriza que tenha dessa prática, dela não foge, pois há forças maiores no mundo que sobrepõem-se às nossas vontades e a luta contrária sempre é vã. D. Aristéia chama-o, e pairando por sobre a mesa, o ódio contraindo-lhe as faces, o cadáver aparece e seu desejo mais profundo é vê-la morta no mesmo instante.
Há séculos D. Aristéia vive em uma velha casa de madeira, onde invoca os mortos para bater um papo. As únicas almas com quem conversa. Seu epílogo foi escrito em sua lápide, que encabeça mais um túmulo vazio. Os fantasmas que assomam desbotados sobre a mesa de invocação a odeiam com todas as forças sobrenaturais que existem. Os vermes a dominam. Ao contrário do cadáver, ela fede. Ao contrário do cadáver, a pulcritude nela inexiste. Ao contrário do cadáver, D. Aristéia está morta.
O cadáver putrefato deleitava-se em seu sono. Sua pulcritude exalava odores exóticos, perfumes que atraíam borboletas mil, insetos dois mil e micróbios três mil e quinhentos. O corpo jogado perecia com o tempo. Cria na exumação eterna da alma, na mumificação das virtudes e na cremação dos pecados e arrependimentos. A violação dos túmulos dos desejos era uma heresia castigada com a morte. O cadáver tinha princípios claros seguidos à risca.
O velório do cadáver não teve defunto. Sua cova vazia permanece. A nota de falecimento no jornal, contudo, existiu, e embrulhou peixes na feira no dia seguinte. Foi também usada para forrar o chão de carros recém-lavados, para servir de base a excrementos caninos em apartamentos, para atear fogo a churrasqueiras cujos pedaços de carne salgada em cada grelha era como a carne do cadáver sendo cauterizada em fogo brando, as feridas com sal, a dor insuportável, o urro dilacerante aturdindo os vermes.
A necrópsia no cadáver não foi feita. Seus parentes não o procuram. Seus pertences a Deus pertencem. O leito de morte é exíguo. O candelabro que ilumina o sono do cadáver permanece com apenas uma vela acesa e as sombras que dali derivam dançam languidamente sobre sua cama.
D. Aristéia usa seus poderes sobrenaturais para acordar o morto. A necromancia é o pesadelo do cadáver. Por mais abjeto que seja e por mais ojeriza que tenha dessa prática, dela não foge, pois há forças maiores no mundo que sobrepõem-se às nossas vontades e a luta contrária sempre é vã. D. Aristéia chama-o, e pairando por sobre a mesa, o ódio contraindo-lhe as faces, o cadáver aparece e seu desejo mais profundo é vê-la morta no mesmo instante.
Há séculos D. Aristéia vive em uma velha casa de madeira, onde invoca os mortos para bater um papo. As únicas almas com quem conversa. Seu epílogo foi escrito em sua lápide, que encabeça mais um túmulo vazio. Os fantasmas que assomam desbotados sobre a mesa de invocação a odeiam com todas as forças sobrenaturais que existem. Os vermes a dominam. Ao contrário do cadáver, ela fede. Ao contrário do cadáver, a pulcritude nela inexiste. Ao contrário do cadáver, D. Aristéia está morta.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
O Túnel
um ser roto
um serrote
vai moldando a letra
por conveniência própria
Um Túnel de Vento
no Tempo da Vida
Um Túnel de Vida
no Vento do Tempo
Um Túnel do Tempo
na Vida do Vento
E regressar ao início é nada menos que ventar uma lembrança
e vivê-la como pensamento
e cheirá-la como pudim de vento
no túnel do tempo da vida
inútil
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Sobre coelhos e cajados
Nada que suponho conhecer parece-me verdade. O diálogo:
Hot guns and cold cold night
O diálogo. Sobretudo agora, quando Débora ao longe, em minhas memórias, acenou-me sua tristeza. Débora foi a primeira pessoa a quem amei realmente. Sempre tento colocá-la em meus contos, mas nunca parece natural o suficiente o nome Débora. Talvez porque a história não esteja sendo contada de maneira natural, talvez isso. O diálogo:
“Bom dia.”
Sempre fico em dúvida de como começar um diálogo, se com aspas ou travessão. Saramago inovou, seus diálogos separam-se por vírgulas, num mesmo parágrafo:
A manhã estava clara quando Joaquim disse, Bons dias Maria, no que ela lhe respondeu, Bons dias, Manoel.
Rubem Fonseca não usa exclamação em suas frases. Nunca. Mesmo as mais desesperadas, aos berros, não possuem o alarmante “!”. Concordo com ele. Voltemos ao diálogo:
Lilith, pelos campos verdejantes, saltitava e cantarolava sua música preferida, chacoalhando a longa cabeleira negra, assoviando, agitando os braços. “Six six six, the number of the beast”. Nada mais puro que um heavy metal.
Kerouac carregava seus livros com adjetivos mil, um atrás do outro, sem muita ordem. Há uma linearidade, contudo, que prende o leitor, pois seguimos os caminhos do pensamento, sem esbarrarmos em formalidades demasiadas. Talvez uma forma de entrarmos na cabeça do autor. A pontuação formal, se considerarmos sob certo viés “conservador” - não arrumei melhor adjetivo - molda o leitor à história. Ou talvez eu esteja divagando. Engraçado eu ter falado em diálogo, muito embora, até agora, necas de pitibiribas. Minto. Olhá lá ele:
- Te conheço de algum lugar, garota.
- Não sei donde possa conhecer-me. Eu não existo.
Primeiro clichê: surpreender o leitor no início do diálogo. Logo de cara ele percebe que se passa algo unnatural, não existe. A partir daí começa a supor teorias, será um fantasma, a consciência, ou, como em Ítalo Calvino, simplesmente alguém que não existe mas, ainda assim, convive naturalmente com as outras pessoas. Cabe ao autor manter a emoção dessa novidade até o final, criando sempre, e cada vez mais, situações inusitadas. Primeiro, por si só, criará empatia com o leitor, afinal, quem não gosta de dar risadas? Segundo, situações desconexas não necessitam ter tanta semelhança com a realidade, permite mais liberdade. Mais fácil para o autor e entretém o leitor. Dois Paulos Coelhos numa cajadada só. Enfim:
- ... Eu não existo.
- Sei, conta outra.
- Assim como é difícil você acreditar, é difícil para eu provar. Não posso manifestar-me, não posso mover objetos. Sabe lá como, de alguma forma, ainda consigo manter um diálogo, mas isso, como você mesmo objetou, não é prova suficiente.
Nessa hora, Saramago interviria na narração para supor que o leitor está duvidando da veracidade da trama, procurando erros formais e lógicos, mesmo num texto ilógico, e justificando-os. Borges, ao contrário, no conto em que ele se encontra consigo mesmo, põe em dúvida a veracidade da história através do diálogo dos dois Borges de maneira tal que, no final, sabe lá como, ficamos ainda em dúvida se não haveria acontecido o tal encontro. É um tipo de descrição e de diálogo incrivelmente natural. O mesmo acontece com García Márquez, porém de uma forma mais bucólica.
Outro dia continuo essa brincadeira de análise literária.
Hot guns and cold cold night
O diálogo. Sobretudo agora, quando Débora ao longe, em minhas memórias, acenou-me sua tristeza. Débora foi a primeira pessoa a quem amei realmente. Sempre tento colocá-la em meus contos, mas nunca parece natural o suficiente o nome Débora. Talvez porque a história não esteja sendo contada de maneira natural, talvez isso. O diálogo:
“Bom dia.”
Sempre fico em dúvida de como começar um diálogo, se com aspas ou travessão. Saramago inovou, seus diálogos separam-se por vírgulas, num mesmo parágrafo:
A manhã estava clara quando Joaquim disse, Bons dias Maria, no que ela lhe respondeu, Bons dias, Manoel.
Rubem Fonseca não usa exclamação em suas frases. Nunca. Mesmo as mais desesperadas, aos berros, não possuem o alarmante “!”. Concordo com ele. Voltemos ao diálogo:
Lilith, pelos campos verdejantes, saltitava e cantarolava sua música preferida, chacoalhando a longa cabeleira negra, assoviando, agitando os braços. “Six six six, the number of the beast”. Nada mais puro que um heavy metal.
Kerouac carregava seus livros com adjetivos mil, um atrás do outro, sem muita ordem. Há uma linearidade, contudo, que prende o leitor, pois seguimos os caminhos do pensamento, sem esbarrarmos em formalidades demasiadas. Talvez uma forma de entrarmos na cabeça do autor. A pontuação formal, se considerarmos sob certo viés “conservador” - não arrumei melhor adjetivo - molda o leitor à história. Ou talvez eu esteja divagando. Engraçado eu ter falado em diálogo, muito embora, até agora, necas de pitibiribas. Minto. Olhá lá ele:
- Te conheço de algum lugar, garota.
- Não sei donde possa conhecer-me. Eu não existo.
Primeiro clichê: surpreender o leitor no início do diálogo. Logo de cara ele percebe que se passa algo unnatural, não existe. A partir daí começa a supor teorias, será um fantasma, a consciência, ou, como em Ítalo Calvino, simplesmente alguém que não existe mas, ainda assim, convive naturalmente com as outras pessoas. Cabe ao autor manter a emoção dessa novidade até o final, criando sempre, e cada vez mais, situações inusitadas. Primeiro, por si só, criará empatia com o leitor, afinal, quem não gosta de dar risadas? Segundo, situações desconexas não necessitam ter tanta semelhança com a realidade, permite mais liberdade. Mais fácil para o autor e entretém o leitor. Dois Paulos Coelhos numa cajadada só. Enfim:
- ... Eu não existo.
- Sei, conta outra.
- Assim como é difícil você acreditar, é difícil para eu provar. Não posso manifestar-me, não posso mover objetos. Sabe lá como, de alguma forma, ainda consigo manter um diálogo, mas isso, como você mesmo objetou, não é prova suficiente.
Nessa hora, Saramago interviria na narração para supor que o leitor está duvidando da veracidade da trama, procurando erros formais e lógicos, mesmo num texto ilógico, e justificando-os. Borges, ao contrário, no conto em que ele se encontra consigo mesmo, põe em dúvida a veracidade da história através do diálogo dos dois Borges de maneira tal que, no final, sabe lá como, ficamos ainda em dúvida se não haveria acontecido o tal encontro. É um tipo de descrição e de diálogo incrivelmente natural. O mesmo acontece com García Márquez, porém de uma forma mais bucólica.
Outro dia continuo essa brincadeira de análise literária.
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sábado, 1 de setembro de 2007
A década Bukowski
Saúdo Charles Bukowski. Porque é a vida sem frescuras que imaginamos ter. Porque é ser seco com outros, sem se importar, como gostaríamos de fazer. Porque o desprezo exercitado continuamente nos traz um ceticismo incomparável. Porque o ceticismo é uma virtude que nos vale por toda a vida, um aprendizado contínuo da natureza humana, um perceber de detalhes indescritível.
Saúdo Bukowski. Como também o faço a John Fante, que mostra as fraquezas tragicômicas da juventude, e o ridículo nosso de cada dia é também uma aula que não se pode desperdiçar. A raiva de nosso ridículo é um motor impulsionando nossas vidas. Para mais situações ridículas, mas ainda assim um motor.
Saúdo Mr. Salinger, o recluso. Saúdo Pedro Juan, o Gutiérrez. O grotesco, o cru, o inenarrável, o deplorável: detestável e excitante, estímulo e ojeriza, tentação e nojo, paixão, ódio e desprezo. Asco.
Saúdo Rubem Fonseca, o mestre.
Saúdo enfim todos os anjos e demônios que me acompanham nessa década. Por que haverá um fim (sempre há de ter) para toda obra literária. Há data e hora, mas ainda não há local.
No dia 22 de abril de 2014 às 23h59 encerra-se a década e a ressaca contínua, e saudarei a meus mestres com muita gratidão. A partir daí, vida nova. Seja lá o que isso quer dizer.
Saúdo Bukowski. Como também o faço a John Fante, que mostra as fraquezas tragicômicas da juventude, e o ridículo nosso de cada dia é também uma aula que não se pode desperdiçar. A raiva de nosso ridículo é um motor impulsionando nossas vidas. Para mais situações ridículas, mas ainda assim um motor.
Saúdo Mr. Salinger, o recluso. Saúdo Pedro Juan, o Gutiérrez. O grotesco, o cru, o inenarrável, o deplorável: detestável e excitante, estímulo e ojeriza, tentação e nojo, paixão, ódio e desprezo. Asco.
Saúdo Rubem Fonseca, o mestre.
Saúdo enfim todos os anjos e demônios que me acompanham nessa década. Por que haverá um fim (sempre há de ter) para toda obra literária. Há data e hora, mas ainda não há local.
No dia 22 de abril de 2014 às 23h59 encerra-se a década e a ressaca contínua, e saudarei a meus mestres com muita gratidão. A partir daí, vida nova. Seja lá o que isso quer dizer.
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sexta-feira, 31 de agosto de 2007
This one is for the Chaffics...
PESADELOS DO SENSO COMUM
Tenho tido sonhos teratológicos
Arquétipos modelares
invadiram meu inconsciente
provocando um ruptura epistemológica
e implantando modelos sistêmicos
...behavioristas...
Perdi meu pensamento complexo
e caí no senso comum
Vi xamãs aculturados, rituais tétricos
...ágrafos...
Modelos cibernéticos,
aristotélicos,
teoremas imagéticos
Minha válvula redutora
perdeu o juízo
Ouço achismos,
hibridismos eruditos
...diferentes...
Lapsos de português,
símbolos repelentes,
pesquisas e pesquisas
incutidas
no inconsciente coletivo
da sociedade capitalista
...o mal...
Hippies e comunistas frustrados
(em meus pesadelos imagéticos)
matam-me de agonia e,
acabado,
e sem um repertório científico eficiente
Apago a luz do fim do túnel
...pararelo...
Enquanto palhaços e palhaças
rebolam seus esqueléticos
e frenéticos corpanzis
na boca da garrafa
de Santo Daime
Tenho tido sonhos teratológicos
Arquétipos modelares
invadiram meu inconsciente
provocando um ruptura epistemológica
e implantando modelos sistêmicos
...behavioristas...
Perdi meu pensamento complexo
e caí no senso comum
Vi xamãs aculturados, rituais tétricos
...ágrafos...
Modelos cibernéticos,
aristotélicos,
teoremas imagéticos
Minha válvula redutora
perdeu o juízo
Ouço achismos,
hibridismos eruditos
...diferentes...
Lapsos de português,
símbolos repelentes,
pesquisas e pesquisas
incutidas
no inconsciente coletivo
da sociedade capitalista
...o mal...
Hippies e comunistas frustrados
(em meus pesadelos imagéticos)
matam-me de agonia e,
acabado,
e sem um repertório científico eficiente
Apago a luz do fim do túnel
...pararelo...
Enquanto palhaços e palhaças
rebolam seus esqueléticos
e frenéticos corpanzis
na boca da garrafa
de Santo Daime
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domingo, 12 de agosto de 2007
Poemeu
É dedar medo
Ceguir os segos
Cor taras pontes
Hávida é ex cura
E há guamole
Em pé dradura
(Entendeu agora?)
Millôr Fernandes
Ceguir os segos
Cor taras pontes
Hávida é ex cura
E há guamole
Em pé dradura
(Entendeu agora?)
Millôr Fernandes
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terça-feira, 7 de agosto de 2007
Assassino confesso
Foi hoje. Morreram no mínimo 5 de um grupo. Do outro não pude ter certeza, estavam distantes. Mas, ao menos, consegui afugentá-los do local. E não há remorso.
Não foi por legítima defesa, muito embora a qualquer momento um deles poderia vir em minha direção e me atacar, mas não atacou até a hora de sua morte, amém. Teria sido um parcela de sadismo de minha personalidade? É possível. Ver a agonia na hora da morte é um tanto prazeroso, não posso negar.
O fato é que de tempos em tempos ressurge essa vontade, esse ímpeto assassino e não tenho forças para controlar. Primeiro fecho todas as janelas, pra não escaparem. Depois pego uma vassoura e, silenciosamente, avanço rumo à aglomeração. Muito embora o desejo de assistir à agonia seja extremamente forte, na maioria das vezes saio em desabalada carreira, como se testemunhas houvessem por perto para me incriminar, e me escondo dentro de casa, como se uma multidão clamando por meu linchamento desta forma pudesse ser contida.
Silenciosamente, em meu templo secreto no qual meu quarto se transforma, brindo comigo mesmo e regozijo-me intensamente com um sorriso escancarado na face, comemorando mais uma chacina de marimbondos prestes a criar uma colméia ameaçadora em minha casa.
Não foi por legítima defesa, muito embora a qualquer momento um deles poderia vir em minha direção e me atacar, mas não atacou até a hora de sua morte, amém. Teria sido um parcela de sadismo de minha personalidade? É possível. Ver a agonia na hora da morte é um tanto prazeroso, não posso negar.
O fato é que de tempos em tempos ressurge essa vontade, esse ímpeto assassino e não tenho forças para controlar. Primeiro fecho todas as janelas, pra não escaparem. Depois pego uma vassoura e, silenciosamente, avanço rumo à aglomeração. Muito embora o desejo de assistir à agonia seja extremamente forte, na maioria das vezes saio em desabalada carreira, como se testemunhas houvessem por perto para me incriminar, e me escondo dentro de casa, como se uma multidão clamando por meu linchamento desta forma pudesse ser contida.
Silenciosamente, em meu templo secreto no qual meu quarto se transforma, brindo comigo mesmo e regozijo-me intensamente com um sorriso escancarado na face, comemorando mais uma chacina de marimbondos prestes a criar uma colméia ameaçadora em minha casa.
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sexta-feira, 3 de agosto de 2007
Da inutilidade
"...muita coisa inútil na vida da gente serve como esse táxi: para nos transportar de um ponto útil a outro" - C. Lispector in "Aprendendo a viver"
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quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Um pouco de política, pra variar
"Sou um medroso para andar de avião. Cada vez que o avião fecha a porta eu entrego minha sorte a Deus" - Lula, na posse de Nelson Jobim
"...não será talvez demais imaginar que o avião que o presidente tinha em mente era o avião Brasil e que o comandante, tão sujeito a falhas que o melhor é confiar em Deus, não seria senão ele próprio" - Roberto Pompeu de Toledo em ensaio na Revista Veja
"...não será talvez demais imaginar que o avião que o presidente tinha em mente era o avião Brasil e que o comandante, tão sujeito a falhas que o melhor é confiar em Deus, não seria senão ele próprio" - Roberto Pompeu de Toledo em ensaio na Revista Veja
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