domingo, 29 de agosto de 2010

O eterno retorno

Sobrevivi, pois, a tudo. De volta à Italia. Em poucas horas, de volta à Pisa.

Em breve, as histórias.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Rapidinha 3

Eu sou Franz Kafka.

Rapidinha 2

Praga. Nada mais a dizer.

domingo, 15 de agosto de 2010

Rapidinha

Já sobrevivi Bruxelas e suas cervejas e Estocolmo e suas loiras.

Hoje sigo para Copenhagen. Fotos infelizmente, só no final.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Esboços

Na página 107, o personagem relatava: "sinto que atingi o ápice, a sabedoria, a compreensão de tudo. Compreendo o mundo, compreendo o que as pessoas pensam, até mesmo as razões pessoais para suas brigas e guerras. Entendo as razões, como entendo a motivação dos assassinatos, como entendo o papel da burocracia na pós-modernidade e a exasperação dos politicos e seus adversários. A ânsia da imprensa e suas segundas intenções, as corrupções e fraudes, mas também compreendo o voluntariado, a existência do amor e da esperança, da honestidade. O carinho e a ajuda de pessoas comprometidas com os outros, entendo tudo e todos, os bons e os maus, o que os motiva e o que os leva a serem o que são e a agirem como agem. Entendo o mundo, sim, estou ali em cima, vejo das alturas a humanidade explicada, mas eles não me compreendem e não compreendem uns aos outros. Ter a consciência de tudo, inclusive a consciência de saber que nunca serei compreendido, ao contrário do que um dia imaginara, me causa apatia, me deixa inerte, sentado no topo do mundo, desmotivado. Fico ali, parado, vendo o mundo passar, sabendo que nada posso fazer, e mesmo que tente fazer alguma coisa, são os outros que não conseguem se compreender, e por isso também não me compreenderão. Estou condenado à sabedoria e à solidão, pois a sabedoria possui uma característica intrínseca que é a de isolar o seu possuidor. Come se fosse uma maldição, por tê-la alcançada."

Na página 108 não existia mais personagem.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ah, o verão!


Aqui na Europa agora é verão. Enquanto falo com a família que por telefone se lamenta do frio, estou no meu quarto com o ventilador ligado, a janela escancarada e bebendo litros e litros de água gelada. Momentos esses alternados com pequenas viagens à praia. Ah, sim, e também o trabalho.

Mas não vim aqui falar sobre isso, ou somente isso. A verdade é que deixei meio de lado tudo que estou fazendo ou planejando fazer na vida pra me concentrar no planejamento das minhas férias de verão.

Serão quinze dias mochilando de trem pela Europa (o verbo mochilar é muito interessante, diga-se de passagem. E é inexistente nos dicionários). O roteiro é indefinido, porque comprei o Interrail, uma passagem única que me permite andar por todos os países que eu quiser ou conseguir em quinze dias. Pra quem se interessar, existe também o Eurail, para quem não é residente na Europa.

A única coisa que sei é onde começo a viagem e alguns pontos de referência, mas todos sujeitos à mudança, de acordo com o meu humor e de outros fatores que estão acima da minha compreensão. A verdade é que uma viagem dessas há anos, muitos anos eu queria fazer, mas só agora consegui me organizar.

Começo pegando um avião de Pisa até Bruxelas na Bélgica, depois outro até Estocolmo na Suécia, de onde inicia a contagem dos 15 dias de trem. Uma vez ali, vejo o que faço da vida. Mas a idéia nessas duas semanas é conhecer também, no mínimo, Copenhague na Dinamarca e Berlim na Alemanha. Se der tempo, Praga na Rep. Tcheca, Budapeste na Hungria, as montanhas Tatra (divisa entre Eslováquia e Polônia) e um ponto perdido dos Alpes suíços. Sem contar as paradas no meio do caminho, os contratempos, as mudanças de plano de última hora, os zilhões de fotos, alguns souvenirs, sol, chuva e cervejas várias.

Queria muito poder atualizar o blog à medida que passasse pelas cidades, mas os 2 kg do notebook podem ser importantes pra dar alguma folga pras minhas costas, se deixados em casa. Tentarei manter um diário de bordo escrito (sim, ainda é possível escrever com papel e caneta!) com minhas percepções da bagunça de culturas e línguas em que vou mergulhar e, se for aproveitável, publicarei aos poucos no meu retorno. Com fotos, óbvio.



E talvez um pouco de ficção no meio, pra ficar mais legal.

Então não se assustem se eu demorar pra retornar a essas paragens. É por um nobre motivo.

A gente se fala!

G.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O pingo

Era um pingo que caiu no meu olho enquanto eu caminhava apressado, às 7h38 da manhã, logo após uma inteira madrugada de trabalho, fria e chuvosa, que parecia não mais terminar. 

Chuva esta que caía desde às 21h do dia anterior, alguns minutos antes de eu me acordar a contragosto de um cochilo providencial. Meus olhos queriam manter-se fechados. Água gelada no rosto pro choque térmico inicial de qualquer dia de trabalho. No meu caso, noite. Um copo (d'água, não d'uísque). O trabalho, a chuva. 

A madrugada passou lenta. A chuva, a mesma ainda, rumorejava pelas frestas das janelas. O relógio, estupefato, paralisou-se. Da minha mesa, através do vidro eu olhava o rio sendo molhado pelo pé da água, que aos poucos diminuía.

O rio, passou. O trabalho, enfim, está dito e feito. Fui-me embora.

A chuva, a esta altura, parecia finalmente ter cessado. Foi quando olhei para o céu, e o pingo caiu no meu olho. Pisquei, mas meus olhos já se piscavam do sono.

O pingo foi apenas a gota d'água.

___________________________
Texto ignorado em um concurso de contos curtos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Há coisas, há
Muitas coisas
E me pergunto
Onde foi que eu errei
Nesta vida

As belas coisas da
Vida
Parecem não funcionar

A vida é dourada
Mas o ouro não é para todas as pessoas
Na verdade
Ouro não é para pessoas

Ouro é um sonho
Que duvida de si mesmo
E de sua própria existência

Raridade seria uma qualidade
Se fosse uma escolha
A raridade me fez perder o controle

Exceções para um
Não são exceções para todos
O que você espera,
Normalmente,
Não é o que você terá

O que você pensa sobre
Tudo
Não é como as coisas realmente são

Vergonha e arrependimento
Devem ser algum
Tipo de dor inconsciente

Que vêm e vão
Quando bem querem

Eu quero uma realidade
Apesar da minha ansiedade
Nonsense
Eu quero uma criação
Separada dos meus medos
De ser
Novo

As paredes se fecham atrás
De você

O lugar não é um
Palácio

Você pensa que vai embora.
Você pensa que vive.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Frase

E a verdade é que nunca conheceremos a verdade.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Last in translation - 2

HERMANN O IRASCíVEL - A história do Grande Choro
Saki (Tradução minha)

Foi na segunda década do Séc. XX, depois que a Grande Peste devastara a Inglaterra, que Hermann o Irascível, também apelidado de “o Sábio”, sentou-se no trono britânico. A doença mortal varrera toda a família real até a terceira e quarta gerações e foi assim que Hermann XIV de Saxe-Drachsen-Wachtelstein, o trigésimo na linha de sucessão, viu-se um dia soberano dos domínios britânicos dentro e além-mar. Era uma dessas coisas inesperadas que acontecem na política, e ele surpreendeu com grande eficiência. Em muitos aspectos, era o monarca mais progressista a sentar em um trono importante; quando as pessoas julgavam entender o que ele pensava, ainda havia muito a compreender. Até os ministros, progressistas que eram por tradição, achavam difícil manter o passo com suas sugestões legislativas.

“O fato é que,” admitiu o primeiro-ministro, “estamos sendo constrangidos por essas criaturas do Voto para as mulheres; elas perturbam nossos encontros pelo país e estão tentando transformar Downing Street em um tipo de piquenique político.”

“Temos que lidar com elas” disse Hermann.

“Lidar,” disse o primeiro-ministro; “exato, somente isso. Mas como?”

“Redigirei um projeto” disse o Rei, sentando-se à máquina de escrever, “decretando que as mulheres poderão votar em todas as eleições futuras. Poderão, veja bem. Ou, sendo mais explícito, deverão. Como antes, o voto continua facultativo aos eleitores homens. Mas todas as mulheres entre vinte e um e setenta anos serão obrigadas a votar, não somente para as eleições parlamentares, conselhos contadinos, quadros distritais, conselhos paroquiais e cargos municipais, mas também para juízes, bedéis, sacristães, curadores de museus, autoridades sanitárias, intérpretes dos tribunais de polícia, instrutores de natação, empreiteiros, regentes de corais, gerentes de mercados, professores de arte, coroinhas e outros funcionários locais cujos nomes adicionarei à medida que me vierem em mente. Todas essas funções tornar-se-ão eletivas e o não comparecimento às urnas em qualquer eleição na sua respectiva área residencial, implicará à eleitora uma multa de 10 libras. Abstenções não justificadas com um apropriado atestado médico não serão aceitas como desculpa. Passe este projeto pelas duas casas do Parlamento e traga-me para assinatura depois de amanhã.”

Desde o início o voto obrigatório feminino suscitou pouco ou nenhum entusiasmo, mesmo nos círculos que exigiam com mais fervor esse direito. A maioria das mulheres do país era indiferente ou hostil à agitação pelo voto, e as mais fanáticas sufragistas começaram a questionar-se por que achavam tão atraente a perspectiva de colocar cédulas dentro de uma caixa. Nos distritos rurais a tarefa de executar os preparativos do novo ato foi muito cansativa. Nas vilas e nas cidades tornou-se um pesadelo. As eleições pareciam não acabar. Lavadeiras e costureiras saíam correndo do trabalho para votar, frequentemente em um candidato do qual nunca ouviram falar antes, escolhido por puro acaso. Balconistas e garçonetes acordavam muito cedo pra votar antes de entrarem em seus turnos. As damas da sociedade tiveram seus compromissos cancelados e desordenados pela necessidade contínua de comparecer aos colégios eleitorais, e as festas de fim-de-semana, como as férias de verão, transformaram-se gradualmente em um luxo masculino. Quanto a Cairo e à Riviera, eram acessíveis somente aos inválidos ou às pessoas de grandíssima riqueza, porque o acúmulo de multas de dez libras durante uma viagem prolongada era uma contingência à qual até mesmo os ricos dificilmente se arriscariam.

Não era de se maravilhar que a agitação feminina contra o voto tornara-se um movimento respeitável. As participantes da liga Não ao voto para as mulheres chegavam quase a um milhão; as cores do movimento, verde-limão e vermelho-holandês antigo, eram ostentadas por toda parte e o grito de guerra “Nós não queremos votar” caiu nas graças do povo. Como o governo não mostrou-se impressionado com a persuasão pacífica, métodos mais violentos tornaram-se moda. Encontros eram perturbados, ministros atacados, policiais mordidos e a ração popular, rejeitada. E às vésperas do aniversário de Trafalgar, as mulheres se colocaram em fila por toda a extensão da coluna de Nelson, fazendo com que as costumeiras decorações florais fossem abandonas. Mas o governo estava obstinadamente convicto de que as mulheres deveriam votar.

Em seguida, como último recurso, alguma mulher soube usar de um expediente que estranhamente não havia sido pensado antes. O Grande Choro foi organizado. Turnos de mulheres, dez mil por vez, choravam continuamente nos espaços públicos da metrópole. Choravam nas estações ferroviárias, metrôs e ônibus, na National Gallery, nas lojas The Army and Navy, no parque St. James, em concertos, no Prince’s e na Burlington Arcade. O sucesso até então ininterrupto da brilhante comédia farsesca Henry’s Rabbit foi ameaçado pela presença lúgubre de mulheres chorando na primeira fila, nos balcões e nas galerias, e um dos casos mais notórios de divórcio julgado nos últimos anos foi ofuscado pelo comportamento lacrimoso de uma parte da audiência.

“O que faremos?” perguntou o primeiro ministro, cuja cozinheira chorara sobre todas as louças do café da manhã e a babá, em pranto infeliz e silencioso, saiu a passear com as crianças no parque.

“Tudo tem seu tempo” disse o Rei, “e é tempo de ceder. Passe esta medida pelas duas Casas destituindo o direito ao voto das mulheres e traga-a para mim depois de amanhã, para consentimento real.”

Quando o ministro retirou-se, Hermann o Irascível, também apelidado de “o Sábio”, gargalhou intensamente.

“Há outras maneiras de matar um gato além de empanturrá-lo com creme,” sentenciou, “mas não estou tão certo se não é esta a melhor maneira”.

 Hector Hugh Munro, conhecido como Saki (18/12/1870 a 13/11/1916), nascido na antiga Birmânia à época ainda parte do império britânico, atual Mianmar

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Diário de um Saramago

Há alguns dias morreu Saramago. Nesses 7 anos de blog (caramba, tudo isso...) escrevi algumas vezes sobre o português prêmio Nobel. A última vez foi quando descobri o seu blog, cujo link está ali do lado, e nos últimos dias antes do falecimento vinha sendo atualizado pela Fundação José Saramago com citações e frases suas, talvez um pequeno sinal do que fatalmente ocorreria.

Não posso negar que Saramago, como escritor, é um dos meus preferidos. Se não me engano, está entre os autores com mais livros na minha pequena biblioteca, com sete ou oito exemplares, provavelmente junto a Carlos Nejar, Charles Bukowski e a família Verissimo.

Mas aqui na minha pequena biblioteca italiana não tenho nenhum livro seu. E fiquei relembrando de seus livros. O primeiro que li chamava-se O Homem duplicado. E não contarei a história, a única coisa que posso dizer é que não consegui parar de ler até terminar o livro. O estilo do Saramago, cuja pontuação se restringe a ponto final e vírgula, é já um grande desafio; não perder-se nos diálogos rápidos e nas divagações do narrador em parágrafos longos, é outro, mas com o ponto justo de ironia e sarcasmo, aceitamos o desafio com prazer.

Ano passado havia descoberto na internet um vídeo baseado no único conto infantil do Zé, narrado por ele mesmo, e que publico ali no final do post. Quando soube da morte, tentei achar alguma citação sua nos meus arquivos ou na internet, um modo de homenageá-lo. Mas não tinha nada, o hábito de recolher citações de livros, para mim, é uma coisa recente. E percebi que não existe melhor modo de homenagear um autor que lendo a sua obra.

Eis aqui o vídeo:

domingo, 20 de junho de 2010

Last in translation - 1

Não sei exatamente qual a minha classificação, mas me sinto desmoralizado. Desde o fim do ano passado estava me debatendo pra traduzir dois contos, com o objetivo final de participar de um concurso para novos tradutores. Resumindo, não estou entre os 10 classificados à fase final, nem do conto em inglês, nem daquele em italiano. Mas tudo bem, como já diria uma música dos Engenheiros, "eu não vim até aqui pra desistir agora". Devo reconhecer que após dois anos aqui na Itália, meu português não é mais o mesmo, mas sei lá, o problema é ficar três meses me matando por um zero de reconhecimento. 

Relendo o texto para publicá-lo aqui no blog faria várias outras mudanças, e me parece que este primeiro texto não flui assim naturalmente, já do segundo gostei mais do resultado, mas enfim...depois do desabafo, deixo o julgamento das traduções a vocês, meus fantasmas. Primeiro, publico o texto italiano. Na próxima semana coloco aqui aquele traduzido do inglês.


UMA GOTA 
Dino Buzzati (Tradução minha)

Uma gota d'água sobe os degraus da escada. Consegue escutá-la? Deitado na cama no escuro, percebo o seu misterioso caminhar. Como é que ela faz? Saltita? Tic, tic, ouve-se intermitentemente. Em seguida a gota para e talvez pelo resto da noite não dê mais notícias. Todavia sobe. Galga degrau por degrau, ao contrário das outras gotas que caem perpendicularmente, em obediência à lei da gravidade, e ao final fazem um pequeno estalo, bem conhecido em todo o mundo. Esta não: segue devagar ao longo da escadaria letra E deste interminável edifício.

Não fomos nós, adultos refinados e muito sensíveis, a identificá-la. Mas uma doméstica do primeiro andar, pequena esquálida e ignorante criatura. Notara uma noite, muito tarde, quando todos já dormiam. Pouco depois não resistiu, levantou-se e correu para acordar a patroa. "Senhora" sussurrou "senhora!" "O que é?" disse a patroa, despertando "O que aconteceu?" "É uma gota, senhora, uma gota que tá subindo as escadas!" "Como?" perguntou a outra, confusa. "Uma gota que sobe os degraus!" repetiu a doméstica, e quase começou a chorar. "Essa agora" praguejou a patroa. "Tá maluca? Vai dormir, marcsch! Você bebeu, é isso, sua sem-vergonha. É esse o tanto de vinho que falta na garrafa de manhã! Sua imunda, se você pensa que..." Mas a mocinha fugira, devidamente escondida debaixo das cobertas.

"Quem sabe o que se passa na cabeça daquela estúpida" pensou depois a patroa, em silêncio, tendo já perdido o sono. E escutando involuntariamente a noite que dominava o mundo, ouviu também o curioso ruído. Uma gota que subia as escadas, realmente.

Metódica que é, por um momento a senhora pensou em sair para olhar. Mas o que poderia ver à miserável luz das lâmpadas escurecidas que pendem do corrimão? Como localizar uma gota em plena noite, com aquele frio, pelos lances tenebrosos?

Nos dias seguintes, de família em família, o boato espalhou-se lentamente e agora todos no prédio já estão sabendo, mesmo se preferem não comentar, como se fosse uma coisa boba da qual talvez envergonhar-se. Desde então, muitos ouvidos estão atentos, no escuro, quando cai a noite para oprimir o gênero humano. E há quem pense em uma coisa, quem pense em outra.

Certas noites a gota silencia. Em outras, ao contrário, por longas horas não faz nada além de deslocar-se, sobe, sobe, como se não fosse parar. Os corações se aceleram no momento em que o passo suave parece tocar a porta. Ainda bem, não se deteve. Lá vai ela, distanciando-se, tic, tic, em direção ao andar de cima.

Com certeza, sei que os inquilinos do mezanino a esse ponto pensam estar seguros. A gota – eles creem – já passou em frente à sua porta, não poderá mais perturbá-los; Outros, como eu que estou no sexto andar, têm agora motivos de inquietude, tanto quanto eles. Mas quem lhes disse que nos próximos dias a gota irá retomar o caminho do ponto que atingiu a última vez, ou melhor, não irá recomeçar lá de baixo, iniciando a viagem dos primeiros degraus, sempre úmidos e escuros de abandonada imundície? Não, nem mesmo eles podem se considerar seguros.

De manhã, saindo de casa, olha-se atentamente se por acaso ficou algum rastro. Nada, como era previsível, nem a menor marca. De manhã, no entanto, quem leva essa história a sério? Ao sol da manhã o homem é forte, é um leão, mesmo se poucas horas antes hesitava.

Ou aqueles do mezanino teriam razão? No entanto nós, que antes não percebíamos nada e nos considerávamos imunes, há algumas noites também ouvimos qualquer coisa. A gota está longe ainda, é verdade. Chega a nós somente um tique-taque levíssimo, triste eco através das paredes. Todavia é sinal de que está subindo e cada vez mais perto.

Mesmo dormindo em um quarto interno, longe da escadaria, não adianta. É melhor perceber o rumor do que passar as noites em dúvida se a gota está lá ou não. Quem mora naqueles quartos isolados às vezes não resiste, espreita em silêncio nos corredores e permanece à entrada no frio, atrás da porta, com a respiração suspensa, escutando. Se a ouve, não ousa distanciar-se, escravo de medos indecifráveis.  Pior ainda se está tudo tranquilo: neste caso como descartar que, uma vez de volta à cama, não comecem os rumores?

Que vida estranha, afinal. Não poder reclamar, nem tomar providências, nem achar uma explicação que acalme os ânimos. E não poder nem mesmo persuadir os outros, dos outros edifícios, que não sabem de nada. Mas que coisa seria então esta gota: - perguntam com exasperante boa fé - um camundongo, talvez? Um sapo vindo do subsolo? Na verdade, não.

E então - insistem - seria por acaso uma alegoria? Querer-se-ia, por assim dizer, simbolizar a morte? ou algum perigo? ou os anos que passam? Nada disso, senhores: é simplesmente uma gota, só que ela sobe as escadas.

Ou mais sutilmente pretende-se representar os sonhos e as quimeras? As terras almejadas e distantes onde se presume que esteja a felicidade? Enfim, alguma coisa de poético? Não, absolutamente.

Ou então os lugares mais distantes ainda, nos confins do mundo, os quais nunca alcançaremos? Mas não, digo a vocês, não é uma gozação, não existem duplos sentidos, trata-se - ai de mim - mesmo de uma gota d’água e, pelo que se presume, à noite sobe as escadas. Tic, tic, misteriosamente, degrau por degrau. E por isso se tem medo.




Dino Buzzati Traverso (16/10/1906 a 28/01/1972) escritor italiano, segundo alguns mais conhecido no exterior que no próprio país

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Meus fantasmas

Caro Senhor Fulano

Não temos nenhum registro de fantasmas ou fenômenos sobrenaturais no hotel. Às vezes me pergunto se não seria bom para os negócios se os tivéssemos...

Os únicos visitantes "permanentes" que temos são aqueles que gostam de voltar como clientes, todos os anos, por décadas.

Apesar da idade e da história do hotel, e o edifício não seja comum, isto é absolutamente normal em toda cidade de Pisa, um lugar que foi fundado aproximadamente há quatro mil anos.

Consequentemente presenças referentes à antiguidade podem ser sugeridas em qualquer esquina de Pisa (e provavelmente na maior parte da Itália) e não necessariamente no nosso hotel.

Através da história estivemos sempre felizes em dar as boas vindas a tantas pessoas boas que temos a impressão que todos deixaram traços positivos, e agradecemos muito por isso.





Atenciosamente
A Diretora do Hotel

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Carne, vinho e Dante


Quarta-feira passada foi feriado nacional aqui na Itália. O dia 2 de junho é o dia da Proclamação da República pra nós italianos, assim como 15 de novembro é a Proclamação da República para nós brasileiros.

Nesse mesmo dia (2 de junho) no ano de 1946, por meio de um referendo institucional, os italianos decidiram acabar com a monarquia - exilando o então rei Umberto II de Savóia - e criar a atual república parlamentarista.

E também nesse dia, no ano de 2010, comi o primeiro churrasco italiano, conhecido por essas paragens como Grigliata. Um dia quente. Quente o suficiente pra muita carne bovina e cerveja. Mas a grigliata, infelizmente, consiste em carne de porco.

E vinho.

Mas tudo bem, tenho que me acostumar a isso, afinal, também sou um deles.

Depois de dormir 2 horas e me recuperar mais ou menos do vinho, fui trabalhar. Como já disse outras vezes, de madrugada chega uma hora em que devo fazer a ronda no hotel, que consiste em descer a pé do quarto andar, apagando luzes e verificando a normalidade de tudo, para o bem-estar dos hóspedes. E lá fui eu.

Entrei no elevador, apertei o numero quatro e subi. Eu cantava uma música do White Stripes. E o elevador subia. Acabei a música, iniciei outra e ainda assim não havia chegado lá. Comecei a me preocupar, eu sempre quis subir na vida, mas não indefinidamente. Pelos meus cálculos eu deveria estar chegando ao vigésimo andar. Isso se ele existisse.

Simplesmente eu estava em contínuo movimento vertical indefinido. Não sabendo o que fazer, me sentei. O rumor começou a tornar-se monótono. Foi quando me veio a idéia de ligar pra alguém pedindo ajuda. Mas havia esquecido o celular na recepção. Cazzo.

Pelos meus cálculos, eu devia estar ali há mais ou menos quinze minutos. Foi então que lembrei do botão de emergência. Levantei-me e quando fui apertá-lo, o elevador parou e a porta se abriu. Saí um pouco ressabiado. Olhei para os lados. Quarto andar.

Estranho. A cada passo eu esperava que algo acontecesse. Tudo normal. Fui descendo, e nada. Chegando ao primeiro andar, apaguei as últimas luzes e troquei duas palavras com meu amigo busto de Dante sobre o ocorrido. Disse-me em latim "Nullum secretum est ubi regnat ebrietas". Tive de concordar, embora não tenha entendido muito bem o que ele quis dizer.

Me despedi do sumo poeta. Enquanto descia as escadas, porém, ouvi um barulho, como uma pedra que se espatifa.

Voltei rapidamente e vejo o busto de Dante em cacos. Cada parte da sua cabeça foi para um lado. Neste momento, enquanto começava a formular explicações pra dar aos meus superiores no dia seguinte, percebi que um pedaço da estátua ainda se movia. Aproximei-me.

Era a boca de Dante. Rolava de tanto rir.

* * *

Boa Copa do Mundo!

terça-feira, 8 de junho de 2010

Premonição

Sört - pronuncia-se Xôrrt - significa "cerveja" em húngaro. Talvez eu tenha que usar essa palavra em agosto.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

(eugnaremub arp siam ajetse arobme) atseb otenos mU
















rahlagragsed a aculam aoverboS
oãhc on setna are euq adivúd a sioP
oãv me mecerap sarvalap sa saM
ratnugrep a ,oxelprep ,ale arp ohlo uE

oãhc od ognol oa osovren euqata mU
ralor a açemoc atidlam a ,acinôrI
ra on ila odnir ariap adivúd A
oãn uo ejoh árias los o eS

receralcse oãn me etsisni euQ
adalbun ãhnam an sodidrep socsibaR
rezaf a açrof em alua ad ecitahc A

adarap ila mevun amu met E
rezid arp uo rezaf arP
adan mes iuqa uotsE

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Da sabedoria

A estranheza é a base para o entendimento.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Devaneio sobre a tradução



A primeira vez que ouvi coisa semelhante foi no mestrado. Algum professor, que agora não me lembro mais quem, nos disse que uma vez alguém promoveu o seguinte exercício.

Um trecho de um texto em italiano foi dado a um tradutor de determinada língua. Essa tradução foi repassada a um outro tradutor de outra língua e assim sucessivamente até a décima tradução e, desta, de novo para o italiano. Nenhum dos profissionais envolvidos sabia quem era o autor do texto e imaginavam que o mesmo era original, e não a tradução de uma tradução. O resultado, obviamente, foi catastrófico.

Lembrei disso lendo o site do Millôr, no qual ele faz um exercício semelhante com o tradutor eletrônico do Google. Se com seres humanos é impossivel manter o sentido original, que dizer de uma maquineta. 

Pensando nisso, resolvi eu mesmo fazer o experimento, com uma das frases que mais utilizo, embora as origens dela sejam obscuras. Vamos lá:

PORTUGUÊS
O importante é o que importa.

Inglês
What is important is what matters.

Italiano
Ciò che è importante è ciò che conta. 

Alemão
Wichtig ist, worauf es ankommt. 

Espanhol
Lo importante es lo que importa.

Eslovaco
Dôležité je, na čom záleží. 

Frances
Ce qui est important est ce qui importe.

Gaélico
Is éard atá tábhachtach i dtaobh nithe a.

Catalão
Constitueix una matèria important a.
 
Grego
Αποτελεί μια σημαντική ουσία in.

Polonês
Jest to ważna substancja w.

Português
Esta é uma substância importante dentro 

Interessante. Parece que até chegar no gaélico (que pra quem nao sabe é o que se fala na Irlanda, além do inglês) tava tudo certo, mesmo alternando entre línguas latinas e não-latinas. Depois fudeu tudo.

O que aprendemos com isso? Não devemos confiar em quem fala gaélico? Ou, pelo contrário, deveríamos aprender a língua e aproveitar esse nicho de mercado? O que tudo isso quer dizer?
Talvez eu esteja errado, mas isso provavelmente quer dizer que eu tenho que voltar a estudar, ao invés de ficar perdendo o tempo com besteiras.

 

 

segunda-feira, 24 de maio de 2010

É

A alma está nos olhos

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Durante as aulas

Se está mais cansado
dormindo
pouco
que não
dormindo

*

Tradutor é aquele que supervaloriza o que
                                                         faz
                                   por um reconhecimento
                     inversamente proporcional

*

A literatura consiste em não
                       dizer

*

Acho que sou um
                misantropo
involuntário

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sob as chuvas da Toscana

Se um dia o sol surgisse por entre as nuvens, como uma surpresa
A queimar a vida, como outrora a aguardente em minha garganta fazia
O que hoje as estrelas e o vento, nulos, fazem com tamanha beleza

E percebesse o estado em que está relegado, na fria
E crua, ardente e vil estação que – quem diria – arde
Na pele, não obstante o temor da insana selvageria

Se um dia sol, como uma vontade incessante de ser,
No entardecer do caos dos morros que, com alarde,
Quisesse fazer, sabe là como, por merecer

Estes humildes versos ébrios e crus, sem remédio,
Teria, ao menos por educação, maneiras mais gentis
De abordagem, maneiras sutis de espantar meu tédio

Cujas artimanhas e artifícios ardis
Na convulsão do tempo, no caos estático do sublime,
Ecoam no ar, como suspiros senis

Esses ventos e o sol, um dia surgirão
Com pesar no olhar e arrependimentos mil
A implorar, de joelhos, misericórdia e perdão

E lhes direi, do fundo de meu coração,
Com meu mais singelo sorriso, um belo olhar
De abnegada resignação, meu mais profundo e sincero não!



Publicado em 12 de dezembro de 2008

domingo, 16 de maio de 2010

A mosca e o fogo

A aranha trouxe a teia e mosca à teia veio. Trouxe a aranha a mosca à teia. Pobre mosca! Será o final que veio? Mas a mosca não bobeia, de tanto à teia vir, ateia fogo à teia e à aranha até. Esqueceu-se porém a mosca de que na teia também atada estava ela e tão bem atada que fugir da teia não tinha como. Aranha, mosca? Já era! Como fogo, teia incinerou aranha e mosca e a própria teia. Incinerou-se. Jaziam as cinzas das três atiradas no canto do chão do quarto escuro e flamejante que, por pura falta de noção da mosca, por ora está em chamas.

As chamas chamejantes chamejavam e a chamar ficavam. Chamavam o ar, clamavam por ar, mais ar, precisavam de ar para poder respirar, queimar, incinerar. As labaredas, como lavas recém expelidas de um vulcão ativo, escorriam para os céus, mais alto, mais alto, queimavam as folhas das árvores, as próprias ávores e quem mais desavisado se opusesse ao seu avanço. Lentamente, as labaredas avançavam. Mas eram tantas labaredas a lentamente avançar que rapidamente se alastravam. E não havia extintor que as extinguisse, bombeiros que as bombeassem ou aguás que as esfriassem. O fogo era quente, alto e altivo. Ardia, de volúpia, languidamente, a paixão corava as faces dos transeuntes. O fogo a queimar a vida aos poucos, a intoxicar os pulmões aos tantos e aos montes subindo, cavalgando suas gramíneas prateadas. O vapor emana da fogueira, fogos, fogos, fogões. O amor ao ar, é o fogo.

"De tanto amar e amar,
o que em nós queimar,

é o que nos vai podando.
Amar é libertar,
libertar-se das cinzas,

até ficar o fogo,
o seu trote frondoso,
o fogo, o fogo ainda."

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Texto: meu
Poema final: Carlos Nejar 


Publicado em 25 de julho de 2008

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Eu e meu copo de uísque

Hoje era um dia pra beber. Eu e meu copo de uísque.

A verdade contudo impede. Sexta-feira bebi muito e demasiado rápido. Coisas desse tipo acontecem. Ontem, não fosse uma coca-cola salvadora, não teria sobrevivido das 15h até às 21h. Bebendo.

Chegando em casa, não fossem 2,5l de água antes de dormir, hoje eu estaria terrivelmente em estado letárgico de ressaca acumulada. Ainda assim, hoje era um dia para beber. Eu e meu copo de uísque.

Acordei cedo. O silêncio ao redor, quebrado por vezes pelos pios dos pássaros. Nada fazia sentido. A não ser meu copo de uísque. Que não bebi.

Hoje não fiz muita coisa. Li um livro de contos do Bukowski, o que, por si só, já exige um copo de bebida. Até mesmo um uísque. Fiz um arroz muito sem-vergonha e um bife pra comer. E bebi a coca-cola, sem uísque. À tarde dormi um pouco. Olhava pela janela no horizonte e nada via de interessante. Olhei minha cadela reclusa em seu canto. Acho que ela também precisava de um copo de uísque.

Fucei a internet. Li mais um pouco do Buk, sentado sob o sol das 16h, na grama. Eu e meu copo de água.

Vi um resto do jogo do Grêmio. Uma vitória sem-vergonha. 3 pontos a mais. Desde então ouço aqui neste computador rádios italianas de notícias. Pra acostumar o ouvido. Ontem ganhei uma garrafa de vinho. Sobraram 4 latas de cerveja e um restinho de vodka. A noite caía, ontem. Caiu por terra.

Hoje, jantei às 19h. Jejum de 12h até amanhã de manhã. Regras da minha nova religião. Mas não, esta religião não exige o celibato. Só um copo de uísque.

Daqui a 60 anos, ainda estarei procurando o copo de uísque, pois os uísques são como pensamentos melancólicos. Melancolia de cú é rola. Dizem que em 60 anos os uísques valerão tanto como obras de arte. Lá estarei eu (onde?), a procurar e a me perguntar, como um autômato:

- Em 13 de julho de 2008, onde estava meu copo de uísque?

Acho que a minha cadela bebeu tudo o que restava dele.

Publicado em 13 de julho de 2008

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Apotegma

No escuro do mundo, a pulcritude inexiste. É lá que vive a urgência.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

summer sunny sunday afternoon

tirei a poeira
da bicicleta

óculos de sol
garrafa d'água

mochila nas costas
mp3 nos ouvidos
e nada na cabeça

só a vontade
de me perder por


e quando voltar
embriagar-me
na mais lúcida
alucinação

a vida

sábado, 8 de maio de 2010

A expectativa é a única a esvaecer

E hoje lá ia eu andando por estas ruas, que nos países de fala espanhola são chamadas de calles, e topei com um abstêmio. Me disse - e fez questão de me antes de dizer - que as auréolas hoje são raras e, como um bom taciturno, não se locupletava indistintamente. Sorumbático de espanto, esquizofrenei-o de interrogações exclamativas exigindo melhoras, mas não as obtive. O abstêmio, com aquele ar escalafobético intrínseco àqueles que primam pela excentricidade extrínseca e concêntrica, anatematizou-me e, trêfego, como convém aos abstêmios, exauriu pela fresta à direita.

Com opróbrios nauseabundos, exteriorei minha cólera. Não pude catequizar-me sob tal suspeição. Obcecado, ermo e lúgubre, o vento enlevou minhas memórias a tal ponto que chafurdaram nas lamas do brejo de lava incandescente.

Qüiproquós guincharam desesperados. The return has begun. Por ora, horas não são bem vindas, nem bem vistas. Inebriado pela exasperação do acontecido, entornei a garrafa de Água benta até virar abstêmio.

Fui traído.

Publicado em 28 de março de 2008

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A terra sem volta

À noite, quando todos os Gattopardos são negros, e a cegueira é luz que guia o reino; quando os postes se apagam e a ilusão retorna; quando o exagero não mais é sentido como um excesso, mas como adendo: nessa hora incerta e obscura, a opacidade surge, enfim, triunfante.

Nessas horas a horda de bárbaros crê na dissonância circunspecta de uma pretensa algazarra, quase um dilúvio, êxtase a reverberar junto aos campos e o concreto. Vejo silhuetas insinuantes, vejo caminhos convexos. O mundo como um astigmatismo.

Pensar, neste momento, é exercício ridículo. As feições de quem pela gente se afeiçoa, como um blended scotch, com o tempo maturam, com o tempo melhoram, com o passar do tempo, se recuperam. O alçar do vôo à quintessência.

As pernas roçam em mim. Aquelas pernas lisas e sedutoras, lascivas, lânguidas, encostam na epiderme em cicatrização. O frenesi, o frêmito do desejo.

Na treva do quarto, o Gattopardo vê. No canto onde a sombra da porta enegrece o mundo. O suspiro.

A procura cessa, por um momento. A eternidade da dúvida ressurge, abarca o pensamento, como um abismo infindo engole, impiedoso, a ansiedade.


O piscar do olho iluminado na escuridão.

Publicado em 26 de janeiro de 2008

terça-feira, 4 de maio de 2010

E assim começa mais um ano

Hoje no 1° dia de 2008 lembrei-me do natal, e um sorriso surgiu espontâneo. Sim, estou muito mal hoje. Mas já estive pior.

*

Acordei com vassouras ao redor. Sensação estranha.

*

Músicas surgem na minha lembrança. Todas elas do Morphine. Um dos versos que ecoam (e ecoa mesmo, porque hj minha cabeça está vazia por opção) e que gosto muito é assim:

you're the night Lilah
you're everything that we can see
Lilah, you're the possibility


*

Possibilidade: Acontecimento ou circunstância possível, que pode ser, ter sido ou vir a ser real.

*

Lilah deve estar se perguntando das circunstâncias. Razões obscuras. Talvez os russos tenham seqüestrado minha memória, mas não fizeram direito a lavagem cerebral, tanto que lembro vagamente de um sobrenome: Smirnoff.

*

Em O castelo dos destinos cruzados, livro de Italo Calvino que li recentemente, pessoas momentaneamente impossibilitadas de falar tentam contar suas vidas por meio de um baralho de tarô. As cartas depositadas contam várias histórias e a cada leitura o significado pode mudar ou ser interpretado de forma diversa. As possibilidades e circunstâncias da vida e sua multiplicidade cabem em apenas um baralho.

*

Se os destinos se cruzam, há possibilidades, mas não certezas. O importante é tentar entender a encruzilhada e lembrar dos bons e divertidos momentos do ano passado. Tentar entender, a minha sina. Mas é como música aos meus ouvidos. Baixo, bateria e sax. Ou uma banda de salsa. Rú!

*

Que 2008 seja pior que 2009 e melhor que 2007. É o que desejo a vocês, meus fantasmas. E também a Lilah.

Publicado em 01 de janeiro de 2008

sábado, 1 de maio de 2010

Dreaming shadows of the past

Sometimes it is incredible. She spinned a web of friendships so thin however intense, as if she wanted to heal deep scars from her past.

There is something of vulnerable in her attitude. Something she wants to hide but she let a tiny piece uncovered for the right people find and finally try to love her.

Her kids are a clue. The several relationships inconcluded. The need of alcohol and parties to forget - or at least to ease - the pains that hurt so deep inside her chest.

The memories alive, come out on her dreams. Sleeping she is helpless, an easy prey. She wakes up sweaty. She needs water. She needs peace.

At the moment, she can never live. She can only think.

Publicado em 29 de dezembro de 2007

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Às margens do rio Piedra...

Foi no raiar do dia, de óculos escuros protegendo-me da sensação sempre incoveniente da luz solar, que percebi a finitude do ser enquanto humano (bonita essa).

Talvez tenha sido o uísque falsificado. Mas a claridez (!) foi tão nítida e, desculpem a redundância, clara, que pensei 'como não tinha percebido tudo isso antes?'

E tudo se fez inteligível repentinamente. Como se fosse um aleph mental súbito. Todas as peças do quebra-cabeças se encaixaram e desfrutei da sabedoria e do sentimento de onisciência que só os sábios possuem, aquela mansidão nos gestos, economia na fala, a exatidão das palavras, a momentânea percepção de tudo que é, foi e será, sua razão, causa e circunstância, início, meio e fim.

A vontade era escrever tudo aquilo, publicar, ganhar o Nobel de literatura, doar o dinheiro a causas sociais e viver eremita em cavernas como Zaratustra mesmo o fez, com minhas mulheres eremitas ao redor, exultando-nos em intermináveis festas e descansos em remansos, observando do alto de nossa montanha como a vida flui aos que não perceberam o óbvio, que resplandece em nossa face diariamente e por estarmos ocupados não nos damos conta do quê, afinal, acontece nessa coisa a que chamamos vida.

Mas como eu estava dirigindo deixei pra escrever em casa, e duas quadras depois eu já tinha esquecido tudo isso e só queria chegar em casa, dormir, e torcia para que meu estômago resistisse bravamente ao uísque falsificado.

Publicado em 10 de dezembro de 2007