quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Assassino do Imortal

Normalmente não falo sobre futebol. Não que eu não goste, mas porque não vejo necessidade. Aliás, poucos sabem, mas só não fui jogador profissional por escolha. Por escolha do técnico, obviamente.

Mas enfim, eis-me aqui a falar de futebol. (Uma breve síntese: meu time italiano caiu pra série B e meu time brasileiro está quase lá. Isso sem falar na seleção, que dispensa comentários).

Confesso, o Grêmio tá uma porcaria. Mas ao contrário de muitos torcedores tricolores, eu não comemorei quando anunciaram o Celso Roth. Inclusive considero que comemorar a chegada do Roth em qualquer time que seja é admitir que se está no fundo do poço. E, muito embora estejamos ali perto, é sempre mais conveniente negar.

O que mudou no time do Grêmio do Brasileirão do ano passado, quando ficamos na zona Libertadores, para este? Quase nada, três ou quatro nomes. Então sabe-se que capacidade temos. Falta somente algo para fazer essa cambada jogar bola. E este algo não se chama Celso Roth.

Há semanas eu não via nenhum jogo, e inclusive deixei de ver o Gre-nal já imaginando uma derrota histórica. Mas não, o time, dizem, jogou bem e ganhou. Porém fiquei meio assim: Celso Roth não consegue jogar bem e ganhar durante muito tempo. Há algo de podre no reino da Dinamarca.

Hoje decidi tomar umas geladas enquanto assistia o que deveria ter sido a reviravolta final do Grêmio no campeonato, não fosse o Roth no comando. O Curinthia vinha de uma crise, jogando mal em casa, sequencia de derrotas, nós embalados pela vitória no clássico, tinha tudo para dar certo.

E estava dando, tanto que no início do segundo tempo tínhamos 2 jogadores a mais e precisávamos de apenas um golzinho pra pelo menos trazer um ponto fora de casa. Era óbvio que conseguiríamos. Mas Roth nunca é óbvio.

Porém eu torcia. O chopp ia acabando, eu só não perdia meus cabelos porque já não os tenho mais. E, o pior de tudo, um corinthiano daqueles mala assistia o jogo na mesa do lado. Falei pro Roth: cara, se tu conseguir pelo menos empatar esse jogo pra esfregar na cara desse mala ali, te dou mais crédito e paro de falar mal de ti. Pelo menos até cairmos novamente pra segundona. Mas Roth não se convence tão fácil. Roth é, acima de tudo, ininteligível, inexplicável.

E no fim aconteceu o que já deveríamos saber que aconteceria. Com 2 (eu disse dois, two, due, dos, zwei!) jogadores a mais durante o segundo tempo inteiro, perdemos. Não sei como pude confiar no Roth por 45 minutos. Não sei mesmo. Um retranqueiro não saberia nunca como atacar, mesmo com superioridade numérica. Ou saberia? Não sei porque, mas desconfio que qualquer outro técnico teria vencido essa partida.

Contudo Roth não é qualquer. É pior que qualquer um.

Mas enfim, agora me despeço e, a não ser que o Grêmio ganhe algum título em 2011, não mais falarei de futebol neste espaço. E se no fim formos pra segundona, tenho o consolo que talvez poderei ver o tricolor jogar aqui com o JEC, que vem muito bem na terceirona e deve subir pra série B.

Até o ano que vem.





domingo, 21 de agosto de 2011

Da linearidade do tempo

Dias atrás conversava com um amigo sobre a perecibilidade humana, visto a nossa chegada às três décadas de vida. E durante esta conversa cheguei a conclusões interessantes sobre a perecibilidade, mas também sobre a perenidade do ser enquanto humano.

A verdade é que, como sabemos desde Einstein, o tempo é relativo. Ele chegou a essa conclusão por meio de cálculos que desconheço. E não sei nem ao menos se um dia conhecerei, mesmo tentando me iniciar nas artes matemático-filósoficas de Bertrand Russell. Mas é fácil supor que o tempo é relativo, justamente porque todos nós, sem execeção, aprendemos a entender o tempo de uma única forma: o tempo é linear, e isso é - ou deveria ser - inquestionável. Nossos ancestrais, os primeiros hominídeos que tentaram entender o tempo, o entenderam desta forma, a mais fácil e lógica, e assim, por milênios e milênios essa sabedoria simiesca tem sido passada de geração em geração, e a quase todos isso tem bastado como verdade óbvia e irrefutável. Alguns poucos loucos, na maior parte físicos (como Einstein), matemáticos (como Russell), filósofos (como Nietzsche), escritores (como Borges) ou desocupados (como eu) crêem em algo além desta linearidade.

(Importante ressaltar que, no meu entendimento, a não-linearidade do tempo não altera em nada nossa vida. Pelo menos não esta que vivemos agora, até chegarmos à nossa primeira morte).

Mas enfim, voltando à conversa com meu amigo, cheguei à seguinte conclusão: como aprendemos desde sempre que o tempo é linear, não conseguimos sequer cogitar a possibilidade de o tempo ser diferente. Não possuímos modelos comparativos, não existem outros tempos. Existe o hoje, o ontem e o amanhã, e basta. Quem ousa afirmar algo diferente a respeito é tratado como louco. Que o digam meus colegas do hospício.

Contudo eu, gastando os poucos neurônios que me foram concedidos, há algum tempo tenho me questionado sobre a linearidade do tempo na forma da eternidade. E percebi que temos que fugir da obviedade do tempo, transgredi-lo, para tentar entendê-lo. O tempo é algo maior que uma seta onde os fatos se sucedem, as pessoas nascem, crescem e morrem. O tempo não é uma linha. Talvez sejam várias, paralelas. Talvez seja um círculo (o eterno retorno). Ou vários círculos paralelos. Quiçá uma espiral, ou ainda algum outro modo que sequer podemos imaginar em nossa mente limitada.

Toda essa minha preocupação talvez tenha começado com as leituras dos livros de Borges e seu fiel amigo Bioy Casares, que citam em suas obras tempos lineares, porém concomitantes e paralelos. Mais ainda: diversos!

Indo mais além, Borges criou em sua obra o Aleph, e o definiu desta forma: "o que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço". E não estamos falando aqui do Aleph plágio do Paulo Coelho, que é perecível. Falamos do eterno.

Um modo único de tentar entender o tempo de um modo diverso não existe. Não posso eu dar a fórmula secreta, pois estou ainda engatinhando no assunto, embora tenha o rascunho de uma teoria sobre a eternidade em estado embrionário. E talvez nunca conseguirei provar o que penso (provavelmente não). Mas sinto que a linearidade do tempo não pode ser tomada como verdade absoluta, da mesma forma que devemos sempre questionar qualquer afirmação categórica. Quanto ao Aleph, é uma história mais complexa. Tratemos primeiro de entender o unidimensional. Refutar a linearidade do tempo já me está dando muito trabalho, imagine refutar e tridimensionalidade do espaço. Está muito além da minha capacidade de viajar na maionese.

Mas nunca esqueçam, meus fantasmas: o importante é o que importa.


terça-feira, 2 de agosto de 2011

Memórias de minhas putas tristes


É agosto e faz frio. Chove. Diferentemente de um ano atrás, quando, no mesmo mês de agosto, no auge do calor, comecei um mochilão pela Europa. Era verão e o sol esquentou os dias que vieram. E o título deste post é o mesmo do livro do García Márquez.

A viagem fez um ano e, diferentemente do que previ neste post, não consegui terminar meu relato antes deste aniversário. Faltam ainda minhas desventuras em Berlim, Praga e Berna, mais ou menos metade da viagem a ser relatada.

Desculpas tenho de sobra, muitas mudanças repentinas e novidades aconteceram, coisas que exigiram total atenção da minha parte. Espero, sinceramente, terminar tudo isto antes do final de 2011, antes que minhas memórias já devidamente deterioradas possam se deteriorar ainda mais.

Preciso somente reencontrar os mapas das cidades e minhas anotações esparsas nas diversas caixas que me rodeiam, como cachorros a me olhar, suplicando por comida. Reencontrá-las, estas anotações, e combiná-las com um copo de qualquer coisa e um saxofone nas caixas de som, é o que preciso.

Somente isso. Tudo isso.

sábado, 16 de julho de 2011

A arte da adaptação

Adaptar-se: eis a sina do ser humano. Parece simples, pois de qualquer maneira a vida é dinâmica e adaptar-se seria algo quase imperceptível, se não fosse exatamente o contrário. Apesar de dinâmica, a vida nos prega peças - ou às vezes somos nós a fazê-lo - e muda-se e, uma vez mais, devemos nos adaptar.

Nessas idas e vindas, acredito já estar me adaptando a adaptar-me. Mudanças de planos se tornaram rotina e a novidade, nova já não é mais. De qualquer forma, criei métodos de adaptação a situações novas que, consciente ou inconscientemente, acabo por praticar. Uma delas é a observação.

No tempo em que morei na Itália, acostumei-me a observar detalhes, caminhar pelas ruas e observar detalhadamente todos os detalhes possíveis, tanto das cidades, arquitetura, como o costume dos cidadãos e das cidadoas. Volta e meia, quando estou sonhando de olhos abertos, ou enxergando com os olhos fechados, sinto-me de volta ao velho mundo, pois relembro muita coisa que, sem esse hábito de escrutínio, recordar-me-não-ia.

E no adaptar-me atual, ou readaptar-me, começo a observar as pessoas que cruzam meu caminho, enquanto vou ao ponto de ônibus, de onde parto para o trabalho diário. Como saio sempre no mesmo horário, percebi que de segunda a sexta cruzo com a mesma moça pelo caminho.

Devo tê-la percebido no segundo ou terceiro dia. Apesar de bonita, não chega a ser estonteante a ponto de atrair todos os olhares dos passantes. O detalhe, porém, que atraiu o meu olhar, não foi nem seu corpo, nem seu rosto, muito menos o pára-choque traseiro (que lá pelo quarto dia eu dei uma espiadinha e não deixa nada a desejar). O que me chamou a atenção foi a barriguinha de fora.

Aquela camiseta curtinha que deixava desprotegida e vulnerável toda aquela região infinda ao redor do umbigo. E, mais abaixo, a calça jeans. Justa.

Assim como a calça, também me considero uma pessoa justa. Mas faria a moça jus a este conto? Não creio. Mas os vastos campos belos e nus da depressão umbilical fazem.

Dizem que a melhor definição do ser humano é esta: um ser que gira ao redor do próprio umbigo. Talvez seja verdade. Mas, nesse caso, comecei a girar ao redor do umbigo dela. Passei a observar a barriguinha todo o dia, como enfeitiçado, como sendo sugado por um buraco - no caso um buraquinho - negro. Fizesse chuva ou sol, não tinha erro: o umbigo ali estava, fitando-me, atraindo-me, bailando durante cinco, seis, no máximo dez segundos, para depois seguir seu rumo, deixando o rastro de um quase e o perfume etéreo do talvez no ar. Além do bumbum sacolejante, a última visão que me sobrava.

Chegou contudo o inverno, o frio, quando como as cebolas, as pessoas se vestem e se despem em camadas, muitas vezes imitando-as inclusive no cheiro. Ou pior. Mas pra isso eu não ligava. Perguntava-me, inquieto, se graças às intempéries do tempo eu seria privado da visão edênica do umbigo. Não, não poderia. Se ele aparecesse, em minha frente, coberto, não saberia como reagir. A loucura batia em minha porta somente em pensar na possibilidade de, um dia, quem sabe, talvez, por acaso, quiçá, aquele umbigo, o umbigo de cada dia, de todo dia, fosse, por fim, vestido, coberto. Seria a morte: o umbigo envolto em sua mortalha, o sucumbir abrupto e inesperado de uma vida destinada a existir. A desilusão, o horror, o desespero. O sentido da vida sumiria por entre os vãos do piercing daquela moça. (Esqueci de comentar do piercing. Era um umbigo com piercing. Impossível, impossível...).

O frio chegou na sexta e passei o final de semana torturando-me nessa dúvida vital, torcendo para que o sol, repentinamente, surgisse, contrariando a lógica ilógica dos meteorologistas. Por fim, na segunda, acordei tremendo de frio e usei, pela primeira vez desde meu retorno à pátria que me pariu, um par de luvas. Era quase impossível caminhar pelas ruas, as pessoas cobriam os rostos de todas as formas possíveis pois não se aguentava os Celsius rondando o zero. Já havia desistido do umbigo, julgando sua proteção, de certa forma, um modo de preservar a detentora de tal formosura e, indiretamente, preservando-o para a posteridade e para o verão, que prometia muito mais além deste belo exemplar de orifício abdominal.

Distraí-me, absorto em minha desolação. Quando levantei a cabeça para atravessar a rua, eis que o vi: o umbigo estava ali! Estava vivo!

A dona encasacada, com luvas, touca, cachecol, botas, mas com o umbigo ali, firme, forte, perfurado e ao ar livre. O êxtase foi tamanho que prometi nunca mais duvidar deste umbigo, que tudo podia, que tudo sabia, que tudo faria. O eterno retorno do umbigo. Algo supra-existencial. Ou quase isso.

No dia seguinte, porém, por razões de forças maiores que as minhas, comecei a ir mais cedo ao trabalho e a única coisa que me resta são os detalhes, aqueles detalhes, aquelas curvas, que perscrutei com tanta adoração, e adorei com tanta devoção que até me assusto. Depois de uns dias, como de praxe, adaptei-me e hoje vivo sem o umbigo. O dela, não o meu. Quando vou ao trabalho diariamente, já não sofro tanto por aquele pequeno objeto de arte vivo. Isto porque, concidência ou não, outro umbigo cruza por mim, neste novo horário. Desta vez sem piercing, mas não menos venerável.

Adaptei-me, novamente. Eis a sina do ser humano.

sábado, 25 de junho de 2011

Ode à bosta

Já ouvi muitas pessoas, professores, mestres e doutores falando que não existem sinônimos perfeitos, em nenhuma língua. A não ser em palavras como "vassoura" e "bassoura" - que no fundo são a mesma palavra e não sinônimos - no fundo no fundo os ditos "sinônimos" diferem levemente nos significados, por detalhes, nuances, o que os tornam somente quase sinônimos. Porém não é o que acontece com a bosta.

Bosta é o sinônimo perfeito de Merda. Pode ser usada nas mesmas situações, frases, inclusive em sentido figurado: "Vida de merda", "Vida de bosta". Com a diferença que, na minha opinião, quando se diz bosta, se diz com a boca cheia (de merda, talvez).

A maior parte das pessoas, porém, prefere fazer uso da merda ao invés da bosta. A merda tá na boca do povo. O que torna a segunda um pouco mais elegante. É como uma bebedeira de uísque, torna a nossa ressaca mais respeitável.

Depois de repetir várias vezes esta palavra nesses últimos dias, acabei por me perguntar sobre as origens da palavra bosta e da singularidade da sua existência na língua portuguesa. Pois bem, bosta e merda tem origens latinas, mas diversas. Segundo meu amigo Antônio Houaiss, Bosta vem do baixo-latim bóstar, bostáris 'estábulo, curral de bois', derivado de bos,bovis, boi. Já a Merda vem do latim  merda, merdae 'excremento'. Vê-se que, no início, bosta referia-se somente aos bois. Já a merda sempre foi bem mais ampla. Até que, no português brasileiro moderno, merda e bosta viraram o mesmo cocô.


Em janeiro do ano passado publiquei aqui um belo poema de uma escritora indiana, que toca na merda. No assunto merda, sejamos bem claros. Porém, como falava de esterco de bovinos, etimologicamente talvez seja mais correto falar que se tratava de um poema sobre a bosta. Meu comentário sobre o poema e o próprio poema traduzido por mim mesmo podem ser lidos aqui. Mas a verdade é que vi que meu blog andava muito parado e resolvi escrever qualquer merda. Ou bosta.

O mais interessante é que bosta existe somente no Português (muito embora os americanos tenham tentado nos copiar com Boston). As outras línguas latinas que conheço possuem somente os derivados da merdae latina: merda (italiano), mierda (espanhol), merde (francês) e por aí vai. Assim como a saudade, a bosta é uma coisa da qual podemos nos orgulhar! Ninguém no mundo possui bosta como nós!

Só cuidado pra não pisar em cima.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Considerações sobre a eternidade - o Déjà vu

Eu estava lendo um artigo sobre literatura na internet, quando tive a sensação de já ter vivido aquilo antes. Tecnicamente isto é chamado pelos dicionários e especialistas de "déjà vu". Mas não tratava-se de uma simples sensação de que o que eu vivia já teria acontecido antes. Era algo muito maior.

Pois enquanto eu lia o fatídico artigo, no mesmo momento lembrei-me de uma conversa com um amigo no dia anterior. E tive a sensação de já ter vivido aquele momento, de já ter lembrado daquela conversa antes. Contudo, parecia repetir-se também o instante da leitura no exato momento em que eu presenciava o déjà vu da conversa: o déjà vu de um déjà vu. Um paradoxo. O caos total. O apocalipse.

O déjà vu, pelo menos para mim, que convivo desde pequeno com tal fenômeno, não é somente uma sensação de repetição. Sente-se também a repetição de todo o contexto, as falas, os gestos, os sons. Tudo repete-se da mesma e exata maneira - isso partindo do pressuposto que trata-se de uma repetição. Sendo uma repetição, pode ser uma das provas da teoria do eterno retorno. O que confirma também as teorias que dizem que o destino já está escrito, o que fazemos é somente repetí-lo eternamente. Não poderíamos lutar contra ele (o destino). Ou então tudo isso tem a ver com a existência de múltiplos universos paralelos? A verdade é que o déjà vu é algo maior do que um simples mal-funcionamento ou travessura do nosso cérebro. É algo desconhecido.

Quando pequeno, comecei a perceber esses fenômenos e volta e meia, quando eu presenciava um deles, fazia caretas ou movimentos bruscos e inesperados, como que para fugir do script, o que deve ter causado estranheza a não poucas pessoas que presenciaram esta performance. Provavelmente eu pensava - obviamente de um modo inocente e, acima de tudo, inconsciente - que tudo estava já pré-determinado, e que o déjà vu era somente a confirmação das regras a serem seguidas. Regras impostas por alguém - Deus? - já escritas, prontas e que estavam sendo executadas no momento. Porém mesmo meus movimentos repentinos de nada adiantavam, pois a sensação de repetição abrangia também essas maluquices. Cresci.

Durante muito tempo esqueci-me de tal fenômeno, ou melhor, aprendi a conviver em paz com ele. Nos últimos anos, contudo, tenho entendido o déjà vu como um sinal - do quê? de quem? Deus? - e tenho me guiado pelas suas sucessivas aparições. Demorei algum tempo até aceitar isso como um sinal.

Uma vez admitida esta hipótese, veio outro problema: sinal de quê? Debatendo-me sobre questões cruciais para a humanidade como esta, acabei, por um raciocínio longo que exigiu muito dos meus já exaustos neurônios, decidindo que deveria apreendê-los como sinais do caminho a ser percorrido, das escolhas a serem feitas. Apesar de eu ter uma simpatia pela teoria do eterno retorno, admitir o déjà vu como um sinal acaba por refutar esta teoria. (Foi o que fiz, muito embora eu ainda esteja desenvolvendo a minha teoria. No futuro deverei achar um modo de integrar ambos, conciliando-os. Mas isso é um problema para o futuro). .

Mas como nem tudo são flores, os espinhos apareceram uma vez mais: este sinal - com a sorte de que seja realmente um sinal - refere-se a uma confirmação "sim, você está no caminho certo" ou uma advertência "cuidado, caminho errado, volte duas casas e tente de novo"?

Como sou otimista e gosto de simplificar as coisas, admiti que o sinal era "ok, siga em frente, você está no caminho correto". A partir daí, a cada déjà vu eu relaxava e pensava "maravilha, vamos continuar assim". E nos períodos de estiagem de déjàs vus (o Houaiss não me informou o plural de déjà vu...talvez porque ele não tivesse tantos) o terror me acometia "o que fiz de errado? onde será que eu errei?". E assim segui minha vida, até o dia de hoje, quando o destino - Deus? - resolveu pregar-me mais uma de suas peças.

Um déjà vu duplo. Como interpretar isso? Como uma negação? Como uma ênfase (é isso aí cara! acertou em cheio dessa vez hein)? Como uma histeria? Como o fim dos tempos?

Não sei. Preciso de um tempo para pensar e descansar até conseguir resolver mais este problema mundial. Mas, quando tento dormir, ouço bips dentro da minha cabeça. O silêncio da noite me abarca com a melodia de bips eletrônicos em meu cérebro. E a coceira que a cicatriz antiga me deixa, toda vez que ela muda de mão, me irrita de tal forma que já não consigo mais articular as palavras.

Eis o fim dos tempos.

sábado, 7 de maio de 2011

O gato do cão

Depois de alguns dias de frio, o dia parecia ter amanhecido mais tranquilo. O céu azul e limpo, os pássaros a cantar convidavam-me para sair de casa e acabei por aceitar o convite.

Nem o tumulto nas calçadas, o fedor e o aperto nos coletivos, os engarrafamentos nas ruas, nada, nada poderia estragar esse dia.

As moças caminhavam alegremente, com suas roupas agarradas aos corpos perfeitos, faziam caras e bocas nesta manhã azul. Tudo estava perfeito, até que o vi.

Saindo do parque, tranquilo, feliz da vida, olhei para o chão e o vi. Aquela criatura, deitada ao lado de um muro, em frente ao portão de uma casa, como um guardião. Mas não era um cachorro. 

Era um gato. Um gato preto, Um gato preto caolho, que me fitava com o olho bom e me amaldiçoava com o olho inexistente. Eu preferiria enfrentar Cérbero com suas três cabeças às portas do inferno a encarar novamente este gato maldito. 

Ao vê-lo, minha vida mudara para todo o sempre. Ao vê-lo eu sabia que estava vendo mais do que um gato. Eu via o além negro e obscuro, eu via o futuro imerso em trevas. Eu via o mal. O gato saído das profundezas. 

O gato do cão.

 


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Zaratustra e a Engenharia Hawaiiana

Ontem o Humberto Gessinger esteve em Londrina, batendo um papo com a galera e dando autógrafos para os interessados, lançando seu novo livro (o terceiro), Mapas do Acaso, que fala um pouco da sua vida e da carreira com os Engenheiros do Hawaii, comentários sobre letras e etc.

A foto ao lado ficou uma merda e sabe lá porque razões o cara resolveu autografar a capa, ao invés da primeira página do livro. Talvez porque a foto da capa também tenha ficado uma merda. Rabiscou tudo e escreveu, com caneta hidrográfica:

Valeu, Gérson! 
1berto

Resultado: hoje borrou a capa inteira enquanto eu a segurava, num gesto banal de quem lê livros. A foto do Gessinger ficou parecendo o Curinga do Batman, todo borrado. O meu dedo ficou azul. Uma maravilha.

É um livro pra quem gosta de Engenheiros, até porque quem não gosta nunca compraria um cd, imagina um livro. Foi uma pena que tive a ideia de trazer meus vinis para autografar apenas alguns minutos antes de tudo começar, o que foi fatal. Fiquei sem meus oito vinis autografados, mas ganhei uma capa borrada. Melhor que nada.


Um dos primeiros LPs que ganhei, lembro-me até hoje, foi O papa é pop. Era o ano de 1990, eu tinha 9 anos, morava em Caxias do Sul e escutava na rádio diariamente a versão Hawaiiana de Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones, regravação do sucesso da banda Os Incríveis da Jovem Guarda (que por sua vez é uma versão de uma música italiana de 66 interpretada por Gianni Morandi).

Sei que ganhei o disco e pirei. Ficava horas e horas ouvindo, lendo o encarte e tentando entender frases como "A violência travestida faz seu trottoir". Talvez por causa da idade, decorei as músicas sem pensar muito no que diziam, e volta e meia, até hoje, acontecem "estalos" de entedimento. Nos anos seguintes, já devidamente morando na minha cidade natal, fui adquirindo outros LPs com a mesada, isso quando eu não a gastava inteira nos fliperamas, enquanto matava aula. Lembro de ter feito um trato com meu primo Alemão de Santo Ângelo em que cada um compraria um vinil diferente a fim de completar mais rápido a coleção, em seguida gravaríamos os vinis faltantes um do outro em fitas k7, para poderem ser reproduzidas em nossos walkmans. Mas o trato foi por água abaixo quando vim morar no Paraná.

Eu tinha 14 anos, já tinha visto shows do Barão Vermelho e do onipresente Jimmy Cliff no interior do Rio Grande. Porém fui ver de perto os Engenheiros do Hawaii pela primeira vez somente em Maringá. Era o ano de 2001 (ou seria 2002?). De lá pra cá, mais dois shows em Arapongas e um em Londrina, no Moringão.

Já fui mais fanático. Quando criança, uma das brincadeiras na qual eu passava horas e horas, tardes, dias, era pegar as músicas dos Engenheiros e criar letras novas em cima. Eu me divertia com isso. Lembro de algumas de minhas pérolas musicais até hoje, que por bom senso a para preservar a saúde mental dos poucos leitores que se dignaram a chegar até aqui, não reproduzirei neste blog.

Com a chegada da adolescência coincidindo com a chegada em uma cidade maior, comecei a ouvir outras coisas, a maioria um punk pop rock dos anos 90, como Green Day, Offspring, Bad Religion, Pennywise entre outros, e abandonei os Engenheiros por bons anos. Até ouvir novamente, já perto dos vinte, e ver que ainda eram bons pa carai.

Hoje não sei. A fase áurea - quem gosta sabe - foi com a formação clássica, que durou até 93. Mas acho discos como Simples de Coração de 95 e o primeiro Acústico MTV geniais. Porém uma sequencia grande de discos ao vivo como ali, que foram 3 ou 4, ficou meio chato. Agora, com o Pouca Vogal, mudou tudo. Mas mesmo nos piores discos, como Minuano e Dançando no Campo Minado, alguma pérolas sempre encontramos.

E apesar de ter um livro borrado e com a capa rabiscada, o que mais importa é a música. Ei-la:



E tenho dito.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Coelho misterioso



- Mamãe, quem deixou isso aqui?
- Foi um coelho, filha.
- Hum...coelho? Mas qual? O coelhinho noel? Coelhinho fantasma?
- Não, filha, foi o coelho da páscoa!
- Ah, sim, já lembrei, aquele dos ovos de ouro...
__________________________________

Texto escrito pela irmãzinha de 9 anos de Zaratustra , mais conhecida como Gremistinha.

sábado, 9 de abril de 2011

Delírio


Era a vida a fugir
com as pernas
do delírio.

Era o caos.
Do cão,
o frio.
E a morte
à espreita.

- Mas do quê se foge?

Sei que quis.
Mas o rio deságua
na foz
da amargura.

- Mas do quê se foge?

A distância matou-me
com direito a replay
a replay

Mas era a
vida a fugir com
as pernas
do delírio.

Rei do mundo,
Rei do azul,
cri na vida e
caí na poça sem fundo
dentro do poço do calabouço
do engano-mundo.

- Mas do quê se foge?

Tentei.
Mas tentar exige estímulos
que são gerados por uma
força.


Mas se a força não
existe,
o que se cria
é o nulo:
uma ilusão de vida
besta.

Besta!

- Mas do quê se foge?

A ilusão, porém,
persiste.
Apesar de nula
eterna é a força,
e cíclica é,
e é eterna.

E o círculo não morre
jamais.

Mas a vida
fugiu
com as pernas do
delírio.

terça-feira, 5 de abril de 2011

os prazeres dos danados

Henry Charles Bukowski
os prazeres dos danados
limitam-se a breves momentos
de felicidade:
como o olhar de um cachorro e seus olhos,
como a cera de uma vela,
como o fogo consumindo a prefeitura,
o condado,
o continente,
como fogo consumindo o cabelo
de donzelas e dragões;
e gaviões rasando as pereiras,
o mar correndo entre suas garras,
O Tempo
ébrio e abatido,
tudo queimando,
tudo úmido,
tudo bem.

_____________________________
Poema retirado do livro The pleasures of the damned, tradução minha

quinta-feira, 31 de março de 2011

Rapidinha

Só pra dizer que Bertrand Russell é o cara.

terça-feira, 22 de março de 2011

O abacateiro eterno e outras histórias


Vendo as estatísticas deste blog do último ano, descobri várias coisas interessantes: 2.766 pessoas diversas visitaram meu blog, atingindo a média de 7,58 pessoas por dia. Cada uma ficou, em média, 2 minutos e meio neste humilde espaço. Nada mal. Destes visitantes, a grande maioria é do Brasil (2.016 pessoas), seguido pela Itália (517), Portugal (134), Alemanha (16) e Estados Unidos (12). Mas também tive visitas de lugares inóspitos como Marrocos, Arábia Saudita e República Tcheca (uma cada). 

Dos meus posts, o mais lido foi escrito anos atrás: trata-se do Exame psiquiátrico pré-admissional (publicado aqui em 2007, mas escrito em 2003 pro meu falecido primeiro blog) e é fácil deduzir que o povo chegou aqui porque, provavelmente, também passaria por tal tormento. Em segundo lugar, esse confesso que não faço a menor idéia do porquê, está o post O meu abacateiro, no qual falo do Aleph. Do original, de Jorge Luis Borges, não do plágio de Paulo Coelho. O terceiro lugar foi para uma paródia meio sem-graça da lenda do Minotauro, que chama-se O corno de Creta. Com execeção do primeiro, os outros dois originaram-se da leitura de livros do Borges. Uma estranha coincidência, porque justamente agora estou com outro em mãos.

Borges
Lendo o livro História da Eternidade do mesmo Borges, deparei-me com temas que, ao menos para mim, são interessantes: a própria Eternidade do título; a hipótese do Eterno-retorno, que ficou famosa com Nietzsche (saúde!); a existência de universos paralelos, entre outras maluquices.

Graças a isso e a várias citações e indicações de leituras feitas pelo próprio Borges, desemboquei em outros escritores e filósofos que eu pouco conhecia, em áreas que eu jamais teria imaginado: física, química, matemática aplicada à filosofia, metafísica, entre outras piras.

Um desses é o filósofo inglês Bertrand Russell. Aliás, talvez seja um modo de remediar minha aversão inconsciente ao mundo anglófono. Pois bem, decidi começar me embrenhando na obra de Russell, e tive uma agradável surpresa. Ainda estou longe de chegar na parte em que ele fala de filosofia matemática, que é o que interessa falando de eternidade, mas lendo pequenos excertos que encontrei na internet já me iluminaram.

Russell
 Graças a isso, baixei na internet vários livros em PDF (pra alguma coisa a internet serve), inclusive sua autobiografia.  Apenas comecei, mas é um texto muito bom de se ler. Por causa de sua ligação com a matemática, Russell explica em um texto que remexe as frases que escreve de todos os modos até que consiga dizer o que quer da forma mais clara e mais simples possível. E acaba tornando a filosofia palatável. Por essas e outras o rapaz ganhou o Nobel de Literatura em 1950.

Sua obra fala, principalmente, de lógica, religião, política e moral. Conheceu e foi amigo de grandes intelectuais nos quase cem anos em que viveu (1872-1970), de Einstein a Sartre, pra citar só dois.

Russell parece interessante. Mas é somente um pequeno passo rumo à eternidade. Se eu conseguir manter meu entusiasmo, vou ler também Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, o físico Arthur Stanley Eddington (tradutor da obra de Einstein para o inglês e grande propagador da Teoria da Relatividade), provavelmente quase toda a obra de Borges e de seu companheiro Adolfo Bioy Casares, além de ter de ler e reler várias coisas do Nietzsche (saúde!), e o que mais eu achar no caminho. Tudo isso para, no final, poder pôr em prática a minha Teoria da Eternidade, que se encontra em fase de incubação.

Entre as minhas peregrinações por vários sites da internet, descobri que um dos símbolos usados para representar a eternidade (e não só ela) é o Ouroboros, uma cobra ou um dragão que devora o próprio rabo.



E de repente tudo começa a fazer sentido. A capa do vinil dos Engenheiros do Hawaii, onde a cobra come o próprio rabo. E o conto sobre o abacateiro, citado lá em cima, onde minha cadela, monstra doida canina, corria atrás do próprio rabo. Eram sinais. Sinais de que estou no caminho certo.

Mas a verdade é outra. E diversa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Sobre dores e joelhos

o ventilador
gira
a dor
dói
no joelho
dói
na perna

enquanto o
ventilador
gira
a dor dói
na cabeça.

e ainda assim, o
ventilador gira
e dói
saber
a verdade

dói
como se eu estivesse
eternamente em férias
e sem dinheiro

dói
como ter a consciência
de saber
mas não
poder

dói
como estar ali
esperando aquele telefonema
com aquela proposta
para aquilo que você criou durante
anos

finalmente
comprarão o meu produto
ficarei rico

e o computador
pifa.

doer é muito amplo.

o joelho dói
algo não funciona,
algo não está certo.

o joelho dói
como dói o peito
num adeus
mal-feito.

o joelho dói.

mas a dor
faz parte
da melhora.

domingo, 13 de março de 2011

Mochilão na Europa PARTE VIII - Interlúdio

De Copenhague a Berlim em 2 dias (passando por Colônia e Maastricht)

Segundo o Houaiss, o substantivo masculino interlúdio possui vários significados, entre eles:  mús composição instrumental com a função de separar partes musicais, litúrgicas ou cênicas; intervalo entre duas cenas; entreato ('representação entre dois atos'); lapso de tempo que interrompe provisoriamente alguma coisa. Pensando nisso - não somente nisso, pois eu ainda pensava muito na balada de ontem e, além disso, em como elaborar um texto sobre a Eternidade, confrontando minha teoria com as de Borges, Nietzsche e Santo Agostinho - enfim, digamos que eu estivesse pensando somente nisso, no interlúdio, resolvi resumir dois dias da viagem em um só post, como se separasse a minha viagem em Antes de Maastricht e Depois de Maastricht (doravante AM e DM). Pois nessa viagem, Maastricht foi o divisor de águas. Antes, a primeira etapa, o deslumbre, a inquietação, o êxtase do novo. Depois, a segunda etapa, o deslumbre, a inquietação, o êxtase do novo. De novo. Mas porque criar este hipotético marco divisório em Maastricht e não em Colônia? Isso, meus caros fantasmas, deixo para vocês especularem uma resposta.

Mas, como eu ia dizendo no último post:

Bairro de Christianshavn


Saí do museu Carlsberg e fui diretamente dormir. Acordei pelas 19h e, bem acompanhado por uma cicerone loira dinamarquesa, fui para o famoso reduto hippie alternativo de Copenhague, o famigerado Christiania. Nunca ouviu falar? Mesmo? Nem eu, pelo menos até aquele dia. Localizado dentro do bairro de Christianshavn, é um local que foi invadido umas décadas atrás e agora se auto-proclama uma comunidade alternativa independente. Quando entrei lá, Raul Seixas me disse: "viva a sociedade alternativa". Apesar de ser uma atração turística, as fotografias são proibidas, então mesmo eu perdendo minha máquina fotográfica, essas fotos eu não perdi, pelo simples fato de que não as fiz.

A loira hippie
Após tomar umas loiras geladas fabricadas ali mesmo pelas loiras hippies, dei mais uma volta com minha loira e fui pra casa. No dia seguinte, sob uma garoa chata e insistente, visitei alguns belos locais, subi em uma torre circular e tive uma bela visão da cidade inteira que registrei em fotos, mas que de nada adiantou. Depois disso, dirigi-me para a minha grande amiga estação ferroviária, onde enrolei bastante até decidir onde ir. Poderia ficar ali mais um dia, mas com essa chuva interminável não representava uma boa opção. Analisando as opções de trens noturnos, preços, próximas paradas (Berlim e Praga, as únicas certezas que eu tinha), além de outros fatores que foram decisivos, fiquei dividido entre ir para Hamburgo ou Köln (Colônia em português). Como tinha amigos na segunda cidade, uni o útil ao agradável, e lá me fui. Já havia estado ali pouco antes de visitar a Oktoberfest de Munique em 2009 e, após este mochilão, retornei uma vez mais. É uma bela e agradável cidade. Peguei o trem noturno e me mandei.

Foto da primeira vez que estive em Colônia, AM, com o rio Reno ao fundo

Cheguei de manhã cedo e dei uma volta pela cidade com minha anfitriã, Aninha Schönefrau. Dormimos cedo e, na manhã seguinte, como eu já conhecia bem a cidade, decidimos ir até Maastricht, na Holanda, que ficava a 2h de Colônia. A única coisa que eu sabia sobre o local era que ali tinha sido assinado o Tratado de Maastricht, que eu nem me lembrava o que era. Só hoje, escrevendo minhas memórias sobre esta viagem louca, consultei a wikipédia que me disse que tal tratado foi o criador da União Européia. Muito bem, sussurrei, e continuei a escrever.

Maastricht


Bonita, pequena e cara cidade. Vê-se visivelmente que se trata de um local que explora o turismo de alta renda, pois até um sanduichinho meia-boca custa quase 10 euros. Mas as igrejas, torres, os muros e o rio Maas compensam, o visual é decididamente interessante e, podendo ser feito em uma tarde, vale a pena. Subi novamente em outra torre, de onde pude admirar uma bela visão da cidade inteira que registrei em fotos, mas que de nada adiantou. O legal é que quando estávamos lá em cima, começaram a tocar os sinos das várias torres das cidades, o que imagino seja uma das grandes atrações turísticas da cidade.



Em seguida fui a uma loja de antiguidades que parecia interessante, com muito mapas antigos expostos. Como grande ex-futuro-geógrafo, gosto dessa coisas de mapas, e ali perguntei o preço. Algo em torno de 5 mil euros. Uma mixaria, que resolvi deixar para outro dia, pois ia gastar essa quantia com o combustível no meu helicóptero.

Maastricht em 1652


Depois de caminhar bastante pela cidade, voltamos para Colônia, pois dali eu não só pegaria o trem para Berlim, como realmente o peguei. No trem - muito confortável se comparado com os trens italianos, mas bem sem-vergonha se a comparação for com os trens suecos ou dinamarqueses (ah, as suecas e as dinamarquesas...) - puxei papo com um cara que só reclamava da Alemanha, e dizia como era uma merda os trens. Chorava o cidadão e, ainda por cima, queria me converter para a religião dele, que eu nunca tinha ouvido falar e cujo nome não me lembro agora. Só sei que eles não podiam beber álcool, e isso foi determinante. Aliás, me perguntei como na Alemanha, considerada por muitos a terra da cerveja (do inglês antigo Ale=cerveja e do Grego pré-socrático manha=terra); como ali, no país que criou a Oktoberfest, que se orgulha de usar bermuda com suspensórios e um chapéu com uma pena do lado pra beber cerveja - como, mein Gott! - como permitiram, neste país, que existisse uma religião que proíbe a cerveja? Até que, enfim, o trem foi esvaziando e, com a desculpa de dormir um pouco, sentei em outra poltrona e escapei das lamentações do Fritz.

Acordei pouco antes de Berlim, pouco antes da meia-noite. Cansado. Com fome. Com um endereço na mão. Endereço este que eu não fazia a menor idéia de como chegar. Sabia - e somente isso sabia - que era o local onde me hospedariam na capital alemã. Chegar lá foi difícil. Muito difícil.

DM


Mas cheguei. Conversei um pouco com minha anfitriã, desta vez uma jornalista alemã que trabalhava no jornal Der Tagesspiegel. Ela me hospedaria em sua casa por três noites. E não só o faria, como realmente o fez. O bairro de Neukölln é relativamente perto do centro. Mas relativamente perto, para Berlim, é longe bagarai.

Como vocês verão no próximo post...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Caim

Todos sabemos que Caim matou Abel. Até quem nunca leu a Bíblia o sabe. Até ateus, como o recém-falecido José Saramago o sabiam. Tanto ele sabia que escreveu um livro justamente chamado Caim. Terminei de ler este livro hoje, que peguei emprestado do meu camarada Guilherme.

É um livro divertido e inteligente, como são os livros saramaguianos (ainda não sei se já criaram o adjetivo derivado do prêmio nobel português, creio que sim, senão faço eu agora). A linguagem é irônica e mordaz. Mas alguma coisa ali não me convenceu. Obviamente, sabendo que Saramago era ateu convicto, as trocas de acusações entre Caim e Deus parecem cair no vazio. Um tipo de proselitismo religioso ao contrário. Saramago usou o livro como propaganda ateísta, um modo de convencer os indecisos de que a religião "não faish o mnor sentido", como já diria o capitão bacalhau.

Apesar do prêmio nobel usar toda sua astúcia, construindo como sempre uma história admirável do ponto de vista estilístico - no que se refere a diálogos, enredos, reviravoltas -, o idealismo do autor está escancarado, e a essência do texto, a crítica à religião, acaba sendo infantil se analisada à distância. Infantil porque julgar a religião por meio das histórias repletas de metáforas e sentidos figurados do velho testamento, e condenar essa religião a partir disto, é muito superficial, chega a ser indigno à estatura literária do Zé.

Não que eu esteja também defendendo a religião, longe disso. Apesar de não ser ateu, não creio em religiões (existe um nome pra isso?), mas as respeito. Criticar uma religião, seja ela qual for, é uma coisa muito complexa. Ainda mais se pensarmos que nascemos já inseridos em uma cultura cristã, e não sabemos nem nunca saberemos o que é viver fora disso, por mais que estudemos outras culturas. É como a língua-materna de uma pessoa. Mesmo se eu fosse PHD em, digamos Javanês, e falasse, escrevesse e pensasse perfeitamente nesta língua, a minha língua-materna é o português, e tudo que analiso linguisticamente é, foi ou será comparado com a minha língua, pois é o meu padrão, pois a minha língua sou eu. Da mesma forma, a minha religião-materna ou cultura-materna - chamá-la-ei assim - é o cristianismo, pois nasci e cresci inserido nesse contexto. E mesmo se eu for convertido ao xintoísmo japonês, tudo o que eu aprender será, mesmo que inconscientemente, um eterno confronto (não no sentido de luta, mas de comparação) entre a nova religião e a antiga.

É possível que eu venha a morder a língua, uma vez que outra obra sua com temas religiosos - O evangelho segundo Jesus Cristo, de 1991 - eu ainda não li. Saltando a ordem cronólogica, vim parar em Caim, de 2009. Talvez uma sirva para entender a outra. Mas, isoladamente, é esta a minha impressão.

Em tempo: Saramago é um dos meus escritores favoritos. Gostei muito dos romances O homem duplicado, Ensaio sobre a cegueira, As intermitências da morte, A jangada de pedra, entre outros, e achei extraordinário o livro de contos Objecto Quase. O primeiro livro marrom meno do Zézinho que li foi Ensaio sobre a lucidez, que me pareceu um pouco óbvio e sem aquele ritmo frenético característico. Mas Caim não é mal escrito, longe disso (aliás, as cenas iniciais de Adão e Eva no paraíso são hilárias, e o Deus contraditório de Saramago é um cômico nato), e o recomendo como uma bela leitura de entretenimento e reflexão. Só o contexto por detrás da bagaça que me incomodou um pouco.


Talvez eu esteja ficando velho. E chato.

Bora pro carnaval!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O exército de um homem só

Faleceu ontem o grande escritor Moacyr Scliar. Posso afirmar que sou um grande leitor seu, graças a meus 1,87 m de altura, mas infelizmente, referindo-me à estatura da sua obra e não à minha, não cheguei a ler 10% de seus livros.

Com mais de 80 publicados, bastariam 8 para atingir essa meta. Eu devo ter lido uns 5 ou 6. Aos poucos devo remediar isso. Ontem mesmo, li um que estava na minha pequena biblioteca há anos - muitos anos. Mês de cães danados, chama-se. Assim como O exército de um homem só, também de Scliar, foram dois dos muitos livros que li graças a referências na obra musical dos Engenheiros do Hawaii. Mês de cães danados fala sobre as aventuras de um filho bastardo de um fazendeiro, nos tempos da renúncia de Jânio Quadros.

Scliar tinha o dom da escrita. Sabia escrever histórias inteligentes, críticas e divertidas ao mesmo tempo. Mas dos três livros que possuo, o meu preferido é, certamente, A mulher que escreveu a Bíblia. Um dos seus livros mais aclamados ainda não tive a oportunidade de ler: O centauro no jardim rendeu vários prêmios nacionais e internacionais ao escritor, e foi parar na lista dos 100 melhores livros do mundo inteiro de todos os tempos sobre a temática judaica.

Não conheci Scliar pessoalmente, nem nunca troquei emails com ele, como o fez meu primo Eduardo, portanto nada posso falar de sua pessoa. Mas o que todos relatam é um homem generoso e simples. Assim como seus livros.

Scliar é imortal de verdade. Mas nessas horas me pergunto: porque não o Sarney?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mochilão na Europa PARTE VII - O lado escuro de Copenhague

Meus caros fantasmas já se foram todos embora. Sobrou-me eu. Só, tento relembrar-me de dias já passados, longínquos, que nem ao menos sei se realmente aconteceram, ou se tudo isso foi mais um sonho. Mais um, entre tantos, entre muitos. Entrementes, sigo o relato, devidamente esquartejado em infinitas partes. Se tudo sair como planejado, antes de completar um ano da minha viagem, isto é, em agosto de 2011, este relato estará completo.

Mas, como eu ia dizendo no último post...





Foi aí que descobri o lado escuro da cidade. O lado escuro, do escuro do mundo. Na rua, mal iluminada, viam-se sombras. Depois dos primeiros passos já pensei que seria assaltado. Mas lembrei-me que estava na Europa e, mais ainda, na Escandinávia. A lascívia amalgamada à ignávia me fizeram sentir na Bolívia, perdido nas florestas.

A Halmtorvet, ao contrário da Vesterbrogade, não era tão frequentada à noite. Ou melhor, era, mas não tão bem. Nas esquinas grupos de pessoas em frente a portas semi-abertas. Nas outras esquinas, mulheres decadentes se ofereciam a clientes idem. Escondidos, os gigolôs observavam. Pocilgas ofereciam strip-teases.

Chega-se ali com a ilusão da perfeição nórdica, que até certo ponto é verdade, mas o ser é humano, e a decadência é inevitável. Decadence avec elegance. Apesar disso, estava muito mais tranquilo do que estaria em uma rua deserta no Brasil. Ali, parece, não mexem com quem tá quieto. Segui meu caminho em frente. Lembrei-me da minha viagem a Barcelona, dois anos antes, onde aconteceram cenas semelhantes.

Quando dei por mim, estava no albergue, dormi profundamente. Acordei tarde, uma chuva interminável o que trouxe um leve frio. A temperatura que peguei na Suécia era em torno de 30 graus, e seria o mesmo na Dinamarca, não fosse pela precipitação. Por causa disso, me vi ao redor dos 15, sem ter trazido muita roupa. Pensei, merda, o que vou fazer num dia de chuva?

Elementar, meu caro fantasma! Aproveite e vá para um museu, e finja ser uma pessoa culta. Boa ideia! (Já estou me acostumando à nova ortografia...escrever sem acento é muito fácil, deveríamos abolí-los todos.)

Fui, então, ao museu. O Museu da Cerveja Carlsberg, a quarta maior cervejaria do mundo. Chegar lá foi difícil. Precisei pegar dois trens e ainda caminhar um bom tempo debaixo do meu guarda-chuva meia boca. Pra piorar, o mapa não dizia exatamente onde era a entrada do museu, e a fábrica da Carlsberg ocupa um espaço imenso. Acho que entrei pela parte dos funcionários. Pelo menos foi isso que consegui identificar com meu dinamarquês cambaleante. Quando finalmente achei a entrada, minhas calças estavam molhadas até os joelhos. Mas como dizem os italianos "Non ti mettere a giocare se non vuoi pericolare". Entrei.



Aí voltamos ao Preâmbulo das minhas aventuras. Depois das cervejas belgas, chegou a vez do Museu da Cerveja. Eu nunca havia experimentado a Carlsberg. Mas até eu provar perdi um bom tempo. Os prédios do local são bonitos, e detalhes peculiares como o Elephant Gate merecem uma paradinha.


Entrando no museu, vê-se a maior coleção de cervejas fechadas do mundo inteiro. São milhares de exemplares expostos aos visitantes, que boquiabertos pensam ao mesmo tempo "que bonito" e "que desperdício". Em seguida, um belo passeio contando a história da cerveja, provavelmente uma das primeira bebidas alcoólicas criadas pelo homem. (Sabe-se que o povo sumério, que viveu 3 mil anos a.C adorava a deusa da cerveja Nin-Kasi). Depois, veio a história da própria cervejaria. Fundada em 1847 por J.C. Carlsberg, vídeos contavam todo o processo de produção da cerveja, a seleção dos grãos, as temperaturas ideais, os ingredientes, as fases de mistura, armazenamento, engarrafamento e distribuição e foi a partir daí, somando-se à minha experiência belga, que tive cada vez mais convicção de que a cerveja é uma arte, uma obra-prima. E só poucos conseguem apreciá-la devidamente. Devemos bebê-la com todo respeito e admiração que ela merece.


No final do museu tive a oportunidade de saborear 3 das várias cervejas produzidas pela Carlsberg, todas muito boas. Saí satisfeito e dizendo em voz alta "In vino veritas" para as pessoas com quem cruzei na rua. A chuva tinha passado, eu estava feliz, mas não percebi que a citação em latim nada tinha a ver com a cerveja.

Continua no próximo post.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Duas do Buk - Traduções minhas


poesia

precisa-
se
de muito

desespero

dissabor

e
desilusão

para
escrever

só
alguns
poucos
poemas.

não é
pra
qualquer um

tanto

escrevê-
los

quanto

lê-
los.



o ovo

ele tem 17.
mãe, ele disse, como se quebra um
ovo?

tudo bem, ela me disse, você não precisa se
sentar olhando desse jeito.

ô, mãe, ele disse, você quebrou a gema.
eu não posso comer a gema quebrada.

tudo bem, ela me disse, você é durão,
já trabalhou em matadouros, indústrias,
na prisão, você é tão fudidamente durão,
mas todas as pessoas não precisam ser como você,
isso não faz com que todos estejam errados e você
certo.

mãe, ele disse, você compra umas cocas
quando estiver voltando do trabalho?

olha, Raleigh, ela disse, você não pode trazer as cocas
na bicicleta, eu estou cansada depois do
trabalho.

mas, mãe, tem uma subida.

que subida, Raleigh?

tem uma subida,
eu tenho que pedalar
ali.

tudo bem, ela me disse, você acha que é
fudidamente durão. você trabalhou nas linhas de
trem, eu ouço isso toda a vez que você fica bêbado:
"eu trabalhei nas linhas de trem."

bom, eu disse, eu trabalhei.

quer dizer, que diferença isso faz?
todo mundo tem que trabalhar em algum lugar.

mãe, disse o menino, você vai trazer as
cocas?

eu gosto muito do menino. acho ele bem
cortês. e assim que ele aprender a quebrar um
ovo poderá fazer algumas
coisas estranhas. no meio tempo
eu durmo com a mãe dele
e tento evitar
discussões.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ver

Ver como um ser 
desamparado de véus
e ter a morte como companheira
de jornada

é meu sim que me mente por inteiro
contra a vergonha
insuportável.

Era eu aquele livro


Entre a certeza e a indecisão
ah, indecisão!
No final do dia,
dos dias
do fogo, o fogo
ainda.
Era eu aquele livro. Era
eu!

Mas ninguém me acreditou,
e fui virado
como uma página.

De um livro,
nem um índice, nem um prólogo.
De um livro
nem ao menos
o prefácio.
De um livro,
longe da introdução, de um
capítulo.
A milhas da conclusão.

De um livro,
no máximo um epílogo.

Da vida,
um epitáfio.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O espertinho

Três puffles estavam na montanha fazendo uma competição para ver quem era o mais rápido para pegar o bife. O primeiro foi Escovinha que lançou seu bife, correu montanha abaixo e puft! Não conseguiu.

O segundo foi Cabeludo, lançou seu bife, correu montanha abaixo e puft, caiu no meio do caminho.

Lá se foi o terceiro puffle, Espertinho jogou seu bife correu montanha abaixo, foi até o plaza comer uma pizza, dançou no dance club, tirou uma soneca e foi pegar o bife.

- Nossa Espertinho, como você fez isso?

- Ah, é fácil, o bife tem "controle remoto".

___________________________________

Texto escrito pela irmãzinha de 9 anos de Zaratustra , mais conhecida como Gremistinha.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Mochilão na Europa PARTE VI - Copenhague

Continuando o último post:

Posso dizer que finalmente estava começando a minha viagem, já que foi o primeiro trem que peguei. Não sei porque, mas todas as vezes em que andei de trem na Europa lembrava-me do famoso livro de Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente, onde o grande detetive Hercule Poirot (pronuncia-se Poarrô) desvenda um crime indesvendável. Mas felizmente, que eu saiba, ninguém morreu nos trens em que viajei. Que eu saiba.

De qualquer maneira, eu dizia que peguei o trem noturno de Estocolmo, terra das loiras, para Copenhague, terra das loiras. As outras. Existem vários tipos de loiras, quer dizer, de trens noturnos, sendo o mais legal aquele com cabines e seis beliches, três de cada lado. Se minha memória não falha, dormi na de baixo do lado direito.

A viagem nem vi passar. Quando dei por mim estavam anunciando Copenhagen, peguei minha mochila e saí, perdido como sempre. Eu deveria ter descansado, mas o fim de semana tinha me destruído de tal forma que me senti como se estivesse 24h sem dormir. Eram umas 6h30 e eu tinha fome.

Eu tinha fome, mas não tinha dinheiro. Aliás, eu tinha, mas euros e a coroa sueca. Ali a moeda era outra. Pra poder ter uns trocados da coroa dinamarquesa em mãos, tive que esperar até umas 7h30, quando então a barraquinha do câmbio abriu. Feliz, comi um sanduíche. Uma das sensações mais claras e marcantes de um ser humano, que ele certamente se lembrará pelo resto da vida, é quando enche a boca quando está com fome. É uma sensação indescritível, não sei porque ainda teimo em tentar descrevê-la.

Com um mapa em mãos, fui ao ponto de informações turísticas que também estava fechado. Tive que esperar até umas 9h pra poder perguntar onde tinha um albergue pra poder dormir um pouco, decentemente. Uma das sensações mais claras e marcantes de um ser humano, que ele certamente se lembrará pelo resto da vida, é quando ele consegue uma informação depois de horas esperando por ela. É uma sensação indescritível, não sei porque ainda teimo em descrevê-la.

Com a informação no mapa e o mapa em mãos, segui o caminho dos albergues, do mais perto ao mais longe. Com sorte o primeiro tinha vagas. Eram umas 10h quando fiz o check-in, mas os quartos só estariam livres a partir da uma. Encostei minha bagagem em um canto, mas eu sou um cara que não sabe esperar sentado, e ao invés de ficar por ali, saí pra dar uma caminhada e conhecer os arredores. Segui pela Absalonsgade, cruzei a Sønder Boulevard, peguei a Skelbaekgade e fui reto até chegar na beira do canal Sydhavnen, onde tinha um shopping. Pensei em ir ao cinema e passar o tempo assistindo aos Mercenários do Stallone, aí lembrei-me que na Europa eles dublam todos os filmes, e meu nível de dinamarquês não estava tão bom ainda.

Só sei que caminhei pacas, tirei várias fotos (que dor no coração), e enfim voltei para o albergue, onde minha cama me esperava. Uma das sensações mais claras e marcantes de um ser humano, que ele certamente se lembrará pelo resto da vida, é quando acha uma cama depois de horas sem dormir direito. É uma sensação indescritível, não sei porque ainda teimo em descrevê-la.

Com o travesseiro em mãos, dormi até umas 17h, quando resolvi caminhar. Copenhague é uma bela cidade, devo reconhecer. Uma pena que por motivos de cansaço, minha memória não se lembre muito. Uma pena que estava nublado no primeiro dia, e choveu durante todo o segundo.

Do albergue, caminhei pela Vesterbrogade, que é tipo uma avenida principal. Passei na frente do Tivoli Garden (um dos parques de diversões mais antigos do mundo), de uma estátua do escritor e poeta dinamarquês Hans Christian Andersen, pela bela praça Rådhuspladsen, enveredei pela Stroget, fiz mais um monte de voltas que não me lembro mais até chegar ao Kastellet, um belo parque onde repousa a estátua da Pequena Sereia, criação de Andersen. A Pequena Sereia, não a estátua. Os canais/rios de Copenhague dão um ar elegante à cidade. O nome em dinamarquês "København" significa Porto dos Mercadores, onde Havn está para porto, e qualquer canalzinho sem vergonha tem um Havn no final do nome. O que quer dizer que perdi o fio da meada.

Quando começou a querer escurecer, decidi voltar e passei na minha já conhecida e velha amiga estação ferroviária pra surfar na internet e comer um baguio. Na saída, já pelas 21h ou 22h da noite, ao invés de ir pelo caminho natural da Vesterbrogade, atalhei pela Halmtorvet, pois o mapa me dizia que era mais perto. E foi aí que descobri o lado escuro da cidade.

Que contarei no próximo post.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Concurso de microcontos

Saiu há alguns dias a classificação do Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro, onde meu microconto ficou em segundo lugar. Reproduzo a minha cria abaixo:



Ernesto e os sábados

Todos os sábados à tarde, Ernesto tinha o costume de sentar-se na rede e ler seus livros preferidos. Contudo, naquela tarde havia encontrado um livro que não recordava ter comprado. Fitou-o e o escolheu como a leitura do dia. Era a história de um homem que, todos os sábados à tarde, tinha o costume de sentar-se na rede e ler seus livros preferidos. Seu nome era Ernesto.

Leu o primeiro parágrafo e ficou paralisado. Todos os livros lidos em sua vida – e sua própria vida – passaram em dois minutos em frente a seus olhos. Os sentimentos eram vários, mas em pouco tempo Ernesto sentiu a felicidade de uma sensacional descoberta e ao mesmo tempo a tristeza decepcionante das derrotas. Havia revelado o sentido de sua vida, a origem de todos ao seu redor. E também o desalento de descobrir-se um mero personagem literário.

E o pior, tinham chegado ao final do livro.