domingo, 25 de abril de 2010

"O que a eternidade é para o tempo o Aleph é para o espaço"

Enquanto tento retomar o ritmo perdido do mestrado, começo hoje a resgatar textos do limbo do meu antigo Grogue hospedado no Tipos. Grogue este que uso de vez em quando pra treinar italiano, cujo link vocês encontram ali do lado. Do lado direito. Os critérios de escolha são estritamente subjetivos e não é possível recorrer. Se tudo der certo, nada dará errado. Eis o texto:



Com essas palavras Borges inicia o prefácio de seu melhor livro que já li, El Aleph, cujo conto homônimo já havia baixado e lido em espanhol.

Obviamente há coisas chatíssimas como um conto chamado Os Teólogos que quem não for da área não agüenta dois parágrafos sem fazer um esgar de desgosto. Li até o final por teimosia.
O que faz Borges parecer tão bom e suas histórias soarem tão verídicas (ele mesmo conta em seu prefácio a vez que um jornalista perguntou a ele se o Aleph existia realmente) é sua grande erudição e a profusão de citações, que mesmo que quiséssemos não teríamos material para pesquisa para comprovar, num país tão privado do hábito da leitura. Desta forma, ficamos sem saber se as citações são verdadeiras ou não. Algumas o são, e talvez (certamente) ele tenha usado esse artifício justamente para confundir. E consegue.

Mas o que em seus livros me chama a atenção é o fascínio pelos labirintos, pelos sonhos e pelo absurdo. São temas que invariavelmente acabo por ser atraído de alguma forma, e isso certamente reflete no que escrevo, assim como o Bukowski reflete no que bebo, e vice-versa.

Dos 17 contos que compõem o livro, pelo menos quatro, que me lembro, ou aludem a labirintos em sua trama, ou se passam dentro de labirintos. O que mais me chamou a atenção foi o conto "A Casa de Astérion", justamente porque uns dias antes estava lendo algo sobre a mitologia grega, sabe lá porque razões do acaso, e escrevi este texto no meu antigo blog.

A auto referência entre os contos do mesmo livro é também interessante. E O Aleph, na primeira vez que li, apesar da falta de treino do meu espanhol, mostrou-me uma faceta diferente dos contos absurdos e sobrenaturais. Diferentemente de H.P. Lovecraft, cujas histórias sobrenaturais sempre envolvem poderes antigos, ocultos e desconhecidos dos seres humanos, Borges, pelo menos no que li até agora, sempre conta histórias "já relatadas" por outros, repletas de citações, o que de alguma forma as torna mais verossímeis. Raramente é o narrador onipresente e onisciente nosso velho conhecido.

Como sabiamente o próprio Borges disse no chatíssimo texto Os Teólogos: "As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia".

Substitua heresias por contos.

Publicado em 22 de novembro de 2007

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Apotegma

Humano é um ser que gira em torno ao próprio umbigo.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Matemática e outros causos

Muito embora eu tenha trabalhado durante 5 anos num banco, nunca gostei muito de matemática. Porém confesso que a habilidade e a convivência diária com os números melhora realmente o raciocínio lógico. Isso se você não enlouquecer antes.

Dias atrás comecei a fazer as contas. Não as contas que devo pagar mensalmente, mas comecei a contar, num simples momento de ócio - coisa rara ultimamente - as cicatrizes que detenho pelo corpo, quase todas adquiridas durante a infância, e as histórias que só a elas pertencem. Muito curiosas, por sinal.

Um exemplo: creio que a primeira em ordem cronológica foi a que tenho na sobrancelha. Parte esta da anatomia humana que desde pequeno chamo de sombrancelha com M, ao contrário do que relata o meu amigo Aurélio, que prefere a primeira opção. Isso tudo por questões de preferência estilística. Ou licença poética. Escolham vocês.

Enfim, eu devia ter no máximo uns 6 anos, porque ainda ia à pré-escola. Meu pai, quando jogava na loteria, sempre me pedia pra escolher os números, e foi isso que fiz. Um jogo era sempre o meu, outro da minha irmã. Um dia, chegando em casa, meu pai disse que eu tinha acertado a quina, e tava rico. Comecei a pular de alegria. Embora pra mim rico seria provavelmente o suficiente pra comprar alguns brinquedos que eu queria e outras baboseiras pra comer. Pulei sem direção e sem prestar muita atenção no que fazia até que, em um desses saltos, pisei numa bola que estava por ali justamente para ser pisada, e bati com a testa num degrau. Só depois descobri que era uma brincadeira do meu pai. Mas querendo ou não, a quina eu acertei. A quina do degrau. Cinco pontos na sombrancelha, cujo prêmio, pra toda vida, foi uma cicatriz.

Algumas vezes abri o joelho durante a infância, mas são tantas cicatrizes uma em cima da outra que nem se percebe mais. Parece um joelho (ou dois) normais. Já na adolescência, apesar de eu sofrer gravemente com a acne e não ter dó de espremer aqueles minivulcões da minha face, por algum motivo inexplicável não fiquei marcado.

Incontáveis vezes cortei os dedos e a mão com papel, inclusive contando dinheiro no banco (quem disse que dinheiro não faz mal a ninguém?) mas creio que nenhuma dessas vezes foi suficientemente profundo pra deixar uma cicatriz. Hoje em dia, no hotel em que trabalho na Itália, não passo mais de uma semana sem cortar os dedos com o papel. Esse é um dos problemas das pessoas sistemáticas...

Mas creio que o caso mais insólito é de uma cicatriz que tenho no dedo indicador da mão. E não digo em qual das mãos a cicatriz está, porque ela passa de uma mão para a outra quando bem quer. Neste momento está na direita, mas nada posso garantir até amanhã.

Durante muito tempo, eu tive quase certeza absoluta que essa cicatriz (à época sempre no dedo da mão esquerda) tivesse ocorrido durante uma pescaria no sítio do meu falecido avô, onde sempre eu passava minhas férias escolares, às vezes sozinho, às vezes com meus primos, desbravando o mato e pescando. Numa dessas pescarias - de lambaris, óbvio, com caniço de taquara (bambu para os leitores do Paraná pra cima) - eu teria, distraidamente, deixado que o anzol se enroscasse no meu dedo e fizesse essa pequena curva perto da dobradiça do meio. Passei anos contando aos colegas dos colégios onde passei, vangloriando-me como se fosse uma cicatriz de guerra, conseguida com um anzol. Ledo engano.

Muitos anos depois, sabe lá por que desrazões da memória, me lembrei o que de fato havia acontecido. Eu e um colega de classe, como todos aqueles da nossa idade, tínhamos cada um seu canivete. E a brincadeira era aquela de, rapidamente, como uma das mãos bem aberta, fazer com que o canivete batesse entre os vãos de cada dedo, o mais rápido possível. Eu era craque nisso e então, com a mão esquerda aberta, comecei os movimentos, ritmados e lentamente aumentando de velocidade. São nessa coisas estúpidas da vida que se percebe o quanto a notoriedade faz bem ao ego. E também o quão fácil é transformar essa vanglória (já diz o próprio nome: vã glória) em arrogância, para em seguida precipitarmos no poço obscuro do ridículo. E é aí que também aprendemos, normalmente a contragosto, como se joga sujo.

Um desafeto, sabendo que eu gostava de uma guria chamada Débora (sinto cheiro do seu perfume até hoje), disse que ela estava vindo. Comecei a suar, enquanto lutava para não errar as batidas e a galera contava pra ver se eu ultrapassava o recorde vigente. Num momento de esperança, estiquei os olhos ao lado pra ver se ela estava ali, e o canivete cortou fora metade do meu dedo. Me sentia como Lula, se àquela época eu o conhecesse e soubesse que era manco dos dedos. Mas não pensei em virar presidente, nem em colar novamente o dedo, só queria que Débora não tivesse visto.

Só quando vi que ela não estava por ali foi que peguei a ponta do dedo e o forçava contra o cotoco, enquanto um outro colega enrolava tudo com um pano. Não lembro dos dias que se passaram depois, nem se fui a um hospital (creio que sim), mas talvez o trauma de tudo isso tenha me levado a acreditar, por anos, a origem errada da cicatriz.

A cirurgia, muito bem feita por sinal, me deixou com poucas marcas e a articulação do dedo indicador não sofreu limitações. A única coisa estranha é quando a cicatriz muda de uma mão à outra. Às vezes sonho com um disco voador. Curiosamente, desde então, meus polegares têm o movimento restrito.

sábado, 3 de abril de 2010

Oh, yes

existem coisas piores que
estar sozinho
mas com frequência demoramos décadas
pra percebermos isso
e com mais frequência
quando conseguimos
é tarde demais
e não tem nada pior
que
tarde demais.

Charles Bukowski , tradução minha

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Os prazeres dos danados

 Não me lembro extamente quando ouvi falar de Henry Charles Bukowski pela primeira vez, nem a primeira coisa que li dele. Com certeza foi entre 1998 e 2003, quando o dito já estava morto (isso em 1994). Tenho alguns livros seus, todos em português, todos em prosa. 

Me lembro que cheguei a criar, durante a faculdade, a década Bukowski, que se não me engano deve terminar em 2014. A data certa será relembrada no momento justo e oportuno.

Uma vez achei um livro que me chamou a atenção pela capa, e em algum poema perdido pelos blogs da vida eu o citei como uma "garrafa de Bukowski 25 anos".Trata-se de um livro bilíngue, ou seja, original em uma página, tradução na seguinte. A tradução era uma porcaria, e isso eu consegui identificar ainda àquela época, muitos anos antes de resolver fazer essa doideira que é o mestrado em tradução que to fazendo. E o título obviamente é passível de objeções. 25 melhores poemas na opinião de quem, cara-pálida?

Mas foi o primeiro contato com as poesias Bukowskianas. Que eu gostei, claro. Mesmo porque, até então, só havia lido as prosas em que ele mesmo se auto-declarava um poeta. Mas um poeta sem livros traduzidos pro português (pelo menos eu nunca tinha achado um, com exceção deste infeliz exemplar já comentado). E o que achei mais interessante em suas poesias, além da melancolia, é uma característica estritamente estética, que consiste em mudar de linha em um ponto não comum da frase, quebrando o ritmo, deixando a leitura como as vidas ali retratadas, tortas e mancas, deixando as palavras que finalizam essas mesmas frases sozinhas, como ele, o poeta misantropo.

Eis que, aqui na Itália, enquanto passeava por uma livraria virtual, achei algo que não pude resistir, e comprei. Uma seleção de poemas do grande poeta das garrafas, do turfe, das mulheres e da solidão, de 1951 a 1993. Embora não seja do Paulo Leminski, o livro é um catatau: 557 páginas contendo em torno de 270 poesias, no original em inglês, sem aquelas traduções sem-graça pra encher o saco. Duzentos e setenta poemas. Pouco, quase nada, se compararmos com as mais de mil poesias que a Wikipedia afirma que ele escreveu (não custa relembrar ao leitor desavisado que o prêmio nobel José Saramago também consulta esta grande obra virtual da sabedoria, como comprova esse post no seu blog oficial, o que sempre a nós, meros mortais, libera a consciência de eventual culpa ou preguiça).

O nome do livro do Buk, pra quem se interessar, é The pleasures of the damned, que eu traduziria em um primeiro momento como "Os prazeres dos danados", embora o damn em inglês tenha também outras acepções tenuamente diversas desta, mas enfim, discutir o título não levará a lugar nenhum, pelo menos nesse momento. 

Enfim. Charles Bukowski é aquele que, como Dalton Trevisan, Pedro Juan Gutierrez, Rubem Fonseca e outros mais nos fazem lembrar que a vida não é essa coisinha bela que muitos queriam que fosse. Que se você não ficar esperto, a vida te aniquila como eu aniquilei nesse momento um mosquito com meu dedo.

Aí embaixo, um dos poemas, traduzido por mim:



Seguros

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
ambos marido e mulher acordam cedo e
vão ao trabalho.
chegam em casa no início da noite.
têm um pequeno menino e uma menina.
pelas 21h todas as luzes na casa
se apagam.
na manhã seguinte ambos marido e
mulher acordam cedo de novo e vão ao
trabalho.
retornam no início da noite.
pelas 21h todas as luzes se
apagam.

a casa dos vizinhos me deixa
triste.
as pessoas são boas pessoas, eu
gosto deles.

mas sinto que estão se afogando.
e não posso salvá-los.

eles sobrevivem.
eles não são
sem-teto.

mas o preço é
terrível.

às vezes durante o dia
eu olho para a casa
e a casa olha para
mim
e a casa
chora, sim, é verdade, eu
sinto isso.

a casa está triste pelas pessoas que ali
moram
e eu também
e olhamos um ao outro
e carros passam pra lá e pra cá
na rua,
barcos atravessam o porto
e as altas palmeiras cutucam
o céu
e esta noite às 21h
as luzes se apagarão,
e não somente naquela
casa
e não somente nesta
cidade.
vidas seguras se escondem,
quase
paradas,
a respiração dos
corpos e pouco
mais.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Do trato com a vida

Uno a embarcação
ao porto
e canto a convulsão
de um ser extinto.

Amo o sangue
que me crucia e doma,
com seu ferro.

Não espero
dos deuses,
pois engendro
o deus que me transfere
a solidão de ser
meu próprio invento.

Sou poeta,
formo o ciclo do tempo,
onde me enterro.

II

E vós quem sois? Vós que mostrais o orgulho
de monarcas sentados em seu trono e a ambição
de um jorro que se extingue. Quem sois?

Nada transpõe vossa usura,
nada transpõe a vaidade
das gazelas, com rosto de cavalo.

Vós que desprezais
do canto, a mina;
do tear da vida, a linha,
quem sois?

III

Se mostrardes
a erosão do dia
nas carroças,
concordarei com o sangue.

Se mostrardes
o término do jugo e sua máquina,
calada e represada,
concordarei com o sangue.

Não.
Não pactuo.
Não pactuo com o numerário das serpentes,
tentando violar a talha da nascente.

Não pactuo
com as garras
e o estômago encurvado
deste animal em desuso.

Não pactuo
com a turbulência fátua
da morte e o senhorio
que nos arrasta.

Entre areias sepultas,
estreitado na erva,
odiai-me fundamente.
Não pactuo.

Brotando das idades,
arbusto,
levedado no mundo,
odiai-me.

Sou vosso vômito profundo.

(Carlos Nejar)

sábado, 27 de março de 2010

Lost in translation

Uma das dificuldades maiores de alguém que muda de país, que deixa deveras frustrado qualquer ser humano nessa situação são as piadas, os trocadilhos e as tiradas.

Digo isso porque várias vezes tentei traduzir sem sucesso pro italiano as piadas recorrentes que faço em português. Algumas poucas vezes até é compreensível em italiano a minha tradução, mas daí esbarro sem dúvida em outra barreira: a do senso de humor.

Uma piada não entendida, ou até mesmo explicada, é broxante. Dá uma sensação de impotência diante do mundo, algo terrível. Hoje me deparei duas vezes em uma bifurcação dessas: fazer o não fazer a piada.
Estávamos em uma aula do mestrado. Estamos estudando poesias de um cara chamado Derek Walcott, já vencedor do prêmio Nobel, nascido em algum país caribenho. A discorrer sobre o assunto, o tradutor italiano desse mesmo poeta.

Enfim, em uma passagem o cara escreveu a palavra "moonlit" que significa iluminado pela lua. O problema é que traduzir uma palavra por três é realmente impossível. Estávamos então todos quebrando a cabeça, se em vez disso, cortar a lua e deixar só iluminado, ou então "sotto la luna" (sob a lua) que pelo menos fica menor. Foi aí então que me veio a idéia de criar um neologismo e dizer ilunaminato, que juntaria "luna" e "illuminato" em uma mesma palavra. Óbvio que seria uma tirada feita pra suscitar risos, descontrair a aula e ganhar alguns olhares de admiração das colegas. Até porque, apesar de substituir bem e dar o mesmo sentido do original, se o autor não usou um neologismo, quem sou eu, mero tradutor, a ter o direito de fazê-lo?

Mas como já vivi outras situações parecidas, em que minha tiradas geniais foram relegadas à escuridão do fosso das piadas ignoradas, calei-me. Embora ainda ache que seja genial.

Mais adiante, no mesmo trecho o autor fala de "dusk", cuja tradução pro italiano seria "crepuscolo", "tramonto", o nosso tão conhecido entardecer ou pôr-do-sol. De novo palavras gigantescas pra traduzir uma de quatro letras, o que quebra qualquer ritmo porventura existente. E daí começaram as piadas que eles mesmo faziam, tipo traduzir como antes da janta, essas coisas, e eu estava quase pra soltar uma, mas parei com ela na garganta.

Nunca calar foi um ato de tamanha sabedoria. Sairia dali tachado de louco se houvesse aberto a boca. Porque no Brasil, um país em que as pessoas fazem seu horário de acordo com a programação da Globo, dizer "depois da novela" todo mundo entende, e cai na risada. Mas aqui...aqui até passa novela brasileira, de tarde se nao me engano, aqui os programas até têm seus horários fixos e se repetem todo o dia, mas não se ouve falar "ah depois do jornal, depois da novel, depois do jogo". Aqui ainda não estão subjugados pela autoridade televisiva (embora estejam por Berlusconi, mas isso é assunto pra outro dia). Aqui cada um faz seu tempo.

Talvez por causa da violência no Brasil, ficamos mais tempo em casa e, por conseguinte, mais TV na cabeça. Aqui as pessoas caminham sem olhar pra trás pra ver se tem alguém seguindo. No Brasil a vioência nos faz ver novelas. E por culpa disso, perdi minha piada, uma vez mais...

Preciso de uma psicóloga, pra ver se recupero meu senso de humor. Sem meus trocadilhos, não sou mais o mesmo.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A arte de ler

Eu tava aqui, perdido entre as fotocópias do mestrado, as minhas traduções e a bagunça metódica do meu quarto quando percebi que tenho uma quantidade gigantesca de livros aqui que comecei a ler e parei na metade, não por falta de interesse, mas simplesmente por que paro de ler por uma razão mais ou menos razoável - como dormir ou trabalhar - e quando posso retornar à leitura, me esqueço dela e começo outra.

Resolvi então listar, por pura falta do que fazer, ou melhor, por falta de tempo pra escrever algo melhor, resolvi elencar os tais livros aqui embaixo, com alguns comentários a respeito, isso se eu já tiver formado uma opinião a respeito:

L'italiano - lezioni semiserie (O italiano - aulas semi-sérias) de Beppe Severgnini: o autor é um famoso jornalista italiano e o livro é um manual bem-humorado de como escrever bem a língua de Dante. Pra quem estudou jornalismo, lembra muito um manual de estilo, com os erros mais comuns que a italianada comete na fala e na escrita. E percebe-se que cada exemplo que ele dá você ouve muitas vezes ao dia. Mas como diz o título, as lições são meio sérias. Pelo menos se aprende rindo.

Romanzi e Racconti (Romances e contos) de Italo Calvino: Obra completa de um dos maiores escritores italianos do século passado. São três tijolões que quero terminar de ler ainda esse ano. Calvino é um mestre dos contos e um dos autores preferidos de Zaratustra. Esse maluco eu já conhecia ainda no Brasil, com os livros O Cavaleiro inexistente e O castelo dos destinos cruzados (o último deu origem a uma música dos Engenheiros do Hawaii, o que provavelmente vai distanciar os leitores, ao invés de aproximá-los).

La luna e i falò (A lua e as fogueiras) de Cesare Pavese: O autor é outro grande escritor do séc. XX. É o primeiro livro que leio dele e realmente interessante. Conta a história de um italiano que fez fortuna nos EUA, retorna à sua cidade natal e reflete sobre as mudanças das pessoas, da vida e etc. O livro foi o último publicado antes do suicídio do autor e o personagem principal é sem dúvida seu alter ego. Recomendo.

La grande sera (A grande noite) de Giuseppe Pontiggia: Este livro até já comentei outro dia, escolhi ao acaso, sem conhecer nem autor nem obra, e acertei na mosca. O escritor é um grande experimentador da linguagem e como diz na contracapa, o livro é uma pintura impiedosa da Itália dos anos 80, uma sátira lúcida e amarga de uma sociedade feita de ilusões cheias e vazios reais. Estou ainda no início do livro, mas to gostando davvero.

Carta aos loucos de Carlos Nejar: Esse é brasileiro. Achei uns tempos atrás numa loja virtual, comprei e quando vim do Brasil trouxe comigo. Nejar é um poeta e, como sempre digo, um dos poucos que merecem o posto que ocupa na ABL. Esse livro no entanto é um quase romance. Quase porque, mesmo tentando escrever em prosa, o cara não consegue, o que se torna aquilo que chamam de prosa poética, uma coisa de louco mesmo, como já nos adverte o título. O conteúdo é denso e difícil de ler. Mas é bom, embora eu ainda prefira a coletânea de poemas que achei num sebo em Londrina, "De Sélesis a Danações". A única coisa que estraga é o prefácio do Paulo Coelho. Mas como já disse algum sábio, é bom que existam coisas ruins no mundo. Só assim podemos comparar com as boas e, desta forma, teremos certeza que as boas são boas mesmo.

Um excerto: "O verossímil é uma inverossimilhança que bateu com a nuca nalguma lâmpada. A nuca ficou acesa e a lâmpada se apagou".

Nuova grammatica italiana: Essa não preciso explicar porque parei no meio. Teoria é chato pra baralho.

Teoria e storia della traduzione: idem.

Crie planilhas inteligentes com o Excel 2003: Esse eu tava lendo quando não fazia nada além de coçar o saco e esperar a minha cidadania. Um dia, quem sabe, eu termino de ler. Quem sabe...

A arte de escrever de Arthur Schopenhauer: O cara é um dos mais importantes filósofos alemães. Este livro traz textos selecionados em que o autor fala sobre o próprio ofício e tece comentários desta coisa legal pacas que é escrever. Comecei a ler ainda no Brasil e parei na página 52. Mas como não me lembro de nada, provavelmente terei de recomeçar do zero.

Aprendendo a viver de Clarice Lispector: Esse não terminei de ler simplesmente porque se digere em doses homeopáticas. São microtextos e apotegmas da grande escritora brasileira, que se fosse viva e da minha idade, eu casaria sem dúvida. Indispensável.

A Bíblia do caos de Millôr Fernandes: Como o livro da Lispector, são aforismas e se consome tudo lentamente, mas com o estilo sarcástico e inigualável do autor. Recomendo.

Agora me desculpem mas devo voltar ao caos da minha lunática rotina, meus textos, minhas traduções, meus etcéteras inseparáveis.

E depois tem a cerveja, é claro, pois hoje é meu dia de folga.

domingo, 21 de março de 2010

Do tempo

O tempo
passa
Time creeps
El tiempo pasa
y no vuelve jamás

Crescemos, envelhecemos,
vivemos,
e o tempo está sempre ali,
passando,
e nos vendo ficar.

O tempo, cruel,
corre.


Mas meu relógio
parou.

terça-feira, 16 de março de 2010

Minha aversão ao cinema no país das magavilhas

Já escrevi muitas vezes aqui sobre livros, literatura em geral, do que gosto e não gosto. Principalmente o que escrevo. Já escrevi - nem tanto assim - também sobre música. Mas creio que nunca me posicionei a respeito do cinema.

Ah, o cinema! Também conhecido como sétima arte - por algum motivo que a Wikipedia explicará a vocês - o cinema (neste âmbito, para mim, compreende filmes em geral, não apenas aqueles das telonas) me acompanhou durante toda a infância com a Sessão da tarde. Naquela época, como hoje, não tìnhamos video-cassete. Hoje, ao contrário daquela época, existe o DVD. Enfim...

Lembro de filmes que me marcaram, como Goonies, Curtindo a vida adoidado e Conta comigo. Já na adolescência, devidamente equipado com o famigerado vídeo-cassete, aluguei algumas vezes filmes na locadora. Mas aos poucos fui diminuindo o ritmo até o desapego total, sem nenhuma explicação lógica aparente.

Em Londrina devo ter ido no máximo umas 10 vezes ao cinema nos 13 anos em que ali morei. Mas sinceramente, são poucos os filmes que lembro com detalhes. Um deles é Seven, um dos raros bons que vi na sala fechada e escura.

Poucos dias atrás, depois de quase dois anos na Itália, resolvi encarar o cinema aqui. Psicologicamente eu já estava preparado pro maior choque, sabia que nos cinemas europeus em geral os filmes são dublados. A obra: Alice no país das maravilhas. Não é exatamente o que eu chamaria de uma história atrativa, até porque todo mundo sabe como começa e termina, mas com Tim Burton dirigindo, vabbe', ci provo. Imaginei que pelo menos alguma coisa interessante aquele doidao faria com o enredo, como já o fez com o primeiro Batman e também com aquele que não lembro o nome, cujo personagem é o Beetle Juice - ridiculamente traduzido em português como besouro suco, quando o correto seria Suco de besouro -, personagem muito bem encarnado pelo segundo melhor ator do mundo, Jack Nicholson (o primeiro é Bill Murray)[Correção: o ator era Michael Keaton, como a Wikipedia e a nobre leitora Karen me mostraram, mas ele, no fundo no fundo, imitava o Jack Nicholson].

Além disso, dentre as histórias ditas infantis, essa é a mais interessante, na minha molesta opinião. Um gato que vira fumaça, um chapeleiro maluco, fora as doideiras durante o conto, cresce Alice, diminui Alice, o coelho atrasado, a Rainha de Copas e seu exército de cartas. Literalmente, é do baralho!

Mas a grande novidade mesmo é que foi o primeiro filme em 3D da minha história nesse planeta.

E isso é doido. Desviei umas 3 ou 4 vezes a cabeça de algum estilhaço virtual durante o filme. Mas é aquela coisa: se o que chama a atençao é o visual, certamente faltará algo de interessante em algum outro lugar.

Resumindo: fraco, muito fraco. Diálogos bestas. Clichês. Enredo pífio. O cenário é legal e o 3D combinou bem. Mas o final me dá asco. E não sei se pagar quase o dobro de um filme normal só pra ver em 3D vale a pena. Provavelmente não.

Esclarecendo, não é que me orgulho dessa minha incultura cinematográfica. Sei que existem filme ótimos e que deveria vê-los com mais frequência (até hoje as pessoas ficam estarrecidas porque eu nunca vi nem Laranja mecânica nem Pulp fiction, entre outros clássicos), mas toda vez que me aventuro em um cinema, acabo por me decepcionar no final.

Protelo, desta forma, meu vício cinéfilo em estado embrionário. Um dia ele se desenvolverá. Se não for abortado antes.

E foi assim que, uma vez mais, o cinema me decepcionou, o que me deixará provavelmente alguns meses (anos, décadas?) longe da telona, baixando filmes que porventura me chamem a atenção de graça na internet, ou simplesmente vendo pela TV. Aqui na Itália pelo menos não faz tanta diferença. Dublado por dublado, prefiro dublado de graça.

domingo, 7 de março de 2010

Abobrinha

Sinto um vazio por dentro
é a fome.
Como.

Mas continua o vazio
é a sede.
Bebo.

E ainda assim
o vazio permanece.
Padeço

Sinto um perfume

e da memória ressurgem
pedaços.

Vários pedaços.

E tudo
é um perfume.

but what's a perfume?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Amelia Rosselli

"Mas se a morte vencia era a corrosão a me impedir de
revelar aos outros aquilo que faltava em mim. A ciência dos
números era a minha fortaleza, a ciência dos amores a
minha fraqueza. Eu não sou um Chinês! Não tenho poder! As
minhas condições são de naufragar! No naufrágio da
grande andorinha que sobrevoava acima da minha cabeça realmente
redonda estava o segredo da minha misantropia. Cantava histórias
e descia um degrau a cada passo em falso. Acima da minha
cabeça realmente redonda nascia o quadrado da certeza.
Se na cabeça realmente redonda nascia o retorno impossível
às antigas maneiras então na minha cabeça realmente redonda
caía o grão o sal de Deus, a última mina. Se na
redonda cabeça de Deus estava o incremento da jornada então
nas caretas dos jovens entrevia a bondade. Mas o
piche, o negro, o granizo, as fúrias, a revolta, a
canhonada, o país fora de si controlava cada movimento meu.
Antiga civilização descrita nos livros tu és a revolta que
não se deixou domar, tu és o mar que tinge de vermelho a
fúria dos ventos e leva à aurora uma canção."

Traduçao minha

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mafia e outros causos

Um procurador anti-máfia, sua esposa, e uma escorta de 3 seguranças, que os acompanham dia e noite, onde quer que estejam. Tudo isto ambientado numa Itália do século XXI, liderada por políticos de direita. Lideranças essas que possuem um enriquecimento inexplicavelmente veloz e duvidoso, tentáculos em quase toda a mídia italiana e um império empresarial incomensurável. As mesmas lideranças já foram acusadas algumas vezes de ligação com a máfia e, quando necessário, mudam leis para favorecer a si mesmas.

Um procurador anti-máfia italiano não deve dormir muito bem. Deve pensar que a qualquer hora podem chegar mafiosos com metralhadoras à la Dick Tracy, ou, pior ainda, aniquilando silenciosamente todos sem que ninguém perceba. Onde está o Chuck Norris quando a gente precisa?

Aqui na bota ainda existem as famosas máfias da Camorra e Cosa Nostra, respectivamente em Napoli e na Sicilia, além de outras quase ignoradas no Brasil, como a 'ndrangheta da Calabria, tida como uma das mais fortes na atual época.

Imaginem um enredo assim. E quando se hospedam num hotel (um hotel qualquer), além do procurador, sua esposa e os 3 de escorta, a polícia local liga e faz rondas na vizinhança, pra saber se está tudo tranquilo. Imaginem então o que se passa na cabeça do recepcionista da noite, numa situação dessas.

Eu não precisei imaginar.

* * *

To lendo um livro muito interessante, de um tal de Echenoz (francês), e que se chama "Al pianoforte". Um outro dia falo mais dele. Mas o que me chama muito a atenção é a informalidade do narrador, que até tira uma em cima do leitor. Esse tipo de metalinguagem (seria isso uma metalinguagem? ou uma metaleitura?) sempre achei divertida e inteligente. É o típico livro que eu diria: até parece que fui eu quem escreveu.

Moléstia à parte...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Poi zé, amigo...

"Não é preciso muito pra intuir como reagirá uma pessoa inteligente, que coisa fará em determinada circunstância, porque partimos do pressuposto que se deixa guiar pela lógica... Enquanto é impossível prever que coisa fará um imbecil"

Georges Simenon - A louca de Itteville

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Bentornato, Zaratustra!

Depois de breve período de férias ensolaradas e quentes no Brasil, a Itália me saúda com seus 5°C e chuva.

De volta aos livros.

sábado, 23 de janeiro de 2010

"O dia passa devagar quando a gente tá com saudade de alguém"

Minhã irmãzinha, 8 anos, me surpreendendo (mais uma vez) por telefone, falando de um dia que ficou longe da mãe.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Constatações

Por mais que a gente tente ou nossa economia avance, ou mesmo se, subitamente, todos os nossos políticos começassem a ser honestos, não tem jeito, a Europa vai estar sempre à frente do Brasil. A não ser que mudem o fuso horário.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Maddening sameness

Eu poderia ficar aqui por linhas e linhas traduzindo outros textos do mestrado; neste momento, aliás, eu deveria estar estudando teorias, lendo livros (e trechos deles), procurando palavras desconhecidas no dicionário como "skeezed", "swagman", "saddle-strap", passando para o computador as anotações que fiz na última aula; eu poderia discorrer nesse espaço como achei interessante a expressão "maddening sameness" de um conto não menos interessante do autor australiano Henry Lawson, e como essa expressão (que significa algo como monotonia enlouquecedora, mas com mais estilo) traduz em duas palavras um estado de espírito incrivelmente comum nessa nossa era incrivelmente atípica e transbordante de novidades e informações - e por causa disso, paradoxalmente, monótona; Eu poderia excrusive estar perdendo meu já escarso tempo no orkut, mas decidi falar de Jeanne.




Sim, Jeanne é seu nome. A conheci em março, logo que cheguei no hotel, e cruzo com ela todo dia de trabalho. Com esse nome, provavelmente nao é italiana. Não sei sua nacionalidade e creio que mesmo se eu perguntasse, não me responderia.

Jeanne tem feições finas, cabelo liso levemente ondulado e està sempre usando um coque. O olhar fixo é curioso, mas não menos cativante. Não esboça nunca um sorriso. Nunca ouvi sua voz. Mas está sempre ali, ao lado dos clientes que tomam o café da manhã, no primeiro andar deste velho hotel de Pisa.

Pensei em perguntar aos outros colegas sobre Jeanne, mas seria muita indiscrição da minha parte. Talvez nem mesmo eles saibam como ela veio parar ali no hotel. Na verdade, parece que todos estão abituados a sua presença, menos ela mesma. E eu.

Ontem decidi encará-la. Eu estava de pé em sua frente, olhando fixo nos seus olhos. Não esboçou reação. Perscrutei-a, insisti. Passei a mão em seu rosto, mas era frio, e essa frieza eu não esperava. Olhei ao redor e procurei seguir seu olhar, tentando identificar o que buscava com incansável insistência. E exatamente nessa direção fica uma das paredes da sala. Relutantemente, desisti.

Hoje vindo de novo ao trabalho, ali estava Jeanne. Desta vez eu que a ignorei. Quando às 3h da manhã fui fazer a ronda pelo hotel, passei ao lado do meu já velho conhecido e (posso dizer) grande amigo, busto de Dante. Depois de cumprimentá-lo como sempre fazemos (cito um verso aleatório da Divina Comédia, ele complementa e damos boas risadas, grande figura), percebi que meu amigo está posicionado exatamente atrás da parede que Jeanne insiste em mirar, com inesgotável ânsia. Jeanne, oh Jeanne, pequena e inocente criatura, todos esses meses (seriam, talvez, anos?) procuras simplesmente o contato com o "sumo poeta"? Saberás tu que ele percorreu o purgatório, os céus e o inferno em busca de sua amada Beatriz? Saberás tu que ele é oficialmente comprometido, ou seja, sem chance mulher!? Saberás tu?

Perguntei a Dante o que acontecia e ele, com aquela sua abitual carranca, respondeu que não gosta de tocar no assunto porque Beatriz é muito ciumenta. Mas ao pronunciar essas palavras, percebi um leve sorriso, como o da Gioconda, no canto da boca. "Ah, garanhão", eu disse em latim com uma leve cotovelada no seu ombro, e voltei pra recepção. "Esse Dante é uma comédia!" pensei rindo, enquanto descia as escadas.

Posso imaginar o que acontece a essas horas da madrugada lá em cima, quando o busto de Dante fica sozinho com o busto de Jeanne, sem o fantasma de Beatriz por perto. Curiosamente, no hall do hotel tem um outro busto de mulher, mas essa não tem nome. Também é bela, e seus olhos semi-cerrados fitam o chão, como se os desviasse por qualquer motivo. A cabeça volta-se levemente para seu ombro direito, como se uma forte desilusão a tivesse acometido. Como se, além da impossibilidade do movimento, sua tristeza perene tivesse origem na decepção e no amargo sabor que somente um ser humano tem ao descobrir-se traído por seu verdadeiro amor.

Eis que encontro Beatriz.

sábado, 9 de janeiro de 2010

quase hai kai

Dizem que a verdade é que
o importante é o que importa.
Mas a verdade é outra, e diversa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Que merda!

Enquanto não me vem nada pra escrever, coloco aqui mais um exercício de tradução do mestrado. A autora é Sujata Bhatt, nasceu na Índia em 1956, cresceu nos EUA e mora na Alemanha. Eis aqui minha tradução:



Feminilidade

Eu pensei muito na garota
que recolhia esterco de vaca em um grande cesto redondo
ao longo da rua principal que passa em frente à nossa casa
e ao templo Radhavallabh em Maninagar.
Eu pensei muito na maneira como ela
movia as mãos e os quadris
e o cheiro de esterco de vaca e de estrada de chão e de lírios úmidos,
o cheiro de bafo de macaco e roupas recém-lavadas
e o pó das asas dos corvos que cheiram diversamente -
e de novo o cheiro de esterco de vaca enquanto a garota o põe
dentro, todos estes cheiros me cercavam separada
e simultaneamente - eu pensei muito
mas estava pouco propensa a usá-la como uma metáfora,
como uma boa imagem - mas sobretudo pouco propensa
a esquecê-la ou explicar a alguém a grandeza
e a força brilhando através do seu zigoma
cada vez que ela encontrava um particularmente promissor
monte de esterco -


A primeira vez que li achei estranho pra caramba, uma poesia falando de esterco de vaca e bafo de macaco. Mas o que à primeira vista é insólito, no final se explica. Pois a beleza não tá no esterco, tá no brilho dos olhos da garota. A seu ver o esterco é belo, porque a ajuda a comer (não a comer esterco, óbvio, mas a ganhar dinheiro), e o olho dela brilha quando o vê. A magia da bagaça está nesse átimo que transforma o encontro com o esterco em algo belo.

Óbvio que devemos contextualizar o negócio. Na Índia, a vaca é um animal sagrado, as vacas andam livremente, matar uma vaca é uma blasfêmia (ou algo do gênero, um pecado, sei lá, já esqueci as minhas leituras de história das religiões), então tem literalmente merda pra tudo que é lado. E mais do que criticar uma garota ou uma sociedade por um trabalho subumano (isso para nós, ocidentais), a autora vê a beleza feminina sublime nos gestos, movimentos e no olhar da garota enquanto coleta o cocô sagrado da vaca (cocô esse que, enfim, é secundário, mas chama a atenção exatamente pela singularidade da situação), e tudo se transforma em poesia.

Pelo menos é com essa argumentação que to tentando me convencer...mas o final do poema é legal, justamente por ser insólito. "Um promissor monte de esterco"... magnífico!


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Prosecco, fantasmas e o ano novo

Agora são 23h54 no horário italiano. Alguns fogos de artifício. Não muitos, comparando com o Brasil. Estou no trabalho, uma taça de Prosecco do meu lado. Quadros antigos e o vazio ao meu redor. Prosecco, pra quem não sabe, é um vinho frisante tipicamente italiano, que ao invés dos frisantes normais, não é doce, mas como diz o nome, seco.

Os clientes estão fora, ou estão nos seus quartos. Pra quem não sabe, trabalho num hotel, e nesse exato momento faço o turno da noite na recepção. Mas como eu ia dizendo, todos estão por aí, menos aqui. Embora Pisa não seja uma cidade de grandes atrativos. A maquininha do cartão de crédito acabou de fazer seu bip pontual da meia-noite. Ela não sabe que é dia de festa. Hoje é um dia como qualquer outro pra ela. O que não deixa de ser verdade também pra nós. Ou pelo menos pra mim. Bebo um gole.

Meia-noite. Já tive reveillons melhores na vida. Hoje, como várias outras vezes aqui na Itália, é um dia que me faz pensar e comparar. Penso como foram meus outros reveillons, penso no calor que faz agora no Brasil e como seria ótimo estar à beira-mar nesse exato momento. Penso neste tempo que estou aqui na Itália. Penso no futuro próximo, quando retornarei ao Brasil por alguns dias... Se não se quer chegar a conclusão nenhuma, pensar talvez não seja a melhor escolha. Tarde demais. Outro gole.

Como eu dizia, Pisa não é um "granché" no que se refere a divertimento. Uma cidade de mais ou menos 80 mil habitantes, cuja metade da população é estudante, o que torna a situação mais bizarra ainda, porque no Brasil onde há estudante, há festa. Pisa não. Pisa possui leis que proibem a abertura de locais depois das 2h da manhã (sexta e sábado) e depois da 1h nos dias de semana. Pisa não possui discotecas. Pisa, enfim, é uma cidade de velhos, feita por velhos e para velhos, muito embora a população predominante seja de jovens.

Depois de 10 meses morando aqui, já desisti de tentar achar uma exceção. Já imaginava que o ano novo seria pobre de opções e, pior ainda, com a chuva que cai agora. Duas da manhã estarão todos em casa, enquanto a chuva, o frio e os fantasmas medievais percorrem as ruas da cidade.

Nessas horas, é melhor estar trabalhando. Ironicamente, é a primeira vez que ficarei acordado no ano novo até às 9h da manhã. Não lembro quando, mas um tempo atrás, enquanto eu reclavama da falta de opções da cidade com meus fantasmas, um deles me respondeu: "talvez seja melhor assim, porque daí você estuda, se Pisa fosse agitada à noite, provavelmente você não faria isso".

Bebendo meu Prosecco, enquanto soa Audioslave no computador do trampo, começo a concordar com ele. É, meu fantasma, talvez 2010 seja hora de estudar mesmo. E depois teremos uma vida inteira pela frente. Eu e ela.

Um feliz ano novo a todos. Auguri!

domingo, 27 de dezembro de 2009

Exercícios de tradução



"Todo o mundo é viúvo se é verdade que caminhas ainda
todo o mundo é viúvo se é verdade! Todo o mundo
é verdade se é verdade que caminhas ainda. todo o
mundo é viúvo se não morres! Todo o mundo
é meu se é verdade que não estás vivo mas só
uma lanterna para meus olhos oblíquos. Cega permaneci
do teu nascimento e a importância do novo dia
não é que noite pela tua distância. Cega sou
se tu caminhas ainda! cega sou se tu caminhas
e o mundo é viúvo e o mundo é cego se tu caminhas
ainda agarrado aos meus olhos celestiais"

Amelia Rosselli (1930-1996), poetisa italiana

Traduçao minha

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Do futuro

Bebo uma cerveja. O frio passa em frente à minha janela. As luzes do quarto apagadas. Eu olho pela janela. Eu penso.

Outro gole. Tiro os óculos e de repente minha visão se embaça. Vejo luzes e escuros desfocados. O frio passa. Olho pro relógio: é tarde, muito tarde. Eu penso.

O computador toca Cafe Tacuba. É incrível como a língua espanhola é melancólica, e ao mesmo tempo tão bela. Outro gole. E eu penso no futuro.

O futuro...o futuro promete e ao mesmo tempo distancia. O futuro poderia ser belo como uma música do Cafe Tacuba. Poderia ser simples. Mas a simplicidade não combina com Deus. Deus exige o complexo, o caos, a provação. Deus exige atenção.

Deus exige.

Outro gole. Abro a janela e o frio entra e me envolve. Me deixo ficar. O futuro está próximo. El futuro es mañana. Una mañana linda...

A cerveja termina. O frio continua. O futuro, em um mês, dará provas de existência. "Espero que Deus não seja tão sarcástico comigo", estava escrito no livro.

"Amém", disse o poeta, últimas palavras, lucidez completa.

Depois, silêncio. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Aquele ali

Eu sou um narrador em terceira pessoa. Embora agora eu esteja falando de mim, o que me desmente, estou aqui pra falar de outro. Aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso. A mao, no singular. A outra nao tà no bolso.

Aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, neste momento procura alguma coisa no bolso da camisa, com a outra mao que nao estava no bolso, embora agora esteja, mas em outro. E muito embora eu seja um narrador em terceira pessoa, o escritor que me criou e que criou também aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, nao me fez onisciente. Quer dizer que eu nao sei dizer o que se passa na cabeça daquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso. Também nao sei seu nome, nem ao menos o que procura no bolso. E se por acaso aquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, resolver ir embora, nao poderei mais dizer nada a seu respeito.

A outra mao daquele ali, que tà sentado na mureta com a mao no bolso, que procurava qualquer coisa no outro bolso, o da camisa, a outra mao saiu de là, segurando um maço de cigarros.

Com um cigarro na boca aquele ali, que tà sentado na mureta, agora nao tem mais nenhuma mao em bolso algum, porque a mao que estava dentro do bolso saiu de là com um isqueiro pra acender o cigarro daquele ali, que agora està fumando, ainda sentado na mureta.

Aquele ali, sentado na mureta, fumando, tirou o òculos de sol pra coçar os olhos e virou a cabeça pro outro lado da mureta, botou de novo os òculos e coçou o saco com a mao que estava primeiro no bolso. A outra mao jogou a bituca fora, e entrou no outro bolso, enquanto a primeira mao daquele ali, que coçava o saco em cima da mureta, ajudou a dar o impulso pra sair da mureta e entao aquele ali, que tava na mureta com a mao no bolso, atravessou a rua e dobrou a esquina.

Aquele ali, que jà nao està mais na mureta, que coçou o saco e jà dobrou a esquina, aquele ali ninguém sabe de seu fim. Nao sabemos nem ao menos se a outra mao ainda està no bolso. Ou se coça o saco pelo furo do bolso. Ou se fuma outro cigarro, colocado na boca pela primeira mao, que no inìcio estava no bolso.

A ùnica coisa que sei è que nao tem mais ninguém ali.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Às cinco

Quando o sino da Igreja soa, é já noite, e o frio envolve a cidade de Pisa no inverno, como um cachecol de gelo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O inferno de Dante (e de Shakespeare, e de Camões...e o meu também)


A correria destes últimos dias tem sido grande. Leio muito e tenho que começar a tomar cuidado pra não embaralhar tudo que to lendo. Mas enfim, como já disse algum nobre filósofo, é a vida.
Falando em nobreza, não que eu seja nobre, embora seja Dalla Corte (hein hein?), enfim, piadas infames à parte, como eu dizia, falando em nobreza, hoje em um seminário do mestrado o professor deu um exemplo muito certeiro, que achei legal compartilhar aqui com vocês, meus fantasmas.
Contextualizando o ocorrido: o professor nos deu cópias de trechos de MacBeth, de Shakespeare, na versão original, e depois confrontava estes trechos primeiro com uma “tradução” prum inglês moderno (fraca, por sinal) e depois com várias traduções feitas em diferentes  épocas para o italiano. Viam-se coisas absurdas.
Aí entra a questão do distanciamento, não somente entre duas línguas diversas (ou culturas diversas, pra ser mais preciso), como também o distanciamento temporal na mesma língua, ou seja, querendo ou não o inglês da época de Shakespeare não é o inglês de hoje, assim como o italiano de Dante diverge do italiano de Gérson.
Neste momento o professor perguntou: é justo traduzir Shakespeare para uma linguagem moderna?
Antes de eu começar a pensar na resposta, aconteceu uma discussão, mas entre professores. Nunca vi isso no Brasil, mas aqui é normal (ou pelo menos parece) um professor assistir a aula do outro e não só, discutir e questionar o que o outro está propondo. (Creio que se ocorresse no Brasil, depois da aula um diria pro outro, po, ta querendo me fuder na frente dos alunos? Aqui eles discutem, e embora parecesse que o professor fosse dar meia-volta, permaneceu na sala)
Enfim, não to aqui também querendo dizer que todas as intervenções são oportunas. Na verdade ninguém entendeu porra nenhuma do que o cara tava dizendo, e perderam preciosos minutos da aula por uma discussão vã e inútil. Só sei que finalmente o tal professor conseguiu uma brecha pra explicar melhor.
Disse ele, diante da argumentação fervorosa das outras professoras, que Shakespeare escrevia o inglês comum à época, da plebe, não o inglês dos nobres. Da mesma forma, Dante, que foi um dos primeiros senão o primeiro a escrever em latino volgare (que virou o italiano de hoje), escreveu na língua do povo, de outra forma teria escrito em latim, a língua oficial à época. Ou seja, a tradução à linguagem moderna de certa forma seria um retorno ao objetivo inicial do bardo inglês, que era falar a língua do povo. As professoras se chocaram de novo...
E o professor, meio que pra alfinetar de vez, explicava que no futuro, daqui uns 200 ou 300 anos Bob Dylan e Elvis Presley serão estudados pelos cientistas como hoje fazemos com esses poetas antigos. E a língua de hoje será tão arcaica a eles quanto é Camões e Os Lusíadas pra nós ou Cervantes e Dom Quixote pros Castelhanos. Uma professora, que sentava na fileira logo atrás da minha murmurou “Bob Dylan, sinceramente...”. Eu ria sozinho.
No fim o professor disse: “Il tempo nobilta”. Foi um certo neologismo, pois usou o substantivo nobiltà e o utilizou como verbo, embora exista o verbo nobilitare, que é tornar nobre. Uma tradução mulambenta seria O tempo nobra. Em suma, o tempo enobrece. O que era popular torna-se elitizado, torna-se nobre. Vimos isso durante toda a história da humanidade, não só com escritores, mas também na música (um exemplo o jazz), em manifestações populares (ex. o carnaval) e com políticos (depois de mortos, são todos respeitáveis). Poderia citar outros exemplos vários, mas não vem ao caso agora.
Portanto, não adianta escrever com pompas e circunstâncias. Depreende-se que o popular será eternizado e, posteriormente, adorado pelas gerações futuras de intelectuais, cujos filhos farão caretas aos professores quando tiverem que estudar Bob Dylan no segundo grau e, o pior, pro vestibular.


O mais importante, na verdade, e no final,  é que o tempo nobra. Mas a verdade é outra, e diversa.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Resolvido o maior problema do século

Durante este tempo que estou aqui na bota, mais de um ano, aprendi o nome de várias comidas, que com saudade da culinária brasileira eu procurava aqui. Mas uma coisa eu nunca descobri: como se chama o chuchu em italiano.

Chuchu nao tem gosto, eu sei, mas fazer o que, é bom. E meus dicionários sempre me negavam a tradução desta palavra. Até hoje.

Usando um pouco a testa, ao invés de traduzir diretamente pro italiano, resolvi procurar na língua dominante do mundo, e descobri que chuchu em inglês cham-se chayote. Daí, sabendo que a italianada gosta de puxar o saco do tio sam (quando nao traduzem uma palavra, usam em ingles mesmo), coloquei no dicionário chayote e em italiano o nosso famoso chuchu chama-se zucchina centenaria. Zucca em italiano é abóbora. Seria alguma coisa como abobrinha centenária.

Agora nao me perguntem o porque de tudo isso.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sem tempo

tá

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

...

Tanto, tanto...

Muito.

Mesmo.

E basta!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Teorias de traduçao e estudos culturais pòs-coloniais

"(...) Figured in the disjointed signifier of the present, this supplementary third space introduces a structure of ambivalence into the very construction of Jameson's internationalism. There is, on the one hand, a recognition of the interstitial, disjunctive spaces and signs crucial for the emergence of the new historical subjects of the translational phase of late capitalism. However, having located the image of the historical present in the signifier of a 'disintegrative' narrative, Jameson disavows the temporality of displacement which is, quite literally, its medium of communication. For Jameson, the possibility of becoming historical demands a containment of this disjunctive social time."
Homi K. Bhabha - How newness enters the world: Postmodern space, postcolonial times and the trials of cultural translation in The Location of Culture. London ; New York: Routledge, 1994

Nao sei porque tudo isso me faz lembrar do Fabuloso gerador de lero-lero, que tanto me inspirou na graduaçao e a tantos ainda inspira.(digite no google pra descobrir do que se trata)