O tempo
passa
Time creeps
El tiempo pasa
y no vuelve jamás
Crescemos, envelhecemos,
vivemos,
e o tempo está sempre ali,
passando,
e nos vendo ficar.
O tempo, cruel,
corre.
Mas meu relógio
parou.
domingo, 21 de março de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
Minha aversão ao cinema no país das magavilhas
Já escrevi muitas vezes aqui sobre livros, literatura em geral, do que gosto e não gosto. Principalmente o que escrevo. Já escrevi - nem tanto assim - também sobre música. Mas creio que nunca me posicionei a respeito do cinema.
Ah, o cinema! Também conhecido como sétima arte - por algum motivo que a Wikipedia explicará a vocês - o cinema (neste âmbito, para mim, compreende filmes em geral, não apenas aqueles das telonas) me acompanhou durante toda a infância com a Sessão da tarde. Naquela época, como hoje, não tìnhamos video-cassete. Hoje, ao contrário daquela época, existe o DVD. Enfim...
Lembro de filmes que me marcaram, como Goonies, Curtindo a vida adoidado e Conta comigo. Já na adolescência, devidamente equipado com o famigerado vídeo-cassete, aluguei algumas vezes filmes na locadora. Mas aos poucos fui diminuindo o ritmo até o desapego total, sem nenhuma explicação lógica aparente.
Em Londrina devo ter ido no máximo umas 10 vezes ao cinema nos 13 anos em que ali morei. Mas sinceramente, são poucos os filmes que lembro com detalhes. Um deles é Seven, um dos raros bons que vi na sala fechada e escura.
Poucos dias atrás, depois de quase dois anos na Itália, resolvi encarar o cinema aqui. Psicologicamente eu já estava preparado pro maior choque, sabia que nos cinemas europeus em geral os filmes são dublados. A obra: Alice no país das maravilhas. Não é exatamente o que eu chamaria de uma história atrativa, até porque todo mundo sabe como começa e termina, mas com Tim Burton dirigindo, vabbe', ci provo. Imaginei que pelo menos alguma coisa interessante aquele doidao faria com o enredo, como já o fez com o primeiro Batman e também com aquele que não lembro o nome, cujo personagem é o Beetle Juice - ridiculamente traduzido em português como besouro suco, quando o correto seria Suco de besouro -, personagem muito bem encarnado pelo segundo melhor ator do mundo, Jack Nicholson (o primeiro é Bill Murray)[Correção: o ator era Michael Keaton, como a Wikipedia e a nobre leitora Karen me mostraram, mas ele, no fundo no fundo, imitava o Jack Nicholson].
Além disso, dentre as histórias ditas infantis, essa é a mais interessante, na minha molesta opinião. Um gato que vira fumaça, um chapeleiro maluco, fora as doideiras durante o conto, cresce Alice, diminui Alice, o coelho atrasado, a Rainha de Copas e seu exército de cartas. Literalmente, é do baralho!
Mas a grande novidade mesmo é que foi o primeiro filme em 3D da minha história nesse planeta.
E isso é doido. Desviei umas 3 ou 4 vezes a cabeça de algum estilhaço virtual durante o filme. Mas é aquela coisa: se o que chama a atençao é o visual, certamente faltará algo de interessante em algum outro lugar.
Resumindo: fraco, muito fraco. Diálogos bestas. Clichês. Enredo pífio. O cenário é legal e o 3D combinou bem. Mas o final me dá asco. E não sei se pagar quase o dobro de um filme normal só pra ver em 3D vale a pena. Provavelmente não.
Esclarecendo, não é que me orgulho dessa minha incultura cinematográfica. Sei que existem filme ótimos e que deveria vê-los com mais frequência (até hoje as pessoas ficam estarrecidas porque eu nunca vi nem Laranja mecânica nem Pulp fiction, entre outros clássicos), mas toda vez que me aventuro em um cinema, acabo por me decepcionar no final.
Protelo, desta forma, meu vício cinéfilo em estado embrionário. Um dia ele se desenvolverá. Se não for abortado antes.
E foi assim que, uma vez mais, o cinema me decepcionou, o que me deixará provavelmente alguns meses (anos, décadas?) longe da telona, baixando filmes que porventura me chamem a atenção de graça na internet, ou simplesmente vendo pela TV. Aqui na Itália pelo menos não faz tanta diferença. Dublado por dublado, prefiro dublado de graça.
Ah, o cinema! Também conhecido como sétima arte - por algum motivo que a Wikipedia explicará a vocês - o cinema (neste âmbito, para mim, compreende filmes em geral, não apenas aqueles das telonas) me acompanhou durante toda a infância com a Sessão da tarde. Naquela época, como hoje, não tìnhamos video-cassete. Hoje, ao contrário daquela época, existe o DVD. Enfim...
Lembro de filmes que me marcaram, como Goonies, Curtindo a vida adoidado e Conta comigo. Já na adolescência, devidamente equipado com o famigerado vídeo-cassete, aluguei algumas vezes filmes na locadora. Mas aos poucos fui diminuindo o ritmo até o desapego total, sem nenhuma explicação lógica aparente.
Em Londrina devo ter ido no máximo umas 10 vezes ao cinema nos 13 anos em que ali morei. Mas sinceramente, são poucos os filmes que lembro com detalhes. Um deles é Seven, um dos raros bons que vi na sala fechada e escura.
Poucos dias atrás, depois de quase dois anos na Itália, resolvi encarar o cinema aqui. Psicologicamente eu já estava preparado pro maior choque, sabia que nos cinemas europeus em geral os filmes são dublados. A obra: Alice no país das maravilhas. Não é exatamente o que eu chamaria de uma história atrativa, até porque todo mundo sabe como começa e termina, mas com Tim Burton dirigindo, vabbe', ci provo. Imaginei que pelo menos alguma coisa interessante aquele doidao faria com o enredo, como já o fez com o primeiro Batman e também com aquele que não lembro o nome, cujo personagem é o Beetle Juice - ridiculamente traduzido em português como besouro suco, quando o correto seria Suco de besouro -, personagem muito bem encarnado pelo segundo melhor ator do mundo, Jack Nicholson (o primeiro é Bill Murray)[Correção: o ator era Michael Keaton, como a Wikipedia e a nobre leitora Karen me mostraram, mas ele, no fundo no fundo, imitava o Jack Nicholson].
Além disso, dentre as histórias ditas infantis, essa é a mais interessante, na minha molesta opinião. Um gato que vira fumaça, um chapeleiro maluco, fora as doideiras durante o conto, cresce Alice, diminui Alice, o coelho atrasado, a Rainha de Copas e seu exército de cartas. Literalmente, é do baralho!
Mas a grande novidade mesmo é que foi o primeiro filme em 3D da minha história nesse planeta.
E isso é doido. Desviei umas 3 ou 4 vezes a cabeça de algum estilhaço virtual durante o filme. Mas é aquela coisa: se o que chama a atençao é o visual, certamente faltará algo de interessante em algum outro lugar.
Resumindo: fraco, muito fraco. Diálogos bestas. Clichês. Enredo pífio. O cenário é legal e o 3D combinou bem. Mas o final me dá asco. E não sei se pagar quase o dobro de um filme normal só pra ver em 3D vale a pena. Provavelmente não.
Esclarecendo, não é que me orgulho dessa minha incultura cinematográfica. Sei que existem filme ótimos e que deveria vê-los com mais frequência (até hoje as pessoas ficam estarrecidas porque eu nunca vi nem Laranja mecânica nem Pulp fiction, entre outros clássicos), mas toda vez que me aventuro em um cinema, acabo por me decepcionar no final.
Protelo, desta forma, meu vício cinéfilo em estado embrionário. Um dia ele se desenvolverá. Se não for abortado antes.
E foi assim que, uma vez mais, o cinema me decepcionou, o que me deixará provavelmente alguns meses (anos, décadas?) longe da telona, baixando filmes que porventura me chamem a atenção de graça na internet, ou simplesmente vendo pela TV. Aqui na Itália pelo menos não faz tanta diferença. Dublado por dublado, prefiro dublado de graça.
domingo, 7 de março de 2010
Abobrinha
Sinto um vazio por dentro
é a fome.
Como.
Mas continua o vazio
é a sede.
Bebo.
E ainda assim
o vazio permanece.
Padeço
Sinto um perfume
e da memória ressurgem
pedaços.
Vários pedaços.
E tudo
é um perfume.
but what's a perfume?
é a fome.
Como.
Mas continua o vazio
é a sede.
Bebo.
E ainda assim
o vazio permanece.
Padeço
Sinto um perfume
e da memória ressurgem
pedaços.
Vários pedaços.
E tudo
é um perfume.
but what's a perfume?
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Amelia Rosselli
"Mas se a morte vencia era a corrosão a me impedir de
revelar aos outros aquilo que faltava em mim. A ciência dos
números era a minha fortaleza, a ciência dos amores a
minha fraqueza. Eu não sou um Chinês! Não tenho poder! As
minhas condições são de naufragar! No naufrágio da
grande andorinha que sobrevoava acima da minha cabeça realmente
redonda estava o segredo da minha misantropia. Cantava histórias
e descia um degrau a cada passo em falso. Acima da minha
cabeça realmente redonda nascia o quadrado da certeza.
Se na cabeça realmente redonda nascia o retorno impossível
às antigas maneiras então na minha cabeça realmente redonda
caía o grão o sal de Deus, a última mina. Se na
redonda cabeça de Deus estava o incremento da jornada então
nas caretas dos jovens entrevia a bondade. Mas o
piche, o negro, o granizo, as fúrias, a revolta, a
canhonada, o país fora de si controlava cada movimento meu.
Antiga civilização descrita nos livros tu és a revolta que
não se deixou domar, tu és o mar que tinge de vermelho a
fúria dos ventos e leva à aurora uma canção."
Traduçao minha
revelar aos outros aquilo que faltava em mim. A ciência dos
números era a minha fortaleza, a ciência dos amores a
minha fraqueza. Eu não sou um Chinês! Não tenho poder! As
minhas condições são de naufragar! No naufrágio da
grande andorinha que sobrevoava acima da minha cabeça realmente
redonda estava o segredo da minha misantropia. Cantava histórias
e descia um degrau a cada passo em falso. Acima da minha
cabeça realmente redonda nascia o quadrado da certeza.
Se na cabeça realmente redonda nascia o retorno impossível
às antigas maneiras então na minha cabeça realmente redonda
caía o grão o sal de Deus, a última mina. Se na
redonda cabeça de Deus estava o incremento da jornada então
nas caretas dos jovens entrevia a bondade. Mas o
piche, o negro, o granizo, as fúrias, a revolta, a
canhonada, o país fora de si controlava cada movimento meu.
Antiga civilização descrita nos livros tu és a revolta que
não se deixou domar, tu és o mar que tinge de vermelho a
fúria dos ventos e leva à aurora uma canção."
Traduçao minha
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domingo, 21 de fevereiro de 2010
Mafia e outros causos
Um procurador anti-máfia, sua esposa, e uma escorta de 3 seguranças, que os acompanham dia e noite, onde quer que estejam. Tudo isto ambientado numa Itália do século XXI, liderada por políticos de direita. Lideranças essas que possuem um enriquecimento inexplicavelmente veloz e duvidoso, tentáculos em quase toda a mídia italiana e um império empresarial incomensurável. As mesmas lideranças já foram acusadas algumas vezes de ligação com a máfia e, quando necessário, mudam leis para favorecer a si mesmas.
Um procurador anti-máfia italiano não deve dormir muito bem. Deve pensar que a qualquer hora podem chegar mafiosos com metralhadoras à la Dick Tracy, ou, pior ainda, aniquilando silenciosamente todos sem que ninguém perceba. Onde está o Chuck Norris quando a gente precisa?
Aqui na bota ainda existem as famosas máfias da Camorra e Cosa Nostra, respectivamente em Napoli e na Sicilia, além de outras quase ignoradas no Brasil, como a 'ndrangheta da Calabria, tida como uma das mais fortes na atual época.
Imaginem um enredo assim. E quando se hospedam num hotel (um hotel qualquer), além do procurador, sua esposa e os 3 de escorta, a polícia local liga e faz rondas na vizinhança, pra saber se está tudo tranquilo. Imaginem então o que se passa na cabeça do recepcionista da noite, numa situação dessas.
Eu não precisei imaginar.
* * *
To lendo um livro muito interessante, de um tal de Echenoz (francês), e que se chama "Al pianoforte". Um outro dia falo mais dele. Mas o que me chama muito a atenção é a informalidade do narrador, que até tira uma em cima do leitor. Esse tipo de metalinguagem (seria isso uma metalinguagem? ou uma metaleitura?) sempre achei divertida e inteligente. É o típico livro que eu diria: até parece que fui eu quem escreveu.
Moléstia à parte...
Um procurador anti-máfia italiano não deve dormir muito bem. Deve pensar que a qualquer hora podem chegar mafiosos com metralhadoras à la Dick Tracy, ou, pior ainda, aniquilando silenciosamente todos sem que ninguém perceba. Onde está o Chuck Norris quando a gente precisa?
Aqui na bota ainda existem as famosas máfias da Camorra e Cosa Nostra, respectivamente em Napoli e na Sicilia, além de outras quase ignoradas no Brasil, como a 'ndrangheta da Calabria, tida como uma das mais fortes na atual época.
Imaginem um enredo assim. E quando se hospedam num hotel (um hotel qualquer), além do procurador, sua esposa e os 3 de escorta, a polícia local liga e faz rondas na vizinhança, pra saber se está tudo tranquilo. Imaginem então o que se passa na cabeça do recepcionista da noite, numa situação dessas.
Eu não precisei imaginar.
* * *
To lendo um livro muito interessante, de um tal de Echenoz (francês), e que se chama "Al pianoforte". Um outro dia falo mais dele. Mas o que me chama muito a atenção é a informalidade do narrador, que até tira uma em cima do leitor. Esse tipo de metalinguagem (seria isso uma metalinguagem? ou uma metaleitura?) sempre achei divertida e inteligente. É o típico livro que eu diria: até parece que fui eu quem escreveu.
Moléstia à parte...
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Poi zé, amigo...
"Não é preciso muito pra intuir como reagirá uma pessoa inteligente, que coisa fará em determinada circunstância, porque partimos do pressuposto que se deixa guiar pela lógica... Enquanto é impossível prever que coisa fará um imbecil"
Georges Simenon - A louca de Itteville
Georges Simenon - A louca de Itteville
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Bentornato, Zaratustra!
Depois de breve período de férias ensolaradas e quentes no Brasil, a Itália me saúda com seus 5°C e chuva.
De volta aos livros.
De volta aos livros.
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sábado, 23 de janeiro de 2010
"O dia passa devagar quando a gente tá com saudade de alguém"
Minhã irmãzinha, 8 anos, me surpreendendo (mais uma vez) por telefone, falando de um dia que ficou longe da mãe.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Constatações
Por mais que a gente tente ou nossa economia avance, ou mesmo se, subitamente, todos os nossos políticos começassem a ser honestos, não tem jeito, a Europa vai estar sempre à frente do Brasil. A não ser que mudem o fuso horário.
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Maddening sameness
Eu poderia ficar aqui por linhas e linhas traduzindo outros textos do mestrado; neste momento, aliás, eu deveria estar estudando teorias, lendo livros (e trechos deles), procurando palavras desconhecidas no dicionário como "skeezed", "swagman", "saddle-strap", passando para o computador as anotações que fiz na última aula; eu poderia discorrer nesse espaço como achei interessante a expressão "maddening sameness" de um conto não menos interessante do autor australiano Henry Lawson, e como essa expressão (que significa algo como monotonia enlouquecedora, mas com mais estilo) traduz em duas palavras um estado de espírito incrivelmente comum nessa nossa era incrivelmente atípica e transbordante de novidades e informações - e por causa disso, paradoxalmente, monótona; Eu poderia excrusive estar perdendo meu já escarso tempo no orkut, mas decidi falar de Jeanne.
Sim, Jeanne é seu nome. A conheci em março, logo que cheguei no hotel, e cruzo com ela todo dia de trabalho. Com esse nome, provavelmente nao é italiana. Não sei sua nacionalidade e creio que mesmo se eu perguntasse, não me responderia.
Jeanne tem feições finas, cabelo liso levemente ondulado e està sempre usando um coque. O olhar fixo é curioso, mas não menos cativante. Não esboça nunca um sorriso. Nunca ouvi sua voz. Mas está sempre ali, ao lado dos clientes que tomam o café da manhã, no primeiro andar deste velho hotel de Pisa.
Pensei em perguntar aos outros colegas sobre Jeanne, mas seria muita indiscrição da minha parte. Talvez nem mesmo eles saibam como ela veio parar ali no hotel. Na verdade, parece que todos estão abituados a sua presença, menos ela mesma. E eu.
Ontem decidi encará-la. Eu estava de pé em sua frente, olhando fixo nos seus olhos. Não esboçou reação. Perscrutei-a, insisti. Passei a mão em seu rosto, mas era frio, e essa frieza eu não esperava. Olhei ao redor e procurei seguir seu olhar, tentando identificar o que buscava com incansável insistência. E exatamente nessa direção fica uma das paredes da sala. Relutantemente, desisti.
Hoje vindo de novo ao trabalho, ali estava Jeanne. Desta vez eu que a ignorei. Quando às 3h da manhã fui fazer a ronda pelo hotel, passei ao lado do meu já velho conhecido e (posso dizer) grande amigo, busto de Dante. Depois de cumprimentá-lo como sempre fazemos (cito um verso aleatório da Divina Comédia, ele complementa e damos boas risadas, grande figura), percebi que meu amigo está posicionado exatamente atrás da parede que Jeanne insiste em mirar, com inesgotável ânsia. Jeanne, oh Jeanne, pequena e inocente criatura, todos esses meses (seriam, talvez, anos?) procuras simplesmente o contato com o "sumo poeta"? Saberás tu que ele percorreu o purgatório, os céus e o inferno em busca de sua amada Beatriz? Saberás tu que ele é oficialmente comprometido, ou seja, sem chance mulher!? Saberás tu?
Perguntei a Dante o que acontecia e ele, com aquela sua abitual carranca, respondeu que não gosta de tocar no assunto porque Beatriz é muito ciumenta. Mas ao pronunciar essas palavras, percebi um leve sorriso, como o da Gioconda, no canto da boca. "Ah, garanhão", eu disse em latim com uma leve cotovelada no seu ombro, e voltei pra recepção. "Esse Dante é uma comédia!" pensei rindo, enquanto descia as escadas.
Posso imaginar o que acontece a essas horas da madrugada lá em cima, quando o busto de Dante fica sozinho com o busto de Jeanne, sem o fantasma de Beatriz por perto. Curiosamente, no hall do hotel tem um outro busto de mulher, mas essa não tem nome. Também é bela, e seus olhos semi-cerrados fitam o chão, como se os desviasse por qualquer motivo. A cabeça volta-se levemente para seu ombro direito, como se uma forte desilusão a tivesse acometido. Como se, além da impossibilidade do movimento, sua tristeza perene tivesse origem na decepção e no amargo sabor que somente um ser humano tem ao descobrir-se traído por seu verdadeiro amor.
Eis que encontro Beatriz.
Sim, Jeanne é seu nome. A conheci em março, logo que cheguei no hotel, e cruzo com ela todo dia de trabalho. Com esse nome, provavelmente nao é italiana. Não sei sua nacionalidade e creio que mesmo se eu perguntasse, não me responderia.
Jeanne tem feições finas, cabelo liso levemente ondulado e està sempre usando um coque. O olhar fixo é curioso, mas não menos cativante. Não esboça nunca um sorriso. Nunca ouvi sua voz. Mas está sempre ali, ao lado dos clientes que tomam o café da manhã, no primeiro andar deste velho hotel de Pisa.
Pensei em perguntar aos outros colegas sobre Jeanne, mas seria muita indiscrição da minha parte. Talvez nem mesmo eles saibam como ela veio parar ali no hotel. Na verdade, parece que todos estão abituados a sua presença, menos ela mesma. E eu.
Ontem decidi encará-la. Eu estava de pé em sua frente, olhando fixo nos seus olhos. Não esboçou reação. Perscrutei-a, insisti. Passei a mão em seu rosto, mas era frio, e essa frieza eu não esperava. Olhei ao redor e procurei seguir seu olhar, tentando identificar o que buscava com incansável insistência. E exatamente nessa direção fica uma das paredes da sala. Relutantemente, desisti.
Hoje vindo de novo ao trabalho, ali estava Jeanne. Desta vez eu que a ignorei. Quando às 3h da manhã fui fazer a ronda pelo hotel, passei ao lado do meu já velho conhecido e (posso dizer) grande amigo, busto de Dante. Depois de cumprimentá-lo como sempre fazemos (cito um verso aleatório da Divina Comédia, ele complementa e damos boas risadas, grande figura), percebi que meu amigo está posicionado exatamente atrás da parede que Jeanne insiste em mirar, com inesgotável ânsia. Jeanne, oh Jeanne, pequena e inocente criatura, todos esses meses (seriam, talvez, anos?) procuras simplesmente o contato com o "sumo poeta"? Saberás tu que ele percorreu o purgatório, os céus e o inferno em busca de sua amada Beatriz? Saberás tu que ele é oficialmente comprometido, ou seja, sem chance mulher!? Saberás tu?
Perguntei a Dante o que acontecia e ele, com aquela sua abitual carranca, respondeu que não gosta de tocar no assunto porque Beatriz é muito ciumenta. Mas ao pronunciar essas palavras, percebi um leve sorriso, como o da Gioconda, no canto da boca. "Ah, garanhão", eu disse em latim com uma leve cotovelada no seu ombro, e voltei pra recepção. "Esse Dante é uma comédia!" pensei rindo, enquanto descia as escadas.
Posso imaginar o que acontece a essas horas da madrugada lá em cima, quando o busto de Dante fica sozinho com o busto de Jeanne, sem o fantasma de Beatriz por perto. Curiosamente, no hall do hotel tem um outro busto de mulher, mas essa não tem nome. Também é bela, e seus olhos semi-cerrados fitam o chão, como se os desviasse por qualquer motivo. A cabeça volta-se levemente para seu ombro direito, como se uma forte desilusão a tivesse acometido. Como se, além da impossibilidade do movimento, sua tristeza perene tivesse origem na decepção e no amargo sabor que somente um ser humano tem ao descobrir-se traído por seu verdadeiro amor.
Eis que encontro Beatriz.
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sábado, 9 de janeiro de 2010
quase hai kai
Dizem que a verdade é que
o importante é o que importa.
Mas a verdade é outra, e diversa.
o importante é o que importa.
Mas a verdade é outra, e diversa.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Que merda!
Enquanto não me vem nada pra escrever, coloco aqui mais um exercício de tradução do mestrado. A autora é Sujata Bhatt, nasceu na Índia em 1956, cresceu nos EUA e mora na Alemanha. Eis aqui minha tradução:
Feminilidade
Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -
A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.
Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.
Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!
Feminilidade
Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -
A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.
Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.
Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Prosecco, fantasmas e o ano novo
Agora são 23h54 no horário italiano. Alguns fogos de artifício. Não muitos, comparando com o Brasil. Estou no trabalho, uma taça de Prosecco do meu lado. Quadros antigos e o vazio ao meu redor. Prosecco, pra quem não sabe, é um vinho frisante tipicamente italiano, que ao invés dos frisantes normais, não é doce, mas como diz o nome, seco.
Os clientes estão fora, ou estão nos seus quartos. Pra quem não sabe, trabalho num hotel, e nesse exato momento faço o turno da noite na recepção. Mas como eu ia dizendo, todos estão por aí, menos aqui. Embora Pisa não seja uma cidade de grandes atrativos. A maquininha do cartão de crédito acabou de fazer seu bip pontual da meia-noite. Ela não sabe que é dia de festa. Hoje é um dia como qualquer outro pra ela. O que não deixa de ser verdade também pra nós. Ou pelo menos pra mim. Bebo um gole.
Meia-noite. Já tive reveillons melhores na vida. Hoje, como várias outras vezes aqui na Itália, é um dia que me faz pensar e comparar. Penso como foram meus outros reveillons, penso no calor que faz agora no Brasil e como seria ótimo estar à beira-mar nesse exato momento. Penso neste tempo que estou aqui na Itália. Penso no futuro próximo, quando retornarei ao Brasil por alguns dias... Se não se quer chegar a conclusão nenhuma, pensar talvez não seja a melhor escolha. Tarde demais. Outro gole.
Como eu dizia, Pisa não é um "granché" no que se refere a divertimento. Uma cidade de mais ou menos 80 mil habitantes, cuja metade da população é estudante, o que torna a situação mais bizarra ainda, porque no Brasil onde há estudante, há festa. Pisa não. Pisa possui leis que proibem a abertura de locais depois das 2h da manhã (sexta e sábado) e depois da 1h nos dias de semana. Pisa não possui discotecas. Pisa, enfim, é uma cidade de velhos, feita por velhos e para velhos, muito embora a população predominante seja de jovens.
Depois de 10 meses morando aqui, já desisti de tentar achar uma exceção. Já imaginava que o ano novo seria pobre de opções e, pior ainda, com a chuva que cai agora. Duas da manhã estarão todos em casa, enquanto a chuva, o frio e os fantasmas medievais percorrem as ruas da cidade.
Nessas horas, é melhor estar trabalhando. Ironicamente, é a primeira vez que ficarei acordado no ano novo até às 9h da manhã. Não lembro quando, mas um tempo atrás, enquanto eu reclavama da falta de opções da cidade com meus fantasmas, um deles me respondeu: "talvez seja melhor assim, porque daí você estuda, se Pisa fosse agitada à noite, provavelmente você não faria isso".
Bebendo meu Prosecco, enquanto soa Audioslave no computador do trampo, começo a concordar com ele. É, meu fantasma, talvez 2010 seja hora de estudar mesmo. E depois teremos uma vida inteira pela frente. Eu e ela.
Um feliz ano novo a todos. Auguri!
Os clientes estão fora, ou estão nos seus quartos. Pra quem não sabe, trabalho num hotel, e nesse exato momento faço o turno da noite na recepção. Mas como eu ia dizendo, todos estão por aí, menos aqui. Embora Pisa não seja uma cidade de grandes atrativos. A maquininha do cartão de crédito acabou de fazer seu bip pontual da meia-noite. Ela não sabe que é dia de festa. Hoje é um dia como qualquer outro pra ela. O que não deixa de ser verdade também pra nós. Ou pelo menos pra mim. Bebo um gole.
Meia-noite. Já tive reveillons melhores na vida. Hoje, como várias outras vezes aqui na Itália, é um dia que me faz pensar e comparar. Penso como foram meus outros reveillons, penso no calor que faz agora no Brasil e como seria ótimo estar à beira-mar nesse exato momento. Penso neste tempo que estou aqui na Itália. Penso no futuro próximo, quando retornarei ao Brasil por alguns dias... Se não se quer chegar a conclusão nenhuma, pensar talvez não seja a melhor escolha. Tarde demais. Outro gole.
Como eu dizia, Pisa não é um "granché" no que se refere a divertimento. Uma cidade de mais ou menos 80 mil habitantes, cuja metade da população é estudante, o que torna a situação mais bizarra ainda, porque no Brasil onde há estudante, há festa. Pisa não. Pisa possui leis que proibem a abertura de locais depois das 2h da manhã (sexta e sábado) e depois da 1h nos dias de semana. Pisa não possui discotecas. Pisa, enfim, é uma cidade de velhos, feita por velhos e para velhos, muito embora a população predominante seja de jovens.
Depois de 10 meses morando aqui, já desisti de tentar achar uma exceção. Já imaginava que o ano novo seria pobre de opções e, pior ainda, com a chuva que cai agora. Duas da manhã estarão todos em casa, enquanto a chuva, o frio e os fantasmas medievais percorrem as ruas da cidade.
Nessas horas, é melhor estar trabalhando. Ironicamente, é a primeira vez que ficarei acordado no ano novo até às 9h da manhã. Não lembro quando, mas um tempo atrás, enquanto eu reclavama da falta de opções da cidade com meus fantasmas, um deles me respondeu: "talvez seja melhor assim, porque daí você estuda, se Pisa fosse agitada à noite, provavelmente você não faria isso".
Bebendo meu Prosecco, enquanto soa Audioslave no computador do trampo, começo a concordar com ele. É, meu fantasma, talvez 2010 seja hora de estudar mesmo. E depois teremos uma vida inteira pela frente. Eu e ela.
Um feliz ano novo a todos. Auguri!
domingo, 27 de dezembro de 2009
Exercícios de tradução
"Todo o mundo é viúvo se é verdade que caminhas ainda
todo o mundo é viúvo se é verdade! Todo o mundo
é verdade se é verdade que caminhas ainda. todo o
mundo é viúvo se não morres! Todo o mundo
é meu se é verdade que não estás vivo mas só
uma lanterna para meus olhos oblíquos. Cega permaneci
do teu nascimento e a importância do novo dia
não é que noite pela tua distância. Cega sou
se tu caminhas ainda! cega sou se tu caminhas
e o mundo é viúvo e o mundo é cego se tu caminhas
ainda agarrado aos meus olhos celestiais"
Amelia Rosselli (1930-1996), poetisa italiana
Traduçao minha
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Do futuro
Bebo uma cerveja. O frio passa em frente à minha janela. As luzes do quarto apagadas. Eu olho pela janela. Eu penso.
Outro gole. Tiro os óculos e de repente minha visão se embaça. Vejo luzes e escuros desfocados. O frio passa. Olho pro relógio: é tarde, muito tarde. Eu penso.
O computador toca Cafe Tacuba. É incrível como a língua espanhola é melancólica, e ao mesmo tempo tão bela. Outro gole. E eu penso no futuro.
O futuro...o futuro promete e ao mesmo tempo distancia. O futuro poderia ser belo como uma música do Cafe Tacuba. Poderia ser simples. Mas a simplicidade não combina com Deus. Deus exige o complexo, o caos, a provação. Deus exige atenção.
Deus exige.
Outro gole. Abro a janela e o frio entra e me envolve. Me deixo ficar. O futuro está próximo. El futuro es mañana. Una mañana linda...
A cerveja termina. O frio continua. O futuro, em um mês, dará provas de existência. "Espero que Deus não seja tão sarcástico comigo", estava escrito no livro.
"Amém", disse o poeta, últimas palavras, lucidez completa.
Depois, silêncio.
Outro gole. Tiro os óculos e de repente minha visão se embaça. Vejo luzes e escuros desfocados. O frio passa. Olho pro relógio: é tarde, muito tarde. Eu penso.
O computador toca Cafe Tacuba. É incrível como a língua espanhola é melancólica, e ao mesmo tempo tão bela. Outro gole. E eu penso no futuro.
O futuro...o futuro promete e ao mesmo tempo distancia. O futuro poderia ser belo como uma música do Cafe Tacuba. Poderia ser simples. Mas a simplicidade não combina com Deus. Deus exige o complexo, o caos, a provação. Deus exige atenção.
Deus exige.
Outro gole. Abro a janela e o frio entra e me envolve. Me deixo ficar. O futuro está próximo. El futuro es mañana. Una mañana linda...
A cerveja termina. O frio continua. O futuro, em um mês, dará provas de existência. "Espero que Deus não seja tão sarcástico comigo", estava escrito no livro.
"Amém", disse o poeta, últimas palavras, lucidez completa.
Depois, silêncio.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Aquele ali
Eu sou um narrador em terceira pessoa. Embora agora eu esteja falando de mim, o que me desmente, estou aqui pra falar de outro. Aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso. A mao, no singular. A outra nao tà no bolso.Aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, neste momento procura alguma coisa no bolso da camisa, com a outra mao que nao estava no bolso, embora agora esteja, mas em outro. E muito embora eu seja um narrador em terceira pessoa, o escritor que me criou e que criou também aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, nao me fez onisciente. Quer dizer que eu nao sei dizer o que se passa na cabeça daquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso. Também nao sei seu nome, nem ao menos o que procura no bolso. E se por acaso aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, resolver ir embora, nao poderei mais dizer nada a seu respeito.
A outra mao daquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, que procurava qualquer coisa no outro bolso, o da camisa, a outra mao saiu de là, segurando um maço de cigarros.
Com um cigarro na boca aquele ali, que tà sentado na mureta, agora nao tem mais nenhuma mao em bolso algum, porque a mao que estava dentro do bolso saiu de là com um isqueiro pra acender o cigarro daquele ali, que agora està fumando, ainda sentado na mureta.
Aquele ali, sentado na mureta, fumando, tirou o òculos de sol pra coçar os olhos e virou a cabeça pro outro lado da mureta, botou de novo os òculos e coçou o saco com a mao que estava primeiro no bolso. A outra mao jogou a bituca fora, e entrou no outro bolso, enquanto a primeira mao daquele ali, que coçava o saco em cima da mureta, ajudou a dar o impulso pra sair da mureta e entao aquele ali, que tava na mureta com a mao no bolso, atravessou a rua e dobrou a esquina.
Aquele ali, que jà nao està mais na mureta, que coçou o saco e jà dobrou a esquina, aquele ali ninguém sabe de seu fim. Nao sabemos nem ao menos se a outra mao ainda està no bolso. Ou se coça o saco pelo furo do bolso. Ou se fuma outro cigarro, colocado na boca pela primeira mao, que no inìcio estava no bolso.
A ùnica coisa que sei è que nao tem mais ninguém ali.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Às cinco
Quando o sino da Igreja soa, é já noite, e o frio envolve a cidade de Pisa no inverno, como um cachecol de gelo.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O inferno de Dante (e de Shakespeare, e de Camões...e o meu também)
A correria destes últimos dias tem sido grande. Leio muito e tenho que começar a tomar cuidado pra não embaralhar tudo que to lendo. Mas enfim, como já disse algum nobre filósofo, é a vida.
Falando em nobreza, não que eu seja nobre, embora seja Dalla Corte (hein hein?), enfim, piadas infames à parte, como eu dizia, falando em nobreza, hoje em um seminário do mestrado o professor deu um exemplo muito certeiro, que achei legal compartilhar aqui com vocês, meus fantasmas.
Contextualizando o ocorrido: o professor nos deu cópias de trechos de MacBeth, de Shakespeare, na versão original, e depois confrontava estes trechos primeiro com uma “tradução” prum inglês moderno (fraca, por sinal) e depois com várias traduções feitas em diferentes épocas para o italiano. Viam-se coisas absurdas.
Aí entra a questão do distanciamento, não somente entre duas línguas diversas (ou culturas diversas, pra ser mais preciso), como também o distanciamento temporal na mesma língua, ou seja, querendo ou não o inglês da época de Shakespeare não é o inglês de hoje, assim como o italiano de Dante diverge do italiano de Gérson.
Neste momento o professor perguntou: é justo traduzir Shakespeare para uma linguagem moderna?
Antes de eu começar a pensar na resposta, aconteceu uma discussão, mas entre professores. Nunca vi isso no Brasil, mas aqui é normal (ou pelo menos parece) um professor assistir a aula do outro e não só, discutir e questionar o que o outro está propondo. (Creio que se ocorresse no Brasil, depois da aula um diria pro outro, po, ta querendo me fuder na frente dos alunos? Aqui eles discutem, e embora parecesse que o professor fosse dar meia-volta, permaneceu na sala)
Enfim, não to aqui também querendo dizer que todas as intervenções são oportunas. Na verdade ninguém entendeu porra nenhuma do que o cara tava dizendo, e perderam preciosos minutos da aula por uma discussão vã e inútil. Só sei que finalmente o tal professor conseguiu uma brecha pra explicar melhor.
Disse ele, diante da argumentação fervorosa das outras professoras, que Shakespeare escrevia o inglês comum à época, da plebe, não o inglês dos nobres. Da mesma forma, Dante, que foi um dos primeiros senão o primeiro a escrever em latino volgare (que virou o italiano de hoje), escreveu na língua do povo, de outra forma teria escrito em latim, a língua oficial à época. Ou seja, a tradução à linguagem moderna de certa forma seria um retorno ao objetivo inicial do bardo inglês, que era falar a língua do povo. As professoras se chocaram de novo...
E o professor, meio que pra alfinetar de vez, explicava que no futuro, daqui uns 200 ou 300 anos Bob Dylan e Elvis Presley serão estudados pelos cientistas como hoje fazemos com esses poetas antigos. E a língua de hoje será tão arcaica a eles quanto é Camões e Os Lusíadas pra nós ou Cervantes e Dom Quixote pros Castelhanos. Uma professora, que sentava na fileira logo atrás da minha murmurou “Bob Dylan, sinceramente...”. Eu ria sozinho.
No fim o professor disse: “Il tempo nobilta”. Foi um certo neologismo, pois usou o substantivo nobiltà e o utilizou como verbo, embora exista o verbo nobilitare, que é tornar nobre. Uma tradução mulambenta seria O tempo nobra. Em suma, o tempo enobrece. O que era popular torna-se elitizado, torna-se nobre. Vimos isso durante toda a história da humanidade, não só com escritores, mas também na música (um exemplo o jazz), em manifestações populares (ex. o carnaval) e com políticos (depois de mortos, são todos respeitáveis). Poderia citar outros exemplos vários, mas não vem ao caso agora.
Portanto, não adianta escrever com pompas e circunstâncias. Depreende-se que o popular será eternizado e, posteriormente, adorado pelas gerações futuras de intelectuais, cujos filhos farão caretas aos professores quando tiverem que estudar Bob Dylan no segundo grau e, o pior, pro vestibular. O mais importante, na verdade, e no final, é que o tempo nobra. Mas a verdade é outra, e diversa.
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Resolvido o maior problema do século
Durante este tempo que estou aqui na bota, mais de um ano, aprendi o nome de várias comidas, que com saudade da culinária brasileira eu procurava aqui. Mas uma coisa eu nunca descobri: como se chama o chuchu em italiano.
Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.
Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.
Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.
Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.
Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.
Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.
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sábado, 5 de dezembro de 2009
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Teorias de traduçao e estudos culturais pòs-coloniais
"(...) Figured in the disjointed signifier of the present, this supplementary third space introduces a structure of ambivalence into the very construction of Jameson's internationalism. There is, on the one hand, a recognition of the interstitial, disjunctive spaces and signs crucial for the emergence of the new historical subjects of the translational phase of late capitalism. However, having located the image of the historical present in the signifier of a 'disintegrative' narrative, Jameson disavows the temporality of displacement which is, quite literally, its medium of communication. For Jameson, the possibility of becoming historical demands a containment of this disjunctive social time."
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994
Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994
Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)
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domingo, 22 de novembro de 2009
Domingo
O domingo hoje passou lento. Pouca gente. Pouco movimento.Nem as moscas, a me encher a paciencia, apareceram
O domingo foi tao lento, mas tao cheio de nada, que pra se ter uma idéia de que nao poderia ser mais monòtono, nao recebi nem mesmo um spam no meu email. Nem unzinho.
Pois é, amigo. Tem dias em que o dia nao passa.
E esse dia é hoje.
* * *
James Joyce, Jorge Luis Borges, Samuel Beckett e Vladimir Nabokov. Segundo um critico italiano, esses 4 definiram as coordenadas mentais da narrativa no século XX. Seja là o que isso quer dizer.
Coordenadas mentais...é interessante este uso de termos vagos que soam bem e impoem um certo respeito ao texto. Uma coordenada mental ninguém sabe o que é, deduz-se que seja algo como "estrutura psicològica da narrativa", ou padroes, sei là. Acho que fiquei mais vago ainda.
Mas o importante é o que importa, o resto é o que sobrou. E a verdade é outra e diversa. Ou nao.
O futuro...no domingo vazio se pensa muito no futuro. E é logo ali.
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sábado, 21 de novembro de 2009
O pendulo de Foucault

Depois de meses lendo o famigerado exemplar acima nominado, finalmente terminei de ler o livro de Umberto Eco. No meu antigo blog devo ter feito alguns posts comentando do livro.
O final da leitura de livros gigantescos como esse (mais de 600 pag) sempre sao interessantes. O livro, aliàs, começa perto do fim e o narrador aos poucos desenvolve a historia contando o que aconteceu atè ele chegar onde està. E isso se estende por mais da metade do livro. Depois, o final è inicialmente arrebatador, mas me decepcionei na ultima pagina. Pareceu que o Eco nao sabia como terminar e decidiu por fim ao livro de um modo um pouco reticente, sem tanta emoçao.
Ao mesmo tempo que eu terminava de ler, fazia minha primeira traduçao pro mestrado, que era um excerto do Otelo de Shakespeare, do Ingles arcaico pro italiano. Me debati durante uma semana sobre o livro e, especialmente, sobre esse trecho. Um dia antes de terminar a traduçao faltavam 2 frases que eu nao achava um resultado satisfatòrio. Aì resolvi tomar uma cervejinha pra refrescar a cuca e tudo se resolveu.
A pròxima semana serà minha primeira aula do mestrado, em que verei o real resultado de tudo isso, e começo a analisar as vantagens e desvantagens de um mestrado em duas lìnguas estrangeiras. Veremos.
Entao transcrevo a voces, em primeira mao, o excerto do Ato V Cena II do Otelo no original em ingles e na minha traduçao em italiano, pra nao deixar esse blog abandonado às moscas:
LODOVICO: You must forsake this room, and go with us:
Your power and your command is taken off,
And Cassio rules in Cyprus. For this slave,
If there be any cunning cruelty
That can torment him much and hold him long,
It shall be his. You shall close prisoner rest,
Till that the nature of your fault be known
To the Venetian state. Come, bring him away.
OTHELLO: Soft you; a word or two before you go.
I have done the state some service, and they know’t.
No more of that. I pray you, in your letters,
When you shall these unlucky deeds relate,
Speak of me as I am; nothing extenuate,
Nor set down aught in malice: then must you speak
Of one that loved not wisely but too well;
Of one not easily jealous, but being wrought
Perplex’d in the extreme; of one whose hand,
Like the base Indian, threw a pearl away
Richer than all his tribe; of one whose subdued eyes,
Albeit unused to the melting mood,
Drop tears as fast as the Arabian trees
Their medicinal gum. Set you down this;
And say besides, that in Aleppo once,
Where a malignant and a turban’d Turk
Beat a Venetian and traduced the state,
I took by the throat the circumcised dog,
And smote him, thus.
[Stabs himself.]
LODOVICO: O bloody period!
GRATIANO: All that’s spoke is marr’d.
OTHELLO: I kiss’d thee ere I kill’d thee: no way but this;
Killing myself, to die upon a kiss.
[Falls on the bed, and dies.]
CASSIO: This did I fear, but thought he had no weapon;
For he was great of heart.
LODOVICO: [To Iago] O Spartan dog,
More fell than anguish, hunger, or the sea!
Look on the tragic loading of this bed;
This is thy work: the object poisons sight;
Let it be hid. Gratiano, keep the house,
And seize upon the fortunes of the Moor,
For they succeed on you. To you, lord governor,
Remains the censure of this hellish villain;
The time, the place, the torture: O, enforce it!
Myself will straight aboard: and to the state
This heavy act with heavy heart relate.
[Exeunt.]
Aqui embaixo a minha traduçao:
LUDOVICO: Deve abbandonare questa camera, e venire con noi:
Il suo potere e il suo comando sono finiti,
Adesso Cassio governa a Cipro. In quanto a questo malfattore,
Se si conosce crudeltà
Che può tormentarlo tanto e per molto tempo,
Sarà sua. Deve rimanere prigioniero,
Finché lo Stato Veneziano conosca
La natura dei suoi crimini. Venite, portatelo via.
OTELLO: Un attimo; due parole prima che partiate.
Ho fatto alcuni servizi allo stato, e lo sanno.
Basta. Vi prego, nelle vostre lettere,
Quando racconterete queste sventure
Parlate di me come sono; senza eccessi,
Né malizia: dovete parlare
Di uno che non ha amato saggiamente, però molto;
Di uno che non è facilmente geloso, però essendo stato provocato
Divenne confuso all’estremo; di uno la cui mano,
Come l'indegno Indiano, butta via una perla
Più ricca di tutta la sua tribù; di uno i cui occhi repressi,
Sebbene non abituati ai sentimenti più teneri,
Sparsero lacrime così rapidi come gli alberi arabi
Fanno con la loro gomma medicinale. Scrivete questo;
E inoltre dite, che una volta in Aleppo,
Quando un malvagio turco in turbante
Picchiò un veneziano e diffamò lo Stato,
Presi per la gola il cane circonciso
E lo colpii in questo modo.
[si accoltella]
LUDOVICO: Oh, che fine sanguinosa!
GRAZIANO: E’ stato inutile quel che abbiamo detto.
OTELLO: Ti ho baciato prima di ucciderti: così è stato;
Mi uccido, per morire sul tuo bacio
[cade sul letto e muore]
CASSIO: Avevo paura di questo, ma ho pensato che non fosse armato;
Perché è stato un uomo di gran cuore.
LUDOVICO: [a Iago] Oh, cane spartano,
Più crudele dell’angoscia, la fame o il mare!
Veda il tragico fardello su questo letto;
Questo è opera sua: l'oggetto avvelena la vista;
Nascondiamola. Graziano, la casa adesso è sua,
E conservi le ricchezze del Moro,
E’ il suo successore. Lei, Signor Governatore,
Deve giudicare questo diabolico mascalzone;
L’orario, il luogo, la tortura: Oh, lo faccia soffrire!
Io vado direttamente a bordo: e allo stato
A malincuore racconterò questo pesante atto
[Escono.]
Traduzir é um pouco cansativo. Mas é melhor do que trabalhar em um banco e em um hotel.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
Shakespeare
"DESDÊMONA - Estou certa de que meu nobre esposo me considera honesta.
OTELO - Oh, sim! Sem dúvida! como as moscas no açougue, que recebem vida da podridão. Ó erva daninha, tão bela ao parecer e tão cheirosa que ofendes os sentidos! Oh! se nunca tivesses vindo ao mundo!"
Iago é o mais vil dos biltres. E Shakespeare é legal.
No fundo, no fundo, me divirto com tudo isso. Mas o fundo, é o outro lado. Que começa.
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
O uivo

Na madrugada fria abro a janela do quarto. O rio em minha frente. O vento gelado me congela, mas me deixo ficar. E ouço ecos distantes, que confundem-se. Uns mais altos, outros mais baixos. As ruas estão desertas, os bares estão fechados, a pessoas se trancam no calor da solidão italiana.
Os ecos me intrigam. Olho o rio, que reflete luzes esparsas. Hoje fez sol. Amanhã? Nem a previsão do tempo sabe.
Amanhã é outro dia. Ontem voei sobre a torre de Pisa. Amanhã conquistarei impérios. Hoje foi o meu exílio. E eu não sei mais se volto pro espaço ou pro fundo do mar.
Pois meu nome é querer.
Pois meu nome é impronunciável. Pois meu nome é intraduzível.
E entre os bosques dos Alpes, nas neves eternas, com a lua ao fundo e o céu estrelado, ouve-se o uivo de um lobo. Um lobo que enxerga o mundo pelo alto. Um lobo que se esconde da vida. Um lobo que foge do medo e vê no futuro algo disforme, impreciso, que o atrai.
Um abismo.
E ele se chama urgência.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Penso, logo existo
A prova de admissão ao mestrado será essa semana. Na verdade, eu ainda nem sei se farei essa prova, porque antes de tudo isso tem uma análise curricular que pode me excluir definitivamente do certame. E a lista de quem faz a prova sai na quarta. A prova será na sexta. E eu to começando a pegar mais pesado nas minhas traduções doidas. E to ficando doidim, doidim,
E nessa pira, que sempre me leva a mudar de direção, porque começo a traduzir um texto, busco uma palavra no dicionário, mas dali já passo por uma outra interessante que sempre quis saber e assim vai infinitamente e quando vejo traduzi muito pouco do texto que eu me propunha, embora de alguma forma também tenha adquirido algum conhecimento igualmente útil.
Enfim toda essa ladainha foi porque eu tava nessa pira, tá ligado?, de viajar nos dicionários e de repente me deparei com a famosa frase de Renè Descartes, que é o título desse post (tenho que descobrir uma tradução pro termo post). Mas no original em latim, que seria "Cogito ergo sum". O legal do dicionário em italiano que comprei é que, como o italiano é a língua mais próxima do latim dentre as línguas latinas (português, espanhol, francês, catalão, romeno e italiano, isso sem contar os infinitos dialetos em cada país), enfim, o dicionário italiano tem um apêndice só com termos e locuções em latim, o que é interessante pra caramba, pra quem gosta disso como eu. Mas não era por aí que eu ia.
Voltando à vaca fria, fiquei me perguntando como seria o famoso termo "cogito ergo sum" em outras línguas. E nessa hora a wikipedia é insuperável. Em poucos cliques você descobre que em eslovaco se diz "Myslím, teda som" embora eu não faça idéia de como se pronuncia isso. Em inglês: "I think, therefore I am". Em italiano "Penso, quindi sono" ou "Penso, dunque sono", o que dá na mesma. E seguindo essa linha de raciocínio me veio novamente uma dúvida que me surgiu muitos anos atrás quando eu ainda estudava inglês. E se o tradutor entendeu tudo errado?
Pense bem, pateta: em inglês o verbo to be, assim como em italiano o verbo essere tem dois significados, ser e estar. E alguém dirá "mas o Descartes era Francês, animal!". Eu sei disso, besta. E muito embora eu não saiba francês pra afirmar se o mesmo acontece com a frase original (se é que ela não foi escrita em latim mesmo), ainda assim a tradução pro italiano e pro inglês são ambíguas. É óbvio que o contexto da obra ajuda a definir melhor a escolha das palavras, mas eu imagino na minha maluquice se por acaso algum tradutor um dia não bebeu demais enquanto traduzia Shakespeare e entendeu o to be or not to be, that's the question erroneamente, quando o bardo inglês queria (ou quereria) dizer estar ou não estar, eis a questão.
Imagina quantas guerras e quantos mal entendidos no mundo ocorreram por erros de tradução. Imagina o trabalho do intérprete do Lula pra traduzir em outras línguas suas piadinhas futebolísticas. É passível de um desentendimento diplomático, tudo isso! E se o mundo não passa de um erro de tradução, meu deus!
Mas eu me divirto, na verdade. Embora nesse caso, não creio que a verdade seja outra. Contudo pode ainda ser diversa.
E tenho dito!
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O fim da madrugada
No alvor do frio dos dias da cidade secular
Dos ventos, das gotas do orvalho que me circundam
O rio e a chuva que de umidade a cidade inundam
O outono das folhas mortas a alma congela devagar
Na madrugada ociosa, silente e abandonada,
nas alamedas desertas, nos becos escuros
abraça a cidade, como os antigos muros,
a voz sôfrega que jaz eternizada
pelos ecos, que dos sinos a toada
acompanha. A sombra, do nada,
surge sem que ninguém a veja
E sucumbe sob os raios da alvorada,
ouve-se o pranto de um'alma desgarrada
e o desespero pela última cerveja
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domingo, 18 de outubro de 2009
A dubitável certeza
Ler antes do
tempo
Crer.
A ciência de saber-se possível.
Superestimar
o ego.
O nulo.
Querer
e não ter
a certeza
Poder
e não possuir
a firmeza
Fazer
e desconhecer
o impossível
Demasiado.
Simples assim.
Exerço o meu
erro
Execro
meus acertos
E amo
a instabilidade
do porvir
Saber e ser
o que se é
anula a dúvida
Saber e ser
o que se queria ser
e o que se queria
saber.
Nada
E o fundo do escuro do mundo
é a sombra do vento
a perfumar
a cor dos dias
que já foram
E o rei da cocada preta
disse "Vamo nessa"
lhe respondi com uma careta
"Mas a verdade é outra, e diversa"
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009
O retorno de Zaratustra
Depois de quase dois anos longe, retorno a este endereço. Talvez tenha sido um belo equìvoco ter saìdo daqui. Talvez nao.
Dizem por aì que o bom filho à casa retorna. E cà estou, ora pois.
Mas a verdade é outra e diversa.
Dizem por aì que o bom filho à casa retorna. E cà estou, ora pois.
Mas a verdade é outra e diversa.
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